Notas iniciais
Antares parte em sua primeira missão, mas Pegasus não parece muito seguro quanto à sua competência. Por que Athena parece depositar tanta confiança assim nessa jovem, cujo passado e a personalidade quase ninguém conhece?

Antares partiu do Santuário ainda naquela tarde, a pé, embora tivessem lhe oferecido um cavalo ou sugerido que corresse até lá. Pelas suas contas, chegaria à Acrópole de Atenas no começo da noite. Apenas um odre de couro de ovelha, cheio de água, e algumas frutas eram as posses que carregava naquele momento. Aproveitaria aquele tempo para se informar dos detalhes de sua missão e daria início ao trabalho.

O mundo fora dos muros (01) sempre parecia uma novidade. A trilha que separava o quartel general de Athena da cidade era um grande campo aberto com uma tímida vegetação e poucas árvores, mas era o bastante para amenizar o clima daquela área rochosa. Usava a Armadura de Escorpião ajustada às suas formas femininas, porém era a máscara que a denunciava. Branca, com um leve tom róseo e manchas vermelhas, que vinham das laterais superiores, descendo ao redor dos olhos e acompanhando a forma de seu rosto até quase se encontrarem próximas ao queixo.

A própria escorpiana havia pintado a peça daquele modo, uma ideia adotada por algumas Amazonas antes dela. Tinha o intuito de permitir uma melhor e mais precisa identificação, principalmente daquelas que precisassem de repouso absoluto na Fonte de Athena. Entre elas, havia até mesmo um pequeno registro dos desenhos das máscaras, junto com os nomes de quem as vestias. Não chegava a ocupar um rolo inteiro de pergaminho, entretanto tinha se mostrado algo que as ajudava bastante.

Ela chegou ao perímetro da Cidade-Estado, rumando por determinadas ruas, olhando tudo ao seu redor. Homens caminhavam, carregando grandes vasos que provavelmente estavam cheios de azeite. Mulheres andavam acompanhadas de seus maridos, filhos ou escravos, com as cabeças cobertas por véus. Algumas poucas crianças brincavam entre si de atirar pequenas azeitonas umas nas outras.

Alguns mercadores passavam próximos, oferecendo seus produtos, em geral lã crua para ser fiada, tinturas, trigo ou mesmo azeite. Aceitavam moedas (02) ou outros utensílios como pagamento.

Uma mulher, ao ver a guerreira, ofereceu-lhe um pouco da água que trazia para encher o odre que já estava quase seco. A jovem escorpiana agradeceu àquela gentileza, embora já tivessem lhe dito que não era exatamente aquilo. Era um antigo acordo entre o Santuário e as vilas e cidades ao seu redor. Elas proveriam ao Exército de Athena, e eles as protegeriam em rondas constantes.

Por conta disso, as fazendas da região e os caçadores faziam muito além do necessário para o auto sustento (03). Todo o excedente era encaminhado ao Santuário, que alocava os homens de acordo com os tributos. Assim sendo, não era algo tão incomum haver um Cavaleiro de Armadura a fazer rondas por aquelas ruas. Mas uma jovem mulher era algo completamente fora da rotina.

Todos a olhavam com curiosidade, assombro e uma contraditória mistura de admiração e reprovação. Sussurravam entre si, alheios de que ela podia ouvir alguns deles. Mostravam-se animados por verem um guerreiro por aquelas ruas, mas condenavam o fato desse guerreiro ser uma mulher.

Antares não havia entrado em Atenas desde que havia se sagrado uma Amazona. Nunca fora incluída nas escalas, pois ainda não estava completamente familiarizada com suas funções, embora aquilo não a incomodasse exatamente. Preferia, de todo o coração, passar dias e dias treinando às jovens aspirantes ou em exercícios solitários, a ter que fazer buscas minuciosas naquelas ruas. E esse pensamento se consolidava ainda mais na medida em que reconhecia alguns pontos, mesmo após aqueles cinco anos afastada daquele lugar.

Quase podia ouvir seu mestre dizer que precisava superar aquilo, contudo um nó no estômago sempre a fazia hesitar. Tentaria, um dia. Mas não naquele.

Ao chegar à Acrópole, a garota respirou profundamente, um pouco mais aliviada. Havia passado os últimos cinco anos vivendo em meio a templos majestosos, e ainda assim percebeu não estar preparada para aquela visão tão imponente da cidade abaixo daquela área. Pessoas ainda passeavam nas ruas, como pequenas formigas, indo para o conforto de suas casas e para os braços de suas famílias.

A jovem sacudiu a cabeça, de fartos cabelos curtos e arrepiados, buscando afastar aquele pensamento. Não precisava daquelas lembranças naquele instante. Era a sua primeira missão e precisava ser eficiente.

“Não posso decepciona-lo!”, pensou, imaginando seu mestre orgulhosos ao saber de seu primeiro sucesso.

Uma vez diante dos muros o Templo, a jovem prestou a devida reverência à sua deusa e entrou. Os pilares brancos eram altos e robustos, com frisos bem talhados. Escadarias sólidas antecediam a terraços alvos, onde piras queimavam ante aos primeiros sinais do crepúsculo. O odor de mirra atingiu forte as suas narinas, apesar da proteção da máscara.

Por onde passava, atraia mais olhares surpresos e admirados. Era uma figura inédita ali. Por vestir uma Armadura de Ouro, e por ser uma mulher. Amazonas em si eram muito raras e, pelo que notara, as notícias sobre sua sagração ainda não haviam saído do Santuário.

Sacerdotes caminhavam, solitários ou em grupos, entoando preces ou apenas conversando entre si. Em um canto, uma mulher mais velha encerrava o turno de um pequeno grupo de quatro meninas de idades variadas, que se preparavam para o ofício sagrado.

Caminhou por entre os prédios, ignorando os cochichos, ainda que visivelmente se referissem a ela e chegou ao Templo Sagrado de Athena. Uma mistura de medo e ansiedade queimavam em seu peito e em seu estômago. Tentou afastar aquilo respirando fundo, dando o primeiro passo à frente.

O som de seus passos ecoava no chão de pedra. As devotas da Deusa da Sabedoria mantinham-se cumprindo suas tarefas, mas não se furtaram de olhar para aquela curiosa figura. Ao final daquele salão, aos pés da estátua de Athena, estava a Sumo Sacerdotisa Berenike.

Era uma mulher por volta de seus quarenta anos, de olhos lilases e cabelos platinados, presos em um coque severo. O rosto era levemente quadrado, com um nariz pronunciado e boca pequena, de ar sisudo e imponente. Sobre as madeixas, um véu claro se derramava e acomodava-se sobre os ombros firmes, cobrindo a fíbula (04) que prendia sua túnica. A coroa dourada de ramos de oliveiras (05) indicava o seu posto.

Antares parou há poucos metros da sacerdotisa e curvou-se diante dela, em um sinal de profundo respeito. Aquela mulher era a representante de uma deidade naquela cidade, e muitas vezes era o mais próximo que muitos mortais chegariam de um Deus.

— Fui enviada pelo Santuário para atender vossa necessidade, Sumo Sacerdotisa. – A jovem falou em um tom comedido, sem erguer a cabeça. – Eu sou Antares, Amazona de Ouro de Escorpião.

A Sumo sacerdotisa, que estava de costas para a entrada e frente ao de Athena, baixara os braços e se voltando para a jovem Amazona que ali chegava. Por um momento, não conseguiu conter a surpresa diante daquela visão, e mostrou um grato sorriso, para remediar sua indiscrição.

— Estava à sua espera, Antares de Escorpião. – Disse ela fitando-a, fazendo menção para que se levantasse. – Soube que uma mulher havia se consagrado Amazona e vejo que o destino está a nosso favor.

— Assim esperamos, senhora. – Falou a escorpiana.

— Venha, vamos para um lugar um pouco mais reservado, onde poderemos conversar. – Berenike falou, apontando para uma passagem mais afastada delas.

Sem dizer mais qualquer palavra, a jovem a seguiu.

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Pegasus adentrou nos jardins suspensos do Templo de Athena, olhando em sua volta. Procurava à Deusa por entre os arbustos e pilastras frisadas, vindo encontrá-la sentada em um banco de pedra alva, aos pés de uma frondosa oliveira que lhe oferecia uma generosa sombra. Niké repousava em seu colo, aparada por uma mão. Ao redor da deidade, duas Saintias e quatro serviçais aguardavam suas ordens.

As primeiras traziam leques de plumas largas, e o usavam para abanar sua matrona divina com suavidade, espantando o calor. Já as últimas tinham uma jarra de prata, uma taça, e uma tigela contendo laranjas descascadas, uvas doces e figos suculentos.

Ele observou com admiração àquela escolhida por Zeus para cuidar do Mundo dos Homens, que, naquele momento, parecia uma simples mulher, cercada de jovens serviçais. Apesar disso, nenhuma delas tinha ideia do tamanho do fardo que ela carregava sobre os ombros fortes: A vida de incontáveis criaturas.

— Por quanto tempo mais pretende ficar aí, me observando? – A divindade questionou, com um sorriso, sem olha-lo.

— Desculpe, Senhora Athena. – O Cavaleiro falou, ajoelhando-se onde estava. – Apenas não queria incomodá-la em seu descanso.

Com um gesto, a mulher dispensou o séquito que a cercava. Não tardou para ficar a sós com aquele homem, cuja aparência jovial escondia sua real idade.

— O que o traz aqui, Pegasus? – Ela quis saber, convidando-o para se aproximar.

— Fiz a minha ronda pelas áreas ao redor do Santuário. – Ele anunciou com satisfação, atendendo ao chamado. – Fazia tempo que não via as pessoas tão em paz, ainda que o boato do desaparecimento de uma sacerdotisa pairasse entre elas.

— As ordens nos Templos são claras: Nenhum assunto referente às sacerdotisas e às aprendizes deve sair de suas paredes. Caso contrário, as punições serão severas, podendo levar ao exílio ou à lapidação (06) daqueles que permitirem que as informações se espalhem. – Athena explicou, lançando um olhar para seu Cavaleiro. – O máximo que chegará ao povo, serão boatos. Apenas quando Antares retornar, saberemos o que realmente aconteceu.

— Não pretende nem mesmo permitir que a família da jovem saiba de seu desaparecimento? – Ele questionou curioso e um pouco apreensivo. – Mesmo com o juramento, laços de sangue não são tão facilmente rompidos assim. Eles podem querer saber alguma coisa a seu respeito.

— Não arriscarei dar uma falsa notícia sem ao menos ter uma ideia do que se deu. – Replicou a Deusa, apertando a haste de Niké. – Até lá, nada deve ser afirmado ou negado.

— Sim, senhora, mas... Acha mesmo que aquela Amazona seria capaz de cumprir bem essa missão? – O homem questionou. A dúvida em seu olhar era mais que evidente, o que atraiu a atenção curiosa de Athena. – Quero dizer... Ela veio do Oitavo Templo, esteve sob treinamento as escondidas com aquele homem... E foi sagrada recentemente... Será que ela é confiável?

A Deusa da Sabedoria sorriu ante aquele questionamento. Não era a primeira vez que o ouvia, embora fosse a primeira vez que o fizessem tão abertamente em sua presença. Embora não esperasse ouvir aquilo de Pegasus, imaginava que ele também estivesse mantendo suas reservas quanto à jovem escorpiana.

Quem ali, no Santuário, não conhecia a reputação do Caçador, que se lançava em combate como um animal raivoso e só saia do campo quando não houvesse mais inimigos de pé? Quem ali não garantiria que a aprendiz dele não seria exatamente igual ao mestre?

— Sei que uma mulher seria necessária para tal trabalho, mas porque não enviar Unicórnio? Ela está sempre disposta a agir diretamente em seu nome, principalmente nas idas aos Templos. – Indagou ele, sem esconder sua intriga diante daquela escolha.

— Se Antares é confiável ou não, saberemos apenas se a colocarmos em campo, não acha? Ela me pareceu bem-disposta a provar seu valor, aceitando uma missão como essa, da qual muitos Cavaleiros achariam “tola” e “indigna” de suas funções. – Ponderou ela, se levantando do banco de pedra e virando-se para o Guardião. – Sim, a garota treinou as escondidas, mas Scorpio pediu a minha permissão para isso e me explicou suas razões. Antares exigia um treinamento especial, diferenciado.

— Entendo... – Disse Pegasus, olhando por cima dos ombros, como se dirigisse esse olhar para os Templos Zodiacais. – A sua sagração divide o exército. Alguns aplaudem, outros recriminam, outros se mantém neutros. No entanto, esse último parece apenas esperar qualquer coisa para decidir que lado tomar.

— E você? O que acha disso? – A Deusa questionou, olhando-o com atenção.

— Vi o quanto as mulheres lutaram na Guerra Sacra contra Poseidon e devemos muito às suas investidas. – Ele respondeu, medindo suas palavras com cuidado. – No entanto, confesso que não estou tão seguro da decisão delas, por mais que seus feitos tenham sido fantásticos. Temo que, tão como se prontificaram a lutar, também deixem de fazê-lo num momento crucial quando seus instintos falarem mais alto.

— De quais instintos fala? Os de sobrevivência, os quais os homens também possuem? – A deidade retornou, com um sorriso no rosto, vendo-o nada falar no momento. – Ou fala dos desejos maternos que podem vir a aflorar nelas?

— Exatamente. – O Cavaleiro a fitou. – A maternidade é algo natural da mulher, das humanas! – Afirmou ele. – Elas não fizeram votos para castidade, Senhora Athena. Portanto...

— Talvez isso não seja um grande problema para com ela... – Athena murmurou confiante, fazendo com que o Guardião arqueasse o semblante. – Creio que esse instinto lhe foi arrancado ainda cedo...

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Antares não havia gostado nada do que havia escutado da Sumo Sacerdotisa Berenike. Dóris era uma jovem pertencente à uma casa nobre de Atenas que se lançou ao sacerdócio tão logo pode e era tida como um exemplo entre as demais acólitas do Templo. Tinha ido para a casa dos pais, apenas para o casamento da irmã mais nova, acompanhada de um Cavaleiro de Bronze e dois aprendizes, como segurança. Era para ser uma viagem simples, com duração de sete dias, no máximo.

Aquele já era o décimo dia, e a Sumo Sacerdotisa confidenciara que já não alimentava grandes esperanças sobre a mulher. Queria apenas resgata-la, ou o que restasse dela, para que pudesse tomar as devidas providencias. Naturalmente que isso implicava que os responsáveis seriam mortos.

Na mão da escorpiana, um dos véus que Dóris havia vestido na véspera de sua viagem e o qual ainda guardava um pouco de seu cheiro. Flores do campo. Em meio a uma cidade como Atenas. Talvez não fosse tão difícil para ela, como achara a um primeiro instante.

No céu noturno, apenas um fio de prata e as estrelas forneciam a iluminação. Para ela, era mais que o suficiente, uma vez que seus olhos fendidos como os de um gato permitiam que enxergasse na penumbra, ainda que sua acuidade visual (07) ficasse um pouco comprometida. Silenciosa, se esgueirou pelas sombras, seguindo o cheiro que ainda restava pelo caminho usado e um rastro que apenas seus olhos vermelhos e reluzentes enxergavam.

Junto ao odor da sacerdotisa desaparecida, outros três a acompanhavam, os quais a Amazona deduziu ser sua escolta. Nyctimus de Lobo tinha um aroma peculiar. Em sua percepção, ele cheirava a um velho e experiente predador, que sabia esperar para ter uma boa caça. Era como se ele próprio fosse a criatura de sua Armadura Sagrada.

Entretanto, os outros dois que o acompanhavam não lhe pareciam ter diferença alguma com o das pedras que pavimentavam a via. Era como se não existissem. Isso a fez erguer uma sobrancelha, desconfiada. Teriam os aprendizes tomado outro caminho ou teria o mestre dispensado aos jovens, alegando que eles o atrapalhariam? Não tinha ouvido falar que Lobo fosse um desses Cavaleiros superconfiantes a ponto de ir contra as regras de treinamento do próprio Santuário.

Qualquer que fosse a razão, não foi bem vista pela escorpiana. Era importante que os aspirantes acompanhassem seus mestres e participassem de suas tarefas, respeitando seus limites. Não era algo tão difícil assim de se compreender.

Mesmo ela, quando bem mais nova e em sua vida reclusa, acompanhou seu tutor em algumas poucas missões. Os cabelos curtos e arrepiados ajudavam a compor o disfarce de um jovem servo que acompanharia ao Caçador. Era inegável o olhar de pesar que muitos no Santuário lhe dirigiam na ida, e o de surpresa, ao notarem que havia retornado bem. Mal imaginavam a real identidade da criança.

O som de passos desviou sua atenção daqueles pensamentos e lembranças. Alguém se aproximava e ela sabia que isso aconteceria com alguma frequência.

Eventualmente encontrava um ou outro grupo de jovens homens, geralmente soldados, fazendo rondas pelas ruas e trazendo lamparinas de azeite para iluminar o trajeto. Outros, cidadãos comuns, indo ou vindo das tavernas ou de suas casas, com suas próprias fontes de luz. Para não ser vista, rolava para a escuridão, buscando se manter distante o bastante para não ser notada, próxima o suficiente para sentir seus cheiros, em busca de qualquer sinal da mulher desaparecida.

Naquele momento, apenas um grupo de milícia em sua ronda passou sem nota-la, conversando sobre qualquer coisa a respeito das mulheres do distrito das flores. Em silêncio, Antares os assistiu passar, controlando-se para não sentir náusea com o que ouvira. Odiava quando alguém falava algo como aquilo, principalmente quando ela estava por perto. Às vezes, tinha a impressão de que era proposital, ainda que sua máscara não permitisse que o asco em seu rosto fosse visível.

O rastro a levou até o lado de fora da cidade, até um ponto da estrada pavimentada ao leste. Exceto pelos animais noturnos, não havia qualquer outro ruído que pudesse indicar alguém se aproximando.

O ar puro e frio da noite, desprovido de centenas de odores que costumavam confundir sua busca, lhe foi muito bem-vindo. A máscara servia de filtro e a protegia dos cheiros mais fortes, mas não a livrava completamente, e até a atrapalhava um pouco quando precisava rastrear pelo odor. Entretanto, preferia aquilo à sensação das narinas queimando e da tontura que a mistura de mirra e a fumaça lhe causava quando passava perto dos templos.

Ajoelhou-se cuidadosamente sob a estrada e deslizou os dedos, empoeirando-os, e os levou ao nariz. Ali a trilha era bem mais nítida.

Verificou o odre e certificou-se de que ele estaria bem preso em seu cinto. Amarrou o véu de Dóris no braço esquerdo e seguiu seu caminho, ainda que permanecesse a questionar-se do porquê estava conseguindo identificar o cheiro dela e do Cavaleiro que a escoltava, mas não sentia o dos aprendizes que deveriam acompanha-los.

O rastro a levou pela estrada principal até certo ponto, onde sentiu um arrepio intenso percorrer sua coluna. Era uma bifurcação que levaria à duas Polei mais afastadas, porém algo tinha acontecido ali. De longe, um cheiro adocicado de morte a recebera, fazendo com que apressasse seus passos e fosse para fora da estrada.

Próximo de uma árvore, um aglomerado de vermes brancos e pequenos se remexiam em uma mancha de sangue apodrecido. Antares percebeu que aquilo poderia ser um problema enorme, caso sua máscara não desse conta de proteger seu olfato sensível de odores mais fortes. Afastou-se dali a passos cuidadosos na relva.

Olhou bem ao seu redor, buscando qualquer coisa que denunciasse uma pista do que poderia ter ocorrido ou para onde poderia seguir. Não demorou em perceber que a vegetação ali parecia diferente. A grama era cada vez mais rala e cinzenta em certo ponto e isso a fez tomar aquele rumo, até dar lugar ao solo pedregoso e estéril. Os arbustos tinham cada vez menos folhas e seus galhos pareciam dedos sombrios e esqueléticos que fizeram a jovem Amazona engolir a seco.

“Seja o que for, está matando tudo por aqui...”, ela pensou indignada. “Eu tenho que fazer algo. E rápido!”.

Esgueirou-se com cuidado e sem se fazer ouvir pelas criaturas da noite. Nem mesmo a coruja que apanhara um rato próximo a ela percebeu sua presença. O cheiro de podridão apenas ficava mais forte. Com cuidado, certificou-se de que não tinha ninguém a seguindo, ou mesmo tentando emboscá-la. Seria uma grande vergonha para ela ser apanhada desprevenida.

Logo avistou um paredão de pedra, onde havia uma entrada. E era de lá que vinha o odor fétido que Antares sentia. Ela pendeu a cabeça para os lados, alongando um pouco o pescoço, e bebeu um gole de água.

O seu trabalho estava apenas começando.

Notas finais
01 – Muros eram sinônimo de segurança para povos antigos, então uma grande parte das cidades, para não dizer todas, eram cercadas. No mundo grego antigo, poucas eram as Cidades-Estados que não eram muradas, sendo Esparta a única da qual tive notícias disso (o que não quer dizer que tenha sido a única). Por conta disso, tomei a liberdade de assumir que o Santuário também era cercado por muros, como parte de suas defesas, além do terreno montanhoso. 02 – O comércio como conhecemos hoje não existia na Antiguidade Clássica. O sistema monetário da Grécia Antiga só passou a utilizar as moedas como conhecemos hoje por volta de 700 A.C., enquanto a história se passa em um período de tempo incerto. Até então, o comércio funcionava por meio de escambo ou de unidades monetárias pouco usuais (grãos, lingotes de cobre, tiras de couro e sal já foram usadas como dinheiro na Antiguidade). Para evitar complicações, tomei a liberdade de adotar o uso de moedas (peças metálicas e redondas de cobre, prata ou ouro) como sistema monetário da época. 03 – Nesse período, e até boa parte da Idade Média, as pessoas produziam apenas o suficiente para sobreviver e o excesso das colheitas eram trocados por artigos, excessos de outros produtores. 04 – Fíbulas alfinetes ou fivelas pequenas, usadas para prender roupas desde a Antiguidade. Diferentemente dos alfinetes atuais, as fíbulas não eram apenas decorativas, servindo para apertar peças de vestuário como capas e túnicas. 05 – Oliveiras eram as árvores associadas à Athena, então não era raro que sacerdotes usassem coroas de ramos dessa planta para denotarem sua devoção. Não confundir com a coroa de ramos de louro, pois essas eram consagradas a Apollo. 06 – Lapidação ou apedrejamento era uma pena de morte comum na Antiguidade. 07 – Acuidade Visual é o grau de aptidão do olho, para discriminar os detalhes espaciais, ou seja, a capacidade de perceber a forma e o contorno dos objetos. O quão nítido enxergamos.