— Qual é a “agradável” visita dessa vez? – Astaroth perguntou parando de concentrar seu cosmo e cobrindo a face com a mão, frustrado.

Das duas janelas despedaçadas, se ergueram dois guerreiros de armadura negra, um deles esguio como uma lança, cabelos louro-acinzentados compridos caindo pelas costas e a parte debaixo do rosto coberta por metal, a armadura inteira parecendo afiada e cheia de lâminas escondidas. Do outro lado, seu companheiro parecia mais jovem e mais forte, de cabelos castanhos revoltos meio escondidos debaixo do que parecia um chapéu de metal, apertando os punhos, com espinhos de metal. Apesar do estilo diferente de armaduras, a cor delas e as intenções daqueles invasores deixava claro que eram servos de Phobos e Deimos.

— São Torturadores. – disse Katsuo, soltando a urna de armadura. – Achei que tinham arregrado depois que matamos os outros.

— Já viram esses caras? – Drakon o fitou, sem reconhecer os estranhos.

— Alguns deles nos atacaram quando voltamos para o Santuário. – Daisuke fechou os punhos, pronto para puxar a corrente em sua urna, abrindo para revelar sua armadura. – Devem ter nos seguido.

— Vocês são muito fáceis de seguir, na verdade. – zombou o Torturador com a face coberta. – Ainda mais quando se separaram, viraram presas perfeitas.

— Quem vocês pensam que são pra falar assim? – quase rosnou Leão, concentrando seu cosmo nos punhos para atacar.

— Eu sou Vlad de Empalado. – apresentou-se aquele que provocara, cruzando os braços.

— Efnisien de Espancado. – o guerreiro com aquele “chapéu” não parecia falar muito.

— Que nomezinhos mais ridículos. – foi a vez de Katsuo revidar. – Vamos ver se ficam se achando assim depois de uma surra.

O Torturador maior grunhiu de raiva e se aproximou alguns passos para atacar, mas antes que aquela luta começasse, o leonino sentiu algo frio em seu ombro, deixando um tremor involuntário arrepiar a pele e virando-se para ver a mão pálida de Astaroth ali, o fazendo recuar alguns passos enquanto o mais velho era quem se aproximava. – Crianças, eu já lidei com esses inúteis, vou acabar com isso sem causar muito transtorno, diferente do que vocês fariam. – declarou enquanto fitava aquela dupla inimiga.

— Você... – Efnisien recuou um passo, apertando os olhos e os punhos. – É um Cavaleiro de Ouro da antiga geração.

— É claro que não me reconhece, mas acabei com vários do seu tipo alguns anos atrás. – o canceriano concordou, colocando a mão no bolso de seu sobretudo longo e negro. O Torturador curvou as costas esperando um ataque, mas ele apenas tirou um cigarro e em seguida um isqueiro com o desenho do símbolo de Câncer nele, acendendo para dar uma longa tragada. O silêncio durou por muito tempo, cortado pela risada sarcástica do segundo inimigo.

— Acha que nos engana com essa calma toda, cavaleiro? – Vlad de Empalado preciso de um minuto para voltar a ficar sério, apontando para o antigo cavaleiro. – Sem a sua deusa, a maldição que nossos senhores colocaram em você e em seus companheiros está ativa. Ela corrói sua sanidade, seu cosmo e sua vida há mais de quinze anos, deve estar tão indefeso quanto um gatinho contra nós!

— Maldição? – Daisuke sussurrou para Drakon ao ouvir o comentário do Torturador, mas o ruivo simplesmente ergueu os ombros.

— Não sei de nada. – respondeu, também com a voz baixa.

— Indefeso como um gatinho, você diz? – Astaroth parecia se divertir com aquela situação, dando uma segunda tragada no fumo. – Por que vocês não tentam a sorte então?

— Se quer tanto assim ser o primeiro a morrer, lhe darei essa honra! – Efnisien gritou animado por poder continuar a atacar e saltou, fechando o punho adornado com espinhos de metal negro, mirando a face pálida e calma do canceriano. O homem o esperou pacientemente, murmurando algo em voz baixa, e quando o Torturador chegou perto, soltou uma baforada de fumaça entre os lábios. A fumaça clara foi em direção ao inimigo, mas no meio do caminho se transformou em chamas azuladas, atingindo em cheio a face de Efnisien, que parou com um grunhido de dor, cobrindo a face com as mãos. Por um momento, Daisuke pensou ter visto de relance aquelas luzinhas azuis que Drakon chamava de espíritos se agitando e tentando fugir, mas não teve certeza. Aproveitando o momento de dor do inimigo, Astaroth fechou o punho e o acertou no peito, jogando-o metros longe, para trás de seu companheiro, que não entendia o que estava acontecendo.

— Ainda acham que estão em vantagem aqui? – ironizou o canceriano, tirando o fumo e segurando perto da face.

— Como?! – Vlad de Empalado gritou, mais chocado do que com raiva. – Como evitou os efeitos da maldição de dois deuses?

— Ah, eu não evitei. – um riso baixo fugiu do antigo cavaleiro, que ergueu os ombros em descaso. – Eu só não sou como os outros. Vocês diz que a sua maldição consome a minha vida, mas eu não tenho uma vida plena, para entender e manipular espíritos, estou no limite entre a vida e a morte. A sua maldição diminui o meu cosmo, mas esses espíritos presos aqui são fonte de poder. E você diz que ela tira a minha sanidade... Mas eu já era louco antes dela. – E ao falar aquilo, abriu um sorriso sádico para o Torturador, que recuou até ficar junto com o companheiro que estava se levantando.

— Você está blefando. – desafiou Vlad, erguendo uma das mãos. — Tochi ni yoru shi!

Logo após a ordem de ataque, o chão tremeu e várias estacas de metal negro saíram dela indo em direção ao antigo cavaleiro. Este apenas saltou do chão, pousando na ponta de uma das estacas, numa demonstração de equilíbrio quase inumado enquanto o sobretudo se agitava como as asas de um corvo. O cigarro caiu, se cravando numa das estacas mais a frente do homem.

— Acho que agora é a minha vez. – ele sorriu de novo, daquele jeito assustador enquanto erguia a mão, apontando o indicador para cima. – Juntem-se aos espíritos de seus antecessores presos para sempre na minha morada. Sekishiki Kisouen!

E naquele momento, inúmeros espíritos saíram dos corpos pendurados pelo teto, se juntando em torno do antigo cavaleiro, juntando-se rapidamente. Em segundos, atrás dele havia uma forma indistinta e grande, parecida com um animal, pois dava-se para perceber algo parecido com dentes ou patas, apesar de ser feito puramente de chamas. Astaroth então abaixou a mão e apontou para os Torturadores, fazendo as chamas avançarem na direção deles como se o animal o qual formavam desse um bote. Foi tão rápido que não houve tempo para que desviassem, e as chamas envolveram os corpos transformando-os em duas tochas azuis antes que se apagassem com a mesma velocidade com que tinham se inflamado. As armaduras negras estavam rachadas e queimadas, mas não havia nenhum ferimento além de queimaduras menos perigosas quando caíram, com os olhos vazios fitando o teto decorado com corpos. Em seguida, as estacas negras sumiram do chão, deixando-o liso como sempre fora.

— Eles não vão mais incomodar. – o homem disse antes de se virar, fitando mais uma vez Daisuke, que sentiu um arrepio correr pela espinha, porque ele ainda tinha o braço erguido, apontando para o garoto. – Agora é a sua vez.

— Heeeein? – Pégasus quase gritou. – Por que você quer me matar? Eu não te fiz nada!

— Seiki... – o homem nem quis responder enquanto preparava outro golpe, mas antes que terminasse, alguma coisa o fez cair com um gemido.

— Não temos tempo pra isso, ok? – disse Drakon parado às costas do cavaleiro caído, segurando a ponta de seus cabelos negros e longos. Era óbvio que tinha puxado com força para derrubá-lo.

— Uma relação de mestre e aprendiz tão linda... – Katsuo ironizou, com os braços cruzados, fitando a cena. Astaroth se ergueu em um segundo, agarrando o pescoço do ruivo e apertando, e ninguém teve dúvida que poderia matar o aprendiz, que segurou seus pulsos, apertando para quebra-los. Antes que acabassem morrendo, o leonino tossiu para chamar atenção. – Oh, tio, a gente só quer saber o que aconteceu há dezessete anos, porque tem alguma coisa agora que está ligada a isso.

— Nesse tempo, nós enfrentamos esses Torturadores e os deuses deles, Phobos e Deimos. – explicou o homem, ainda tentando estrangular seu aprendiz e quase tendo os ossos dos braços quebrados por ele. – Perdemos alguns dos nossos, mas acabamos com todos eles. Mas antes de sumirem, os deuses nos amaldiçoaram.

— Então... foi disso que aquele Torturador falou. – Daisuke se lembrou, afinal Vlad de Empalado dissera que por conta disso, ele deveria estar morto, louco ou sem cosmo.

— Foi. Athena nos protegeu por um bom tempo, mas fomos afetados quando ela morreu... Por causa dele! – e naquele momento, Astaroth soltou o pescoço de Drakon para apontar para Pégasus.

— Eu? – o garoto tocou o peito, achando que o homem era mesmo louco. – Mas eu nunca vi Athena, e nem sabia disso! Nesse tempo eu nem tinha nascido.

— Foi no dia que você nasceu. – Astaroth apontou acusadoramente para Daisuke. – Athena morreu para ter você, que é fruto de um relacionamento proibido entre ela e Saye de Sagitário.

Um silêncio longo caiu após aquela revelação, até que o atual Cavaleiro de Câncer revirou os olhos, bufando. – Ficou doido de vez. – concluiu.

— Então, se isso é verdade, o Daisuke é um semideus? – Katsuo pensou, ligando os pontos na história sem sentido do antigo santo. – Mas ele é um inútil.

— Que ele é um inútil dá pra ver, mas é sim.

— Caras, eu ainda to aqui! – Daisuke se irritou, mas ninguém lhe deu muita atenção.

— Ninguém liga para o que você acha. – o ruivo retrucou, o que não melhorou o humor do filho de Sagitário.

— Então, se ninguém se importa... – Astaroth se afastou de Drakon e empurrou Katsuo para o lado, apontando para o peito de Pégasus. — Sekishiki Kisouen!

O ataque desta vez foi mais fraco do que o usado contra os Torturadores, mas ainda gerou uma onda de chamas azuladas que foi em direção a Daisuke que colocou os braços diante do rosto para tentar se proteger, estranhando que não sentisse nada queimar a pele. Ergueu os olhos confuso, vendo que as chamas se desviavam e lambiam as paredes, deixando marcas nas paredes antes de sumir. Vendo que o golpe não o funcionava, o homem parou, embora demonstrasse raiva pela primeira vez.

— Mas o que... – começou e se preparou para usar outro golpe, quando parou de repente, como se tivesse ouvido alguma coisa. Por um breve momento, Daisuke achou que tinha sentido uma energia diferente ali, e pela feição dos demais, não fora o único a ter essa impressão. Fosse lá o que fosse, sumira em seguida, e Astaroth respirou fundo, como se fizesse algo contra a sua vontade. – Certo... Vocês, fora da minha casa, agora!

— Que? – Katsuo se colocou na frente do antigo cavaleiro, irritado com a mudança de humor. – Ainda queremos saber dessa guerra contra os deuses e...

— Fora daqui, antes que eu mude de ideia e transforme vocês em comida para os meus cachorros! – o homem gritou com raiva, e vários espíritos saíram do teto e dos corredores, deixando claro que os usaria para criar novas chamas se lhe dessem chance.

— Mas eu... – começou Daisuke, querendo convencê-lo a dar mais informações, mas sentiu um puxão na gola que o sufocou, e o mesmo aconteceu com Katsuo, já que os dois foram arrastados pelo corredor que tinham usado para entrar naquela sala, onde Astaroth ainda os olhava com raiva, mas contido.

— Não duvidem que ele faça isso. – Drakon avisou, não parecendo ter dificuldade em arrastar os dois para fora, apesar de ser bem menor e mais magro que qualquer um deles. Quando saíram, os cães antes rosnando, se afastaram, com as orelhas baixas. – Além disso, acho que ele só vai falar mais loucuras em vez de algo útil.

— Pois é, o cara ficou doido para sair falando que o Daisuke é um semideus. – o leonino teve que concordar, colocando as mãos nos bolsos.

— Ele nem serve pra engraxate de armadura. – o ruivo concordou.

— Eeeei, eu to escutando! – Pégasus se irritou e olhou para aquela morada bizarra de corpos e maldições, mas seus olhos foram para o teto de telhas escuras. Sobre elas, viu uma figura meio indistinta, mas reparou numa roupa branca e cabelos loiros compridos, que por conta do vento, voavam na frente do rosto da pessoa, escondendo-o. Considerou perguntar quem era, mas imaginou que Astaroth devia ter outro aprendiz, já que Drakon tinha se tornado Cavaleiro de Ouro, e se fosse como o ruivo, era perturbado e iria querer mata-lo sem motivo. Era melhor nem saber.