Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
14 Geist, a serpente do mundo dos mortos
Notas iniciais
A entrada parecia engolida por sombras. O teto era baixo no começo, obrigando Mei e Shaina a baixar a cabeça, até que o corredor se abriu num anfiteatro oval, com degraus partidos e pilares cobertos de marcas que lembravam mordidas. O chão, polido pelo tempo, guardava um brilho irregular, como se água tivesse corrido por ali e secado rápido demais.
— É aqui — disse Shaina, a voz firme, mas com o coração acelerando num ritmo conhecido.
No centro do anfiteatro, enrolada em si mesma como uma espiral, uma figura ergueu o tronco devagar. A armadura era sombria, metálica, com placas que imitavam escamas; no peitoral, uma serpente gravada atravessava um círculo de runas. A máscara tinha fendas estreitas para os olhos e uma extensão fina sobre a mandíbula, lembrando presas. Quando respirava, o metal parecia sussurrar.
— Shaina de Ofiúco… — A voz vinha abafada pelo elmo. — Você ainda pisa com o pé direito primeiro. Não mudou.
— Geist. — O nome saiu como um ajuste de contas. — Você devia estar morta.
— Morri. — A resposta veio com calma, quase com doçura. — E foi aí que nasci outra vez.
Mei deu um passo lateral, estudando o espaço. Viu, entre as colunas, linhas foscas no chão: padrões circulares onde a poeira não encostava. Armadilhas de cosmo.
— Fique atenta — murmurou, sem tirar os olhos do entorno. — O chão aqui… morde.
Geist ergueu a mão direita, e uma faísca verde-escura correu pelos dedos.
— Sibilo do Tártaro! — Um arco de energia rasgou o ar, arranhando o metal da armadura de Shaina quando ela se esquivou por um fio.
Shaina não esperou o próximo. Avançou com um giro de quadril e o corpo baixo, chutando a base de uma coluna e usando o impulso para ganhar altura. Caiu já com o punho à frente.
— Garras do Trovão! — Estalos de eletricidade saíram das manoplas e espalharam faíscas brilhantes. Geist cruzou os antebraços em X, o choque ardeu e a arrastou dois passos para trás, mas ela não caiu.
— A antiga pupila de Pérola… ainda orgulhosa — disse Geist, o tom sem maldade, mas afiado. — Vamos ver se aguenta a fome de um morto.
Ela estendeu os braços, e as placas de sua armadura se abriram como barbatanas. O cosmo ficou pesado, as sombras cresceram.
— Abraço Estígio! — Correntes sombrias brotaram do chão, serpenteando como cobras d’água. Shaina saltou, mas duas se enroscaram no tornozelo esquerdo e no pulso direito, puxando com força bruta. Ela girou no ar e caiu de lado, protegendo o rosto no último instante.
Mei avançou.
— Ondas do Inferno! — O piso se trincou num semicírculo, e mãos pálidas de energia ergueram-se para agarrar as correntes, retardando o aperto. — Corta a vibração! — gritou para Shaina.
Shaina prendeu o ar, concentrou cosmo nos músculos e estalou o corpo em um movimento seco, rompendo a pressão com um estalo elétrico. Rolou, recuperou a base e recuou dois passos, avaliando.
— Não interfira a menos que eu caia — disse a Mei, sem desviar os olhos da adversária.
— Só vou puxar o chão quando você mandar — ele assentiu.
Geist caminhou em semicírculo, pés deslizando no piso.
— Eu queria Ofiúco — disse, sem esconder. — Quis tanto que o Santuário me ofereceu outra coisa quando perdi. Um trabalho no escuro, sem rosto, sem glória. — O cosmo dela se apertou, denso. — O que perdi então, ganho aqui.
— Você perdeu porque hesitou — devolveu Shaina, lembrando do dia do duelo na arena cheia de cobras, o cheiro do couro molhado, os olhos da outra amazona alternando entre raiva e medo. — E hesitar de novo vai te partir.
Geist sorriu sob a máscara.
— Quem hesita agora é você, peão.
Ela bateu o pé e a própria sombra projetou uma boca cheia de dentes no chão.
— Rastejo de Aqueronte! — A sombra avançou, tentando engolir os passos de Shaina.
Shaina saltou de novo, agora mais alta, girando no ar.
— Garras do Trovão! — Desceu como um raio, mirando a clavícula de Geist. A torre ergueu o antebraço para bloquear; a descarga elétrica correu pelo metal e fez as “escamas” tremerem.
Geist cedeu um joelho e sorriu com gosto.
— Assim. Agora, assim. — O cosmo dela explodiu de uma vez, soprando poeira como um vendaval. — Boca de Lamia!
Um círculo de dentes de energia brotou sob Shaina, fechando como uma armadilha de urso. A amazona largou o peso para trás, caiu sentada e deslizou com um chute no chão, escapando por um palmo.
Mei pousou duas mãos no piso.
— Corredor da Penitência! — Correntes etéreas saltaram, mirando os tornozelos de Geist. Ela elevou a perna, a corrente mordeu o vazio.
— Já disse… — Geist voltou o rosto para ele, e a máscara parecia sorrir sozinha. — Não interfira. A fome é dela, não sua.
Shaina foi direto ao ponto. Partiu em linha e atacou com uma sequência curta e fria: chute baixo na lateral do joelho, cotovelada curta na costela, Garras do Trovão em meia-lua no rosto. O primeiro pegou; o segundo pegou; o terceiro raspou a máscara, arrancando uma lasca do metal. A descarga chiou.
— Você bate melhor que antes — admitiu Geist, recuando com elegância. — Mas ainda carrega o peso de um peão.
— E você carrega o cheiro de uma tumba — disse Shaina, olhos estreitos. — Fica fácil mirar.
Geist ergueu ambas as mãos, cruzando os dedos no ar. Riscou a frente do próprio corpo com um gesto vertical.
— Véu de Ofíone! — Um painel translúcido, como pele de serpente, surgiu entre as duas, tremulando. Quando Shaina tocou o véu com as garras, a energia desviou, ricocheteando para o teto e estourando em fagulhas.
— Ela está colocando camadas entre vocês — avisou Mei. — Não insiste no frontal.
Shaina respirou fundo e mudou a dança. Em vez de atacar o centro, rodeou, pisando leve, obrigando Geist a ajustar o quadril para acompanhar. Quando sentiu a abertura — microsegundos num giro de calcanhar —, entrou:
— Garras do Trovão! — mas com o corpo “vazio”, sem força total, só para puxar a guarda. No mesmo instante, o joelho esquerdo veio por baixo, direto no esterno. O baque seco tirou o ar de Geist.
A torre cambaleou um passo, e Shaina viu a linha: a base da garganta, abaixo da máscara.
— Agora! — gritou Mei, afundando as mãos no chão. — Portão da Purificação!
O anfiteatro tremeu. Atrás dele, uma porta espectral se abriu numa fresta, vazando luz pálida e um vento frio que cheirava a cânfora. Geist puxou a cabeça para o lado, evitando a coluna de energia, mas o vento a varreu; as barbatanas da armadura se fecharam defendendo o pescoço.
Shaina já estava sobre ela.
— Garras do Trovão! — pela terceira vez, com a descarga máxima. O golpe descascou parte do elmo; pela fenda, Shaina viu olho e pele — e, por um segundo, reconheceu algo que conhecia de anos: a mesma teimosia da menina na arena de serpentes.
Geist recuou com um salto largo e pousou em um dos degraus quebrados. O cosmo dela se “apertou” num ponto, fino como uma agulha.
— Dardo de Níðhöggr! — Um estalo seco. Uma lança de energia serpentina cortou o espaço. Shaina abaixou a cabeça por reflexo; a lança riscou o elmo e abriu uma linha na parede de trás.
— Mais uma e você não levanta — disse Geist, sem bravata; soava como um aviso.
— Mais uma e você cai — devolveu Shaina, sem tremer.
As duas ficaram um segundo em silêncio — um segundo comprido, onde o ar do tabuleiro parecia segurar a respiração. Então, atacaram ao mesmo tempo.
Geist — Sibilo do Tártaro!
Shaina — Garras do Trovão!
A colisão encheu o anfiteatro de estalos e pó. A onda de choque varreu as marcas do chão e fechou rachaduras antigas. Quando a poeira assentou, Shaina estava de joelhos, ofegante, o braço formigando até o ombro… e Geist, de pé, mas com a máscara rachada, um joelho flexionado e o braço direito tremendo.
— Chega — disse a torre, baixando um pouco o queixo. — Hoje, não. — O cosmo dela começou a recolher, como se voltasse para dentro do elmo. — Você me deve uma queda, Shaina.
— Eu cobro no próximo nível — respondeu a amazona, forçando-se a ficar de pé.
Geist inclinou o rosto, como um aceno mínimo.
— Então cobremos lá.
Ela deu um passo para trás, outro, e o anfiteatro a engoliu como uma sombra que fecha a porta.
Shaina respirou, sentindo o peito esquentar. A Armadura de Ofiúco vibrou de leve, não como antes — não como quando tocava Odisseu —, mas como uma validação. Debaixo dos pés, o anfiteatro acendeu linhas finas, como a geometria de um tabuleiro acoplada à pedra. Um som metálico, leve, percorreu as colunas.
Mei sorriu de canto.
— Ouviu isso?
Shaina ia perguntar “o quê” quando um brilho, vindo do chão, subiu por suas pernas e costurou o corpo até o coração. O emblema invisível de peão ardia… e se reescreveu.
— Promoção — disse Mei, quase rindo. — Mesmo sem checkmate. O tabuleiro entendeu.
A energia se assentou, e Shaina se percebeu… maior? Não no corpo, mas no alcance. A percepção de espaço e de rotas se abriu como uma rosa de caminhos.
— Cavalo… — murmurou, testando a palavra na boca. — Eu consegui.
— Você arrancou essa ascensão dela — disse Mei. — Isso vale tanto quanto derrubar.
Shaina olhou para onde Geist sumira. Não havia ódio no olhar; havia promessa.
— A próxima, eu termino.
— E eu abro a porta — disse Mei.
Eles se entreolharam, cúmplices, e saíram do anfiteatro pelo corredor oposto, onde o ar parecia mais leve.
Fora do tabuleiro, onde o céu não tinha cor e o chão parecia vidro negro, três figuras observavam. Uma delas vestia a armadura vermelha que ardia sem luz, a máscara dourada em forma de sol sem olhos — Ormenos, o Silente. Ao lado dele, ficaram dois seres de presença parecida, altos, o cosmo guardado como espadas na bainha.
O primeiro, com um elmo que lembrava uma lua minguante, falou:
— Você sorri por dentro do ouro, Ormenos. Acha mesmo que as suas peças vão cruzar esse brinquedo inteiro?
O segundo, de ombreiras finas e capa escura que não fazia sombra, riu baixo:
— O mais engraçado é a fé deles. Falam em “sair do tabuleiro”, como se houvesse “fora” depois do último lance.
Ormenos inclinou levemente a cabeça, sem pressa.
— O jogo mede mais do que força — disse, a voz abafada pelo sol de ouro. — Mede insistência. Mede a forma como caem… e como levantam.
— E quem você escolhe? — perguntou o da lua, curioso. — A serpente renascida? O que bebeu o tempo? A garça que aprendeu a cortar o vento?
O sol de Ormenos brilhou um tom mais quente.
— Eu escolho a peça que entende que vitória não é saída — disse, calmamente. — É permanência.
O de capa deu um passo, o sorriso cortante.
— Permanecer… preso aqui para sempre? — Ele apontou para o tabuleiro abaixo, onde salas moviam-se como placas tectônicas. — Que doce ironia.
Ormenos não respondeu. Olhava fixo para um ponto onde duas presenças recém-promovidas caminhavam lado a lado. O silêncio dele, como sempre, dizia mais do que qualquer risada.
Entre corredores que se dobravam e varandas suspensas, Shaina e Mei seguiram. A cada curva, Shaina sentia o cavalo dentro do peito desenhar caminhos em “L”. Era quase um instinto novo, uma bússola que não apontava norte, e sim atalhos.
— Vamos achar os outros — ela disse.
— Vamos — Mei respondeu. — Antes que a próxima torre resolva nos medir.
Eles aceleraram o passo.
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