Saint Seiya: A Fúria do Sol
6 Revirando o passado
Notas iniciais

Sibéria
O céu estava limpo, completamente azul. O sol acompanhava cada passo daquela dupla que lentamente atravessava aquele gigantesco campo vazio. Seus únicos companheiros eram a neve que chegava até as canelas e algumas árvores completamente cobertas com os flocos brancos. A temperatura, que estava abaixo de 40ºC não incomodava tanto assim, especialmente ao mais alto, que tinha até certa saudade desse clima. Havia vivido ali por muitos anos em sua infância, havia muita história para ser contada sobre aquele lugar. Muita tristeza envolvida também.
— Tem certeza que o lugar ainda existe?
— Claro.
— Não se passaram, sei lá, uns 20 anos desde que você foi embora?
— Eu venho aqui as vezes.
— Não lembro de você vindo aqui.
— Quantas vezes me acompanhou nas viagens?
— Só essa.
— Então porque está palpitando?
— Desculpe, mestre.
— Venha, Mateo.
O jovem Mateo, assim como muitos no santuário, havia se tornado oficialmente um cavaleiro há poucos meses, oito para ser exato, e desde então havia apenas cumprido tarefas administrativas para o exército de Athena, afinal, eram tempos de paz. É claro que, para um jovem com seus quatorze anos, essas tarefas eram tediosas e cansativas, o que levava ele a pedir para seu tutor o levar em suas viagens. Dessa vez ele havia conseguido.
O rapaz possuía cabelos negros, puxados bastante para o azul, uma pele parda e olhos castanhos claros. Apesar de suportar tranquilamente aquela temperatura, usava um casaco pesado sobre suas roupas que cobria do seu nariz aos seus joelhos. Em suas costas, uma urna cinza era carregada pelas alças ao redor de seus braços, evidenciando-o como um cavaleiro de bronze.
— Ali está. – Disse o mestre.
O homem de olhos azuis encarou seu discípulo, apontando o dedo para uma cabana no início de uma floresta ao pé da montanha. Seus cabelos loiros e volumosos que iam até um pouco abaixo de seus ombros eram atacados pela ventania, jogando-os para trás enquanto sua barba cerrada acumulava um pouco de neve, ganhando um aspecto cômico.
A camiseta regata, calças negras e polainas laranjas faziam parte de seu visual clássico há mais tempo do que podia se lembrar. Havia pego o estilo de seu mestre, parando para pensar. Em suas costas havia uma urna, assim como a do jovem, porém esta era dourada.
Não tardou muito para que a dupla alcançasse a cabana, o jovem, curioso, andava de um lado para o outro, analisando o lugar onde aquele cavaleiro de ouro havia treinado em sua infância.
— Então esta era a casa de seu mestre?
— Exato.
— O mestre do meu mestre?
— Camus de Aquário.
— E então temos Hyoga de Aquário. Estou ansioso pelo sucessor Mateo de Aquário.
— Boa sorte. – Hyoga riu.
— O que? Não confia em mim? Estamos falando de três gerações de cavaleiros de ouro aqui.
Apesar das risadas, o antigo cavaleiro de Cisne temia pelo futuro de seu pupilo e de toda a vida no planeta Terra. A ameaça prometia ser devastadora e impiedosa. No entanto, diferente de vários de seus companheiros, o guerreiro de gelo estava um pouco confiante. Diziam a mesma coisa sobre Saga e como era loucura meros cavaleiros de bronze subirem as doze casas. Desde então fizeram coisas absurdas e até mesmo mudaram o passado... Se Apolo é tão poderoso quanto dizem, ele terá que provar antes de intimidá-lo. Por mais que o ferimento de Shun fosse grave, não era algo impossível de ser feito por Athena, Hades ou mesmo Poseidon.
— Vamos entrar?
— Sim.
Voltando a realidade, Hyoga pegou a chave de seu bolso e destrancou a porta, mantendo-a assim até que a dupla estivesse lá dentro. Ao fecha-la retirou a urna de suas costas, a colocando cuidadosamente no chão em um espaço que ele já havia separado há anos para isso.
— Coloque sua urna sobre a minha.
Cada passo fazia o chão de madeira daquela velha cabana ranger e, enquanto acendia as velas para ter melhor visibilidade, já que as janelas estavam fechadas pelo vento forte, o lugar ia ganhando um clima realmente nostálgico para o aquariano.
Enquanto isso o jovem Mateo procurava um lugar para se sentar, retirando do bolso interno de seu casaco uma carta enviada pelo Santuário. A dupla, que já estava viajando há algum tempo, havia recebido de um mensageiro assim que puseram os pés na Sibéria. Seiya provavelmente sabia que cedo ou tarde seu amigo iria para casa.
— Já posso ler?
— Fique à vontade. Seiya vai dizer que Shun acordou, está melhorando. Que Apolo causou o ferimento e que Athena precisa dos cavaleiros juntos no santuário. O blablabla de sempre.
— Se sabe disso porque estamos no meio do nada?
— Esse Apolo não pode ser tão poderoso e eu pretendo encontrar alguma informação sobre ele. Se os seus servos estão aqui na terra, não podem ter chego tão rápido. Devem estar sendo treinados aqui há anos, gerações talvez. Sei que Camus deve ter algo anotado sobre isso.
O cavaleiro de bronze havia perdido completamente o interesse na carta após as revelações de seu mestre, imaginando que ele realmente estaria certo. Observou então o loiro percorrendo uma pequena estante de livros com o indicador, lendo as lombadas dos livros e buscando algum diário ou algo pudesse indicar um livro de notas do antigo protetor da décima primeira casa.
— Aqui está. As anotações de meu mestre. – Ele puxou um livro vermelho que não possuía nada escrito em sua capa.
— Como sabe?
— Me lembro de Camus escrevendo nele sempre que um mensageiro nos visitava. Isaak sempre tentava ler mas acabava sendo castigado.
— Isaak?
— Ele também era discípulo de Camus.
— Onde ele está?
— Morto.
— Ele era um bom homem?
— ... – Hyoga engoliu a seco e trocou olhares com seu discípulo, que rapidamente entendeu que o assunto era delicado. Mesmo assim, o cavaleiro respondeu. – O melhor.
— Desculpe.
— Vejamos o que temos aqui.
Hyoga começou a folhear o livro desde o começo, lendo todas as entradas que Camus havia feito. A letra era nostálgica, assim como a enorme organização daquelas anotações, com o assunto em caixa alta, datas, divisórias e tudo que se pode ter direito.
Lá haviam informações sobre exércitos rebeldes que iam contra o Santuário em certas partes do mundo, alguns deles com base na Sibéria inclusive. Informações sobre a localização de Mu de Áries e Dohko de Libra, que na época eram tidos como traidores.
Chegando na metade do livro, enfim algo útil para a investigação. Camus descrevia que antes do nascimento de Athena, o Grande Mestre Shion havia contado para ele, casualmente, uma história sobre um guerreiro misterioso que havia surgido no santuário quase cem anos atrás. O tal homem havia questionado os atuais números do exército de athena e os motivos deles seguirem uma deusa que nem mesmo fazia questão de estar presente, adotando o egoísmo e só reaparecendo a cada 200 e poucos anos.
No fim da página, Camus faz uma nota com seus pensamentos da época em que escreveu aquilo.
“Recentemente eu vi um homem com as mesmas descrições dadas por Shion. Ele estava no meio da floresta olhando fixamente para Hyoga e Isaak enquanto treinavam. Parecia interessado em alguma coisa. Me lembrou um certo biólogo que estuda a vida marinha que conheci uma vez.
Não esquecer: Armadura vermelha, asas, tiara, cabelos em formato de caracol e loiros, mais claros que os de Hyoga.
Desapareceu quando elevei meu cosmo”
— Não é possível.
— O que foi? Algo interessante?
— O homem que June e Ikki encontraram... – Hyoga se virou, fitando seu aluno. – Acho que ele não é humano.
— Como assim? – Com a história ficando interessante, o garoto inclinou seu corpo para frente.
— O antigo mestre do Santuário que reinava antes do Nascimento de Athena encontrou alguém com a mesma aparência cem anos atrás.
— Coincidência? Eu já vi várias pessoas como você.
— Camus encontrou o mesmo homem enquanto eu treinava aqui. – Fez uma pausa curta, fechando o semblante. – Utilizando a mesma armadura que o agressor de June.
— Então... esse cara viveu na Terra por centenas de anos e nunca foi descoberto?
— É o que parece.
— Quais as chances de isso estar errado?
— Camus não se enganava.
— Então porque ele te pegou como discípulo? – Tentou conter a risada, que saiu espremida pelos seus lábios.
— Muito engraçado. – Hyoga jogaria o livro para Mateo, para que o mesmo guardasse em seu casaco. – Você não vai ler a carta?
— Achei que não era necessário.
— Leia.
O garoto então pegou novamente o envelope, abrindo com cuidado e retirando a folha de papel de dentro.
— Vamos ver. Blablabla Shun acordou, está melhorando. Athena quer todo mundo no santuário, blablabla. E... – Franziu as sobrancelhas, afastando o rosto da carta instintivamente. – Não é possível.
— O que?
— A armadura de gêmeos...
— Encontraram um sucessor?
— Ela desapareceu.
Templo de Poseidon
O novo templo de Poseidon havia sido reconstruído no mesmo lugar de seu antigo que foi destruído e inundado por Athena e os cinco lendários cavaleiros. Sua rixa com a Deusa porém havia cessado e, desde então, havia se concentrado em estudar humanos e viver a paz que sua sobrinha havia imposto sobre o planeta. Os sete pilares também haviam sido reconstruídos, porém se encontravam sem protetores.
Seu último guerreiro e mais leal, Sorento, havia sido morto há pouco tempo. Com isso a divindade havia finalmente retornado para sua morada e encontrava-se sentado em seu trono, apreciando a solidão. Ou quase isso.
Julian, o humano escolhido como reencarnação de Poseidon, encarava as gigantescas portas duplas no final de seu templo, como se aguardasse alguém. Sendo um Deus, nada em seus domínios escapava de seu conhecimento.
E, assim como previsto, as portas se abriram e um rosto conhecido, porém esquecido, adentrou. Seus passos ecoavam pelo templo vazio, assim como os sons característicos das placas de metal que formavam sua armadura.
— Voltou do inferno?
— Precisamente.
— Até que você está em forma.
— Eu tive muito o que fazer por lá.
— Veio pedir o meu perdão? – O sorriso no rosto de Poseidon era sarcástico.
— Não me arrependo do que fiz. E se não fosse por mim você ainda estaria em uma garrafa. – Aqueles olhos encaravam o Deus dos Mares sem qualquer temor.
— Cuidado com suas palavras, humano. Você não me enganará mais. Diga o que quer.
— Eu senti um cosmo quando retornei, algo do seu nível.
— Apolo.
— O que?
— É o que a sua queridinha anda preocupada ultimamente.
— Athena já tem conhecimento?
— Provavelmente sim. O Leão foi quem me trouxe o corpo de Sorento.
— ... entendo. Me desculpe.
— Pelo que? Ele era apenas um soldado cumprindo ordens.
— Ele era seu amigo, Julian. – A voz do homem aumentou, irritado.
— Ainda não me disse o que quer. – Poseidon levou um tempo para retomar a conversa, tendo desviado o olhar.
— O que você me diz sobre Apolo? Athena vencerá?
— Athena morrerá. Vocês morrerão. E eu terei minha cabeça exposta no Olimpo por tantas falhas e por ter me tornado conivente.
— Você tem tanto medo assim dele?
— Humano... Apolo não é qualquer um. Apenas Zeus pode detê-lo.
— E se você lutar ao lado de Athena?
— Se lutarmos juntos existe uma pequena chance, ínfima. Mas ainda não é o suficiente. Se Hades estivesse vivo essa guerra teria algum sentido. Mas Athena o matou no presente e no passado. Ele não voltará tão cedo.
— Mas voltará?
— É claro. Seu corpo ainda está vivo.
— Não me diga que...
— Sim. Por que você acha que deuses escolhem humanos para reencarnar? Nós dividimos nossas almas à cada reencarnação. Se você assassinar Athena, algum descendente de alguma Athena passada dará a luz a uma nova. – Seu olhar voltou-se para o homem que uma vez o enganou e controlou. – Não é tão fácil apagar um Deus da existência, mortal.
— Então lute ao lado de Athena. O humano que guarda a alma de Hades está no exército dela.
— Saia da minha frente, Kanon. Ou eu irei mata-lo.
— Essa é sua resposta?
— Saia.
— Tudo bem. Se você fica satisfeito com isso. Boa sorte. Nós iremos lutar.
E então o homem deu as costas para Poseidon, retirando-se do templo e, em seguida, de seus domínios.
— Kanon de Gêmeos... talvez eu caia na sua lábia mais uma vez. Mas não da forma como você espera.
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