Sagira

19 Capítulo 19 - Reencontro não planejado


Desço da moto e encaro o luminoso no topo da boate velha e fedida.

“Um drinque no inferno”.

Franzo o cenho.

Esses humanos não fazem ideia do que é inferno.

Na minha fase de “tentando ser humana”, era aqui que eu tentava a sorte.

No dinheiro, claro.

No amor eu jamais encontraria sorte.

Bufo e adentro, ignorando o guarda grandalhão que pede minha identidade.

Nem eu sei qual é a minha identidade, por que ele quer saber?

– Sagira Meio-a-Meio! — uma voz conhecida exclama, fingindo surpresa — é uma honra você por aqui.

Encaro o ciclope com nojo e me dirijo rumo às mesas vazias, distanciadas dos homens com mulheres sentadas em seus colos.

– Vai ter um importante hoje — ele vai direto ao ponto — daqui a cinco minutos, o melhor da região.

Nego com um aceno de cabeça.

Lutar só me trará mais lembranças do Duat e do Hades, e é exatamente o que eu quero esquecer.

– Não estou aqui pra isso — resmungo e o empurro para longe.

Me sento em uma das cadeiras espalhadas a esmo e vasculho o lugar com os olhos.

Meus instintos ficam à flor da pele quando Daddy (o ciclope tem sim um nome bem nojento) abre um sorriso banguela.

Daddy nunca sorri mostrando os dentes.

Me levanto a tempo de ver uma horda de monstros gregos adentrarem a boate.

– Filho da mãe — sibilo e arranho seu único olho antes de saltar pelas mesas e escapar pela janela.

Dou de cara com a pessoa que menos gostaria de ver no momento.

E mesmo assim, fico feliz.

Nesse momento, não me lembro da raiva que senti quando soube que ele é pai de Chloe, nem do aversão que possuo por ele ter me maltratado quando nos conhecemos.

As asas dele tremem de agitação, o que demonstra que ele sente o mesmo que eu.

Droga.

– Mas que diabos! — rosno — pare de me seguir!

– Prefere eles? — Tanatos me lança um sorriso debochado e aponta para os monstros que estão se aproximando com o queixo.

Olho para trás e meus instintos me dizem que o verdadeiro perigo não é aquele amontoado de monstros que eu poderia transformar em poeira grega.

Mas sim alguém, infiltrado no meio deles e poderoso o suficiente para esconder a forma, a aura e se quisesse, esconderia a presença. Mas a deixa ali, marcante, assim como o cheiro inconfundível de desafio.

Eu odeio quando me desafiam.

– Sagira — Tanatos puxa meu cotovelo com brutalidade — não tenho mais paciência pra você testar.

Arregalo os olhos quando vejo Tanatos abrir as asas.

Ele as fecha abruptamente, ganhando impulso para sair do chão e logo, elas batem sem parar no ar.

E não sinto mais o chão sob meus pés.

Entro em pânico.

– Me solta! Tanatos, me coloca no chão! — tento mandar, mas minha voz sai chorona e esganiçada.

Tanatos me abraça, impedindo que eu veja qualquer expressão facial vinda dele.

– É só não olhar — ele diz, calmamente.

E afunda meu rosto em seu peito.

Fecho os olhos e aproveito a sensação.

Quero dizer, é só o que eu posso fazer nesse momento.

Além disso, não é como se fosse ruim.

O peito de Tanatos sobe e desce numa risada silenciosa.

– O quê? — pergunto, desconfiada.

– Você está gostando — ele acusa.

Ergo a cabeça, tendo o cuidado de não olhar para baixo nem que seja de relance.

Ele está sorrindo.

Franzo o cenho.

– Você está pirando — reviro os olhos — eu jamais gostaria de algo assim.

Tanatos dá de ombros.

– Se você diz — ele debocha.

Dou-lhe um soco de leve e volto a fechar os olhos, irritada.

– Como foi que me achou afinal? — pergunto, mudando de assunto.

E também tentando me distrair da altura em que nos encontramos.

– Lembra da coleira que seu pai colocou em nós? — ele pergunta.

Franzo o cenho.

O que isso tem a ver?

A coleira já era.

– Lembro — dou de ombros.

– Ela não sumiu — ele diz — Perséfone não estava zombando quando disse que ela se tornaria psíquica.

– O que quer dizer? — pergunto, alarmada.

– Quer dizer que você não pode mais fugir de mim — ele dá um sorriso de lado — eu sempre vou achar você.

“Como se você precisasse disso pra me perseguir”, pensei.

Reviro os olhos e Tanatos ri.

Fecho os olhos com força quando suas asas batem mais forte e logo, param de bater.

Meus pés pousam o chão e uma sensação de alívio e vertigem me atinge.

Me sento e coloco a cabeça entre as pernas.

– Deixe de ser molenga — ele resmunga — Sagira, temos que voltar pro Hades e você deve muitas explicações.

Ergo a cabeça e encaro Tanatos, frustrada.

Eu acabei de chegar.

Sério mesmo que meu pai e ele vão querer me dar sermões?

Solto um gemido de desânimo e me levanto.

Seguro a manga da blusa rasgada de Tanatos — tenho que me lembrar de perguntar o motivo depois — e Viajo.