Saga das Almas- Sonolência dos espíritos
1 Valley Shore
Anos e anos no mesmo colégio, e Gabrielle Travien nunca viu nada de novo... Tirando o incidente de dois anos atrás com sua melhor amiga, quer dizer, ex- melhor amiga... Chloe Mattinson. A amizade delas havia durado anos, mas por causa de Betty, tudo desmoronou em um único boato. Chloe era apaixonada por um garoto na sétima série chamado Daniel, Gabbe apoiava os dois, mas Betty sentia inveja da forte amizade das duas, e resolveu acabar com tudo aquilo. Espalhou um boato falso sobre Gabbe, dizendo que ela também era apaixonada por Daniel e que queria roubá-lo de Chloe, e que até havia beijado ele secretamente várias vezes. Obviamente Chloe acreditou, e então elas brigaram, Gabbe sabia que não tinha culpa de nada, mas se sentiu ofendida por Chloe não acreditar em suas palavras sinceras. E nisso, elas deixaram de se falar. Betty aproveitou a situação, e se tornou a mais nova amiga de Chloe Mattinson.
Estudar no Colégio Valley Shore não era nada divertido se você não fosse como os caras malhados e pegadores, ou as Vadias de minissaia rosa neon, ou os beberrões e traficantes de drogas... Se você é alguém normal, esqueça a opção: Ter uma vida social agitada nesse colégio.
Bom, “os normais”, são as pessoas que não se encaixam no grupo de pessoas socialmente agitadas, e acabam se subdividindo em grupos de: Nerds, depressivos, normaizinhos, Estranhos, Antissociais... Gabrielle Travien, estava mais para antissocial estranha, que virou uma antissocial apaixonada por um Murder...
Era mais uma manhã ensolarada de primavera, todos imploravam por chuva, mas as nuvens tinha praticamente desaparecido do céu... Josh como sempre, fazia mais uma de suas piadinhas pervertidas.
– Ei galera, olhem pelo lado bom, pelo menos vamos ver mais pele feminina esse mês, se é que vocês me entendem... – então Julia rebateu – Ah é? E que tal você sentir um soco feminino na sua cara? – Todos riram.
Gabbe estava incrivelmente atrasada, e isso era muito raro de se acontecer, ela era antissocial, mas suas notas sempre estavam na média, e ela sempre chegava pontualmente, ela nunca havia se atrasado, até aquele dia.
– Alunos, alguém sabe o que aconteceu com Gabrielle para ainda não ter chegado à sala de aula? – Perguntou o professor Nicholas. Mas ninguém soube responder, porque ninguém tinha contato algum com ela, apenas Nicky, sua única melhor amiga, que também não estava lá, pelo fato dela sempre chegar tarde.
Era o dia das primeiras provas, todos estavam um pouco tensos, e alguns estavam com suas apostilas estudando para as avaliações de Inglês e Física. As provas seriam nos últimos horários.
...
Enquanto todos os seus colegas se indagavam com o seu paradeiro estranho, Gabbe estava ainda na rua, correndo desesperada para chegar ao colégio o mais rápido que ela pudesse, ela tinha acordado tarde por ficar estudando até de madrugada; e por causa dessa correria, alguns cachorros de rua avistaram a menina e por algum acaso resolveram correr atrás dela para atacá-la. Logo vendo os cães, Gabbe que já estava desesperada quase teve um ataque cardíaco, correu como nunca em sua vida; toda aquela situação a fez esquecer-se de tudo, esqueceu-se até de que tinha que ir ao colégio, sua vida era muito mais importante! Então ela correu sem pensar, e foi parar num caminho de terra e floresta. Os cães foram atrás dela, suas pernas eram longas e esguias e se moviam rápido. Na correria ela escorregou num barranco baixo, e lá estava ela, num beco sem saída, aquele era o fim de Gabrielle. Ela fechou seus olhos, quase chorando, e esperou por sua morte.
De repente surgiu um calor muito intenso, ouviu-se os cães chorando, ela hesitou em abrir seus olhos, e achou estranho os cachorros não estarem mais rosnando e latindo, ela então abriu seus olhos, que eram negros como a noite, e todos os cães estavam totalmente queimados e mortos aos seus pés. Ela gritou, não sabia o que fazer, como aquilo aconteceu? E se acharem que foi ela que fez isso? Ela estava perdida. Logo se lembrou do colégio, sua roupa estava toda suja de lama, aquele não era o seu dia de sorte. De repente do meio do mato surgia alguém, ela não conseguia enxergar seu rosto, forçava a vista, mas ainda não viu quem era, e ele vinha se aproximando, mais perto, e então ela pôde ver, e aquele rapaz lhe era desconhecido, ela não viu nenhum equipamento para que ele tivesse queimado os cachorros, mas viu suas mãos pegando fogo... Ele olhou para aquela cena desconcertante da garota enlameada, como se quisesse saber se ela estava bem e segura, e foi embora mata adentro.
- Espera... – Murmurou Gabbe, ainda chocada com tudo aquilo, e confusa com as chamas nas mãos do garoto, e o fato delas não queimarem sua pele.
Ficou sentada ali, olhando os cadáveres incinerados, chorou pelos pobres cães, por mais que eles fossem matá-la, ela não era tão fria a ponto de desprezar animais indefesos, eles só estavam agindo por instinto ora... Ela sabia que era impossível, mas, no fundo ela acreditava que o fogo veio sobrenaturalmente daquele garoto que surgira por entre os arbustos lá em cima do barranco.
Ela tinha que se recompor, mas era um tanto improvável, e, além disso, ela estava pouco se lixando para sua aparência naquele momento, tinha que chegar ao colégio para assistir as aulas que ainda lhe restavam e fazer as provas.
Gabbe começou a escalar os cipós que estavam no barranco, ficou um bom tempinho tentando subir, até que conseguiu chegar ao topo.
...
Aquela cena no meio do mato não saiu da cabeça de Gabbe durante seu caminho para o colégio, e quando finalmente chegou, já dá pra imaginar a atenção que ela chamou... Estava realmente atrasada, chegou na hora do intervalo, o horário que os alunos de Valley Shore se reuniam em todos os lugares... Olhares perturbadores cercavam Gabrielle, risadas, piadas mórbidas, dedos apontando para aquela aberração antissocial toda suja de lama visivelmente descabelada e com os sapatos sujos de cinzas de cachorro morto. O pior dia da vida dela com certeza, mas na mente de Gabbe, dias piores virão, com certeza.
Nicky já havia chegado ao colégio há muito tempo, estava deslocada na sala de aula sem sua companhia. Enquanto rabiscava a mesa no tédio da solidão, Sarah e Jason vieram em sua direção contar sobre a chegada extremamente chamativa de Gabbe.
Logo após saber da notícia de que sua melhor amiga estava toda derrotada em direção ao banheiro ela não sabia se ficava feliz por Gabbe ter vindo ao colégio, ou se ficava preocupada pelo estado decadente dela. Não tinha tempo para pensar nesses pequenos detalhes, dividiu seus sentimentos, pegou seu “arsenal feminino” e correu pra lá, como dever obrigatório de melhor amiga.
-Meu Deus! Por que esse colégio tem tantos banheiros para garotas? – Nicky corria com sua bolsa na mão percorrendo cada toalete, à procura de Gabbe para salvá-la.
Ela se aproximava do último banheiro que ela não havia checado, chegando lá, só dava pra ver uma roda de garotas (as vadias de minissaia provavelmente) caçoando alguém, Nicky se apertou entre as peruas, e viu sua amiga encolhida no meio delas, sendo totalmente menosprezada, sua baixa autoestima já estava abaixo de zero.
Nicky logo a protegeu e agarrou sua mão, levantando-a, e a puxou para dentro de um banheiro, travou a tranca, abaixou a tampa do vaso sanitário e sentou Gabbe nele, ouviu as garotas indo embora, conferiu se estava tudo vazio, e começou aquele interrogatório rápido para ter uma ideia do que estava acontecendo.
- Gabbe! O que aconteceu com você?- ela se agachou para olhar o rosto cabisbaixo de Gabrielle.
-Nicky... Obrigada... – murmurou.
-Só fiz o que devia fazer. Bom, vamos deixar as perguntas de lado, precisamos cuidar dessa sujeira toda!- Nicky se levantou e abriu a porta, puxou Gabbe para fora do sanitário.
-Tira essa roupa, vamos lavar isso, me ajuda a limpar suas pernas. — Ordenou Nicky com um tom de “aumentadora de autoestima”.
Gabbe obedeceu ao pedido de sua amiga, Nicky esfregou as roupas na pia com sabonete de lavar as mãos, e secou no secador da parede.
-Tivemos sorte de ter esse secador no banheiro do colégio, o ar quente vai secar isso aqui num minuto!- Nicky estava animada, por ajudar sua melhor amiga, e sentiu Gabbe se animando junto com ela.
Gabbe estava limpando sua pele, estava quase acabando; algumas garotas entravam e saíam do banheiro, observavam a situação, mas não comentavam nada claramente, mas dava pra perceber o olhar de admiração que elas direcionavam à Nicky, uma amiga como aquela não se encontrava em qualquer planeta.
O intervalo acabou bem a tempo das duas acabarem a ‘operação limpar Gabrielle’, e voltaram à sala de aula, vitoriosas. Mas no fundo Gabbe estava muito confusa com tudo aquilo.
Gabbe passou o resto da aula explicando sobre o acidente com os cães, sobre a queda no barranco, seu “Quase fim”, os cachorros queimados misteriosamente, o garoto misterioso que aparecera por entre os arbustos, sua escalada de volta ao colégio... Só não contou do detalhe das mãos flamejantes.
- Tive sorte das provas serem nas últimas aulas, acho que não vou ter problemas. – realmente, Gabbe teve muita sorte.
Todos fizeram as provas e tudo ficou um pouco menos tenso depois disso.
Todos continuaram fazendo piada o resto do dia, mas Gabbe não se importava muito com isso.
...
No caminho pra casa, Gabbe se despediu de Nicky que seguia uma rota diferente para a casa dela. Naquele pedaço que faltava para sua residência, Gabbe estava muito pensativa... A rua estava consideravelmente vazia, o silêncio era notável.
Ela caminhava , estava um pouco distraída, quando um vulto de alguém passou em sua frente, ela logo se assustou, achou que fosse algo de sua imaginação, e continuou andando, mas estava desconfiada e alerta. Mais à frente viu o vulto novamente, e sentiu algo tocar em seu braço. Aquilo não era ilusão! Era real! Mas o que era aquilo? Era do bem? Era do mal? Era o garoto da floresta? Dúvidas... Muitas dúvidas...
De repente, uma mulher lhe apareceu em sua frente, e bloqueou sua passagem, com um sorriso maléfico, e um olhar nada amigável.
- Hmm... Estou curiosa, muito curiosa... – a mulher se aproximou de Gabbe, mexeu em uma mecha de seu cabelo agilmente, ela era muito veloz. – Como se livrou de meus cãezinhos? Você não me parece forte para dar conta de 5 cães sozinha... – continuou.
- Foi você? Por quê? – Gabbe estava muito assustada, tremia de medo, pressentia que poderia morrer a qualquer instante.
- Você é uma pedra no sapato sabia garotinha? As almas entraram em conflito apenas por sua causa! – A mulher se afastou alguns centímetros, e fechou os olhos, ela parecia meditar, e um brilho esverdeado começou a surgir ao redor dela, e cobras começaram a aparecer de dentro dos arbustos dos jardins, em direção à Gabbe.
Não havia escapatória. Novamente, era seu fim definitivo.
Uma flecha feita de fogo veio do nada e passou de raspão no braço daquela mulher, que logo sentiu a pele se queimar. Imediatamente as cobras saíram do ‘transe’ e retornaram aos seus arbustos rapidamente, a mulher agarrou sua ferida e se virou para Gabbe.
- Melhor não se esquecer de mim! Eu me chamo... Lana!- e numa fração de segundos ela sumiu.
-QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO COMIGO? POR QUE ESSAS COISAS ESTRANHAS ESTÃO ACONTECENDO COMIGO?! – Gabbe entrou num estado de loucura controlada, ela tinha razão... Por que estariam querendo mata-la? Por que ela era motivo de “conflito das Almas”? ela voltou pra casa com a cabeça praticamente estourando.
- Gabrielle Travien! Eu recebi uma ligação do seu colégio, dizendo que você chegou terrivelmente atrasada! O que você estava fazendo que não chegou na hora?-Martha Travien, a mãe de Gabbe, estava irritada, e com razão.
-Mãe, eu posso explicar... – Gabbe, realmente estava cheia de problemas agora, ela não se lembrava de que sua mãe pudesse saber de seu atraso. – Eu estava indo ao colégio, e um monte de cachorros ferozes correram atrás de mim, eu quase morri!- tentou argumentar.
- Não tem uma desculpa menos esfarrapada não Gabrielle?- Sua mãe não acreditou numa só palavra.
- Mãe, eu tive que correr muito, entrei numa mata, caí num barranco, e eu quase morri! Olha, minha roupa está com manchas de terra, e minha calça rasgou, meu joelho está machucado, quais provas você quer que eu te dê?- Gabbe já estava nervosa.
- E como você “sobreviveu”?
-Bem... Alguém apareceu e espantou os cães. — aquela frase mais parecia uma mentira.
-Hm, digamos que eu vou fingir que engoli essa sua explicação. Agora, tire essas roupas, e vá para o banho. Como foram as provas?-finalizou sua mãe.
-Acho que fui bem! – gritou Gabbe correndo em direção à escada para o seu quarto.
-Hoje o dia não fez sentido nenhum!- pensou Gabbe, se jogando em sua cama desarrumada.
Uma confusão daquelas jamais acontecera em sua vida parada, as palavras de Lana martelavam em sua mente, como assim uma pedra no sapato? Ela não fazia mal a ninguém, não se envolvia com muitas pessoas, era realmente confuso... e de onde saiu aquela flecha de fogo? Tudo o que veio em sua mente foi o garoto que a salvou na floresta mais cedo, será que ele estaria a protegendo? Tudo o que ela precisava era de respostas.
Notas finais
Boa leitura!
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