Rafa ouvia os gritos da Beta soarem pela floresta enquanto avaliava o Lobo gigante na sua frente mudar de forma. No lugar das patas da frente, se criaram braços. No lugar da pelugem loira, a pele com bronzeado pálido. O dorso do Lobo deu lugar a costas nuas e humanas sujas de folhas.

Era Fernando.

Essa informação penetrava no cérebro de Rafa enquanto ele o garoto se virava para olha-lo nos olhos, com uma expressão que ia além de pânico. Ao mesmo tempo, com o sol jogando feixes de luz do céu, outra informação chegava rápido ao cérebro de Rafa: O tal segredo.

Agora ele pode se lembrar de todas as vezes que Fernando esteve ausente. No dia em que eles se conheceram, depois de Rafa desmaiar com o surto de poder que nem sabia que tinha; depois que Rafa tinha voltado para Vallywood, quando Andressa e Edu apareceram sozinhos no estacionamento e naquele dia da festa mesmo.

Todos aqueles momentos, agora Rafa conseguia se lembrar, em instantes antes do dia chegar ao fim, Fernando ficava nervoso e estranho, mais do que o comum. E agora Rafa sabia seu segredo... Ele era um lobo... Não, um Lobisomem.

O guincho de Andressa o fez acordar do transe:

– Pessoal! – ela se debatia contra a fera que ela e Edu lutavam para domar. – Não é por nada não, mas podem dar uma mãozinha aqui?

Fernando e Rafa se olharam uma vez antes de se virarem, hesitantes. Eduardo segurava a canina pela barriga, puxando-a para ele toda vez que ela tentava ir para frente. Andressa tentava conter seus braços, tentando desviar de suas garras propensas.

Se Rafa tivesse conhecido aquela garota antes, teria indicado uma manicure, ou uma raspagem completa mesmo.

Enquanto os dois se aproximavam da bagunça, observaram impotentes enquanto a Loba pegava o cabelo de Andressa e o puxava, fazendo a garota se contorcer.

– MAS QUE DROGA! – Andressa gritou. – PENSEI QUE LOBOS APENAS MORDESSEM!

Não gostando muito do comentário, a Loba de olhos dourados e incontrolável jogou Andressa na grama. Fernando foi até a amiga.

– Estou bem! – ela grunhiu para ele, não parecendo muito afetada com a total nudez do parceiro.

Surpreendendo a Rafa, a Loba ainda se debatia sozinha contra Edu, tentando alcançar o rosto dele. Andressa se levantou de novo, pronta para uma revanche, mas ela foi mais rápida ao conseguir derrubar Eduardo, o fazendo cair de costas, e investir contra Andressa novamente.

Enquanto ambos gemiam na grama, a fera se aproximou de Rafa, exibindo as presas em ameaça total. Impotente e desarmado – em todos os sentidos – Fernando circulava os dois.

– Ei, calma – Rafa ofegou, olhando a garota desconhecida nos olhos. Parecia ser da idade dele, mas as olheiras fundas e a sujeira no cabelo loiro complicavam a suposição. – Ei, eu não vou te machucar – ele ergueu os braços, em sinal de paz.

Os olhos dourados da Loba percorriam tudo com total rapidez, olhando para os braços de Rafa e depois dentro dos seus olhos. Mesmo com as garras expostas, parecia assustada e afetada.

– Eu não vou te machucar – Rafa disse novamente, tentando respirar calmamente. – Eu não vou te machucar.

A Loba parecia querer acreditar, mas então um movimento brusco de Fernando fez com que ela virasse a cabeça e rugisse para ele. Por reflexo, Rafa foi para frente, a fim de não deixa-la chegar perto dele, mas então ela avançou nele.

Nos primeiros segundos ela nada fez, só ficou ofegando perto dele, mas então se agachou de forma inadequada e o arranhou em alguma área do pé.

Rafa ofegou de dor e se dobrou nos joelhos. Ela tinha acertado seu calcanhar.

Edu e Dessa tinham levantado de novo, mas agora a Loba já corria novamente pela floresta, dando saltos maiores do que a última vez e deixando folhas caírem por onde tinha passado.

Rafa escutou um baque atrás dele e viu Andressa socar furiosamente o chão, com raiva. Eduardo espelhava o ódio passando as mãos no cabelo escuro com fúria. E Fernando agora colocava as mãos na cintura, parecendo naturalmente estressado – e não despido.

Ele notou o olhar de Rafa e este – por sua vez – desviou os olhos na hora, sentindo um rubor cobrir todo o rosto.

– Puta merda! – Andressa gritava.

– É – Rafa não espelhava seu tom de voz. – Puta merda mesmo.

***

– Eu tinha tudo sob controle! – gritava Andressa, furiosa.

– Ah, tinha?! Ela praticamente pegou você pelo cabelo! – Eduardo gritava de volta, parecendo estar no mesmo clima.

Eles tinham voltado para o jardim da casa de Rafa e, durante todo o caminho, foram obrigados ao ouvir a discussão. Andressa defendia que podia ter dado conta da Loba sozinha e, Eduardo, perdendo toda a calma, pela primeira vez, parecia teimar que a culpa era dela.

Mas mesmo com toda aquela gritaria que podia acordar a cidade inteira de Vallywood, Rafa não conseguia se concentrar um segundo neles. Porque olhava Fernando. O loiro parecia completamente à vontade ao andar com as partes intimas expostas, o rosto com a mesma expressão séria e franzida de sempre.

Mesmo ciente de que ele notava seu olhar e, por muitas das vezes, tropeçando nos próprios pés, Rafa não conseguia deixar de olhar para ele por todo o caminho. Parecia que toda a circulação de seu cérebro tinha ido dar uma volta em toda a La Iglesia e não voltaria tão cedo.

Agora de volta ao carro, Fernando tinha pegado umas roupas no porta-malas e já tinha vestido uma cueca cinza boxer e uma calça jeans escura. Enquanto se demorava em colocar a camiseta azul, lançou um olhar de esguelha para Rafa e franziu o cenho.

– Algum problema? – perguntou, falando pela primeira vez naquele dia.

Rafa piscou.

– Hum, nada – ele desviou o olhar de seu dorso musculoso, tentando agora focar no debate que se seguia na frente deles.

– Se você não estivesse tão preocupada com esse seu cabelo perfeito, talvez ela não tivesse fugido! – Eduardo acusava, os braços cruzados na frente do peito.

– Como é? – Andressa guinchou. – Agora a culpa é minha? Se você estivesse em forma, como sempre diz que esta, ela não teria fugido, e eu talvez...

– Você quer falar de forma, hein? – Edu riu, com ironia. – Não era você que a quase um minuto atrás estava deitada de porre!?

– Eu não estava bêbada! – Andressa apertou os olhos. – Eu apenas dormi, cansada de ficar esperando por você pra fazer as coisas!

Os olhos escuros de Eduardo ficaram vazios.

– E isso é desculpa pra você dormir com alguém normal?

Agora era a vez de Andressa reagir. Seu rosto ficou pálido de choque, seus olhos ficaram mais arregalados que o comum. Rafa se lembrou do jeito como ela dormia, inofensiva, na cama dele – com o melhor amigo dele.

– Aquilo... – ela hesitou, avaliando o rosto de Edu. – Aquilo não foi nada.

Eduardo agora tinha uma expressão contida, os braços na frente do corpo apertados como aço. Ele desviou os olhos dela e pegou a chave de carros do bolso.

– Tem razão – ele começou a andar na direção do carro. – Aquilo não foi nada.

Rafa ergueu a mão, com medo de Andressa que o encarava mortalmente. Ela parecia ter descoberto que ele tinha mentido lá dentro, sobre o Edu não ter visto nada.

– Não querendo me intrometer na discussão de casal – ele falou, num tom peculiar. – Mas será que podemos nos concentrar na Loba?

Andressa revirou os olhos, mas Fernando assentiu.

– Ele tem razão – ele concordou. –Érika fugiu de novo, temos que ir atrás dela, seguir o rastro enquanto ainda dá tempo.

– Érika? – Rafa guinchou. – Você... Você conhece ela?

Eduardo revirou os olhos.

– Na verdade, eu conheço – ele corrigiu. – Antes de começarmos a ir atrás dela, eu chequei os documentos escolares.

– Documentos? – Rafa perdeu o ar. – Esta me dizendo que aquela coisa estuda na minha escola?

– Por que será que não me surpreendo de você não ter percebido ela antes? – Andressa murmurou, mas então desviou os olhos. – Vamos atrás dela. Caçamos a vadia e depois matamos ela.

– Não podemos – Fernando balançou a cabeça.

– Por quê? – Andressa quem perguntou, mas Rafa também o olhou, querendo saber.

– Porque eu tenho uma séria suspeita de que Carla a mordeu.

Mesmo já ciente da noticia, Rafa reagiu da mesma maneira, os braços tremendo. Só de pensar em Carla, baixa, morena e com os olhos vermelhos, avançando em Érika.

Eduardo cuspiu uma vez no chão, balançando a cabeça.

– Não vale de nada ela ser a Beta dela – seu tom era frio. – Se ela não esta aqui para controla-la. Nós temos que mata-la.

Rafa conseguiu ouvir Fernando engolir em seco e, ao olhar sua expressão de dor, não conseguiu mais deixar de segurar:

– Então você é um lobisomem?

Fernando o encarou, a testa franzida como se ele estivesse deduzindo se Rafa era louco.

– Não temos tempo pra isso – Andressa e Edu já estavam entrando no carro, sentando na frente do carro, mesmo com a evidente tensão entre os dois. – Temos que seguir o rastro da Érika antes que ele suma.

Fernando deu de ombros para Rafa e entrou no carro, no banco de trás. Lançou a ele um olhar de “você vem?” e Rafa não conseguiu deixar de seguir ele para dentro do carro.

Vick acordou com um barulho estranho vindo da cozinha. Enquanto se espreguiçava no sofá, notou sua amiga, Camila Alves, acordar junto com ela. As duas se encararam, olhando para as roupas de uma e de outra.

– Eu ainda estou vestida – Camila bocejou. – Isso é bom, não é?

Vick estava prestes a responder, mas risadinhas e um barulho de rádio sendo ligado as interromperam. No resto da sala, Roberto e Rodolfo dormiam tranquilamente no carpete.

– Quem esta lá? – Vick sussurrou e apontou com a cabeça para a cozinha.

– Eu não faço ideia – Camila sussurrou de volta.

Mais risadas vieram de lá e Vick desceu do sofá, tocando o chão cheio de copos descartáveis, garrafas, restos de bebida e cigarros. Parecia que um tornado inteiro tinha passado ali.

Ao entrar na cozinha, com Camila pairando atrás dela, as duas estranharam a visão na frente delas.

Rogério, o irmão mais novo de Rafa, e Camila Polli, a amiga delas, estavam abraçados na frente do fogão, parecendo fritar algo enquanto riam e se beijavam.

Vick franziu a testa e Camila arquejou. Os dois se viraram para elas.

– Bom dia flores do dia – Rogério sorriu todo alegre. – Que bom que finalmente acordaram! Café? – ele apontou para a mesa grande da cozinha, onde uma jarra ficava no centro, entre seis pratos de porcelana. Quatro deles já tinham panquecas bem feitas e quentinhas.

O estomago de Camila roncou e Vick deu de ombros para a amiga. As duas arrastaram as cadeiras, entrando na dança. Rogério vestia uma camiseta laranja e um samba-canção, parecendo bem confortável. Camilla Polli vestia apenas um pijama de seda, mas tinha o cabelo castanho-claro bagunçado. Ela procurou um lugar na mesa na frente das garotas.

– Que festa, hein? – ela comentou com as amigas enquanto tomava uma xícara de café.

Vick suspirou.

– Nem me fale – Camila comentou, picotando a panqueca na sua frente. – Eu não faço ideia de onde deixei meu celular.

– Tem sorte de ter perdido seu celular – Rogério disse, atirando um sorriso a outra Camila enquanto tirava uma panqueca da frigideira e colocava em um dos pratos ainda vazios. – Tem gente que perdeu coisa pior.

Camila Polli deu uma risadinha e então levantou os olhos para algo acima da cabeça das amigas.

– Ah, bom dia crianças – ela sorriu para Roberto e Rodolfo que agora entravam na cozinha. – Estão com fome?

Roberto tinha as mesmas roupas de ontem, sem tirar nenhuma, mas a camiseta parecia abarrotada. A camiseta laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE de Rodolfo parecia um pouco molhada – ele ajeitou os óculos na frente do rosto.

– E como – comentou enquanto ia até o fogão e começava a trabalhar em algo com Rogério.

Roberto coçou os olhos e piscou duas vezes para as garotas enquanto se sentava.

– O Rafa ainda não voltou? – perguntou rouco.

– Voltou de onde? – Vick perguntou colocando os dois braços na mesa.

– Na noite passada, no meio da festa, ele teve que sair – ele corou um pouco, parecendo lembrar-se de algo. – Não disse pra onde ia, mas pensei que ia voltar hoje.

– Talvez ele só volte mais tarde – Camila Polli comentou. – Que nem na semana passada.

– Eu vou ligar para ele — Roberto deu de ombros, pegando o celular do bolso. Esperou um tempo, até que o correio de voz respondeu:

– Oi, você ligou para o Rafa. Deixe sinal após o bipe... Ou não deixe, sei lá. E então bipe.

– Ele não atende – Roberto suspirou. – Que tipo de pessoa não atende o próprio celular?

– O mesmo tipo de pessoa que traz três estranhos pra própria festa – comentou Lucas, recostado na soleira da cozinha. – Isso é seu? – ele entregou um celular a Camila Alves.

– É sim – ela suspirou de alivio, mas então franziu o cenho. – Espera, como isso foi parar com você?

– Eu não sei – Lucas resmungou. – Acordei na cama do Rafa e ele estava lá – ele corou, lançando um olhar a Vick.

– Que foi? – a garota questionou.

– Nada – ele pigarreou, ajeitando o short de um pijama que parecia ser de Rafa. – Diogo não ficou até o final da festa?

– E eu lá sei? – ela bufou. – Eu me lembro de ele gritando comigo, depois eu gritando de volta, depois de um cara sarrando nele... depois, mais nada. Eu simplesmente apaguei.

– Sarrando? – Camila Polli repetiu.

– Eu também – Roberto fungou. – Não me lembro de quase nada da noite passada.

– Eu lembro – Rodolfo comentou, do fogão. – Cara, se eu soubesse que você sabia falar uma língua tão estranha, teria pedido sua ajuda para algum trabalho.

Roberto piscou, confuso.

– Trabalho? Língua?

– É, tem um trabalho que...

– Não, de que merda você tá falando? Em que língua eu estava falando?

– Eu não sei bem – Rodolfo franziu o cenho e então apontou para a frigideira de Rogério. – Posso usar? – o garoto fez que não e ele se voltou para Roberto. — Parecia uma língua nova. E ficava repetindo sem parar algo sobre “La Loba”.

Roberto corou enquanto todos na mesa o encaravam.

– Eu provavelmente devia estar bêbado – ele suspirou, pegando uma xicara de café e tentando ligar para Rafa de novo.

– Provavelmente todos deviam estar – Camila Alves concordou. – Ei, Lucas, onde você estava?

– É – Vick comentou, pensando nisso também. – Acordamos e não te vimos na sala.

O garoto engoliu em seco enquanto encarava as duas de volta.

– No quarto do Rafa – ele respondeu levemente.

– E como foi parar lá? – Vick questionou.

– Não lembro – ele respondeu rápido demais.

– Não se lembra? – Camila riu. – Então o Rafa subiu com você, foi isso?

– Não foi nada disso – ele corou.

– Não foi mesmo – Roberto se intrometeu, sério. – Eu fiquei com o Rafa o resto da festa inteira antes de ele sair.

– Ficou é? Fazendo o que? — Vick caçoou.

Mas Roberto apenas a encarou gelidamente.

– Não te diz respeito.

Os outros na mesa deram risadinhas, mas Vick pensou ter captado alguma irritação por trás da frase. Deu de ombros, se virando para os outros.

– Então o Rafa sumiu com seus novos amigos. Alguém tem uma novidade?

– Eu tenho – Rodolfo ergueu a mão e se virou para Rogério. – Sabia que se você colocar mel antes de fritar a panqueca, ela fica com mel por dentro? Não tipo por cima, mas por dentro mesmo, substituindo a massa toda.

– Rodolfo, por favor – Vick grunhiu.

– Não, deixa ele – Rogério piscou, surpreso. – Prossiga, parceiro. – E então os dois se viraram para a frigideira, concentrados na receita, parecendo dois borrões laranja.

– Eu acho que o Rafa deve algo a eles – Lucas comentou.

– De novo com isso? – Vick revirou os olhos. – Eles são só novos amigos.

– Não são não, o Rafa nos trocou por eles – Lucas comeu um pedaço da panqueca. – Ele mudou.

– As pessoas não mudam, só ficam diferentes – Camila Polli rebateu.

Lucas levantou a cabeça.

– Andressa disse a mesma coisa.

– Quando foi que falou com a Andressa? – Camila Alves questionou e então se lembrou. – Ah, é, eu vi vocês dois dançando.

– Só estávamos conversando – ele murmurou.

– Pensei que não gostasse dela – Vick disse em um tom mais alto.

Lucas apenas a encarou, os olhos brilhantes.

– Eu nunca disse isso.

– Mas que deu a entender, deu – ela retrucou.

Camila apartou os dois, movendo as mãos no ar.

– Que seja, gente. E daí se o Rafa for ou não amigo deles. Isso não muda nada.

– É, o Rafa continua o mesmo – a outra Camila concordou. – Ele provavelmente deve estar se pegando com aquele loiro.

– Não esta não – Roberto sibilou e todos o encararam. – Eu acho – ele desviou o olhar.

– Eu só sei de uma coisa – Rogério voltou à mesa, com Rodolfo ao lado. – Uma é que essa festa foi épica. E outra é que devíamos promover Rodolfo como nosso inventor de receita para panquecas daqui por diante.

– Aprovado – Rodolfo bateu na mão do novo amigo.

– Nisso eu tenho que concordar – Lucas sorriu. – Foi uma festa épica.

– Talvez para você – Vick fuzilou os olhos.

Lucas desfez o sorriso.

– O que quer dizer com isso? – perguntou, tenso.

– Nada, eu só estava curtindo uma com a sua cara – ela rebateu confusa. – O que deu em você hoje? Parece diferente.

– Diferente? – ele repetiu. – Diferente como?

– Sei lá, diferente – Vick deu de ombros. – Como se não sorrisse a dias.

Lucas sorriu em resposta e lançou um olhar enigmático pela janela.

– É, acho que sim.

O carro de Eduardo parou no Vallywood Bear, o bar oficial de Vallywood. A construção era de madeira resistente, e tinha telhas vermelhas. Em um janelão bem na frente, três mesas eram visíveis, onde pessoas tomavam café ou comiam croissant. Do lado de fora também havia duas mesas, ambas vermelhas.

Do outro lado da rua, Rafa e o Pack desciam do carro. Eduardo cauteloso, com os olhos estudando o terreno. Andressa felina, a agulha fiel na palma da mão. Fernando contido, o corpo retesado e a expressão vazia.

Rafa apenas o observou, vendo o quanto pareciam sincronizados, e teve que admitir que sentia inveja disso.

– Guarda isso – Eduardo reclamou com Andressa. Ela o olhou com alarme, mas não guardou nada.

– E perder uma chance de me vingar da cachorra? – ela riu. – Sem essa.

Fernando revirou os olhos e eles decidiram entrar no bar, avaliando os clientes. Uma loura se sentava no canto de uma mesa, lendo uma revista. Um careca mexia em seu Blackberry. Um garoto negro e seu avô provavam uma sopa, o olho do garoto resignado, o avô com uma voz inexpressiva.

Assim que eles passaram pelas portas duplas, uma hostess morena pulou do balcão, sorrindo de orelha a orelha enquanto mascava um chiclete – se é que era chiclete.

– Boa tarde, posso arranjar algo pra vocês? – perguntou ela, parecendo saber que eles eram de menores, mas oferecendo mesmo assim.

– Não exatamente – Eduardo respondeu e encarou a garota de jeito decisivo. – Nós estamos procurando uma pessoa.

– Temos várias pessoas aqui – a hostess declarou, olhando para o bando de amigas do outro lado do balcão que avaliavam Edu e Fernando com olhares lascivos.

Andressa pigarreou, com a agulha ainda na mão.

– Não esse tipo de pessoa – ela corrigiu. – Uma garota. Loira, de cabelo bagunçado. Um pouco louca, sabe.

O sorriso da hostess se desfez enquanto olhava Andressa de cima a baixo.

– Muitas loiras entram aqui – ela tocava o cabelo enquanto falava. – Mas hoje... Hum, não que eu me lembre. Eu acho.

– Acha? – Andressa questionou.

– Nenhuma mesmo? – Rafa implorou. – Uma com roupas rasgadas, de olhos meio... Estranhos? Nada assim?

A garota parecia sincera ao pensar na resposta.

– Olha, eu me lembro de uma loura – ela assentiu. – Mas ela não tinha roupas rasgadas nem nada. Estava bem vestida e usava botas pretas. Que nem essa aí – ela apontou para Andressa.

Rafa trocou um olhar com Fernando.

– Ela teve tempo de se trocar? – ele murmurou.

– Eu não dirijo tão devagar – Eduardo retrucou e então se virou para a morena. – Obrigado pela informação, não queremos mais nada.

A garota se demorou com um olhar para ele, mas Andressa tombou a cabeça de lado e ela se afastou, pegando uma prancheta no caminho até o balcão.

– Não pode ser a Érika – Andressa se virou para os amigos. – Ela parecia acabada na floresta – ela então olhou para baixo. – E essas botas são da última coleção.

– A não ser que ela esteja se escondendo em algum lugar – Fernando sugeriu, em um tom misterioso. – Vai ver ela guardou roupas para esse tipo de momento.

– Que tipo de momento? – Rafa questionou.

– A transformação – Eduardo respondeu. – Betas não conseguem controlar a transformação em noite de Lua Cheia.

– Ontem foi Lua Cheia? – Rafa murmurou para si mesmo. – E agora, o que vamos fazer?

– Vamos procurar por ela, bater em porta em porta...

– Ah, vai ser engraçado – Fernando riu. – Bom dia, dona, você viu uma Loba Loira por ai? Ela tem olhos dourados e parece que nunca cortas as unhas? Tem Whatsapp? Me manda algo se ver ela por aí...

– Não tem graça – Eduardo cortou. – Temos que encontrar Érika, antes que ela encontre um inocente.

– Com licença, jovem? – os quatro se viraram para a voz. O velho com o garoto estava de pé, se inclinando na direção dele. – Você disse... Olhos dourados?

– Vovô, qual é – o garoto começou a puxar o velho pelo braço, mas este apenas o soltou. – Não liguem pra ele – o garoto acrescentou, lançando um olhar de vergonha para eles.

– Sim, disse – Fernando respondeu, ignorando o garoto ao invés. – Por quê?

Os olhos do velho eram inexpressíveis.

– Ela tinha olhos dourados... – ele começou a falar de um jeito esquisito. — Ela tinha olhos dourados.

– Quem tinha olhos dourados? – Eduardo perguntou.

– Ela tinha olhos dourados – o velho ignorou a pergunta. – Ela tinha olhos dourados.

Andressa olhou para o velho como se ele fosse louco, Rafa observou o neto do mais velho revirar os olhos.

– Quem tinha olhos dourados? – perguntou Fernando impaciente.

– ELA TINHA OLHOS DOURADOS – o velho de repente gritou, fazendo os garotos pularem e Andressa levantar sua agulha com rapidez. – ELA TINHA OLHOS DOURADOS.

Fernando continuou encarando o velho inexpressivamente enquanto o neto segurava o velho pelo ombro e tentava fazê-lo se voltar para a mesa.

– Vovô, qual é, para com isso – ele pedia, o rosto dolorido. – Por favor, vovô. Desculpem-me – ele se dirigiu à loira e ao careca que estavam olhando.

– De quem ele esta falando? – Eduardo perguntou ao garoto. – Quem é essa garota de olhos dourados?

– Ele provavelmente esta alucinando de novo – o garoto suspirou, mas então franziu o cenho. – Se bem que...

– Ela tinha olhos dourados – o velho o interrompeu. – Ela tinha olhos dourados e não parava de falar sobre uma esfinge.

– Se bem que o que? – Andressa o estimulou.

– Se bem que nós vimos uma garota de cabelo loiro – o garoto respondeu, se lembrando. – Ela entrou em um depósito, algumas quadras daqui, depois de um supermercado.

– E ela tinha olhos dourados? – Rafa questionou.

O garoto bufou.

– Quem diabos têm olhos dourados?

Os quatro se encararam em conspiração.

– Muito obrigado pela sua ajuda – Edu agradeceu ao garoto.

– Ela tem olhos dourados – o velho agora tinha pegado Eduardo pela jaqueta. – Ela tem olhos dourados, e todo mundo sabe disso. Até a morena.

Todos olharam para Andressa, mas ela apenas franziu a testa.

– Ele é louco – o garoto explicou. – Vamos vovô, os deixe em paz.

– Não! – o velho olhou o garoto com nojo. – Ela tem olhos dourados, ela tem olhos dourados...

Ele começou a murmurar para si mesmo enquanto se dobrava nos joelhos e chorava. Rafa encarou com pena o neto frustrado que encarava as pessoas no local.

E então, com um surto esquisito de vontade, Rafa se agachou ao lado do velho e o olhou nos olhos.

– Ei – ele o chamou em uma voz suave e o velho levantou a cabeça. – Nós já entendemos tá legal? Ela tem olhos dourados.

O velho arregalou os olhos para ele e por um segundo ficou sem a fala. Rafa se remexeu nervoso, mas então o velho parou de chorar e sorriu para ele, parecendo agradecido.

– Garoto esquisito – o velho riu. – Quem diabos têm olhos dourados?

Rafa franziu o cenho, mas então se levantou com um sorrisinho discreto.

– Como fez isso? – Fernando o encarou.

– Eu não sei – Rafa deu de ombros, se sentindo um pouco tonto. – Vamos? – ele indicou a porta e o grupo começou a andar, enquanto o velho ficava no chão e encarava Rafa com admiração.

Lá fora, o celular de Rafa vibrou em seu bolso. Ele o pegou e deslizou a tela para ver. ROBERTO CHAMANDO, informava a tela do celular.

O estomago de Rafa se revirou e sua respiração ficou um pouco entrecortada.

– Quem é? – Andressa perguntou, olhando por sobre o ombro dele, sem se importar em parecer xereta.

– Um amigo – ele respondeu enquanto deslizava para IGNORAR. – Eu acho.

– Acha? – Andressa questionou alto.

Rafa revirou os olhos em resposta e ela começou a rir. Ele a acompanhou, um pouco alegre, mas então olhou para cima e viu o olhar de Fernando em cima dele, parecendo incomodado.

Mas Fernando, como sempre, assim que notou o olhar dele, desviou rudemente.

Os garotos terminaram de limpar toda a cozinha, passando as mãos no rosto ao terminarem. Rodolfo deixou a vassoura no canto. Roberto secou as mãos com pano de prato. Lucas recolheu um copo descartável e o atirou no saco de lixo.

– Pronto – ele sorriu, colocando a camiseta no ombro.

– Acabamos – Roberto sorriu, espalmando as mãos.

– É – Rodolfo assentiu. – Agora, não seria maneiro se um terremoto acontecesse e tipo, desarrumasse tudo de novo?

Lucas e Roberto fizeram cara de paisagem para ele.

– Não – Lucas bufou.

Roberto apenas balançou a cabeça.

– Vocês são um porre – Rodolfo gemeu. – Ao menos tiveram participação nessa bagunça toda?

– Eu tive – Roberto admitiu. – Deixei meu copo cair... Mas nem queria beber, sabe.

– Eu não fiz muita – Lucas corou.

– Não? – Rodolfo questionou. – E como foi que você foi parar na cama de um dos Capoci?

– Tá legal, essa brincadeira perdeu a graça – ele rebateu. – Não foi com o Rafa que eu acabei indo pra cama.

– Então com quem foi? – Roberto questionou, erguendo as sobrancelhas.

Lucas corou ainda mais quando Rodolfo fez o mesmo.

– Ninguém de importante – ele murmurou, fingindo limpar uma sujeira invisível da barriga nua.

– Ninguém de importante, sei – Roberto bufou. – Só o fato de você dizer isso já fica bem evidente que foi alguém importante.

– É – Rodolfo concordou. – Vamos lá, podemos contar com quem ficamos e você conta junto.

– Você ficou com alguém? – Roberto questionou Rodolfo.

– Não – ele respondeu e encarou ele de volta. – Mas você ficou. Com o Rafa.

A boca de Roberto fez O enquanto Lucas levava a mão até a boca.

– Puta que pariu – ele riu. – Sério mesmo?

– Ei, como ficou sabendo disso?! – Roberto questionou. – Andou me espionando?!

– Eu não – Rodolfo ajeitou os óculos. – A não ser que você considere espionagem o fato de vocês se beijarem na porta da frente, justo na hora em que eu estava passando por lá.

– Meu Deus – Roberto passou as mãos no rosto. – Alguém mais viu?

– Não sei – Rodolfo deu de ombros. – Eu não sou alguém mais.

Roberto suspirou, enquanto Lucas franzia o cenho.

– Que foi, cara? – ele perguntou. – Você não é gay?

– Sou – ele respondeu. – Mas meus pais ainda não sabem disso.

– Não se preocupa o Rafa não vai contar. Ele não é desses.

– Eu não estou preocupado com ele contar – Roberto respondeu, a expressão vazia.

– Você não gosta dele?

– Claro que eu gosto – Roberto suspirou. – Tenho uma queda por ele desde que viramos amigos.

– Caramba – Lucas riu, parecendo emocionado. – Quem diria?

Roberto apertou os olhos para ele.

– Não tente dar uma de espertinho – ele retrucou. – Com quem você dormiu?

– É, não foge do foco – Rodolfo cruzou os braços. – Quem é a dama misteriosa?

Lucas primeiro olhou para Roberto e depois lentamente para Rodolfo.

– Estamos entre amigos – lembrou o nadador. – Quer dizer, um – ele olhou Rodolfo de lado.

– Ei! – Rodolfo começou a protestar. – Eu sou um cara bem...

– Foi com a Andressa.

Rodolfo se interrompeu e ficou mais branco do que nunca – se é que era possível. Roberto piscou várias vezes e ficou surpreso pelo forninho não cair.

– Mentira – Rodolfo balançava a cabeça. – Cara, diz que é mentira.

– Não é – Lucas abaixou a cabeça. – Não é.

– Você não pode pegar uma garota como a Andressa – Roberto riu nervosamente. – Uma garota como aquela é que te pega.

– Mas é sério, estávamos dançando e a coisa foi ficando mais quente – ele confessou, dando graças a Deus por as garotas estarem lá em cima, arrumando o quarto. – Eu acho que foi a bebida.

– Só pode ter sido – Rodolfo concordou. – Porque aquela garota é tipo a Izzy de TMI.

Lucas franziu o cenho.

– Que?

– O que é isso? – Roberto questionou.

Rodolfo apenas olhou os dois, parecendo descrente com a evidente ignorância dos dois.

– Eu vou parar de andar com vocês.

Lucas o ignorou.

– Por favor, não contem isso pra ninguém – ele implorou. – Principalmente para o resto das pessoas nessa casa.

– A Vick, você quer dizer – Roberto comentou.

Lucas ficou sem fala, se sentindo repentinamente exposto.

– Eu também já sabia, só pra constar – Rodolfo comentou.

Lucas revirou os olhos e eles começaram a rir alto na cozinha. Sem desconfiar que, bem no corredor que distanciava a sala da cozinha, Camila Polli ouvia toda a conversa.

E não parecendo querer acompanhar a felicidade deles.

– Você gostou da festa de ontem? – Camila Alves perguntou à amiga Vick Melo, assim que elas se sentaram na varanda dos Capoci, aproveitando o clima fresco daquela manhã.

Vick se empoleirou em um degrau da escada enquanto pensava em responder.

– Gostei – ela respondeu, depois de um tempo. – Por quê?

– Por nada – Camila revirou os olhos e se inclinou para outra pergunta. – Você não quis ficar até o final?

Vick demorou ainda mais tempo para poder responder a pergunta da amiga.

– Claro que quis – ela olhou a casa em sugestão. – Eu fiquei aqui, não fiquei?

– Eu só perguntei – Camila deu de ombros, parecendo afetada.

– E posso saber de onde veio essa disposição de me interrogar? – a outra questionou.

– Vick, relaxa – a amiga sorriu. – Eu só estava perguntando mesmo. É que você não parecia muito ligada na festa ontem.

Em resposta a isso, Vick apenas desviou os olhos para o jardim dos Capoci, com inveja de um dos gnomos de jardim. Ela nunca teve gnomos de jardim.

– Amiga, se eu te perguntar, você confirma? – Camila insistiu em seu ouvido e Vick não pode deixar de apenas esperar. – Mas... Isso é tudo por causa do Diogo?

O ar de Vick saiu entrecortado e ela não precisava ser vidente para saber que a amiga tinha dado aquilo como um sim. Se ela soubesse a verdade. Se soubesse o quanto Diogo não tinha nada a ver com aquilo.

Mas ela não sabe, Vick se lembrou rapidamente, invocando a imagem de Rafa na mente. Ela tinha prometido... Ela tinha prometido não contar nada a ninguém.

– Sim – ela suspirou, sentindo os olhos brilharem. – É tudo culpa dele sim – ela tentou soar magoada, mas pareceu mais como se estivesse com tédio.

– Eu sei, ele é um babaca, né? – Camila parecia ter caído. – Mas Vick, você sabe que não é obrigada a suportar isso, não sabe? Apenas ligue o foda-se e diga a ele...

– Não – Vick a interrompeu, prevendo o que ela ia sugerir. – Eu não vou terminar com ele.

– E por que não?! – Camila grunhiu, indignada. – Ele só te faz mal!

– Eu sei o que ele faz – Vick engoliu a bile. – Mas... – ela se forçou para colocar as palavras para fora. – Mas ele quem eu quero... É ele quem eu quero Cami.

Mas Cami não parecia acreditar no que ouvia e Vick podia ver que ela se esforçava para tentar arranjar um motivo para estar certa – e Vick não pode deixar de torcer contra. Se Camila descobrisse que ela estava mentindo, que ela na verdade não sentia nada por Diogo, as coisas poderiam ficar delicadas.

E Vick não queria isso.

– Sabe aquelas garotas – ela começou, tentando convencer à amiga. — que dizem que gostam mais de alguém quando esse alguém pisa nelas?

Camila apenas esperou, com os olhos castanhos turvos.

– Eu sou esse tipo de pessoa – Vick a olhou nos olhos. – Eu sou esse tipo de pessoa que dá valor a quem não se deve.

Aquilo não passava de um discurso discreto que Vick tinha compilado de um Status de Facebook de alguém, mas pelo jeito como os olhos de Camila brilhavam, ela tinha caído direitinho.

– Ah, amiga – ela a abraçou e Vick aninhou sua cabeça na amiga, aproveitando o ombro amigo. – Eu sinto tanto.

– Eu também – a garganta de Vick secou. – Eu também sinto.

E então um carro entrou derrapando na Rua dos Capoci, invadindo o jardim e parando com as lanternas acesas – em plena luz do dia – na cara das meninas.

Vick primeiro tentou se proteger da luz, mas então reconheceu o capo do Sentra. A porta do motorista se abriu e dela um homem alto, de cabelo escuro, camiseta da mesma cor e calça bege desceu dele.

– Pai? – ela falou alto.

– Vick, entra no carro – ele exigiu, num tom autoritário.

– Mas, pai – ela apenas se levantou, meio atordoada com a presença dele.

– Mas pai nada – ele grunhiu. – Eu quero que você entre no carro e você vai me obedecer!

Vick tentou criar algo em sua defesa, mas então notou um leve movimento no banco do carona do carro. Por trás do vidro, ela reconheceu o cabelo crespo e marrom da madrasta. Parecia estar com o irmão mais novo de Vick no colo e mal olhava para ela, com o queixo gordo cheio de papa curvado para cima.

– Vick, entra no...

– Por quê? – Vick questionou pela primeira vez, não se deixando ignorar i surto de raiva. – O que eu fiz de errado?

– Por quê? – o pai repetiu, atônito.

– Isso mesmo – Vick fincou o pé. – O que eu fiz de errado para você querer me castigar?

– Você estava em uma festa!

– Eu disse que ia nessa festa – ela retrucou. – Eu disse a você a milhões de vezes.

– Mas esqueceu de pedir permissão! – o pai apontou.

– Não esqueci, não – ela balançou a cabeça. – Eu pedi permissão e você disse que sim, várias vezes. Até me ofereceu carona – ela lançou um olhar para o carro onde a madrasta estava. – Que eu recusei educadamente.

– Sim, tudo bem, você esta certa – o pai assentiu.

– Mas...?

– Mas você não me disse que ia dormir aqui, em uma casa cheia de homens!

Vick suspirou, sentindo a conspiração cerca-la. Não importa se ele soubesse que ela tinha namorado, nem sequer se importava se todos os garotos fossem inocentes lá dentro. Seu pai ia continuar implicando com ela, arrumando alguma desculpa para puni-la.

Algo que ele não inventou sozinho, Vick pensou, olhando de esguelha para a madrasta dentro do carro. Ela podia jurar que tinha visto um lado da bochecha dela se erguer em um sorriso.

– Tudo bem, pai, pode me prender – ela ergueu os braços, derrotada.

O pai franziu o cenho, notando uma tristeza na raiva da filha.

– Vick, eu não estou te prendendo, eu...

– Você o que? – ela questionou. – Esta fazendo pro meu bem? Duvido muito.

O pai suspirou e a filha não se suavizou por um segundo. De tempos em tempos – ou melhor, desde que a madrasta tinha surgido em sua vida – eles vinham discutindo mais que o comum. Quando um dizia sim, o outro dizia não. Quando um pedia para parar, o outro teimava em continuar.

E assim se seguia o ciclo até que um dos dois ficasse chateado.

– Pode, por favor, entrar no carro? – o pai pediu mais uma outra vez, parecendo a beira de uma crise.

– Eu tenho escolha? – ela retrucou baixinho, acenando para Camila, desejando que a amiga não ficasse constrangida no dia seguinte por ter presenciado uma briga com o pai dela.

Mas, enquanto Vick entrava no carro com a família mais querida do mundo, duas pessoas estavam longe de ficarem constrangidas ao olhar aquela cena.

Uma em especifica... Até mesmo ria dela.

– Isso foi épico – Taffara riu, se dobrando nos joelhos perto da moita. – Seria trágico se não fosse tão engraçado.

Rael não riu junto e apenas deu a ela um olhar contido.

– Ainda acho que foi errado – ele murmurou cheio de culpa.

Taffara afastou uma mecha do cabelo e o encarou nos olhos.

– Você quer falar de erros? – ela questionou. – Logo você?

O garoto corou com duplicidade das palavras dela e Taffara sorriu tranquilamente.

– Qual é Rael, até mesmo você tem que admitir que ligar para os pais da Vick foi uma ideia genial. E alguém já estava merecendo pagar nessa história toda, ok?

Rael assentiu um pouco, mas então levantou o olhar de jeito alarmado.

– O que quer dizer com isso? – ele questionou. – Você não vai machucar mais ninguém... Vai?

Taffara lançou a ele um olhar frio.

– Eu vou machucar todos – ela declarou, numa voz de aço. – Inclusive o seu amado e odiado Rafa.

– Mas, você disse...

– Eu não disse nada! – ela bufou. – Foi você que ficou chorando na lavanderia e me contando que foi você, e não o Rafa, que acabou com a vida do meu namorado.

Rael abaixou a cabeça, um pouco afetado.

– Eu já pedi desculpas – ele gemeu.

Taffara riu de um jeito nervoso.

– Acha mesmo que desculpas vão consertar alguma coisa? — ela lançou um olhar para casa. – Cada um deles sabia que algo tinha acontecido ao meu namorado... E, se duvidar, sabem mais que eu!

Rael tremeu com o tom da voz dela e sentiu vontade de correr para a casa e gritar para todos os que estavam lá dentro se esconderem.

– Então nada mais justo do que eu arrancar as confissões – ela continuou, se levantando lentamente. – De cada um. E descobrir o que realmente aconteceu nessa história toda.

Rael engoliu em seco enquanto Taffara encarava Camila Alves entrar na casa – inconsciente de que estava sendo observada por uma sociopata.

– Ah, eu também quero saber.

A voz veio detrás dos dois e Taffara se virou para uma mulher jovem de cabelo preto azulado e uniforme de policial, o distintivo amarrado em uma corrente no pescoço que ia até os peitos.

– Eu também quero saber essa história toda – ela olhou de Rael para Taffara. – Podem me acompanhar?

Dessa vez o carro de Eduardo não tinha feito uma viagem muito longa. Algumas quadras a frente do Vallywood Bear e pronto, eles já encontravam em frente ao tal depósito que o garoto de antes havia informado.

A construção parecia acabada em sua cor cinzenta, mas o janelão de vidro no alto parecia bem resistente, sem poeira alguma enquanto refletia a luz do sol neles. A frente do depósito tinha uma porta lateral gigante, mas que estava entreaberta, de forma que cinco ou seis pessoas podiam entrar ao mesmo tempo.

Não demorou muito para eles adentrarem o local, se esforçando para não fazer muito barulho. Afinal, como Eduardo dissera antes, eles estavam lidando com uma Beta, ela podia ouvir a batida do coração deles de longe.

A maior parte do depósito era preenchida por caixas de papelão empilhadas do chão até a altura da janela contrária da janela da frente – que também parecia resistente e nova.

Andressa e Edu foram na frente, tentando avistar algo no local mal iluminado. Rafa e Fernando ficaram para trás; ele olhando a porta lateral, Rafa apenas tremendo no ambiente com frio incomum.

Fernando parou de checar e se virou para o lado e, inconsequentemente, os olhos dele passaram pelos de Rafa – dessa vez, Rafa tentou ser mais rápido antes que ele desviasse o olhar.

– Então – ele murmurou bem baixo, parecendo quase como um sussurro. – Você é um lobisomem.

Fernando franziu a testa para ele, com um olhar que dizia “agora, não”, mas então olhou Edu e Andressa distraídos e atentos antes de responder:

– Não exatamente – ele murmurou de volta.

– Não exatamente? – Rafa repetiu, tentando não deixar a voz ficar alta. – Eu vi você virar de Lobo pra... Você.

Fernando revirou os olhos.

– Isso não quer dizer que eu seja um Lobisomem – ele retrucou. — Nem todos os Lobisomens conseguem se transformar em Lobos.

– Como a Érika, sei – Rafa assentiu. – Mas então, se você não é um Lobo, o que você é?

Fernando girou a adaga nos dedos, decidindo a melhor forma de contar.

– Eu sou um Metamorfo – ele respondeu, os olhos distantes. – Posso me transformar em qualquer animal, criatura ou Besta... Que pelo menos eu já tenha visto.

Rafa ficou surpreso demais para falar, então Fernando prosseguiu.

– Alguns acreditam que nós podemos nos transformar apenas em Lobos, porque nos contos descendemos originalmente deles. Só que isso não é verdade. Ontem à noite eu era um lobo, mas na noite retrasada eu era um cervo.

Rafa piscou, pensando em cervos fofos como o Bambi... E tentou pensar em um Bambi loiro, de olhos verdes, quase perdendo a respiração com a própria imaginação.

– Mas só à noite? – Rafa questionou.

Fernando assentiu sombrio.

– Não me pergunte como ou porque – ele o avisou. – Eu acho que foi algum defeito de fábrica. Anna disse que houveram outros como eu, e nenhum deles precisava esperar anoitecer para se transformar.

Mesmo tendo entendido, Rafa franziu a testa.

– Mas por que você se transforma só à noite? Por que não de dia?

Fernando o olhou como se ele fosse louco.

– Será que não entendeu? – ele perguntou. – Não viu como eu me transformei em mim só quando o sol nasceu? Eu não tenho controle sobre isso.

Rafa agora entendia, apreensivo, com pena do olhar perdido de Fernando.

– Desculpa – ele soltou. – Então... É como uma maldição?

Fernando assentiu, mas gentil.

– Algo assim. De dia eu posso ser eu mesmo, mas quando chega perto da noite meus ossos todos começam a tremer e eu... Quando dou por mim, já estou me transformando.

– E tem como você escolher o que quer ser?

– Mais ou menos – respondeu. – É mais dependente do meu humor. Eu estava caçando a Érika, tentando farejar algo. E, quando o sol se foi, assumi a forma de Lobo.

– E você tinha assumido essa forma antes?

– Só uma vez – os olhos dele se desviaram uma vez. – Mas quase sempre, na maioria das vezes eu me transformo em um corvo.

– Um corvo? – Rafa repetiu e se lembrou de algo. – Espera, naquela noite, no estacionamento... Antes de o Edu e a Dessa chegaram... Era você?!

Fernando deu de ombros.

– Mesmo em forma de animal eu preciso ficar de olho também, não posso ficar me dando ao luxo de ficar me entregando ao instinto e sair voando por ai.

Rafa absorvia aquilo, tomando notas mentais e comparando alguns momentos com outros. O Lobo era loiro, como Fernando, os olhos da mesma cor. O corvo ele não sabia bem, porque ele passara voando bem de relance, mas sabia que se tivesse focado teria visto uma pelugem incomum loira ou olhos azuis ou verdes incomuns.

– Agora pouco você disse que estava sentindo o cheiro da Érika antes de se transformar – Rafa apontou. – Isso significa que você fica com os mesmos sentidos que os animais.

Fernando se balançou nos pés por um segundo, pensando seriamente.

– Pode-se dizer que sim – ele assentiu. – Minha visão fica realmente aguçada, eu escuto melhor também.

– E sem contar as garras – Rafa apontou e Fernando seguiu seu olhar.

– Eu não diria que corta-las adiante – ele se defendeu. – Elas sempre crescem de qualquer forma quando dopamos com alguma coisa.

Rafa compreendeu, mas então algo na frase de Fernando fez a nuca dele se arrepiar de um jeito bem errático.

– Espera... Então quer dizer que...

– Cuidado! – Eduardo deu um disparo em um canto do depósito e acertou uma das caixas empilhadas.

– Que foi? – Rafa ficou imóvel, as mãos coladas ao corpo.

A pergunta dele foi respondida por um borrão loiro que agora estava de pé no topo das caixas. Érika arreganhava as presas para eles, os olhos dourados ganhando força no local mal iluminado.

– Maravilha – Andressa riu e sacou a agulha gigante. – Hora da revanche!

– Dessa – Edu a pegou pela cintura. – Não faça nada de...

– Me larga – ela o empurrou para trás com o cotovelo. – A desgraçada tocou no meu cabelo!

– Andressa, não – Rafa se intrometeu, ficando de frente para a garota ameaçadora.

– Ah, Caubói – ela riu avançando nele. – O que te faz pensar que você é diferente?

– Por favor – Rafa implorou e se virou para Érika. – Nós não vamos te machucar! – ele gritou para a Loba.

Eduardo cutucou Fernando.

– O que ele pensa que esta fazendo?

– Deixa ele – Andressa sibilou, mas continuou perto dele. – Quando ela morde-lo ele vai ver.

– Eu não vou te machucar – Rafa os ignorou e ergueu as duas mãos. – Tá vendo, eu não vou te machucar.

Dessa vez cada um deles fez silencio, enquanto Érika olhava Rafa com um olhar esquisito. Ele se imaginou com uma cabeça de sanduiche de peru – com Érika sendo sua degustadora da noite, decidindo se devorava ou não.

– Seu nome é Érika, não é? – ele perguntou, num tom gentil. – O meu é Rafa. Rafa Capoci.

Érika continuou imóvel, a boca entreaberta.

– Érika, eu não vou te machucar – ele prometeu, juntando as duas mãos. – Eu, Rafa, não vou te machucar. Segundos se passaram enquanto nada acontecia e Andressa e Eduardo começaram a se olhar, esperando a hora do ataque surpresa.

Até que, como se em um milagre, os olhos de Érika escureceram e Rafa pode ver uma cor castanha assumir os globos oculares.

Rafa finalmente sentiu uma chama de esperança enquanto Érika abaixava os braços e fechava aboca. Ia acabar tudo bem, ela acreditava nele.

Porém, uma faixa de fogo atravessou o caminho de Rafa, incendiando todas as caixas de uma vez só, fazendo uma cortina de labaredas entre Érika e ele.

– Érika! – ele gritou para a Loba, que olhava o pandemônio assustada.

– Edu! – Andressa se virou para ele.

Ele apenas a encarou, confuso.

– Não foi ele.

Os quatro se viraram para uma sombra na porta. Uma garota de cabelo preto e corpo esguio e magro começava a andar na direção deles, com passos lentos e pacientes.

– Quem é você? – Fernando questionou.

A garota apenas sorriu e Andressa semicerrou os olhos.

– Leticia? – ela guinchou.

– Nos encontramos de novo, hein? – A Bruxa deu um sorriso de escarnio.

Rafa não se lembrava de Leticia nenhuma, então se virou para Érika... Mas era tarde demais. A janela agora tinha vários cacos de vidro pontudos nas laterais, apontando que ela tinha acabado de fugir.

De novo.

Naquela mesma hora, Taffara e Rael estavam sentados em um dos bancos na Delegacia de Vallywood. Em frente a eles, ficava a mesa de um policial gordo e ruivo, com uma plaquinha informando seu nome. Tenente T. Tyson. Ele não parava de folhear uma revista em quadrinhos enquanto mordiscava um donut.

Taffara se mantinha muito calma, a bolsa no colo, os ombros erguidos em sinal de confiança. Já Rael, por outro lado, roía as unhas e não parava de lançar olhares assustados para cada homem de farda que passava por ele.

Não aguentando mais ver a pressão do garoto, Taffara se inclinou até ele e o cutucou. A reação de Rael foi um salto, que chamou a atenção da maioria dos policias, inclusive a do Tenente T. Tyson.

Dando um olhar mais controlado e controlando a respiração, Rael suspirou para ela.

– Você me matou de susto.

– Percebi – ela assoviou. – Posso saber por que está tão nervoso?

Rael arregalou os olhos para ela.

– Hellooo – ele gesticulou para a sala inteira. – Não faz ideia de onde estamos?

Taffara entendeu o que ele quis dizer, mas o som dos telefones tocando por toda a delegacia e o cheiro de café inundando o ar abafavam qualquer coisa.

– Não gosta de delegacias? – ela perguntou.

– Não quando sou intimado a vir por uma detetive – ele comentou, lançando um olhar para Gabriella, que se debruçava em um balcão no canto da sala.

Taffara seguiu o olhar dele de jeito compreensivo. Antes dali, Gabriella tinha surpreendido os dois no jardim dos Capoci. Eles tinham tentando agir com naturalidade, mas Gabriella parecia ser uma detetive aplicada – ou filha da mãe – e ordenou que eles fossem com ela até a Delegacia.

– Relaxa – Taffara jogou o cabelo por sobre o ombro. – Ela não tem nada contra nós. O que ela pode ter ouvido que pode nos colocar em encrenca?

– Eu não sei. Que tal o fato da ameaça que você lançou a todos que estavam dentro da casa? – Rael questionou com ironia.

Taffara revirou os olhos.

– Fala como se isso fosse de grande ajuda. Só por que ela me ouviu falando aquelas coisas não quer dizer que ela possa provar algo. E afinal, você viu algum gravador com ela? – ela argumentou, se recusando a se sentir intimidada.

– Eu não quero tentar a sorte – Rael bufou, colocando a mão no rosto enxuto. – E se ela arruinar nossas vidas?

– Deixe de ser tão dramático! Você nunca foi parar em uma Delegacia, não?

Rael a lançou um olhar de obviedade.

– Não.

Taffara ficou um minuto em silêncio, mas então sorriu gelidamente.

– Tá vendo isso é uma surpresa – o tom dela era venenoso. – Me surpreenda que depois de tudo o que você fez com meu namorado não tenha pagado com o que fez.

Rael empalideceu e Taffara sabia que tinha ganhado a discussão. Nada como um pouco de culpa para intimidar alguém que podia atrapalhar seus planos.

Justo na deixa, Gabriella se virou do balcão e começou a andar até eles, os saltos de cor preta fazendo barulho em toda a sala de espera enquanto se dirigia aos dois.

– Israel Coelho Fernandes. Taffara Kauane de Liz – ela olhou de um para o outro. – Podem me acompanhar até a sala de interrogatório?

Rael começou a se levantar como um cachorrinho treinado enquanto Taffara apensas fungava e cruzava os braços.

– Para que? – ela questionou.

Gabriella ergueu uma sobrancelha sexy enquanto avaliava a garota.

– Eu não sou obrigada a ir sem a presença de um adulto, não é? – ela continuou, petulante. – Meu pai sempre diz que menores de idade não podem ser interrogados sem a presença de um adulto.

Gabriella assentiu, solene.

– E não podem mesmo. Em um interrogatório – ela apontou. – E essa é apenas uma investigação de rotina.

Taffara franziu o cenho.

– E com a autorização de quem?

– Com um mandado – Gabriella retrucou. – Agora, se importa de levantar essas pernas magrelas e me acompanhar até a sala de interrogatório?

O rosto de Taffara ficou vermelho de raiva, mas depois que se levantou e passou pela detetive, falou bem alto:

– Melhor ter pernas magras do que ter essas roupas de traveco.

Gabriella suspirou atrás dela e Rael apenas abraçou o próprio corpo, sabendo que nenhuma era nenhuma das duas coisas e que aquilo era apenas recalque. Das duas partes.

Chegando à sala, Taffara e Rael se sentaram em uma mesa batida de ferro puro e encararam seus reflexos no espelho que dominava a maior parte da parede do lado contrário da sala.

Rael coçou irritado a franja do cabelo preto e Taffara ajeitou os seus também, dando uma boa estufada nos peitos para parecer mais corajosa quando Gabriella se sentou na frente deles, com o que parecia ser uma agenda na mão esquerda.

– Tudo bem, meninos – ela começou, tirando os óculos da frente do rosto e os colocando na mesa. – Eu quero que me respondem tudo o que eu perguntar, entendido?

Rael assentiu.

– Com sinceridade – ela acrescentou e Taffara colocou as duas mãos no centro da mesa.

– Não temos nada a esconder – ela sorriu plasticamente.

Gabriella a ignorou e abriu a agenda, puxando uma caneta prestativa da espiral dela.

– Rael, vamos começar por você – ela olhou o menino com um ar delicado. – O que estava fazendo na manhã da terça-feira da semana passada?

A pergunta estranha pegou tanto Taffara e Rael de surpresa. O que aquilo tinha a ver com o fato de ela ter pegado os dois nas extremidades da propriedade dos Capoci?

– Me arrumando para ir à escola? – Rael respondeu a pergunta banal.

Gabriella rabiscou algo na agenda e se virou relutante para Taffara.

– E quanto a você, Srta. Kauane?

– A mesma coisa que o senhor Coelho – ela retrucou. – Só que com roupas femininas, é claro – ela acrescentou maliciosamente.

Gabriella elevou o queixo, dando a ela um olhar duro.

– Alguém pode confirmar que você estava mesmo fazendo isso, Srta. Kauane?

Taffara engoliu em seco.

– Claro que pode. Meus pais, por exemplo.

A Detetive colocou os cotovelos na mesa.

– Então, se eu interroga-los e perguntar a mesma coisa eles dirão que você estava de fato em seu quarto?

– Quarto não, banheiro – Taffara retrucou. – E sim, eles podem.

Gabriella baixou os olhos para a agenda e rabiscou novamente, concentrada.

– Agora, senhor Coelho, pode me dizer sua ligação com o senhor Rafael Capoci?

Dessa vez, Rael e Taffara ficaram ambos em silêncio, parecendo dois fantasmas na frente do espelho da sala, com as costas de Gabriella como base – parecia uma capa perfeita para um filme de suspense, Taffara pensou.

Rafa? , os olhos dos dois pareciam se perguntar ao se encontrarem. Qual era a ligação de Rafa com ele? Como o desgraçado do Rafa Capoci tinha ido parar naquela história toda?

– Senhor Coelho – Gabriella pigarreou para chamar sua atenção.

– Ex – Rael soltou, com um soluço.

– Ex o que?

– Ex-namorado – ele respondeu não se atrevendo a encontrar os olhos da Detetive. – Eu sou ex-namorado dele.

Choque passou rapidamente pelo rosto de Gabriella, mas se algum dos dois tinha notado, nada disseram.

– Bem – ela continuou, batendo na agenda com mais felicidade do que nunca. – E quando foi que terminaram?

A respiração de Rael se acelerou, mas era a de Taffara que deveria ter ficado. A garota mal podia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.

– Natal do ano passado – Rael comentou. – Nós terminamos no Natal do ano passado?

– Nós? – Gabriella questionou.

Rael piscou ficando com os olhos vermelhos.

– Quis dizer ele. Ele terminou comigo.

Aquelas três palavras pareceram satisfazer a Detetive de uma forma estranha e Taffara não conseguiu conter que suas unhas crispassem de raiva.

De repente ela se perguntou: quantos meses eu teria que pegar por ter agredido uma Detetive metida a besta?

– Isso não tem nada a ver com nada – Taffara soltou, tentando não transparecer raiva. – E que diabos de interrogatório é esse?

– Sou eu quem faz as perguntas nesse interrogatório – Gabriella apontou friamente.

– Pensei ter dito que isso não era um interrogatório, e sim uma investigação de rotina – Taffara sibilou atrevidamente enquanto tocava sua bolsa. – Acho que essas suas perguntas descaradas já deram pela rotina, não?

Em vez de ficar furiosa, Gabriella se inclinou sobre a mesa e deu um sorriso largo como se Taffara não passasse de uma criança para ela – talvez não passasse mesmo.

– Srta. Kauane, você tem algo a esconder?

– Taffara – corrigiu a menina. – Foi batizado em homenagem a algo nada digno, mas ainda é meu nome, ok?

– Responda a pergunta – Gabriella pressionou.

– Eu tenho sim – Taffara retrucou. – Agora, me diga, por que motivo a policia estaria interessada nos segredos de uma garota com dezesseis anos cheia de hormônios adolescentes crescendo a cada santo dia?

Gabriella não sorria, mas sua voz ainda soava agradável.

– Nunca dissemos que a policia estava – ela deu de ombros. – Mas antes que comece com o debate, eu devo adverti-la, Srta... – ela se interrompeu, franzindo os olhos. – Taffara – ela prosseguiu. – estamos investigando um assassinato.

Rael quase teve uma sincope na cadeira ao lado.

– Assassinato?! – ele guinchou. – Assassinado de quem?

– O turista encontrado sem a cabeça na Rua St. Lawson – ela informou, sondando o rapaz com os olhos.

– St... A Rua do Rafa?

Gabriella assentiu.

– Exatamente – prosseguiu, com um tom profundo. – E devo acrescentar que foi logo depois ao recente desaparecimento de seu ex-namorado por todo um fim de semana.

– Mas ele voltou domingo – Taffara corrigiu.

– Estou ciente – a detetive grunhiu irritada. – Agora, como você sabia disso, eu não faço ideia – ela acrescentou com uma sobrancelha erguida.

Mas Taffara levianamente ignorou sua pergunta com outra.

– Está achando que Rafa tem alguma ligação com o assassinato do turista?

– Eu não estou achando nada... Mas eu e a policia do estado de Vallywood estamos sim ligando um caso ao outro.

– Isso é loucura – Rael bufou. – O Rafa nunca mataria ninguém. Ele é só um garoto completamente normal.

– Assim como você, senhor Israel – Gabriella retrucou, sorrindo como alguma piada interna. – E assim como você e ele, e todos os benditos adolescentes de Vallywood, são todos suspeitos de ter feito isso sim.

Taffara se inclinou.

– E o que te faz pensar isso? – sua voz mal era um sussurro.

A Detetive não sorriu, mas seus olhos assumiram um brilho sombrio de conhecimento.

– Uma folha de pagamento, Srta. Taffara... Com nada mais nada menos do que o ID da sua escola. Um pagamento para um assassino contratado.

O som das labaredas estalando crepitava o ar do depósito mal iluminado. Andressa, Eduardo e Fernando encaravam a Bruxa de frente, analisando a situação, enquanto Rafa, atrás deles, tentava inutilmente passar pelo fogo.

Depois que Érika tinha fugido pela janela, o fogo tinha abaixado, de forma que Rafa conseguiria ter pulado. Mas assim que ele se moveu para frente, as chamas reagiram em resposta, subindo a mesma altura de antes.

– Droga! – Rafa reclamou após outra tentativa mal sucedida. – Fogo idiota!

Ele bem que tentou usar seus dons estranhos, jogando as mãos para o ar para ver se algo acontecia, mas o fogo apenas crepitava de volta, zombando da incompetência dele.

Rafa suspirou e se virou para o confronto atrás dele.

Leticia aguardava, um sorriso doentio e pálido atravessando o rosto enquanto encarava os três caçadores habilidosos, que mais pareciam estar em uma partida de xadrez, pesando as possíveis jogadas uns com os outros.

Piscando por um segundo ela viu uma situação diferente. Agora Fernando e Andressa avançavam na sua direção, como em um ataque direto.

Até mesmo Rafa achou aquilo estupidez, porém notou Eduardo mirando na Bruxa, tentando não colocar os parceiros no caminho enquanto se concentrava.

Rafa começou a sorrir com êxtase ao ouvir o disparo, mas um movimento rápido a sua frente tirou toda a sua esperança.

Parecia que Leticia de alguma forma repelira as balas e lançara Fernando e Andressa para longe, fazendo os dois caírem aos seus pés.

Edu tentou erguer uma mão para manipular algo, mas a Bruxa murmurou uma palavra e ele se contorceu no chão, com dor.

Andressa se limitou a encarar, de um jeito dolorido. Como Âncora dele, nada era pior do que vê-lo ali no chão, sentindo dor enquanto ela não poderia fazer muito.

Rafa se balançou e começou a andar para frente, tendo um surto de decisão ao andar na direção da Bruxa – mas esta mal se deu o trabalho de olhar para ele.

Uma parte do chão se abriu em um pequeno buraco e o pé de Rafa bateu nele, fazendo com que ele tropeçasse. Esperou encontrar o chão duro, mas Fernando já o socorria, pegando ele pelo braço.

Rafa murmurou um obrigado e, só depois de respirar fundo, foi que notou que ele o ainda segurava, o torso na frente do corpo colado as costas dele.

– Que Pack e tanto hein – Leticia caçoou maliciosamente.

Sentindo uma onda de raiva, Rafa se soltou do loiro e correu na direção dela de novo. Dessa vez a Bruxa o compeliu do mesmo jeito com Eduardo.

Rafa gemeu de dor, sentindo todo o peso da terra pesar em suas costas enquanto se dobrava nos joelhos.

Leticia riu e começou a andar para frente, decidida a dar um jeito em Fernando agora. Rafa tentou lutar contra o peso, não deixando ela se atrever em fazê-lo.

Eduardo até que conseguiu, se livrando do peso o bastante para enviar uma bola de fogo, mas ela foi tão fraca que Leticia apenas deu um sopro – um sopro mesmo – e ela sumiu no ar.

– Eu sou uma Bruxa – ela informou, sorrindo agora mais do que nunca. – Apenas uma Bruxa e não conseguem me enfrentar? Tsc, tsc, tsc – ela levantou um dedo. – P-A-T-É-T-I-C-O.

Rafa dessa vez não aguentou e começou a se levantar, soltando de uma vez toda a pressão em suas costas, tirando o sorriso de Leticia do rosto. Ela começou a murmurar algo e Rafa começou a se mover na direção dela.

Mas e então a Bruxa estancou.

Rafa no começou apenas ficou confuso. Mas então uma coisa prata e distinta para no pescoço dela o fez compreender tudo. Andressa tomou forma atrás dela, com um olhar felino enquanto a prendia com a agulha gigante.

– Paradinha – ela sussurrou arfante.

Leticia loucamente riu, mas pareceu mais que estava sufocando.

– Vamos dançar de novo, então?

Edu começou a se mover, mas então Andressa o mandou parar.

– Vão na frente – ela apontou para a janela no alto, o fogo no meio do caminho agora tinha se apagado por completo. – Eu alcanço vocês.

– Dessa, não – Eduardo deu um passo à frente.

– Dragomir – Andressa sibilou, arfante e corajosa. – Eu disse para continuar indo em frente.

– Mas...

– Eu cuido dessa aqui – ela enlaçou ainda mais o braço nela, uma perna enroscando a dela. – Temos uma dança para terminar.

Eduardo ainda continuava olhando, os olhos insondáveis.

– Vai! – Andressa gritou. – Eu vou logo depois!

Ele parecia ter entendido e acreditado, mas só quando Fernando o pegou pelo braço foi que saiu do transe e seguiu eles até o estoque queimado.

Rafa passou primeiro, aliviado ao ver que o fogo não tinha o surpreendido, e os outros seguiram seu exemplo, escalando entre as caixas grandes para chegar até a janela.

Depois que Fernando e Rafa saltaram, com Fernando insistindo para segurar a queda de Rafa lá embaixo, Eduardo hesitou uma vez entre os cacos, lançando um olhar para trás.

Mas então Andressa o fuzilou com os olhos e ele enfim pulou, totalmente relutante.

Lucas se esforçava para ser compreensivo enquanto se servia de um copo de água na cozinha dos Capoci. Tinha acabado de presenciar a discussão de Vick com o pai injusto na frente da casa e sua cabeça girava com a probabilidade de acontecer a mesma coisa com ele.

Mas ali, naquela cozinha sozinho, ele não podia de deixar de se martirizar, como sempre, por ter perdido mais uma oportunidade... De contar tudo a ela.

Vick era sua amiga – um termo que ele não considerava positivo – e estava sempre por perto. Perto o bastante para ser tocada, para ser ouvida e para ser notada. E também perto o bastante para ouvir uma declaração.

É claro que todo mundo sabia que ele era louco por ela. Estava na cara. Ou pelo menos para todo mundo menos Vick. Ele sempre a ouvia quando ela falava, ele sempre a olhava quando ela não olhava, ele sempre... ele sempre.

Achou por um tempo que era apenas uma queda e que logo Vick diria a ele que não dava... Que eles eram apenas amigos. Mas até agora, depois de tantos sinais, a ficha dela não pareceu cair totalmente. E ainda tinha o problema com Diogo, o namorado babaca que ela não largava. Ele sabia do segredo, sabia por que ela não podia largar o traste... Mas isso não o desencorajava... Apenas o fortalecia a continuar amando.

E a cada dia ficava mais intenso.

Sim, claro, tinha a Andressa e os acontecimentos da noite passada. Tudo bem que ele tinha recaído, não é? Afinal olha só para a Andressa! Não haveria homem que resistisse a carne e de qualquer forma Vick estava lá embaixo com o namorado que amava odiar.

Porém nada mudava os fatos. Ele gostava de Andressa, mas seu amor era Vick... Não era?

– Parece pensativo.

Uma vozinha comentou atrás dele e Lucas deu um salto, rindo de leve ao perceber que era apenas Camila Polli atrás dele, os braços cruzados, o sorriso platinado.

– Ei – ele riu nervosamente. – É, sim, eu só estava pensando aqui comigo mesmo.

– No que? – perguntou a menina com interesse.

Lucas deu de ombros, nada a fim de compartilhar.

– Nada – ele sorriu ainda pensativo. – Nada demais, sabe?

– Sei – Camila assentiu. – Tipo, nada de mais ou tipo coisas da noite passada?

Lucas virou a cabeça com tudo para ela e riu, mais nada disse. Camila e a outra Camila eram apenas sombras da Vick para ele, como se fossem a base de Vick no palco do amor em que a garota de seus sonhos estava.

Não, pera.

– E você ri, não é? – perguntou a garota num tom petulante.

– Desculpa, o que? – Lucas franziu a testa, não entendendo a súbita mudança na voz dela.

– Sabe muito bem do que eu tô falando – ela acusou. – Você esta rindo por conta do que fez... Por conta do que esta sentindo agora e isso é coisa de gente safada!

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Lucas apenas ficou encarando, totalmente desconcertado. Do que diabos ela estava falando?

– Eu sei o que você fez noite passada – ela sibilou. – Eu sei que você dormiu com a Andressa.

O mundo de Lucas deu uma volta pelo quiosque, e então deu uma volta correndo e gritou: É CHOQUE DE MONSTRO MEU AMOR!!!

Ele tinha ouvido direito?

– O que? – ele espelhou o pensamento. – Eu ouvi direito?

– Ficou surdo? – ela riu sem nenhum humor. – Viu só como é bom não gostar de ouvir algo? Tipo com a Vick, quando eu contar a ela.

– O que? Mas... Camila, por que você vai contar isso a Vick? – ele perguntou, chocado demais para ter uma reação completa.

– Por quê? – ela perguntou de volta. – Vai negar? Dizer que eu sou uma mentirosa?! Ou pior, vai falar para ela que foi um deslize...? Como você me enoja...

– Não, nada disso! – ele ergueu as mãos. – Sim, eu dormi com a Andressa, tá legal? Mas, cara, não vejo como isso pode ajudar com você contando tudo pra Vick!

– Pois eu vejo, pra ela se ligar no safado que você é!

– Safado? – ele repetiu, se exaltando. – O que estou fazendo de errado, hein?

Camila parecia prestes a falar, mas ele a interrompeu.

– Ela namora, eu não, me diz onde isso é errado.

– É isso que vai dizer quando se declarar? – questionou.

Lucas apenas a encarou rabugento, se perguntando onde tinha ido parar aquela garota amiga da Vick que era educada e engraçada que ele amava conhecer.

– Ou prefere que eu declare por você – ela sorriu com maldade ao começar a andar para trás. – Ah sim, isso vai ser um prazer total.

Mas então Camila esbarrou em algo... Ou melhor, em alguém.

– Não, não vai não – Rogério Capoci disse, encarando ela de cima.

– Roger? – ela soltou, atordoada.

– Você não vai contar nada a ninguém sobre o Lucas e a Andressa – ele ameaçou, não relaxando nem um pouco o corpo. – Ou eu conto pra todo mundo que eu tracei você.

– Mas...

– Quer ficar mal falada? – ele pressionou.

– Por que esta do lado dele? – ela guinchou. – Ele traiu minha melhor amiga!

– Foda-se – Rogério deu de ombros. – Ele traiu ela e não você – retrucou. – Agora vá embora da minha casa.

– Vai me mandar embora agora, é? – ela questionou abalada.

– Linda, eu já mandei – ele tocou o queixo dela. – Tchau!

Com o rosto mais vermelho que tudo, Camila saiu a passos largos da cozinha, resmungando palavrões por todo o caminho.

– Valeu mesmo, Roger – Lucas suspirou agradecido.

Roger apenas ergueu as sobrancelhas, parecendo confuso e irritado.

– Valeu o que? Saí da minha casa também!

E então o menor saiu da cozinha dramaticamente, fazendo Lucas revirar os olhos – mas sorrir em agradecimento.

– Bem, parece que somos só eu e você – Leticia riu sufocada, a agulha gigante a centímetros do pescoço.

– Por enquanto – Andressa discordou, apertando a garota mais um pouco perto dela. – Até eu matar você.

Para a surpresa dela, a garota riu.

– Que senso de confiança.

E então quando Andressa estava prestes a acabar com aquilo de uma vez por todas, sentiu um impulso se chocar entre ela e a Bruxa e caiu para trás no chão.

Tentou se levantar, mas a Bruxa já tinha se virado para correr. Andressa deu um salto para ficar de pé e sacou a agulha atrás dela. Leticia por fim se virou e soltou um jorro de energia nela, fazendo com que ela caísse novamente.

– Por que esta atrás de nós? – Andressa gritou. – Como sabe quem somos?

A Bruxa parou de correr e se virou lentamente.

– Jura que tá perguntando isso? Depois da camada enoooorme de energia que vocês em espalhado nessa cidade só em uma semana!

Então já havia Bruxas por aqui, Andressa refletiu enquanto se levantava.

– E sem falar das Bruxas que mataram – Leticia fungou. – Um banho de sangue derramado. Que desperdício!

Uma vertigem acertou o equilíbrio de Andressa ao se lembrar do clã de Bruxas Possuídas.

– Espera – ela ergueu a mão. – Você faz parte daquele clã?!

Leticia por um segundo empalideceu, mas rapidamente se recompôs ao jogar Andressa do outro lado do depósito com raiva, as mãos crispando em ódio.

– Caçadores, Atiradores – ela dizia enquanto Andressa tentava suprimir a dor e se levantar. – E nenhum de vocês, por mais que sejam ambos assassinos com habilidades e armas, parecem conseguir fazer seus trabalhos direito.

Toda a pele de Andressa começou a esquentar, criando bolhas avermelhadas por toda a parte. Ela gritou de dor.

– Deviam checar todos os registros direito – Leticia avisou brilhando de raiva. – Porque de algum jeito...

Andressa se contorceu, a cabeça pendendo para trás e os braços jogados de um jeito esquisito. O feitiço de Andressa surtindo efeito drasticamente.

– Alguém vai checar – ela sussurrou e Andressa sentiu a cabeça se inclinar mais quando seu pescoço começou a reclamar de dor.

Leticia se aprumou para o golpe final, erguendo a palma da mão e sussurrando um feitiço familiar: Forte de Canto. As cinco pontas dos dedos incendiaram de um fogo azul sobrenatural.

– Últimas palavras? – ela questionou a Andressa, mas ela estava ocupada demais reclamando de dor. – Que seja então.

Mas então os dedos vingativos da Bruxa se refrearam quando algo passou zunindo por sua cabeça em uma velocidade que ela consideraria impossível.

Ela viu uma flecha se espatifar no canto do depósito e tentou se virar, mas um punho forte a acertou bem no meio do rosto, não deixando ver quem era.

Andressa começou a cair trôpega no chão, mas um par de mãos fortes com luvas a socorreu, chocando toda a sua estrutura ao ficar com o rosto loiro perto do dela.

– Felipe! – ela exclamou.

– Você esta bem, Dessa? – ele perguntou, os olhos castanhos preocupados.

Andressa assentiu e lançou o olhar para o resto do depósito, onde agora Giulia também tinha chegado, o arco e flecha mirado na direção da Bruxa.

– Não que eu esteja super-agradecida, mas o que vocês estão fazendo aqui?!

– Trouxemos reforço – disse Giulia, jogando uma flecha contra Leticia, que apenas sacudiu a mão para desviar dela.

– Então vão atrás do Edu! – Andressa grunhiu.

– Adoraríamos muito – Felipe respondeu com uma voz seca. – Mas já tem alguém indo ao socorro dele.

Andressa olhou de um loiro para o outro, confusa.

– Quem?

– Ela foi por ali! – Fernando apontou, seguindo na frente por conta de seu olfato animal.

Eduardo corria muito bem e Rafa tentava seguir seu ritmo, surpreendendo a si mesmo por não ter tropeçado nenhuma vez. Ele continuou correndo, até que seu celular vibrou no seu bolso.

Ele o pescou do bolso e deslizou pela tela para desbloquear. TRÊS CHAMADAS DE ROBERTO, informava o visor. Ele apertou para desligar a tela e continuou correndo atrás deles. Aquilo teria que ficar pra depois.

Logo eles seguiram por um beco sem saída onde Érika agora tentava escalar, as garras se aprofundando nos tijolos vermelhos.

– Érika! – Rafa chamou.

– Todos uns mentirosos – ela se virou e grunhiu de volta. – Vocês são todos uns mentirosos!

Rafa estava prestes a se inclinar e tentar convencer a ela que não, mas uma mão se colocou no seu caminho. Era Fernando. Ele deu um olhar de alerta para ele enquanto Eduardo ultrapassava os dois sombriamente.

Ele bateu palma uma vez e o chão onde Érika começou a tremer, fazendo a Loba se desequilibrar um pouco. Fernando aproveitou aquilo para se atirar nela, mas a Loba ergueu a cabeça, os olhos dourados e o chutou no rosto.

O loiro se levantou para recomeçar a luta e os dois começaram a se engalfinhar, as unhas de Fernando tentando acertar Érika em algum ponto vital. Porém Érika era rápida demais, desviando e rasgando o corpo dele em vários pontos.

Enquanto os dois dançavam, Rafa observou Eduardo começar a se espreitar, procurando um ângulo para acertar a Loba.

– Edu, não! – Rafa implorou.

– Saí daqui, Caubói – ele grunhiu de volta. – Não vê que ela é perigosa?!

– Ela não é! – ele discordou. – Ela só esta com medo.

Eduardo riu sem humor nenhum, mas então abriu a palma da mão, criando uma bola de fogo de uma forma concentrada. Rafa rapidamente o pegou pelo braço.

– Saí! – ele reclamou, o fogo se movendo no ar.

– Não! – Rafa continuou puxando o braço dele, não ia deixar ninguém mais morrer.

Ele tentou segurar mais firme, mas Eduardo não encontrou nenhuma dificuldade em passar as pernas sobre a dele e o jogar no chão como se não fosse nada.

Rafa observou enquanto ele se voltava para a Loba, a bola de fogo ainda intacta, mas então apenas encontrou Fernando jogado ao chão. Edu procurou um pouco, e então Érika veio de cima, derrubando dele rapidamente.

Impotente ele viu enquanto a Loba se virava para fugir.

Até que um rugido poderoso irrompeu todo o beco fazendo os ossos de Rafa gelarem de medo e seus pelos se arrepiarem afetivamente.

Érika era a única que se mexia, voltando-se para a entrada do beco, encarando algo com os olhos assustados. Ela retorceu o rosto de raiva, mas o rugido veio novamente, fazendo com que ela se ajoelhasse.

Só depois de livre pelo medo e depois de ver que Eduardo e Fernando olhavam na mesma direção, Rafa se mexeu depois de um tempo, olhando também.

Carla andava até eles sem pressa nenhuma, os olhos brilhando de um vermelho intenso enquanto suas presas ficavam expostas para todos.

Olhava Érika com uma expressão que só podia ser interpretada como subjugação. Ela controlava a fúria da Beta... Porque ela era a Alfa.

A alfa dela.

No depósito, o clima de tensão se intensificava. Andressa não estava mais queimando, uma vez que livre do feitiço da Bruxa, e encarava as costas dos dois caçadores.

Giulia e Felipe encaravam a Bruxa, cautelosos. Giulia com o arco levantado, os dedos habilidosos prontos para se mexerem na hora H e atirar flechas e flechas. Felipe tinha sacado a arma de escolha das costas, uma espada grande banhada de bronze.

Leticia aguardava os dois, a mão no ombro esquerdo onde a flecha de Giulia tinha passado de raspão, mas os olhos raivosos cheios de uma sede de vingança.

O confronto começou Felipe girando sua espada, com confiança. Leticia sussurrou palavras e jatos de magia começaram a serem lançados, enquanto ele os rebatia como em um jogo de beisebol.

Leticia parecia ir bem, mas então Giulia começou a jogar suas flechas, mirando em pontos estratégicos. A Bruxa até que conseguia retarda-las, mas não todas, e uma tinha acertado a ponta de seu pé.

Andressa encarava enquanto Leticia ia perdendo as forças, não conseguindo mandar jatos de magia suficientes para interromper o progresso de Felipe até ela. Giulia ainda sacava suas flechas, certa de que em uma hora iria derrubar a inimiga.

E com certeza iria.

Mas tomada por um golpe de pena, Andressa se lembrou da Leticia da noite passada, o jeito como parecia tão confortável no papel de convidada de uma festa. Nem parecia ser uma ameaça.

– Leticia, se renda! – ela exclamou se levantado rapidamente. – Se renda!

– O que? – Felipe franziu o cenho para ela.

– Se renda, Leticia – Andressa pediu de novo.

– O que te faz pensar que eu iria querer isso? – a Bruxa retrucou ainda resistente.

– Nós podemos falar com a Anna – Andressa insistiu, se jogando para frente. – Eu prometo que ela vai ajudar.

Giulia e Felipe aguardaram a reação da garota, que continuava hesitante no meio do depósito. Parecia fraca e acabada, mais pálida do que quando tinha chegado ali. Ocorreu a Andressa que além de Bruxa ela também era humana.

Ela sorriu para encorajar a decisão de Leticia, mas então a Bruxa cuspiu no chão.

– Nunca – ela sussurrou. – NUNCA! – dessa vez gritou, fazendo todo o depósito sacudir.

Andressa e Felipe recuperaram o equilíbrio, mas Giulia continuou firme, o arco preparado e os olhos semicerrados para Leticia.

Andressa seguiu seu olhar e pode ver Leticia sumir em um tornado cinzento.

– Então... – Érika se remexeu nos pés, embaraçada. – Você me mordeu?

Agora mais calmos, Rafa, Fernando, Eduardo, Carla e Érika estavam do lado de fora do Vallywood Bear. Edu e Fernando se recostavam na parede, cansados e com motivos suficientes para ignorar a conversa de Érika e Carla.

Rafa acompanhava tudo com um olhar meio compreensivo. Era bom ver as coisas se resolvendo entre as Lobas.

– Sim, foi isso mesmo – confessou Carla. – Eu mordi você.

Érika olhou as palmas das mãos, frustrada, mas não nervosa como antes. Agora que sua Alfa estava ali ela tinha ficado mais calma, não dando saltos a cada dois segundos ou grunhindo como um Lobo.

Bem, uma Loba no caso.

– E isso não tem cura? – a garota loira perguntou, a expressão derrotada.

Carla a olhou com pena.

– Sinto muito, querida, não – ela balançou a cabeça. – E, eu sei que você provavelmente vai me odiar por isso. Mas eu prometo que vou cuidar de você – ela disse e então olhou para Edu e Fernando. – Eu prometo, mesmo.

Os dois apenas se limitaram a assentir.

– Eu sabia desde o começo que ela não queria nos machucar – Rafa desabafou, emocionado. – Apesar de ter dado bastante trabalho para todos nós.

– Eu sinto muito – Érika chorou. – Eu não queria machucar nenhum de vocês, eu juro. É só que...

– Eu entendo, Érika, eu entendo – Rafa a refreou com um aceno. – Você acabou de se transformar, é totalmente compreensível que você esteja assim.

– Vaguei meses pela floresta antes até me dar conta do que tinha acontecido comigo – ela suspirou, coçando o cabelo loiro.

– Se lembra de alguma coisa? – Carla questionou. – Sobre sua família?

– Não muito – os olhos dela escureceram. – Isso é normal?

– Não muito – Carla observou. – Mas eu prometo te ajudar nisso... Já que eu sou a culpada disso tudo.

Érika deu um sorriso pela primeira vez e a expressão de Carla era a de quem perdia o ar. Fernando cutucou Eduardo de leve, todo risonho.

– Você não adora finais felizes, com Lobas sorrindo e mostrando suas presas no fim do dia?

Eduardo respondeu com um suspiro.

– Vá se catar, Matos!

O telefone de Rafa vibrou e dessa vez ele nem precisou olhar a tela para saber quem era. Pedindo licença ele entrou no Vallywood Bear e procurou um dos bancos na frente do balcão.

Deslizou a tela e colocou o celular no ouvido.

– Roberto? – ele chamou.

– Rafa – a voz eletrônica do amigo chamou do outro lado da linha. – Ah, meu Deus, você finalmente atendeu! – ele acrescentou, emocionado.

– Sim – Rafa sorriu ao responder. – Você ligou bastantes vezes hoje, não é mesmo?

– É, liguei – Roberto confessou e Rafa não precisava estar cara a cara com ele para ver que ele corava.

– Então – Rafa falou depois de um bom de silêncio. – Você me beijou – ele lembrou.

– É – Roberto parecia engasgado. – Eu beijei.

Rafa coçou a barra da calça, distraído.

– Me perdoe se eu estiver equivocado... Mas você é gay?

Para a surpresa de Rafa, ele começou a rir.

– Depois de tudo você ainda pergunta?

– Depois de tudo? – Rafa questionou.

– Eu sei que você sempre pensou que eu fui só seu amigo, Rafa – Roberto comentou, parecendo corajoso. – E eu era mesmo, só não queria ser. Rafa, desde o dia em que eu colei meus olhos nos seus, eu tive certeza absoluta que eu gosto mesmo de você. Realmente.

O peito de Rafa se encheu e ele não sabia dizer como você estava se sentindo. Roberto, com quem ele tinha compartilhado uma amizade a quase um ano, estava se declarando para ele. Como as coisas tinha chegado aquele ponto? Como ele não tinha notado antes?

– Bem, você está calado – Roberto comentou. – Isso não é um bom sinal, é?

Rafa sorriu. Mesmo apesar de tudo, ele sempre sentiu que Roberto era uma boa pessoa. Gentil, amigável e um dos melhores amigos que ele tinha na escola. Será que... ele deveria tentar?

– Estou decidindo – Rafa respondeu.

– Decidindo o que?

– Como lidar com isso tudo.

– Escuta, eu vou admitir que isso é tão novo pra mim quanto pra você. Até porque eu nunca namorei na minha vida e, obviamente, meus pais não sabem nada sobre mim.

Rafa franziu os lábios, notando que ele não tinha dito aquela palavra de três letras.

– Isso é normal – Rafa comentou compreensivo. – Preciso te lembrar que todos nós passamos pela mesma situação? Não é algo fácil.

– Eu não estou nem aí para o que é fácil. Rafa, eu só sei que o que eu quero agora é você. Rafa, eu quero tentar algo com você. Você não é obrigado a dizer e sentir o mesmo, mas eu confesso, eu quero você.

Aquelas três palavras não eram novas para Rafa, mas ele não pode deixar de sentir o estomago se remexer com elas. Roberto estava sendo sincero em seu tom eletrônico e isso o estava emocionando.

– Eu também – Rafa sussurrou.

– Também? – a voz de Roberto soou mais alta. – Você também o que?

– Eu também tentar, eu também quero você.

Antes que qualquer um dos dois dissessem algo, Rafa percebeu uma figura parada atrás dele. Fernando estava com uma expressão indecifrável, os olhos mistos encarando os dele.

– Rafa... – Roberto chamou preocupado. – Rafa, você ainda esta ai?

– Estou – Rafa respondeu com os olhos ainda nos de Fernando. – Estou sim.

– Eu agradeço mesmo a vocês, mas, posso saber por que tiveram que trazer a Carla de volta? – Andressa questionou Giulia enquanto elas convergiam para o lado de fora do depósito.

– Foi a Anna quem mandou – a arqueira respondeu. – Aparentemente, ela precisa cuidar de alguma Beta dela ou algo.

Andressa assentiu.

– Érika é a Beta dela, maravilha – suspirou profundamente. – Bom, muito obrigado pela ajuda de vocês, de novo.

Felipe deu a ela um sorrisinho.

– De nada, Dressinha – ele a puxou para um abraço de urso.

Andressa e ele ficaram um bom tempo abraçados, mas então ela o largou ao notar quem estava encostado no Eco Sport do outro lado da rua.

– Nós vamos indo – Giulia comentou, usando a evidencia mudança de Andressa como uma oportunidade. – Anna apenas nos mandou para trazer a cachorra.

– Vejo vocês por ai – Andressa respondeu sem olhar por onde eles iriam embora, distraída demais com Eduardo andando até ela, o jeans preto caindo bem naquela cintura.

– Ah, a ajuda chegou a caminho, não? – Edu comentou.

Andressa deu um sorriso irônico de volta.

– Chegou sim – ela assentiu. – Mas não se engane, eu teria dado um jeito naquela Bruxa em dois tempos.

– Sei, sei – o moreno revirou os olhos. – Você parece mesmo saber dar um jeito em algo quando quer.

Andressa franziu o cenho.

– O que quer dizer com isso? – ela grunhiu. – É mais uma indireta por eu ter dormido com o Lucas?

– Quem é Lucas? – ele bufou. – Se estiver e referindo ao mortal ridículo com quem você acabou indo para cama, sim é isso sim!

– Ah – ela pensou em algo para dizer em sua defesa. – Você espera que eu confirme? Sim, Edu, eu dormi com ele!

– Eu sei disso – ele disse num tom arrogante. – Eu vi você dormindo com ele.

Ela sentiu uma breve irritação no punho, louca pra bater em algo, mas então outra coisa ocorreu.

– Olha quem fala – ela comentou acidamente.

– Hein? – Eduardo arquejou. – Do que esta falando?

– Me mostraram uma foto na festa de ontem – ela respondeu. – Eu vi você e Taffara conversando.

Eduardo foi pra trás.

– Quem?

– Não se faça de fingido, uma garota me mostrou a foto de vocês dois conversando, e ela se inclinando toda pra você!

Eduardo ficou um pouco sem fala.

– E dai? – ele deu de ombros, os olhos vazios. – Por acaso se você viu essa foto você também ter visto o Fernando nela.

Andressa foi um pouco para trás.

– Fernando...? – ela fungou. – Tá, mas e dai, é evidente que ele não estaria olhando para os peitos dela, como você estava!

– Ah, é, você tem a foto? – Eduardo questionou, irritado. – Você estava naquela sala?

Andressa iria falar algo, mas ele a interrompeu.

– Então pronto.

Andressa se enfureceu. Ele estava jogando toda a culpa nela. Aquilo era evidente. Estava acusando ela de ser tão promiscua quanto qualquer outra garota.

– E dai? – ela questionou.

– E dai o que? – ele retrucou.

– E dai que eu dormi com um mortal? O que você tem com isso?

As batidas do próprio coração eram o único som que Andressa conseguia escutar naquele momento. De súbito, percebeu que Eduardo estava perto demais, os lábios vermelhos repuxados.

Quando o beijou naquele dia no corredor, pode sentir o gosto maravilhoso deles e tinha uma pequena – tá bom, grande – vontade de querer provar de novo.

Mas então Eduardo se agachou na frente dela e Andressa perdeu a coragem de tudo.

– O que é isso aqui? – ele perguntou.

Andressa achou que ele estivesse brincando, mas então viu que ele segurava algo entre o dedo indicador e o polegar.

– O que é isso? – Andressa se inclinou para ver.

– Uma bala – Eduardo o dedo para mostrar a ela. – Uma bala.

Andressa franziu a testa, mas então viu que não se tratava de uma brincadeira, era uma bala mesmo. Olhou embaixo dela e viu várias outras dali.

– O que isso significa? – ela sussurrou.

– Só uma coisa – Eduardo se virou para a Rua deserta. – Os atiradores estiveram aqui.