Saga Sillentya: Espelho do Destino
20 XIX - O Sacrifício
Notas iniciais
Capítulo XIX – O Sacrifício
“Minha queda será por você
(Minha queda será por você)
Meu amor estará com você,
(Meu amor estará com você)
Se você for aquele que me ferir,
Então eu sangrarei eternamente”.
“Minha queda será por você
(Minha queda será por você)
Meu amor estará com você
(Meu amor estará com você)
Você foi aquele que me feriu,
Então, eu sangrarei eternamente”.
(Nightwish – Ghost Love Score)
- Por quê? – tornei a perguntá-lo, os olhos ardendo pelas lágrimas que eu não conseguira derramar. Não eram lágrimas de dor, mas lágrimas de agonia, de tristeza, de tormento...
Aidan trincava os dentes com força para tentar suportar a dor da estocada.
Estocada que eu deveria ter levado, e não ele.
Semicerrando os olhos até o ponto de quase escondê-los de mim, ele forçou-se a não exprimir tanta dor, e baixou seu semblante.
Seus braços estavam apoiados na mesa, um de cada lado de meu corpo, o seu corpo debruçava-se sobre o meu, protegendo-me custe o que custasse.
Inclusive levando um golpe letal que estava direcionado para mim.
A ponta da lâmina havia atravessado seu peito, tendo sido enterrada em suas costas por um monstro. O mais cruel e vil dos homens, Lorde Ducian.
Suas mãos haviam cravado a adaga em Aidan, ao invés do meu corpo, do meu coração. E agora, ele lhe roubava a vida, quando devia roubar a minha.
Trinquei os dentes com força e não me permiti chorar, mesmo com o sangue que escorria do talho aberto em seu peito e que pingava em mim, manchando-me, somente para me atormentar ainda mais e me lembrar de que Aidan havia feito um sacrifício para me salvar, um sacrifício que eu deveria ter feito desde o principio. E não ele.
- Por quê, Aidan? – tornei a indagar, meus lábios tremiam, um gosto amargo espalhava-se pela minha língua, e embora os vestígios de dor, que ainda sobravam em meus ossos, e consumiam cada célula minha, já estivessem se esvaecendo, uma dor muito maior e muito mais insuportável agora me consumia.
A dor de ver Aidan padecendo por mim.
Ele ofegou, respirando com dificuldade, e quando tornou a me fitar, não consegui mais refrear as lágrimas que empoçavam em meus olhos, simplesmente as verti.
- Não vou te perder de novo... – sussurrou ele, gemendo de dor quando Ducian retirou a adaga lentamente de suas costas.
Ele nem ao menos nos fitava, sua atenção estava totalmente centrada na figura parada à fenda aberta. Uma imensa fissura na parede de blocos e concreto.
Christian.
Seus olhos não me enganavam. Ele estava furioso. Estava consumido pela raiva, olhando nos olhos do homem que levou sua amada Caroline e a condenou a um futuro sombrio e sem esperança.
Ducian estreitou seus olhos safíricos, depois fitou Aidan que ainda se encontrava debruçado sobre o meu corpo, e fingiu estar ultrajado:
- Aidan, pelo que vejo você desobedeceu muito mais ordens minhas. Pensei ter sido claro quando mandei que eliminasse seu irmão.
Christian sorriu de canto, enquanto que Aidan nada disse, estava debilitado demais para isso. Ele mal se recuperara dos ferimentos do dia anterior e agora já estava ferido novamente.
- Qual é o problema, Ducian? – indagou Christian, erguendo as palmas das mãos – Não está contente em me ver? Cadê o meu abraço?
Ducian ainda continha nas mãos a adaga ensangüentada que deveria ter sido direcionada para mim, e seus dedos esquálidos fecharam-se ao redor do cabo de marfim, tensos.
- Sinto algo diferente em você... Não é mais o mesmo. – murmurou ele, inexpressivo, mal sabia ele que Christian talvez fosse um oponente à sua altura, já que manipulava o poder de um Antigo.
- Tem razão, velhote, eu mudei e foi apenas para acabar com você.
De repente a fúria no rosto de Christian era tangível, palpável, ela remodelou suas feições, e uma chama de puro rancor queimou ao fundo de seus olhos lápis-lazúli.
- Você vai me pagar pelo que fez a Caroline! – esbravejou ele, apontando para o semblante mortificado de Ducian – Eu jurei que teria o seu sangue nas minhas mãos, e assim será!
- Tola criança... – debochou Ducian, abrindo um cruel e irônico sorriso – Acha mesmo que é páreo para um deus como eu? Já que seu irmão não foi capaz de cumprir a tarefa, acho que eu terei que matá-lo com minhas próprias mãos!
- Então tente a sorte, velho! – retrucou, estralando suas juntas, preparando-se para a batalha.
Enquanto ambos se fuzilavam, competindo pelo olhar mais obstinado e homicida, Aidan direcionou sua atenção para as algemas que me amarravam a aquele altar, e então as rompeu, primeiros as de meus pulsos, depois as de meus tornozelos.
Seus braços envolveram-me e me puxaram junto dele, enquanto escorregávamos de cima daquele altar, e ele nos escondia atrás de sua estrutura.
Agora que minhas mãos estavam livres, acariciei seu rosto cansado, tocando-o de forma tão cuidadosa, tão suave, que ele fechou seus olhos.
- Não devia ter feito isso... – sussurrei para ele, totalmente consciente do talho aberto em seu peito e em suas costas – Não devia... – e minha voz perdeu-se em um turbilhão de tristeza.
Ele tornou a sustentar seu olhar abatido, deixando que seus olhos repousassem sobre meu semblante, aquela chama esperançosa ainda queimava ao fundo de suas íris acastanhadas.
- Eu vou te tirar daqui, Agatha – jurou-me ele, solenemente, a voz era tensa, carregada de sentimentos – Eu juro, nós dois sairemos daqui, vivos...
- Eu sei, eu acredito em você, meu amor... – sussurrei, afagando seus cabelos dessa vez, e tocando seus lábios com a ponta de meus dedos.
Aidan afrouxou seu abraço, e começou a se afastar de mim, mas não antes de estreitar seus olhos e me advertir:
- Fique aqui, não saia daqui em hipótese alguma!
Assenti, e quando ele se virou para se juntar à batalha com o irmão, segurei em sua mão, impedindo-o de partir.
Seus olhos recaíram sobre mim uma última vez, e eu senti um aperto em meu coração, tão esmagador, que senti a necessidade de lembrá-lo:
- Eu te amo...
- Eu sei. – respondeu-me ele, e então, sua mão se foi, deixando a minha, deixando-me ali, ajoelhada atrás do altar onde minutos atrás ainda padecia.
Tornei minha atenção para a batalha que se iniciaria bem ali, Aidan logo estava ao lado do irmão, que não esboçou nada ao vê-lo ali, apenas murmurou, inexpressivo:
- Nunca pensei que teríamos de unir forças por uma mesma causa novamente.
Aidan não o respondeu, apenas direcionou seu olhar cansado para Ducian, não lhe olhando nos olhos nem mesmo quando Christian tornou a provocá-lo:
- Mas não pense você que eu esquecerei o que fez a mim e a Caroline no passado.
- Não pensei. – retrucou Aidan, cerrando os punhos.
- Ótimo – exclamou Christian –, isso facilita um pouco mais as coisas!
E também cerrou os punhos, franzindo o cenho, preparando-se para a batalha. Eu apenas podia observá-los, não muito distantes de onde estava.
Ducian limpou o sangue que já secava na lâmina de sua adaga com um pedaço de seu manto, seus olhos naquele momento pareciam-me muito mais letais, muito mais perigosos, muito mais venenosos.
- Quem diria que depois de tantos anos, eu me veria em uma situação como essa novamente. O destino é tão irônico!
- Se eu fosse você não me preocuparia tanto com o destino, velhote, sua única preocupação deve ser comigo agora! – declarou Christian, dando um passo a frente. Claro que seu lado impulsivo falaria mais alto naquele momento.
Christian esperou por tantos por aquele momento, seu sangue devia ferver com a ideia de finalmente poder vingar a amada.
Ducian soltou uma curta e baixa risada em resposta, claramente duvidando de suas pretensões. Se ele ao menos soubesse o quão enganado estava...
- Então, mostre-me tudo o que aprendeu nesses anos, pirralho! – ele o desafiou, chamando-o para um combate direto, um combate até a morte.
Christian sorriu de canto antes de avançar como um borrão na direção de seu oponente:
- Com muito prazer!
Era difícil descrever quem de fato levava a vantagem, segundos depois de terem se chocado em pleno ar, Ducian e Christian imobilizaram um ao outro, movendo-se tão rapidamente que eu mal conseguia acompanhar.
Suas velocidades mal me permitiam piscar sem perder pelo menos metade da batalha, mas testemunhei quando Christian atraiu Ducian para uma emboscada muito bem planejada.
Agindo com cautela e precisão, Christian direcionou Ducian para um dos cantos do salão, onde Aidan surgiu, utilizando-se de sua incrível velocidade.
Cerrando os punhos, ele preparou-se para desferir um poderoso golpe no ancião, enquanto este se concentrava em seu outro adversário. Quando Ducian percebeu a emboscada, esbugalhou os olhos, desviando a tempo do golpe de Aidan com uma ágil pirueta, lançando-se em pleno ar com graça e pousando a poucos metros dos dois.
O punho de Aidan apenas atingiu o ar, para o meu desânimo.
Reassumindo suas posições, Christian tornou para o lado de Aidan, em nenhum momento seus olhares se cruzavam, e mesmo assim, era como se, telepaticamente, eles arquitetassem estratégias para apanhar Ducian com a guarda baixa, era quase como se... comunicassem em palavras silenciosas.
Então, entendi. Durante tantas décadas eles lutaram lado a lado, e mesmo tendo sido separados durante oitenta anos, aquele instinto de irmãos, de trabalho em equipe, ainda estava vivo dentro deles, de alguma maneira, a lealdade e a confiança sobreviveram dentro de Aidan e de Christian.
Ducian girou a adaga agilmente entre seus dedos, e a empunhou verdadeiramente, doze séculos de experiência em batalhas acumulavam-se bem ali, naquela casca murcha e enrugada.
- Vocês dois pretendem mesmo levar essa sandice adiante. – murmurou ele, abrindo um letal e cruel sorriso – Talvez devessem reconsiderar, pois não mostrarei mais misericórdia a partir de agora.
- E que tal se você calasse essa sua boca e resolvesse brigar de verdade? – provocou Christian, ele não tomava jeito nem mesmo em uma batalha como aquela, muito menos demonstrava respeito pelo seu adversário.
Ducian gargalhou delicadamente, claramente duvidando das pretensões dos dois.
- Sempre impulsivo e boca grande, você não mudou nada, Christian! Em oitenta anos, você não amadureceu absolutamente nada!
- Obrigado pela parte que me toca... – retrucou ele, abrindo aquele sorriso exageradamente confiante mais uma vez, por que eu era a única que roia as unhas ali?
Dobrando as mangas de seu manto rubro e sedoso, e mudando a sua posição de defensiva para ofensiva, ele finalmente se preparou para peitá-los.
- Contenha-se, Christian, não é hora para brincadeiras. – Aidan o advertiu, ele parecia ser o único a ter um pouquinho de juízo ali, o único a não subestimar a força de Ducian.
Estreitando seus olhos azuis, que praticamente clamavam pela batalha, Christian comprimiu os lábios e cerrou os punhos.
- Não me venha com essa de sermão agora.
Aidan suspirou, enquanto eu me encolhia atrás da estrutura do altar, temerosa pelo inicio da batalha, que finalmente começaria, finalmente se desenrolaria, e seu desfecho deixava-me alarmada.
Seriam Aidan e Christian páreos para Ducian e sua crueldade?
Meus olhos foram testemunhas quando Christian agachou-se, uma pose de predador, e então, ainda sorrindo, claramente confiante da vitória, ele avançou mais uma vez. E investiu contra Ducian.
Lançando-se como o vento, ele correu na direção de Ducian, chocando-se contra ele milésimos de segundos depois.
Elevando seus corpos no ar, os dois começaram o duelo.
Pelo pouco que conseguia ver, Christian era rápido, mas Ducian era muito mais, e se esquivava de cada golpe dele com uma facilidade extraordinária.
Christian apoiou um dos pés em uma das colunas, ganhando impulso como uma catapulta e se jogou na direção de seu oponente, passando os braços ao redor de seu corpo e caindo em queda livre com Ducian preso no cerco de seus braços.
Ambos pousaram no chão como felinos, em pé, sem vacilar por nem mesmo um segundo. Christian passou seus braços para os ombros do ancião, que repetiu o gesto. Agora ambos se imobilizavam.
Era uma luta equilibrada demais.
Christian trincou os dentes e exerceu uma pressão maior, o que fez Ducian recuar, girando o corpo no ar, virando-se de ponta cabeça, elevando seus pés graciosos, recuando agilmente.
Ele pousou novamente, a alguns metros da figura confiante de Cristian, seu rosto ainda era uma máscara impecável de impassibilidade e indiferença.
Chegou a vez de Aidan atacá-lo então. Tão rápido quanto Christian alguns segundos atrás, ele investiu, destemido apesar da gravidade de seus ferimentos, o que me deixava alarmada, eu nunca havia visto um Mediador lutar ferido antes. Nunca.
Aidan mostrou-se tão determinado quanto Christian em vencer aquela batalha, ambos moviam-se como espectros no espaço vazio, ora ou outra, paravam de se mover, analisando o próximo movimento do adversário, mas então recomeçavam a dança mortalmente graciosa.
Quando finalmente, utilizando-se do trabalho de equipe, Aidan atraiu Ducian para uma emboscada, sua mão fechou-se ao redor do pescoço do ancião e lançou-o contra o chão, de costas, prendendo-o ali para que, movendo-se tão sorrateiramente que eu nem mesmo percebi, Christian desferisse o golpe final.
Meu coração encheu-se de esperanças, parecia que eles poderiam ganhar sim a batalha.
E quando o punho de Christian estava prestes e esmagar o crânio da figura imobilizada no chão, algo aconteceu, uma sombra revestida em rubro, movimentando-se como um fantasma, golpeou Christian, lançando-o longe, e depois chutou Aidan, libertando Ducian.
A figura pousou com graça no chão segundos depois.
Eu não conseguia acreditar no que via.
Com certa dificuldade, Ducian levantou-se do chão e encarou sua salvadora com desdém:
- Crystal, o que está fazendo aqui? Não deveria ter seguido com sua mentora?
Sem ao menos piscar, ela respondeu a ele, os olhos fixos nas figuras dos irmãos que se levantavam com dificuldade do chão.
- Achei que seria mais prudente retornar e zelar pela sua segurança, milorde.
Ducian esfregou o pescoço, no exato local onde a mão de Aidan se fechara e então suspirou, como se estivesse entediado:
- Agradeço pela preocupação e lealdade, mas a dispenso.
A morena o encarou com seus olhos castanhos e vítreos, seu rosto não se abalava de forma alguma. Percebendo o olhar incrédulo da jovem, Ducian complementou:
- Mas se deseja realmente me ajudar, cuide da garota, ela não pode sair com vida!
Encolhi-me atrás da estrutura do altar, vendo a chama vitoriosa inflamar nos olhos de Crystal, era exatamente o que ela queria, o que ela pediu aos céus, uma ordem para me matar.
- Sim, senhor. – respondeu ela, prontamente, direcionando seu rosto vitorioso para mim.
Em questão de segundos ela desapareceu, esfumaçando-se no ar, eu tive tempo apenas de vê-la diante de mim, a perna esticada, pronta para me acertar em algum ponto vital, mas antes que o pudesse, na verdade, Christian interferiu, bloqueando seu golpe com o antebraço, e revidando logo em seguida, agarrando seu tornozelo e lançando-a para trás.
Crystal apoiou-se nas palmas das mãos, girando o corpo a fim de retomar o equilíbrio, e depois pousou com naturalidade sobre os pés novamente, nos lábios um sorriso zombeteiro:
- Christian, já faz algum tempo...
Os olhos de Christian nada delatavam, nada entregavam, estavam apenas divertidos e claramente empolgados.
- Nunca pensei que teria que lutar contra você. – murmurou ela, antipática, deixando que uma frivolidade incomum dominasse a profundeza acastanhada de seus orbes.
- Não pense que por isso terei piedade de você ou coisa parecida. – retrucou Christian, enquanto eu rapidamente tornava meus olhos para Aidan e Ducian, eles permaneciam imóveis, não haviam se movido um centímetro sequer.
Retornei minha atenção para Crystal e Christian no momento em que ela decidiu investir contra ele, lançando seu corpo no ar, como um funil gracioso e letal, ela preparou-se para tentar acertá-lo com seus chutes novamente, mas Christian era mais rápido, conseguia esquivar de cada investida dela, e quando por distração não o fazia, era sensato o suficiente para bloquear seus chutes e socos.
Sempre que meu coração se enchia de temor, eu fitava a batalha de Aidan, e mesmo cansado e ferido, ele continuava ali, lutando por minha causa.
Ambos lutavam para me salvar.
Mas eu nunca pedi a eles que se arriscassem daquela maneira por mim. Nunca.
Cessei minhas divagações e inquietações no momento em que Christian, em um momento de pura distração, baixou sua guarda. Foi o que bastou para a brava guerreira com quem ele batalhava.
Crystal acertou-lhe um chute na face, derrubando-o de lado, de bruços, e não hesitou em tornar seus olhos mortíferos para mim, movendo-se como um fantasma, e sem qualquer vacilo, ela avançou na minha direção.
Nem mesmo tive oportunidade de reagir ou sequer de tentar escapar.
Seus dedos magros fecharam-se ao redor de minha garganta com força, e seu braço suspendeu-me no ar, sufocando-me.
Debati meus pés, tentando me libertar, mas nem mesmo podia respirar debaixo de seu aperto férreo, como então poderia lutar por minha vida?
Engasguei, sufocando, apertando meus dedos no pulso dela, mas era inútil, claro que ela não pouparia minha vida. Antes a tiraria com todo o prazer.
Balancei meus pés novamente, mas o socorro logo veio.
Chocando-se contra nós, Christian apareceu, passando os braços ao redor da cintura dela e arrastando-a consigo, enquanto que minha garganta era libertada e eu caía de lado no chão, tossindo e respirando mais uma vez.
Christian lançou-se em direção ao chão, e ambos rolaram no piso, pelo menos até que ela conseguiu libertar-se do abraço pétreo dele, apoiou as palmas das mãos no chão, ganhando impulso e recuando com uma graciosa série de piruetas.
Seus pés pousaram novamente, perfeitamente inabaláveis, enquanto Christian levantava-se do chão, tornava seu olhar para mim, vendo que eu fazia o mesmo, só que com uma lentidão maior.
Meus dedos ainda tocavam o exato local de minha garganta onde segundos antes os dedos de Crystal se fecharam com violência. Mas eu ficaria bem, e logo assenti para ele.
- Sabe que é inútil tentar salvá-la. – advertiu Crystal, tão gloriosa e onipotente quanto uma deusa da guerra.
Christian sorriu de canto, demonstrando o quanto ele levava a sério aquela sua advertência.
- Nunca saberei se não tentar.
Então, a batalha recomeçou.
Ambos moveram-se tão rapidamente que meus olhos mal eram capazes de acompanhar.
Entre movimentos sincronizados e golpes perfeitamente executados, a batalha se equilibrava.
O mesmo não acontecia com Aidan, que mostrava certa dificuldade para se defender de Ducian, e logo teve sua defesa rompida, sendo arremessado contra a parede com uma violência e força assustadoras.
- Aidan! – exclamei, vendo que Christian havia visto o mesmo que eu, e franzindo o cenho, ele apressou-se, em um movimento sorrateiro e ardiloso, e utilizando-se de sua experiência e supremacia, imobilizou Crystal, postando-se atrás dela, passando os braços ao redor de seu corpo magro e então, apertou-a, sufocando-a, até o ponto em que perdesse os sentidos.
Ela relutou, tentou se libertar, esbravejou vários xingamentos, mas no fim, cedeu.
Christian a soltou, deixando que seu corpo caísse inconsciente sobre o chão, e então me olhou por meros, mas importantes segundos. Assenti com um gesto, dizendo que poderia ficar sozinha, que ficaria bem, que ele deveria intervir na luta de Aidan e ajudá-lo.
Quando se reuniram novamente, Aidan já se levantava com dificuldade e reassumia sua posição na batalha, Ducian poderia estar enfraquecido pelo ritual, mas mesmo assim, naquele momento ele mostrava porque era o mais influente de todas as Sete Tristezas.
Aidan estava ofegante e parecia querer desabar a qualquer instante, enquanto que Ducian ainda se mostrava imponente, imbatível.
Começava a acreditar, que talvez, não houvesse esperança, que era uma batalha perdida.
- Você está bem? – perguntou Christian para o irmão, sem fitá-lo, mas suas palavras o denunciavam, ele estava preocupado.
Aidan tossiu um pouco, colocando a mão sobre o corte em seu peito, limpou o fino filete de sangue que escorria pelo canto de seus lábios com o punho e então o respondeu, sem fitá-lo também:
- Não se preocupe comigo, concentre-se apenas na luta.
Christian sorriu de canto, claramente debochando do pedido do irmão:
- Não seja presunçoso, não estou preocupado com você, só o que me importa é vencer a batalha.
Aidan nada esboçou, mas não o contestou também. Esse era o Christian, sempre ocultando o que verdadeiramente sente, sempre soterrando seus verdadeiros sentimentos.
Ducian logo os interrompeu com sua gargalhada baixa e cruel.
- Vencer a batalha? – ele repetiu, incrédulo e ultrajado – Vocês realmente acreditam que podem vencer essa batalha? Então, são muito mais tolos do que eu havia imaginado!
- Está pronto para por um fim em tudo isso? – perguntou Christian, assumindo uma pose de predador, flexionando seus joelhos e agachando-se, nos olhos uma nova chama furiosa, uma que o impelia a dar tudo de si.
- Sempre estive. – respondeu Aidan, friamente.
- Ótimo! – Christian exclamou, confiante e inabalável.
Ducian apenas ergueu seu queixo para ambos, desafiando-os a tentar derrotá-lo.
E finalmente a batalha ganhou um novo tom, um muito mais intenso, muito mais perigoso, um que me deixava ainda mais apavorada.
Os três se moveram no mesmo segundo, tornando-se borrões indistintos sob meus olhos marejados, e quando enfim se encontraram, uma onda de energia foi liberada, o choque foi tão grande, o impacto foi tão intenso, que os três foram arremessados para trás, enquanto que a energia cinza fosca alastrava-se por todo o salão.
Abaixei-me, encolhendo atrás da estrutura do altar, tapando os ouvidos e cerrando os olhos.
Os estrondos davam-me a impressão de que estava trovejando dentro daquele salão. Os alicerces que escoravam o teto tremeram com o impacto, o teto rachou, as paredes envergaram, e tudo estremeceu. Como explosões poderosas de um bombardeio que jamais cessava.
Quando tudo se aquietou, elevei minha face para a batalha mais uma vez, vendo o trabalho de equipe de Aidan e Christian dar frutos.
Porém o que mais me surpreendeu, era que os três lutavam nas alturas, e não no chão, como eu estivera imaginando.
Usando as estruturas das colunas decadentes como apoios para seus pés, os três bravos guerreiros disparavam seus corpos exaustos na direção uns dos outros.
Ducian parecia esquivar dos golpes agora com um pouco mais de dificuldade, principalmente quando Aidan conseguiu acertar-lhe um soco na face, fazendo-o despencar daquela altura, caindo no chão.
Christian acompanhou sua queda, pousando suavemente no chão, a poucos metros da figura inerte.
Um sorriso debochado vincava seus lábios enquanto ele se aproximava em passos cautelosos, seus dedos se fecharam na gola do manto rubro de Ducian, levantando-o do chão, e então, seu outro punho cerrava, pronto para desferir o golpe de misericórdia.
- Você não achou que isso podia acontecer, não é mesmo, velhote? Acho que não contava com isso, e agora, você pagará por tudo o que me fez!
Ducian abriu seus olhos azuis, arregalando-os de tal maneira, que não me pareceu pavor ou choque, foi simplesmente... ironia.
- Acha mesmo que permitirei que tudo termine dessa maneira? – indagou ele, e quando Christian trincou os dentes e preparou-se para desferir o golpe final, Ducian agarrou a jaqueta de Christian, em um movimento inesperado, e então, veio a segunda explosão.
Aidan pareceu surpreso por ele ser capaz de realizar uma segunda canalização da energia de um Antigo, mesmo após ter enfrentado longas horas de um ritual extremamente exaustivo.
Nem mesmo Christian esperava por isso, e seu corpo recebeu em cheio a onda de energia.
Ele foi arremessado com violência para trás, e seu corpo chocou-se contra uma das colunas segundos depois, desabando inconsciente no chão.
- Christian... – sussurrei, desesperada, parecia que ele não levantaria tão cedo.
Tornei meus olhos para Aidan – agora a mercê de Ducian – vendo o quão debilitado ele estava. Ele não ia agüentar muito mais. Seu corpo não suportaria uma pancada como o de Christian suportou.
- Acharam mesmo que podiam me vencer? – indagou Ducian, estreitando seus olhos, os lábios comprimindo-se.
Balançando a cabeça grisalha e estalando a língua, ele desaprovou a atitude de Aidan.
- Aidan, Aidan, pelo visto, ainda tenho tanto o que lhe ensinar, mas não faz mal, eu moldarei a sua personalidade e o seu coração novamente, e o arrastarei para as trevas mais uma vez.
- Nunca! – sibilou ele com os dentes trincados – Eu nunca mais serei o seu fantoche, Ducian, nunca mais tirarei a vida de pessoas inocentes em seu nome!
- Isso é o que veremos. – ele o desafiou, claramente debochando de suas pretensões.
Em um instante, tudo estava acabado.
Ducian moveu-se como um sopro de vento repentino. Letal e veloz.
Seus punhos enrugados encontraram a face de Aidan várias vezes, suas costelas, seu abdome, fazendo-o arfar e recuar pela dor, sem nem mesmo poder revidar.
Para finalizar, ele elevou seu corpo, e acertou-lhe um chute no queixo, um que o derrubou.
Não satisfeito, Ducian o agarrou pela gola da camisa, deu-lhe uma cabeçada, quase o desacordando, e então, finalmente, para o meu desespero, para o fim de todas as minhas esperanças, Ducian desferiu um último golpe de misericórdia, um tão poderoso e impiedoso, que Aidan rolou no chão vários metros, ficando de bruços, tendo muita dificuldade para se levantar.
- Eu sou um deus, Aidan, quando entenderá? – indagou Ducian, estreitando seus olhos e sustentando seu queixo, demonstrando toda a sua superioridade.
Aidan gemeu, tentou se levantar do chão, mas o esforço era demais. Ele mal conseguia se mexer depois do golpe que recebera, e eu me desesperava, fitando a figura inconsciente de Christian inconsciente no chão, meu coração implorava para que ele despertasse e acudisse o irmão, mas ele não se levantava, ele não abria seus olhos, e eu cheguei à conclusão de que estava completamente sozinha naquele momento.
Tornei a fitar Aidan, testemunhando as suas débeis e frustradas tentativas de sair dali, de levantar, de continuar lutando, mas ele mal agüentava se manter consciente, o que diria continuar travando uma batalha como aquela, uma batalha a qual jamais obteríamos a vitória.
- Eu lhe ensinarei, Aidan, a respeitar o poder de um deus!
E dizendo isso, ele afastou-se da figura exausta e impossibilitada de se mover de Aidan.
Reassumindo uma boa posição, a uma boa distância, Ducian focou-se em concentrar suas energias, mesmo tendo realizado um ritual extremamente exaustivo, suas habilidades eram incomparáveis, imbatíveis. Ele era invencível.
Aidan apertou os olhos e trincou os dentes, ofegando, tentando se levantar daquele chão a qualquer preço, a qualquer custo.
Mas ele não conseguiria. Ele não teria chance alguma. Eu sabia disso. Meu coração sabia.
Tombei meu semblante para Christian uma última vez, meus batimentos acelerados reverberavam em meus ouvidos, minha respiração era pesada, dificultosa. E eu sufocava, sufocava por saber que Aidan morreria, que ele pereceria no final, e me deixaria sozinha mais uma vez.
Mas como ele poderia morrer? Como poderia me abandonar? Como eu poderia sobreviver sem ele?
Não podia.
Minha existência dependia da dele. Ele era a razão pela qual respirava, a razão pela qual meu coração batia, a razão pela qual minha alma se exultava em seu estado de júbilo permanente.
Lentamente, tornei a fitá-lo, ainda imóvel e indefeso no chão, vi Ducian estendendo os braços, vagarosamente, e senti a atmosfera tornar-se cada vez mais fria, o ar cada vez mais denso.
E foi então que realmente me desesperei.
Com os lábios entreabertos, o coração suplicante, e a alma tomada pelas lágrimas, deixei meu refúgio. E corri rumo à escuridão, corri rumo a minha condenação, corri em direção à morte.
Não importa o quanto eu corresse, meus pés pesavam, não importa o quanto eu desejasse gritar, minha voz morria antes mesmo que pudesse invocá-la.
Tudo parecia estar congelando ao meu redor, como se uma forte nevasca, uma tempestade de gelo se abatesse agora contra todos nós. Eu sentia o gelo em meus ossos, em minha corrente sanguínea, em todo o meu ser, ele se alastrava, e dominava-me, endurecia meus músculos, tentava me impedir.
Mas o desejo em meu coração vencia qualquer empecilho, vencia os limites temporais, vencia os limites discerníveis entre vida e morte.
Vencia até mesmo a fera monstruosa de meus medos que me corroíam o coração.
E foi assim, pesando as conseqüências de meu último e desesperado ato, imaginando a dor a que submeteria todos que me amavam, inclusive Aidan, que eu fiz o meu último sacrifício, o meu sacrifício final.
E entrei na frente de meu amado, fitando os olhos mortíferos de Ducian, completamente consciente, perfeitamente lúcida para saber que não haveria mais volta.
Com os braços estendidos, as pernas bambas e o coração na mão, eu fiz o meu último e agoniado pedido:
- Não...!
Os olhos de Ducian não vacilaram por nenhum milésimo de segundo, muito pelo contrário, ganharam um novo brilho ao me ver ali, pronta para se abater como um animal, pronta para verter seu sangue no altar, pronta para definhar e deixar-se consumir pelas labaredas do fogo da perdição.
O silêncio ainda era o meu único companheiro, aquietando todo o caos ao meu redor, dissolvendo a tormenta, apenas para me afundar em uma muito pior depois.
E foi nesse silêncio absoluto, nessa calmaria vertiginosa, que eu ouvi as palavras que me condenaram, as palavras que selaram meu destino, as palavras que foram proferidas pelos lábios de um demônio:
- An sa le poderium!
Impossível descrever o que houve nos instantes que sucederam meus últimos segundos de paz e calmaria.
O gelo que se infiltrara até meus ossos e revirara minhas entranhas intensificou-se até o momento de eu não sentir mais o meu corpo.
Por um instante, senti meu coração paralisar, não bater mais em meu peito. O ar ao meu redor tornou-se tão denso que pesava sobre meu corpo, mas a única mudança concreta e tangível que pude registrar foi a onda violenta de energia que me atingiu em cheio, chocando-se contra a dianteira de meu corpo, como se um caminhão tivesse me atropelado.
A dor foi tamanha que eu perdi todo o fôlego. Vinte lutadores de boxe pareciam ter me socado nas entranhas.
Eu oscilei, meu corpo cambaleou, e finalmente, eu alcei voo. Eu voei. Empurrada por aquela fria e poderosa energia, meu corpo foi arremessado, atingindo mais de três metros em relação ao solo.
Mas aquele não era o voo de minha libertação, muito pelo contrário, era o voo que marcaria o meu fim, a minha sentença. Nada mais.
Quando não consegui mais resistir a aquela dor, fechei os olhos, e deixei-me embalar pela sensação de flutuar, pela sensação de vencer a gravidade, e por poucos, mas inesquecíveis milésimos de segundos, eu realmente me senti voando, como a fênix que marcava meu povo.
Ressurgindo das próprias cinzas, e alcançando o céu azul mais uma vez.
Mas eu não era uma fênix. Eu não ressurgiria das minhas cinzas, antes morreria engasgada com elas. Afogada e soterrada. Sem esperança...
Meu voo durou apenas mais alguns milésimos de segundos, e com o seu findar, veio a dor, veio o despertar para a realidade, bem no momento em que minhas costas encontravam a estrutura da parede.
O choque foi tamanho, que eu abri meus olhos, sentindo as fisgadas violentas que se alastravam por todo o meu corpo, o estalar de meus ossos, apenas para fechá-los novamente quando minha cabeça tomou o mesmo rumo de minhas costas.
Naquele momento meu corpo era pressionado pela onda de energia contra a parede, talvez a única força externa que me mantivesse ali.
Meus lábios permitiram exalar o seu último suspiro, antes que a dor fizesse sucumbir a minha razão, a minha percepção, e tudo ensombreceu.
Como última visão, meus olhos testemunharam quando meu corpo ferido e arrebentado desprendeu-se lentamente da estrutura da parede, e eu caí rumo ao chão, não tendo chance nem mesmo de usar meus braços para suavizar minha queda.
E a dianteira de meu corpo chocou-se novamente, acabando por me soterrar naquele abismo negro.
Caí de bruços, imóvel, quase sem vida, como se uma fenda tivesse sido aberta em mim, uma que permitia a minha vida escapar, uma que drenava minhas forças, e despedaçava-me, cruelmente.
Meu rosto repousou no piso gelado, enquanto lentamente eu tomava consciência da gravidade de meus ferimentos. Senti me perdendo da realidade, afundando e afundando em alguma espécie de abismo negro e gelado.
O frio ainda consumia minhas entranhas, a dor ainda corroia meus ossos, e a certeza de que meu fim havia chegado – e dessa vez não havia escapatória – massacrou meu coração.
No inicio, talvez por uma onda de sonolência estar me baqueando, não senti realmente o quão profundos e letais eram os meus ferimentos, mas assim que o primeiro jorro de sangue subiu por minha garganta, quase me levando a sufocar, e eu o expeli, sentindo seu gosto amargo e metálico, foi que realmente me desesperei.
Gemi, completamente sem fôlego, meus pulmões comprimiam-se em meu tórax, buscando pelo ar que eu não conseguia respirar, tentei mover minhas pernas, mas estranhamente não as sentia.
Aliás, nada do que normalmente deveria sentir, não estava lá, havia muita coisa errada dentro de mim, como se tivessem me aberto e retirado meus órgãos de dentro de mim.
Meu cabelo recaía sobre minha face comprimida contra o piso, impedia-me de ver qualquer fato que ainda pudesse se desenrolar ao meu redor.
Apertei meus dedos, fincando minhas unhas no assoalho escorregadio e lustroso, arfando, desesperada por oxigênio, desesperada por me livrar daquele jorro de dor em minhas veias. Mas nada seria capaz de tal, nada poderia me ajudar, não naquele momento.
Tossi, expelindo um pouco mais de sangue e ofeguei, minha garganta encontrava-se obstruída por algo desconhecido.
Ao longe, senti que alguém chamava meu nome, com fervor e desespero.
Mas eu não conseguia respondê-lo. Na verdade tinha medo de abrir meus olhos, sustentar minha face, e ver a tão temida recriminação nos olhos de meu amado.
Sim, eu sabia que ele estava ressentido comigo. Mas eu... não tivera escolha. Eu precisava salvá-lo, e em troca, dei minha vida, entreguei minha alma nas garras da morte.
Mesmo assim, meu coração clamava por ele, por sua presença, por seu toque, por seu olhar sobre mim, por sua voz de anjo, por cada segundo a mais que pudesse ter ao seu lado.
Então, assim, determinada e obstinada a desfrutar esses últimos momentos, finalmente comecei o doloroso processo de me erguer do chão, ou pelo menos me arrastar como um animal agonizante até ele.
Assim que me mexi, fui golpeada por uma onda de dor, tão insuportável, tão profunda, que eu gemi lamentavelmente. Estava disposta a não chorar, a não prolongar o sofrimento dele, mas era uma necessidade, precisava vê-lo, precisava tocá-lo, uma última vez...
Assim que abri os olhos, arrependi-me amargamente, tudo girava, tudo se distorcia sob meus olhos, até mesmo a figura de Aidan, gritando meu nome, enfurecido e desesperado...
E mesmo debilitada e arrebentada daquela forma, eu consegui reunir o pouco de forças que ainda não me havia sido roubado, e trincando os dentes com força a fim de não gritar novamente, estiquei meu braço direito, puxando meu corpo, deslizando meu ventre como uma serpente pelo chão.
Tudo o mais perdia a sua relevância naquele momento. Ducian, Christian, Lucius, a guerra que ainda se desenrolava ao meu redor, nada mais tinha significado, nada mais possuía algum valor.
Éramos apenas eu e ele, e a morte à espreita...
Fiz uma pequena pausa, perdendo forças, o esforço por mais que fosse mínimo, naquele momento era como tentar transpor uma muralha intransponível para mim.
Absolutamente impossível.
Aidan ainda me chamava ao longe, mas eu me distraía, assustando-me com o cenário destruído ao meu redor, um cenário de guerra.
As colunas ameaçavam cair a qualquer momento, deixando de escorar o teto que apresentava grossas rachaduras.
Grandes blocos e pedaços de gesso e concreto desprendiam-se do teto, espatifando-se ao tocar o chão, exatamente como eu havia feito minutos atrás.
Quando percebi que havia me detido em meu caminho, tornei a fitar Aidan, vendo sua face aterrorizada, desesperada, cravada pela desesperança, pelo mesmo medo que me dominava: a certeza de saber que o fim havia chegado.
Como podia dizer a adeus a ele mais uma vez? Como podia magoá-lo? Feri-lo? Porque era exatamente o que faria a seguir, eu me entregaria nos braços da morte e me deixaria levar por ela.
E morreria.
Minha respiração ainda era dificultosa demais, mas naquele momento, o oxigênio havia fugido de meus pulmões, porque eu imaginara como Aidan se comportaria em minha ausência, após minha partida.
As despedidas nunca foram o meu forte. Mas fazia-se necessária para nós dois, mais uma vez, uma última vez.
Aidan estava tão ferido...
O talho aberto em suas costas e em seu peito ainda sangrava. As marcas em suas costas custariam a cicatrizar, e mais, havia mais, o rasgo que eu abriria em seu coração naquele momento, talvez jamais viesse a se fechar.
Engoli com dificuldade, ainda podia sentir o gosto do sangue em minha língua, mas isso não me deteria. Nada me deteria naquele momento. Porque eu precisava consolá-lo, precisava tentar amenizar, suavizar sua dor, mesmo que só a agravasse, precisava estar nos braços dele uma última vez.
Quando o fôlego da vida me deixasse, eu queria estar em seus braços, acalentada pelo calor que eles sempre me proporcionavam.
Não havia mais nada que eu desejasse naquele momento...
Então, reuni forças, esticando meu braço e puxando o peso morto de meu corpo, tornando a me arrastar por aquele chão frio, trincando os dentes com um estalo audível, sentindo as fisgadas que se alastravam pelo meu corpo, as mesmas fisgadas que quase me levavam a enlouquecer de dor.
Minha cabeça ainda girava, minha visão era turva, como se eu nadasse em águas desconhecidas. Mas eu via a figura dele, era capaz de reconhecer sua silhueta, e isso era tudo que me importava.
Pedi perdão a todos que naquele momento lutavam para me salvar. Perdão por meu egoísmo, por ter preferido abrir mão de minha vida para salvar a de meu amado. Porque o faria mais um milhão de vezes se fosse preciso.
Eu protegeria Aidan com minha vida, usaria meu corpo como escudo, e o manteria vivo com a minha morte. Era tudo o que me importava, afinal.
Quando enfim o alcancei, uma mão quente e forte envolveu meus pulsos, puxando-me para si, eu finalmente havia alcançado meu objetivo, então relaxei meu corpo acabado e dolorido.
Aidan puxou-me com delicadeza para ele, repousando-me com suavidade no piso, as costas comprimidas contra ele, mas mesmo com seus gestos cuidadosos e leves como plumas, eu arfei de dor.
Sua mão envolveu meu rosto, e assim que meus olhos encontraram sua face adorada, eu desabei.
Estivera preparada para conter minhas próprias lágrimas. Para reprimi-las, encarcerá-las em meus olhos e não me permitir vertê-las, mas quando minha visão turva focalizou algo brilhante nos olhos dele, não pude me conter.
Porque ele chorava por mim.
- Por quê? – perguntou-me ele, trincando os dentes com força e obrigando-se a continuar, sua fúria era tão densa, tão tangível, que aquilo tudo só me proporcionou uma dor muito maior que eu agora suportava, a dor de saber que estava ferindo o coração dele – Por que fez essa idiotice?
Lentamente, estiquei minha mão até seu rosto, tocando seus olhos com a ponta dos dedos e capturei aquele líquido brilhante e transparente, sorrindo debilmente.
- Não... Não chore...
Minhas palavras somente o fizeram endurecer ainda mais a expressão, só intensificaram sua fúria e aumentaram sua dor. Aidan cerrou os punhos com tanta força que eu estremeci.
- Você não podia ter feito isso! – acusou-me ele, raivoso e ressentido – Você não deveria estar morrendo, mas eu, eu sim!
Toquei sua face mais uma vez, vendo a sua fúria esvaecer sob meu toque, cedendo espaço para toda aquela dor, todo aquele sofrimento, toda a amargura.
- Eu... Eu não tenho medo. Sei que deveria ter, mas... Aidan, se cheguei até aqui foi porque os ventos do destino me trouxeram, e eu não tenho arrependimentos...
De repente, as lágrimas já eram vertidas de meus olhos, eu não tinha mais controle sobre nada de mim, nada de meu corpo.
- Como pode dizer isso? – vociferou ele, irritado ainda, mas no fundo eu sabia, desesperado pela proximidade do fim.
- Eu... Eu sacrificaria tudo... por você...
Sob os efeitos de minhas mais sinceras palavras, e ciente de sua veracidade, Aidan desviou os olhos castanhos, amargurado e ressentido.
Mas... Eu não queria... Não queria que ele se zangasse comigo. Antes precisava que ele me perdoasse por todo o mal que lhe fiz.
- Aidan – eu o chamei, mais uma vez –, eu te amo, como jamais pensei que poderia amar alguém em toda a minha vida, como jamais pensei que pudesse amar. Você trouxe luz até mim, trouxe vida... Você me salvou de mim mesma, salvou-me de minha... solidão. Você me salvou da tristeza... E... Eu sei que te disse coisas horríveis – lembrei-me amargamente de minhas palavras ferindo-o – mas, você não sabe o quanto me arrependo de cada uma delas, o quanto cada uma delas me assombra... E eu...
Engoli com dificuldade novamente, tentando trazer à tona aquelas palavras, aquelas palavras que significavam minha salvação, o meu consolo quando enfim partisse, mas foi demais e o ar me faltou.
Aquelas sombras que estiveram à espreita durante toda a confissão de meus sentimentos, agora se aproximavam em marcha lenta, prontas para me dominarem, prontas para me envolverem. Mas... Eu não poderia partir, não ainda, não enquanto não abrisse meu coração para ele.
Aidan envolveu-me com seus braços, puxando-me para si, envolvendo-me no mais terno e afetuoso abraço. Sentia que o torpor já despontava no horizonte, tomando meu corpo, levando as dores, todas elas, mas me suspendendo no nada, no vazio, e aquilo só me assustava ainda mais.
- Eu não pedi que fizesse isso por mim... – sussurrou ele em meu ouvido, roçando seus lábios em minha testa – Eu não pedi que morresse por mim...
Cerrei os olhos, apenas por um breve momento. Como poderia fazê-lo entender que se ele se fosse, nada restaria para mim? Que apenas por esse motivo seria capaz de peitar a mais negra tempestade, o mais poderoso vendaval, e ainda assim, sem temer ou me abalar.
Àquela altura, o torpor já se diluía em minha corrente sanguínea, envenenando-me com seu amargo néctar, condenando-me para todo o sempre e me levando a crer que dessa vez não haveria chance de enganar a morte.
Porque minha hora final finalmente havia chegado. A hora de dizer adeus a tudo o que construí em minha breve passagem por esse mundo, de dizer a adeus a tudo o que amo, e tudo o que sonhei.
Porque no fim seriam apenas isso, sonhos vazios e esquecidos.
E embora meu findar não viesse de forma serena, muito menos suave, e sim violenta e dolorosa, eu podia aceitar, eu podia lidar com as conseqüências de minhas decisões e chegar à conclusão de que não possuía arrependimentos.
Abri meus olhos mais uma vez quando meu coração falhou pela primeira vez em meu peito. A dor era tão intensa que se sobrepôs ao torpor, fazendo-me encolher nos braços de Aidan, ele logo notou que eu já exalava meus últimos suspiros de vida e cerrou os olhos com força, de seus lábios de veludo, apenas um pedido, um desesperado pedido:
- Não me deixe, Agatha, fique, fique comigo. Eu preciso de você...
Eu queria atender seu pedido. Queria dizer que se dependesse unicamente de mim, eu ficaria com ele pelo resto da eternidade, mas naquele momento, a morte apressava nossa despedida, drenando o que restava de vida em mim, roubando-me a alma, arrancando-a de minha casca para nunca mais devolvê-la.
Minha vista ensombreceu vagarosamente, enquanto tudo o que eu um dia amei com tanto fervor e tanta paixão, perdia foco. Fiquei feliz por ao menos ser o rosto dele a última coisa que eu tivesse o privilégio de ver.
Meu coração lutava para continuar batendo em meu peito, mas eram esforços em vão, eu não tinha mais forças, eu não tinha mais vida, eu não tinha mais nada...
As sombras avançaram sobre mim, sobre meu corpo, e eu senti frio. Como jamais senti em toda a minha vida. Porque aquele frio era até mesmo capaz de alcançar minha alma condenada.
Como tentáculos gelados, elas me envolveram, elas me engolfaram, e me soterraram nas profundezas.
A dor em meu peito era sinal de que meu coração ainda batalhava, mas eu nem mesmo respirava mais.
Ao longe, podia ouvi-lo chamando por mim, tentando me reanimar a todo e qualquer custo.
Mas não havia escapatória, e logo eu já tinha mais consciência do calor do corpo dele ao meu redor, de seu cheiro acalentando-me, de sua voz chamando-me, eu apenas me permiti ser puxada para aquele abismo.
Era mais fácil do que lutar contra aquilo. Porque eu não tinha forças, não tinha mais nada.
Quando a dor em meu peito cessou, eu soube que havia acabado. E o torpor logo tratou de me aquietar.
Envolvendo-me como um cobertor frio e negro. O frio ainda se intensificava ao meu redor, estava tão gelado ali...
Senti-me afundando, caindo, despencando, perdendo-me para sempre.
Ali, na escuridão eterna, na noite infindável, no céu negro sem luar e sem estrelas.
Habitando o silêncio e o vazio esmagador.
Os gritos de Aidan, desesperados e furiosos por me trazer de volta, ainda ecoavam em meus ouvidos, mas estavam distantes demais, fracos demais.
E foi ali na escuridão densa e aterradora, que um pequeno e frágil feixe de luz brilhou.
Submersa em tamanha gelidez e negridão, eu lutei bravamente para encontrar aquele feixe de luz, aquele pequeno pontinho cintilante, mas que me trazia tanta paz, tanto alento e aquecia-me naquele rigoroso inverno no qual me encontrava.
Lutei e lutei até conseguir alcançá-lo, e assim que adentrei sob seus raios iridescentes e calorosos, eu fui puxada daquele vazio, retirada daquela escuridão.
A luz ardeu em meus olhos sensíveis, a inquietude doeu em meus tímpanos, e a cena que presenciei cortou-me em mil e um pedacinhos o coração.
Aidan me segurava junto de seu corpo ao longe, o rosto enterrado em meu pescoço, em meus cabelos e aquilo me amargurava... Era estranho que eu pudesse vislumbrar aquela cena, como uma mera telespectadora, como um desconhecido.
A cena era tão intensa, tão dolorosa, que eu esqueci-me do ponto brilhante bem atrás de mim. Sabia que ele chamava, sabia que ele esperava por mim. Mas, eu não conseguia sair dali.
Na verdade, tudo ao meu redor cintilava, era tão belo... Mas a cena que se desenrolava ao longe era mais importante, era errado que eu seguisse para o ponto brilhante naquele momento.
Estendi o braço, a mão suspensa no nada, os olhos ardiam, mas não haviam lágrimas. Não, almas não choram, mas sentem a dor dos outros, assim como eu podia sentir a dor de Aidan naquele momento. Tão profunda e tão desesperadora...
Olhei para trás, o feixe de luz ainda me esperava, mas... Eu não podia ir, não ainda.
Tinha deixado algo importante demais para trás, e não era certo desampará-lo.
Decidida a ficar e cuidar dele, lutei para atravessar aquela brilhante e fina barreira que me separava da cena inusitada. Então, algo tentou me sugar de volta para trás, para perto do ponto cintilante, mas eu não queria ir, não podia ir!
E lutei novamente para me aproximar da barreira, longe do feixe de luz, eu sentia frio, sentia o medo, sentia a dor, sentia o sofrimento, era algo tão... desolador.
Mas não me importava mais nada.
E ainda lutando contra a força magnética que me atraía para o feixe de luz, eu atravessei a barreira, em direção a Aidan, que ainda pranteava minha morte, em direção apenas a ele, e tudo o que vi depois foi escuridão.
Somente escuridão...
Nada mais...
Fale com o autor