Saga Sillentya: Espelho do Destino
3 II - Entre Amigos
Notas iniciais
Capítulo II – Entre Amigos
"E eu ainda acredito Que há mais amor do que ódio Há mais coração do que dor E nós estamos presos Nesse grandioso mundo, juntos". (The Red Jumpsuit Apparatus — Believe)Exatamente três horas depois, o avião pousou na pista do Aeroporto Internacional Leornado da Vinci di Fimiucino. Eu estava tão sonolenta que Christian rebocou-me consigo por todo o saguão apinhado.
Eu relutava comigo mesma para manter meus olhos abertos, enquanto cruzava a multidão alvoroçada, pessoas apressadas, cujos murmúrios talvez fossem o único empecilho a me impedir de cair no sono ali mesmo.
Christian também apanhou nossas bagagens, e logo guiou-nos para a saída, sustentando praticamente todo o peso de meu corpo. Eu esfreguei meus olhos, minuciosamente, enquanto ele estacava, parecendo estar procurando por algo ou alguém.
Segui seu olhar, passando por tantos rostos desconhecidos, alguns taxistas logo nos cercaram, oferecendo seus prestativos serviços, guias turísticos já montavam suas caravanas, partindo em grupos distintos.
Um homem de cabelos grisalhos e olhos pequenos aproximou-se sorrateiro de nós dois, um sorriso enorme nos lábios.
- Buonanotte! – exclamou ele, e Christian assentiu, nada interessado, vi que ele apontava freneticamente para um táxi, logo atrás de si, mas Christian exclamou algo que eu não conseguia compreender, rápido demais, então presumi que eles estavam conversando sobre nosso meio de transporte.
Depois de literalmente viajar na conversa de ambos, Christian dispensou o homem, tornando a focar sua atenção para o que procurava. Ainda com a cabeça recostada em seu ombro, e agarrada ao seu corpo porque mal conseguia permanecer de pé sem que estes vacilassem, fitei-o, não entendendo por que não podíamos pegar um táxi e ir para onde quer que ficasse Ephemera...
- O que está procurando? – perguntei, sonolenta, bocejando logo em seguida.
Christian não me respondeu a principio, muito pelo contrário, continuou buscando por algo, e sem ao menos me olhar nos olhos, respondeu por fim.
- Aqueles palermas estão atrasados – ele grunhiu, parecendo-me profundamente irritado –, não acredito que Lucius os mandou para vir nos pegar!
- Eles quem? – repeti, ainda sem entender nada.
E então, seus olhos azuis – que antes se encontravam semicerrados e concentrados, buscando por sei lá o quê – arregalaram-se, no que eu reconheci primeiramente como surpresa, depois reconhecimento, para então passar para a irritação.
Segui seu olhar novamente, desta vez vendo um discreto Ford Focus Sedan preto, com vidros fume bem escurecidos, parado tranqüilamente no meio-fio. O vidro desceu, e um fraco feixe de luz penetrou o interior do automóvel, apertei meus olhos para ver a figura que dirigia aquele carro, mas tudo o que consegui visualizar foi um mero vislumbre de uma face sorridente e que acenava para nós dois.
Christian bufou, revirando os olhos dramaticamente, e então me arrastou com ele, pegando com sua mão livre nossas bagagens e atravessamos a pista iluminada pelos postes esguios e um tanto recurvados de metal.
As portas do carro foram abertas, e deslizando para fora dele surgiram duas figuras que eu jamais vira em toda a minha vida, mas que mesmo assim, sorriram para mim e para Christian, que ainda estava irritado pelo atraso iminente deles.
Encarei os traços tão distintos de ambos, surpreendendo-me com suas respectivas nacionalidades tão diferentes e opostas.
O primeiro era um brutamonte, um garoto enorme, com músculos e mais músculos transbordando de suas roupas discretas: uma camisa social branca, com alguns botões abertos, deixando que seu pescoço musculoso ficasse a mostra, jeans escuros e uma jaqueta sobrepondo a composição.
Sua pele era morena, quase de um tom acobreado, seus cabelos eram negros e curtos, repicados, lançando sombras nas maçãs altas de seu rosto, no nariz levemente arredondado e no queixo quadrado. Os olhos eram de um negror intenso, como piche. E ele portava nos lábios um sorriso amistoso, bem diferente da hostilidade que emanava de seus músculos.
O segundo era vários centímetros menor que o outro, bem mais esguio, na verdade, sua aparente falta de coordenação motora enquanto se movimentava lembrou-me instantaneamente de Max.
Sua pele possuía um tom um tanto pardo, mas ainda assim era clara como a neve. Os cabelos também eram negros, repicados, porém formavam um discreto topete em sua testa. Os olhos eram pequenos, típico traço oriental. Ele era asiático, presumi, enquanto analisava suas roupas tão discretas quanto as do sujeito que caminhava ao seu lado; camisa listrada, com a manga dobrada até os cotovelos, jeans um pouco mais claros, mas nada de jaqueta.
Seu sorriso eram igualmente amistoso, e os olhos brilhavam de expectativa. Christian continuou a me rebocar consigo, até que nós nos encontramos, e eu petrifiquei...
O garoto oriental soltou uma curta risada, e recebeu uma leve cotovelada do outro mais velho e incrivelmente mais assustador. Engoli em seco e encarei ambos, mas suspirei aliviada quando Christian demonstrou a profunda irritação que o vinha consumindo nos últimos minutos.
- Estão atrasados. – grunhiu ele, causando mais risadinhas no garoto oriental e no outro mais moreno.
- Ei, não desconte o seu mau humor em mim e no Ramon, o trânsito estava uma loucura. – defendeu-se o garoto mais novo, revirando os olhos, o que me fez encarar o garoto incrivelmente alto e musculoso, seu nome era... Ramon? Ele lançou-me um olhar de diversão e piscou discretamente, eu desviei o olhar, ruborizando.
Christian meneou a cabeça para os lados, como se estivesse tentando se convencer de que não queria discutir com aqueles dois completos estranhos para mim.
- Tudo bem — ele exclamou, respirando lenta e profundamente –, outra hora eu arranco as suas cabeças.
Eu congelei, mas Ramon e o outro garoto riram, cutucando um ao outro com os cotovelos. O tal de Ramon soltou um pigarro, o que fez o outro menino parar de sorrir no mesmo instante, e eu corei ao perceber que seria o centro das atenções pelos próximos segundos.
- Então, ela é a garota de quem Lucius nos falou?
Christian sorriu de canto, seu braço envolto em minha cintura – a única coisa a impedir que eu desmaiasse de sono naquele momento – afrouxou um pouco, e ele depositou nossas bagagens no chão.
- Ramon, Daisuke – ele pronunciou os nomes de cada um deles, gesticulando para mim –, essa é Agatha Bryce.
Ambos sorriram para mim, e depois travaram uma pequena batalha para ver quem conseguia cumprimentar-me primeiro. Eu revirei os olhos, crianças...
O menino de traços orientais, cujo nome eu descobri ser Daisuke, cumprimentou-me, sorrindo e analisando-me minuciosamente, o que me fez quase corar outra vez.
- É um prazer, Agatha, sou Daisuke Hasegawa.
- O prazer é meu. – respondi-lhe, timidamente, sorrindo também.
Depois disso, o outro menino simplesmente desistiu da idéia de me cumprimentar com um simples aperto de mão e puxou-me para um abraço, eu só não ruborizei novamente devido ao fato de que não conseguia respirar com seu aperto de aço naquele momento.
Ele finalmente me soltou, suas mãos permaneceram em meus ombros, e depois bagunçaram meu cabelo, então compreendi que já estava sendo tratada como parte da família. E sorri, feliz por estar sendo aceita.
- Ei, pequena, finalmente nos conhecemos, sou Ramon Munhoz.
Pequena?
Tudo bem, comparando-me com seus quase dois metros de altura, eu realmente era pequena.
Ajeitei meu cabelo, que havia sido bagunçado, e encarei Christian, sugestivamente, mas ele deu de ombros.
Daisuke apanhou nossas bagagens rapidamente e as levou até o porta-malas do Ford Focus Sedan. Ramon encaminhou-se até a porta do motorista, abriu-a e deslizou até o banco, girado a chave na ignição e fazendo o motor do carro roncar suavemente.
Encarei as vielas iluminadas uma última vez, a imensa estrutura do aeroporto bem atrás de mim, pessoas partiam em seus táxis, em seus carros, elas seguiam seus próprios rumos, elas trilhavam seus próprios caminhos e pareciam realizar esse feito sem o menor temor; então por que eu deveria temer também?
Christian tocou meu ombro levemente, despertando-me de meu pequeno devaneio. Ele encarava-me com seus grandes e brilhantes olhos azuis, uma sobrancelha arqueada de descrença.
- Você está bem? – perguntou-me ele, seguindo a direção de meu olhar segundos antes, e vendo exatamente o que eu vi, cada um seguindo o seu caminho.
Seus olhos retornaram para mim com a mesma velocidade que me deixaram. Sorri-lhe, demonstrando toda a minha confiança, e um pouco da minha ansiedade e nervosismo. Mas eu ficaria bem, disso tinha certeza.
- Ótimo – ele assentiu, e tratou de empurrar-me para o interior do Ford Focus Sedan preto –, podemos ir então.
Eu deslizei no banco de couro, vendo que Ramon já se acomodara no volante e Daisuke ao seu lado. Christian entrou e fechou a porta, imediatamente o carro arrancou, com uma velocidade que teria me espantado e causado o meu alarde, se eu não estivesse tão cansada até mesmo para ter medo de um lunático no volante.
Deixei que meus olhos recaíssem sobre a janela de vidro fume, observando as ruas iluminadas, as luzes bruxuleantes dos postes, o tráfego um tanto lento, mas ainda assim nada que pudesse diminuir a beleza do passeio.
Roma era simplesmente... Contagiante. Há tanto tempo que eu desejava conhecer seus principais pontos turísticos, como o famoso e histórico Coliseu, a bela Fontana Di Trevi, a Basílica de San Pietro, e o memorável Arco Constantino.
Eu via com meus olhos cansados, relutando comigo mesma para não adormecer naquela verdadeira excursão de rico valor histórico e cultural, mas meu corpo traía-me, discordava do que eu realmente queria, e em algum momento enquanto passávamos em frente à majestosa estrutura do Coliseu, eu simplesmente desisti de bancar a durona e orgulhosa, procurei o ombro de Christian e reconfortei-me próximo ao calor de seu corpo.
Ele recebeu-me de braços abertos, apertou-me contra o seu corpo, enquanto eu era embalada por aquela sensação mágica que Roma transmitia, praticamente exalava.
Não tive muita consciência do que houve depois disso, apenas meros vislumbres e poucos relampejos...
Devo ter acordado de meu sono leve uma dúzia de vezes, mas sempre tornando a dormir novamente minutos depois de ter sido desperta. Eu via o automóvel afastar-se cada vez mais do centro iluminado e barulhento, e tanta movimentação dava espaço a um silêncio muito conveniente para mim naquele instante.
Eu vi de relance uma mansão muito bonita quando o carro enfim parou, estacionado no meio-fio cuidadosamente, os faróis sendo apagados imediatamente. Os muros enormes da mansão impediam-me de ver sua arquitetura, havia trepadeiras subindo e infiltrando-se em sua estrutura, mas aquilo era até charmoso, considerando o restante da fachada do casarão.
Havia um imenso portão de grades de ferro, que rangeu assim que foi aberto, Christian carregou-me em seus braços, caminhando sobre uma estreita passarela de pedra, rodeada por um gramado verdejante, jardins exuberantes onde a grama parecia ser aparada diariamente.
Um pequeno labirinto verde e uma fonte em seu centro decoravam a entrada da mansão, concedendo-lhe um ar gracioso. Meus olhos observaram o céu estrelado de Roma, tantos pontinhos cintilantes, era algo tão belo...
Depois, eu observei a fachada da mansão, sua arquitetura, constatando que ela era um longo retângulo, havia muitas janelas, mas era impossível ver o seu interior devido às cortinas que recobriam-nas, ocultando-lhe o interior.
Nem mesmo o menor feixe de luz era capaz de transpassar o grosso tecido do qual eram feitas; talvez esse fosse o objetivo, omitir seus moradores, ocultar suas presenças ali. Discrição era algo essencial quando se tinha uma sociedade inteira de seres poderosos em seu encalço.
Vi quando a imensa porta dupla de madeira avermelhada foi aberta, meus ouvidos captavam os passos leves e tranqüilos de Christian na tapeçaria, mas no meio do trajeto, enquanto ele subia alguns lances de escada, eu adormeci novamente, e não tive mais consciência de nada...
Horas depois, eu revirei-me, girando meu corpo sobre a superfície macia e quente do colchão. Só então notei que a cama parecia estar larga demais, se eu realmente estivesse na minha casa, na minha cama, há essa hora estaria com a face comprimida contra o assoalho gelado.
Remexi-me novamente, vendo como os lençóis pareciam mais escorregadios, mais lisos, não poderiam ser os lençóis de linho que minha mãe tanto adorava.
Eu tentei sentir com meu olfato, o cheiro do café que minha mãe sempre preparava de manhã bem cedinho, o cheiro das torradas fresquinhas, tentara ouvir seu cantarolar despreocupado e melodioso enquanto ela movia-se na cozinha, preparando o café da manhã.
Mas não senti e não ouvi...
E dei-me conta de que não estava mais em casa. Não estava mais em South Hooksett. Estava longe de casa, longe de meu lar, e a sensação de desconforto e desolação apanhou-me de tal maneira que naquele instante tudo o que eu queria era pegar o primeiro vôo de volta para New Hampshire e nunca mais sair de lá.
Mas eu não podia, e isso era muito pior ainda.
Abri meus olhos para a minha mais nova triste realidade, vendo pela primeira vez onde exatamente me encontrava. Uma luz ofuscante e alaranjada – proveniente do imenso lustre pendurado no teto – cegou-me por poucos segundos.
Eu observei, com minha visão sensível, o luxo e o requinte do quarto no qual havia sido instalada. Meus dedos agarraram o tecido escorregadio do lençol; era seda, e uma seda muito bonita, de um tom ofuscado de dourado.
Havia cortinas da mesma tonalidade dos lençóis penduradas acima de minha cama, envolvendo-a parcialmente. Olhei em derredor, observando tudo minuciosamente, vendo a tapeçaria elegante, as cadeiras acolchoadas de uma madeira lustrosa, as paredes recobertas por papéis de parede lisos e claros, os lustres de cristais, as luzes bruxuleantes dentro de si, dançando lentamente. E uma cortina escura recobrindo a única janela de todo o cômodo.
Ajeitei-me sobre o colchão, sentando-me, quando só então me dei conta de que não estava sozinha. Um par de olhos brilhantes e de um azul turquesa tão profundo quanto uma piscina iluminada pelo sol observava-me de forma curiosa e cautelosa.
Vi um pedaço de sua cabeleira castanho-claro, ondas tão suaves e macias, enquanto a pele era de um tom tão clarinho quanto o alabastro. Era uma criança, mais especificamente um menino, que não devia ter mais do que cinco aninhos.
Sorri automaticamente, fixando meus olhos nas bochechas coradas do garotinho, e elas arderam em um vermelho vivo quando percebeu que eu o havia descoberto. Suas mãozinhas na guarda da cama, tão pequeninas e frágeis recuaram, e ele baixou a face, encolhendo-se.
- Não fique com medo! – pedi-lhe gentilmente, estendendo minhas mãos na sua direção, ele tornou a erguer a face mimosa, as pedras azul turquesa cintilando de expectativa – Não vou machucá-lo – garanti-lhe e ele repousou o queixo pequenino sobre a madeira mogno da guarda da cama, um sorriso nos lábios.
Ele uniu as sobrancelhas, o sorriso desmanchou, dando lugar a um biquinho, enquanto seus olhos analisavam meu semblante cuidadosamente.
- Quem é você, moça bonita? – perguntou ele, a voz inocente e infantil, tão doce e pura como uma melodia cantada por um anjinho.
Eu sorri para ele, observando seus movimentos cuidadosos e ao mesmo tempo tão espontâneos.
- Meu nome é Agatha, e o seu?
O biquinho desapareceu no mesmo instante e mais uma vez ele sorriu, radiante, por eu estar sendo gentil e atenciosa com ele.
- Damien. – respondeu ele, os olhos estreitando-se suavemente nas pontas, ele era tão pequeno e ainda assim tão esperto.
- Olá, Damien. – cumprimentei-o e ele desistiu de manter distância, deixou seu esconderijo de vez, lançando-se no colchão, bem ao meu lado – Então, posso saber como um garotinho tão esperto quanto você veio parar aqui? – perguntei, despreocupadamente, causando mais um sorriso nele.
- Meu papai mora aqui – respondeu-me ele, como se fosse algo óbvio – Minha mamãe também costumava morar aqui, e o irmãozinho... – ele franziu os lábios, sua expressão tornando-se confusa – Mas eles não moram mais, papai disse que eles foram fazer uma longa viagem – exclamou ele, revirando os olhos e espalmando as mãozinhas para demonstrar o tamanho do trajeto.
- E qual o nome do seu papai?
- Lucius – respondeu-me ele prontamente.
Meus olhos arregalaram-se pela recente descoberta, aquele menino era filho de Lucius? Pensando bem, isso me lembrava algo que Christian me contara certa vez, depois de confessar-me o motivo de todo o seu ódio por Aidan.
“Mas isso não é nem metade de toda a história, anos depois, Ducian tornou a tirar pessoas que ele amava, capturando a sua esposa, Helena, ainda grávida de seu segundo filho, e então, sem a menor clemência ou misericórdia, ele a assassinou a sangue frio, agindo pelas costas das demais Tristezas e despertando a fúria de Lucius...”, dissera-me ele.
Então, se a esposa de Lucius foi assassinada enquanto ainda carregava no ventre o segundo filho dele... Damien, o garotinho bem diante de mim, nesse exato momento, era seu primogênito. Uma criança tão inocente, e Ducian já havia conseguido feri-lo, arrancando pessoas que ele amava. Pelo visto, Damien não sabia da verdade, nem mesmo poderia, era demais para uma criança tão pura e ingênua suportar.
Tornei minha atenção para o garotinho a minha frente, mas antes que sequer pudesse pensar em algo para lhe dizer, a porta de madeira branca foi aberta, e entrando por ela, apareceu um Christian sorridente, carregando um suporte de madeira, com o que claramente era o meu café da manhã.
Os olhos de Damien iluminaram-se ao ver o semblante alegre e leve de Christian. Ele lançou-se do colchão, correndo em sua direção, e passando os bracinhos miúdos ao redor das pernas longas de Christian, os olhos fechando-se, nos lábios, um sorriso de satisfação.
- Christian! – ele exclamou, e passou uma das mãos em seu cabeço caramelo, bagunçando-o.
- Ei, tampinha, também senti sua falta.
Sorri ao observar a aparente camaradagem dos dois. Eu jamais imaginara Christian tendo jeito com crianças pequenas, muito menos sendo amigo delas.
- Você vai ficar dessa vez, não vai? – perguntou, os olhinhos arregalando-se, brilhantes, de expectativa e temor pela possível frustração. Ele devia gostar muito do Christian.
- Claro, moleque, fique tranqüilo, eu não vou a lugar algum agora. – e ao terminar de dizer essas palavras, ele lançou-me um olhar cheio de significados. Desviei os olhos, ruborizando um pouco – Ei, Stella está procurando por você, vá até lá e veja o que ela quer.
Damien fez um biquinho novamente, depois seus olhos dispararam até mim, um sorriso emoldurava seus lábios delicados.
- Depois eu volto para a gente conversar, moça bonita. Tchau.
E então, ele disparou pela porta, desaparecendo no longo corredor, seus passos abafados no carpete de veludo. Christian fechou a porta atrás de si e caminhou em passos leves até a minha cama, depositando o suporte de madeira, com um copo de suco, torradas, algumas frutas e fatias de queijo, em cima do colchão e sentando-se bem perto de mim.
Arqueei uma de minhas sobrancelhas, vendo a mordomia a qual sabia que jamais me acostumaria.
- Ficarei mal acostumada desse jeito... – sussurrei e ele riu levemente.
- Achei que depois de dormir por quase doze horas inteiras, você merecia algumas mordomias, como, por exemplo – ele fez uma pequena pausa, lançando um olhar de diversão para o que eu vestia naquele exato momento – essa camisola ficou perfeita em você, muito sexy.
Baixei meus olhos para o meu colo, vendo o decote profundo da camisola que estava vestindo naquele momento. O tecido era branco e leve, com alças grossas de cetim dourado, justo no busto, mas abrindo na cintura. Corei, e imediatamente agarrei um pedaço da manta que recobria meu corpo, escondendo-me. Christian sorriu maliciosamente.
- Não se preocupe, não fui quem trocou de roupa de você, foi Stella, se bem que eu adoraria ter feito isso.
Peguei um dos travesseiros de pena de ganso e bati-lhe na cabeça, mas Christian defendeu-se de meu ataque, usando o antebraço para impedir o impacto.
Tornei a fitar a porta agora fechada, lembrando-me do garotinho que invadira meu quarto enquanto eu dormia.
- Ele é filho do Lucius, não é mesmo? – conjeturei, vendo que Christian assentiu, um pouco mais sério, taciturno.
- Damien é um sobrevivente. Testemunhou a morte da própria mãe, mas não se lembra de nada daquela noite, Lucius quase não chegou a tempo para salvá-lo.
- Ele não sabe sobre a mãe, sabe?
Cristian soltou um longo e profundo suspiro.
- Lucius prefere omitir esse fato dele, não quer que o filho cresça traumatizado, muito menos com ódio e sede de vingança no coração. Ele... é inocente demais.
- É uma criança adorável – complementei, sorrindo.
Ele sorriu novamente, levantou-se e encaminhou até a porta de madeira branca toda entalhada e maçaneta dourada reluzente.
- Tome seu desjejum, vista algo e desça, estarei esperando por você lá.
- Por quê? – eu tive que perguntar.
Christian hesitou por poucos minutos, deixando que seus olhos azuis demorassem-se em meu semblante e por fim, falou.
- Lucius quer conhecê-la, além do mais, vocês dois parecem ter um sério assunto para discutir.
- Que assunto?
Sua resposta foi categórica e objetiva, e deixou-me completamente aturdida e desconfiada.
- Laços sanguíneos.
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