Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
43 O Jogo de Mesa
A manhã em Astúria surgiu com uma luz vibrante, mas nada brilhava mais do que a tensão renovada — e agora cúmplice — entre o Príncipe Herdeiro e a Loba do Norte. Na mesa do café da manhã, o silêncio habitual foi substituído por um jogo de palavras que deixava todos os presentes em um estado de total confusão.
Caelum cortava sua fruta com uma precisão cirúrgica, mas seus olhos azuis não saíam de Catarina. Ela, por sua vez, bebia seu chá com uma elegância desafiadora, sustentando o olhar dele com um sorriso de canto que escondia segredos da noite anterior.
— Lady Catarina — começou Caelum, a voz carregada de um veludo perigoso. — Notei que a senhora parece... exausta esta manhã. O ar do Sul por acaso está pesado demais para seus pulmões nortistas, ou a senhora passou a noite lutando contra fantasmas no seu quarto trancado?
Catarina soltou uma risadinha, seus olhos brilhando com o deboche que agora era puro carinho.
— Fantasmas são fáceis de lidar, Vossa Alteza. O problema são os invasores teimosos que acham que podem ditar as regras do meu sono. Mas devo admitir... o "ar do Sul" teve seus momentos interessantes durante a madrugada. Quase me fez esquecer o quanto o Príncipe pode ser... ruidoso quando quer atenção.
Julian parou a caneca de café no meio do caminho, olhando de um para o outro com a testa franzida. Aria arqueou uma sobrancelha, observando a mão de Caelum, que parecia relaxada demais para alguém que, até ontem, estava em pé de guerra.
Diálogos de Confusão
— Do que vocês estão falando? — perguntou Katrina, olhando para o filho com desconfiança. — Ontem vocês não conseguiam ficar no mesmo salão sem que o gelo cobrisse as paredes.
— Oh, minha querida mãe — Caelum respondeu, sem desviar os olhos de Catarina. — É que eu decidi que a paciência é uma virtude real. E a Lady Catarina... bem, ela precisava de uma lição sobre como não se perder nos corredores do castelo.
— Uma lição que eu espero que não precise ser repetida tão cedo — rebateu Catarina, inclinando-se para a frente. — Embora o "instrutor" tenha sido surpreendentemente... dedicado à tarefa.
— Dedicado? — Caelum riu, um som baixo e rouco. — Eu diria que fui apenas caridoso com uma estrangeira confusa.
— Caridade? — Catarina debochou, chutando levemente o pé de Caelum por baixo da mesa. — Você estava mais para um náufrago agarrado a uma tábua de salvação.
A Reação do Conselho Familiar
Gaspar olhou para Richard, que apenas deu de ombros, igualmente perdido.
— Eles estão brigando de novo ou... estão se elogiando? — sussurrou o rei.
— Eu não entendo esse dialeto que eles falam — resmungou Richard. — Parece que estão se insultando, mas os olhos deles parecem querer incendiar a mesa de tanto desejo.
Aria, percebendo a marca quase imperceptível de um beijo no pescoço de Catarina que a gola do vestido não escondia totalmente, soltou uma risada abafada e trocou um olhar cúmplice com Julian.
— Acho que o "cortejo" foi retomado, tio — disse Aria, voltando a comer. — Só que do jeito deles. Com espinhos e mel.
Caelum levantou-se, estendendo a mão para Catarina com um sorriso que prometia mais do que meras palavras.
— Com licença, família. Tenho que mostrar à Lady Catarina uma nova... "estratégia" de defesa no gabinete. Ela parece ter muita dificuldade em entender certas posições.
— Vou com prazer, Vossa Alteza — Catarina aceitou a mão dele, levantando-se. — Mas tente não reclamar se eu derrubar sua guarda de novo. Você sabe que eu não tenho piedade de príncipes pretensiosos.
Eles saíram do salão trocando farpas carinhosas, deixando os pais e o rei em um silêncio absoluto, tentando processar como o ódio mortal se transformara naquela estranha e magnética harmonia.
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