​O céu de Astúria estava carregado de nuvens cinzentas, como se o próprio clima sentisse a melancolia que pairava sobre os jardins reais. Na carruagem negra, estampada com o brasão de Valmor, os baús de couro já estavam acomodados.

​— Eu não quero que você vá! — A voz de Aria, aos dez anos, soou aguda e embargada. Ela segurava a manga da túnica de Caelum com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

​Caelum, tentando manter a postura ereta que seu pai, Richard, tanto insistia, apertava os lábios para não chorar. Ele usava o uniforme azul-escuro da Academia, pesado e desconfortável para o corpo de uma criança.

​— Eu tenho que ir, Aria — ele respondeu, a voz falhando por um segundo. — Papai disse que um Duque precisa aprender a lutar. Eu preciso ser forte para proteger você quando você for Rainha.

​— Eu não quero uma Rainha protegida, eu quero o meu primo! — Ela exclamou, as lágrimas finalmente transbordando e manchando seu vestido de seda. — Quem vai brincar de conselho comigo? Quem vai me ajudar a fugir das aulas de etiqueta da Condessa?

​À distância, Gaspar e Richard observavam a cena. Gaspar sentia o peito apertar, lembrando-se de sua própria juventude, enquanto Richard mantinha a mão no ombro do irmão, sabendo que aquele era o sacrifício necessário para que Caelum não fosse apenas um herdeiro de nome, mas de honra.

​— Caelum, é hora — Richard chamou, sua voz firme, embora seus olhos estivessem úmidos.

​Caelum olhou para Aria uma última vez. Ele estendeu a mão e, de forma desajeitada, limpou uma lágrima no rosto da princesa.

— Não fique triste, Aria. Eu vou escrever. E quando eu voltar... eu serei o maior cavaleiro que você já viu.

​Ele subiu na carruagem sem olhar para trás, sabendo que se o fizesse, não conseguiria partir. Quando a porta se fechou e as rodas de madeira começaram a ranger contra o cascalho, Aria correu alguns metros atrás do veículo, parando apenas quando a poeira da estrada a impediu de ver o rosto do primo através da pequena janela.

​A pequena princesa ficou parada no meio do caminho, os ombros caídos e a cabeça baixa. O silêncio que se seguiu à partida da carruagem era ensurdecedor. Ela olhou para a mesa de chá abandonada no jardim e para a espada de madeira de Caelum, esquecida na grama.

​Claire aproximou-se e envolveu a filha em um abraço, mas Aria permaneceu imóvel, cabisbaixa. Naquele dia, a infância de ambos havia terminado. Enquanto Caelum seguia para ser moldado pelo ferro e pelo frio, Aria voltava para o castelo, carregando pela primeira vez o peso da solidão que a coroa exigia de seus escolhidos.