Saga Herdeiros de Astúria Livro 2

28 Jantar de Espinhos e Veludo



​O salão de jantar privado era menor que o Grande Salão, mas muito mais opressor. A mesa de carvalho polido brilhava sob a luz de candelabros de prata, e o serviço era feito em silêncio absoluto pelos criados mais antigos. De um lado, Gaspar e Claire sentavam-se com Richard e Katrina. Do outro, Valmor e Elara representavam a força do Norte.

​No centro da mesa, o quarteto de jovens formava uma linha de tensão quase física. Aria e Julian estavam próximos, as mãos ocasionalmente se encontrando sobre a toalha de linho. À frente deles, Caelum aparecera finalmente, impecavelmente trajado em preto e prata, com uma frieza que parecia baixar a temperatura do cômodo. Ao seu lado, Catarina mantinha o queixo erguido, os olhos atentos como os de um falcão.

​O jantar transcorria com conversas protocolares sobre rotas comerciais e alianças de fronteira, até que o vinho começou a soltar as línguas e o silêncio de Caelum tornou-se barulhento demais para ser ignorado.

​— Devo admitir, Conde Valmor — começou Caelum, sua voz cortando a conversa de Gaspar como uma lâmina fina. — É fascinante como Valória se adaptou rápido. Enviaram um escudo para proteger nossa princesa e acabaram garantindo um trono. É uma eficiência diplomática que eu não esperava de homens que passam metade do ano isolados pela neve.

​O silêncio caiu sobre a mesa. Aria apertou o guardanapo no colo. Julian ia responder, mas Catarina foi mais rápida. Ela pousou sua taça com uma elegância letal e sorriu para Caelum.

​— A eficiência, Duque, é uma necessidade de quem vive em climas rigorosos — Catarina disse, a voz suave mas carregada de veneno. — No Norte, não temos o luxo de desperdiçar tempo com hesitações ou melancolias prolongadas. Quando vemos algo valioso sendo negligenciado ou mal cuidado, nós agimos. É uma questão de preservação, não de oportunismo.

​Caelum arqueou uma sobrancelha, os olhos azuis fixos nos dela.

— Preservação? Um termo curioso. Em Astúria, costumamos chamar isso de cobiça. Mas suponho que, para quem vive em terras tão áridas, qualquer luz ao sul pareça um banquete para um faminto.

​— A cobiça nasce da falta — rebateu Catarina, mantendo o tom elegante enquanto os pais de ambos observavam a troca de farpas como se fosse um duelo de esgrima verbal. — E Julian nunca teve falta de nada em Valória. Ele apenas reconheceu em Astúria uma joia que estava prestes a ser quebrada por mãos que não sabiam como segurá-la. Às vezes, o estrangeiro valoriza mais o tesouro do que o próprio herdeiro que o deixou pegar poeira.

​Caelum soltou um riso seco, sem humor.

— É admirável como a senhorinha defende o irmão. Uma lealdade quase cega. Mas tome cuidado, Catarina. A luz do sul pode queimar quem não está acostumado com ela. E nem tudo que brilha sob este teto está disponível para ser levado como troféu de caça.

​— Eu não me preocupo com queimaduras, Caelum — ela inclinou-se levemente em direção a ele, a voz baixando para um sussurro que todos conseguiram ouvir. — Em Valória, lidamos com o gelo que queima tanto quanto o fogo. E, quanto aos troféus... meu irmão já conquistou o que queria. Eu, por outro lado, ainda estou decidindo se há algo neste reino que valha o esforço de uma conquista, ou se são apenas ruínas decoradas com ouro.

​Aria olhou de Catarina para Caelum, sentindo a eletricidade entre os dois. Não era apenas ódio; era um desafio de vontades.

​— Catarina tem razão em um ponto, Caelum — interrompeu Aria, com a voz firme. — Julian não me levou como um troféu. Ele me ofereceu um caminho. Algo que você, com toda a sua "nobreza" e cuidado, esqueceu que eu tinha o direito de escolher.

​Caelum desviou o olhar de Catarina para Aria. Por um segundo, a máscara de gelo dele fraquejou diante da prima, mas ele logo se recuperou, levantando seu cálice em um brinde solitário e amargo.

​— Que as escolhas de hoje não se tornem os arrependimentos de amanhã — ele sentenciou, bebendo o vinho e mantendo o olhar cravado em Catarina, que não desviou o dela por um segundo sequer.

​O jantar continuou, mas o recado estava dado. Entre os dois casais, uma nova guerra silenciosa havia começado, e Catarina acabara de provar que era a única pessoa capaz de enfrentar o Duque de Astúria no mesmo nível de arrogância e inteligência.