O desjejum no grande salão nunca havia sido tão gélido. O som dos talheres contra a porcelana ecoava como marteladas em um tribunal. Aria não conseguia olhar para Caelum, e Caelum mantinha os olhos fixos em seu prato, o rosto uma máscara de pedra que ele aprendera a usar no Norte.


​O silêncio foi quebrado pela voz rouca e sem vida de Caelum.

​— Majestade... Pai — ele começou, levantando o olhar para Gaspar e Richard. — Refleti sobre nossas conversas. Aceito o meu dever. Podem iniciar as negociações para o meu noivado. Aceitarei a esposa que for melhor para os interesses de Astúria.

​O mundo pareceu parar para Aria. O suco de laranja em sua taça de cristal tremeu. Ela se levantou tão rápido que a cadeira tombou para trás com um estrondo.

​— Covarde! — Aria gritou, as lágrimas de fúria e traição transbordando. — Você é um covarde, Caelum Heraldrick!

​Em um movimento impetuoso, ela pegou a taça e arremessou o líquido diretamente contra o rosto do primo. O suco escorreu pelas cicatrizes de Caelum e manchou sua túnica impecável, mas ele sequer piscou.

​— Você disse que seria meu escudo! — ela soluçou, a voz falhando. — Mas você é apenas mais um prisioneiro desse castelo de gelo! Eu te odeio!

​Aria saiu correndo do salão, o som de seus passos apressados morrendo nos corredores.

​O Conflito dos Reis

​Gaspar soltou um suspiro de alívio, fechando os olhos por um segundo.

— Obrigado, Caelum. Você está sendo sensato. É o melhor para ela, acredite.

​— Sensato, Gaspar? — A voz de Katrina cortou o ar como uma navalha. Ela se levantou, olhando para o Rei com uma indignação que ele raramente via. — Você chama isso de sensatez?

​— Katrina, por favor... — Richard tentou intervir, mas ela o ignorou.

​— Não, Richard! — Katrina voltou-se para Gaspar. — Olhe para nós! Nós lutamos contra tudo para sermos felizes. Nós enfrentamos o exílio e o julgamento para que o amor vencesse. E agora, você quer transformar nossos filhos em prisioneiros daquilo que nós mesmos derrubamos? Você está condenando o seu sobrinho e a sua própria filha a uma vida de infelicidade apenas por causa de papéis e protocolos!

​— É o sangue, Katrina! — Gaspar rebateu, levantando-se e batendo na mesa. — É a lei da Igreja e da sucessão! Se eles ficarem juntos, o reino desmorona. Eu estou protegendo a herança dela!

​— Você está protegendo a coroa e matando a alma dela! — Katrina retrucou, as lágrimas brilhando nos olhos. — Nós éramos livres, Gaspar. Agora somos apenas carcereiros dos nossos próprios filhos.

​A tensão entre o Rei e a Duquesa era elétrica. Richard, percebendo que a discussão estava prestes a se tornar uma ruptura irreparável, colocou-se entre os dois.

​— Chega! — Richard ordenou, sua autoridade de príncipe e conselheiro se impondo. — Gaspar, Katrina está certa sobre a dor deles, mas você está certo sobre o perigo para o reino. Estamos todos feridos aqui. Caelum, vá se limpar. Gaspar, vamos para a sala do conselho. Precisamos esfriar a cabeça antes que destruamos esta família com as nossas próprias mãos.

​Richard conduziu Gaspar para fora, enquanto Katrina permanecia parada, olhando para o lugar vazio de Aria, sentindo que, embora a ordem estivesse mantida, o coração de Astúria acabara de se quebrar.