Saga Herdeiros de Astúria Livro 2

25 Taças de Ouro e Palavras de Chumbo



​O Grande Salão de Astúria estava em polvorosa. O som dos violinos e alaúdes competia com o burburinho de centenas de nobres. No centro da mesa real, Aria e Julian eram o retrato da harmonia.

​Gaspar levantou-se, batendo levemente com a faca de prata em seu cálice de ouro. O silêncio se espalhou pelo salão como uma onda.

​— Nobres de Astúria e nossos honrados convidados de Valória — começou Gaspar, com a voz projetada. — Hoje não celebramos apenas a união de duas pessoas, mas a promessa de um tempo novo. Julian de Valória provou ser mais do que um escudo; ele provou ser digno do coração da nossa futura Rainha.

​Julian levantou-se, segurando a mão de Aria. Seus olhos verdes brilhavam sob a luz dos candelabros.

​— Majestade — disse Julian, olhando para Gaspar e depois para a multidão. — Vim para este reino esperando encontrar apenas dever e fronteiras. Encontrei uma mulher que desafia o próprio destino. Aria, diante do seu povo e do meu, prometo que minha espada e minha vida serão sempre o seu amparo. Que Astúria nunca mais conheça o medo enquanto estivermos juntos.

​Aria levantou-se logo em seguida, a voz clara e sem hesitação.

— E eu prometo que a Coroa de Astúria não será mais um fardo carregado no escuro. Julian me ensinou que a força de um reino nasce da verdade, não de segredos. Ao seu lado, sinto que finalmente posso governar com o coração em paz.

​— À Aria e Julian! — gritou Valmor, o Velho Lobo, do outro lado da mesa.

— À ARIA E JULIAN! — o salão rugiu em uníssono.

​O Veneno no Canto da Mesa

​Enquanto todos brindavam, Richard permanecia com o cálice parado no ar. Claire, ao seu lado, sussurrou entre dentes:

— Beba, Richard. Pelo bem da paz.

​— A paz é uma ilusão comprada com o sangue do meu filho, Claire — Richard respondeu, a voz carregada de uma amargura que ele não conseguia mais esconder. — Olhe para eles. Estão celebrando como se dezoito anos de promessas nunca tivessem existido.

​— Caelum fez a escolha dele quando partiu para a Academia — Claire rebateu, mantendo o sorriso diplomático para os convidados. — Aria está feliz. Pela primeira vez na vida, ela não está com medo. Você prefere a infelicidade da nossa filha apenas para honrar um contrato de sangue?

​— Eu prefiro a lealdade — Richard disse, bebendo o vinho de um só gole e batendo o cálice na mesa com força excessiva.

O jardim estava mergulhado no perfume das damas-da-noite. Caelum caminhou até a fonte de mármore, longe das luzes da festa. Ali, no silêncio, a armadura de fúria rachou. Ele se curvou sobre o parapeito, os ombros tremendo. Lágrimas de uma dor que ele não conseguia mais conter começaram a cair, misturando-se à água da fonte. Ele estava sozinho, esquecido, o herói que se tornara o vilão de sua própria história.

​— Sabe, no Norte, dizem que a água da fonte é para beber, não para aumentar com lágrimas.

​Caelum deu um salto, virando-se bruscamente enquanto limpava o rosto com o dorso da mão ferida. Catarina estava parada ali, segurando uma taça de vinho, observando-o com uma mistura de curiosidade e uma ponta de pena que ele detestou instantaneamente.

​— Quem é você? E o que faz aqui? — Caelum rosnou, a voz rouca pelo choro interrompido.

​— Eu sou Catarina, irmã do homem que está lá dentro celebrando a vida — ela deu um passo à frente, ignorando a hostilidade dele. — E você deve ser o famoso Caelum. O primo que se tranca em quartos escuros. Eu vi você de longe e pensei... ninguém deveria chorar sozinho em uma noite tão bonita. Você parece estar sofrendo, eu posso...

​— Você não pode nada! — Caelum a cortou, a voz subindo de tom. — Volte para o seu salão, garota de Valória. Volte para o seu irmão traidor e para a princesa que esqueceu quem a salvou. Eu não preciso da sua piedade barata.

​Catarina franziu a testa, o espírito resiliente do Norte começando a se inflamar. Ela não sabia dos detalhes do triângulo amoroso; para ela, Julian era um herói e Caelum apenas um nobre mal-agradecido.

​— Traidor? Julian é o homem mais honrado que conheço! — ela rebateu, aproximando-se sem medo. — Eu tentei ser gentil porque você parecia um animal ferido, mas vejo que é apenas um homem arrogante e amargo. O que foi? O vinho de Astúria azedou no seu estômago ou você simplesmente odeia ver os outros felizes?

​— Saia daqui antes que eu perca a pouca paciência que me resta — Caelum deu um passo ameaçador, os olhos faiscando na penumbra.

​— Ah, sim! O grande Duque vai me ameaçar? — Catarina riu, uma risada seca e desafiadora. — Você se esconde nas sombras como um covarde enquanto o mundo segue em frente. Fique aí então, apodrecendo no seu próprio ódio. Julian merece a coroa, e pelo que vejo, ele merece a princesa muito mais do que alguém que só sabe destilar veneno!

​Ela virou as costas com um movimento brusco de sua saia de seda azul, deixando Caelum estático, o peito subindo e descendo com uma fúria renovada.

​Catarina caminhou de volta para a luz do palácio, o coração acelerado. Ela nunca vira olhos tão tristes e tão perigosos ao mesmo tempo. Já Caelum, sozinho novamente na escuridão, sentiu que o mundo de Julian agora o cercava por todos os lados — até mesmo por meio de uma irmã que se atrevia a enfrentá-lo sem saber que estava pisando sobre as cinzas do seu coração.