O crepúsculo trazia sombras longas para o jardim, e o ar, antes leve pelo piquenique, tornou-se denso e sufocante. Caelum esperou que as mulheres entrassem no palácio para encurralar Julian perto da fonte. O rosto do Duque era uma máscara de fúria contida, as cicatrizes destacadas pela luz pálida da lua que surgia.


​— Eu te trouxe para protegê-la, Julian! — a voz de Caelum era um rosnado baixo, perigoso. — Eu te dei a minha confiança, a minha amizade e o posto que era meu por direito de sangue. E você... você a olha como se estivesse caçando!

​Julian não recuou. Ele limpou o protetor de braço com calma, mas seus olhos verdes estavam fixos nos de Caelum com uma honestidade brutal.

​— Eu não premeditei nada disso, Caelum. Eu vim pelo dever, mas o que encontrei aqui... — Julian suspirou, dando um passo à frente. — Eu estou encantado por ela. Aria não é apenas uma missão; ela é uma força que eu nunca vi no Norte. Peço perdão pela nossa amizade, mas se eu tiver que viver esse sentimento para fazê-la feliz e segura, eu vou viver. Eu não vou me afastar porque você está amargurado com suas próprias escolhas.

​O som do soco de Caelum ecoou pelo jardim como um disparo. O impacto jogou a cabeça de Julian para o lado, mas o Conde de Valória era um guerreiro treinado tanto quanto o Duque. Ele se recuperou instantaneamente, devolvendo um golpe que atingiu o estômago de Caelum.

​— Você a abandonou! — gritou Julian, enquanto os dois se embolavam na grama, trocando golpes brutos, desprovidos da elegância da esgrima. Era uma briga de rua, de ódio e posse. — Você a feriu primeiro para salvá-la, mas agora ela tem alguém que não precisa feri-la para ficar ao lado dela!

​O Caos no Jardim

​O barulho da luta e os gritos de fúria atraíram a família real. Gaspar, Richard e Aria correram para o pátio, seguidos pelas mães, que observavam em choque os dois melhores guerreiros do reino se destruírem.

​— PAREM AGORA! É UMA ORDEM! — o grito de Gaspar cortou o ar, autoritário e furioso.

​Os dois se separaram, ofegantes, com os rostos cortados e as roupas de gala rasgadas. Caelum tinha o lábio sangrando e um corte acima da sobrancelha; Julian segurava a costela, com o olho começando a inchar.

​Aria não hesitou. Ela passou por Caelum como se ele fosse uma estátua de pedra e foi direto ao encontro de Julian.

​— Julian! Você está bem? — ela perguntou, a voz carregada de uma preocupação genuína que nunca mais demonstrara pelo primo. Ela pegou um lenço de seda e pressionou contra o corte no rosto do Conde, ignorando completamente a presença de Caelum.

​Caelum deu um passo à frente, a mão estendida como se fosse chamá-la, mas parou no meio do caminho. Ao ver o modo como Aria protegia Julian com o próprio corpo e como o olhava com uma ternura misturada com defesa, o Duque sentiu o golpe final. Não foi um soco de Julian que o derrubou, foi a percepção de que o terreno que ele cultivara por dezoito anos agora pertencia a outro.

​— Ela escolheu — sussurrou Richard atrás do filho, com uma voz cheia de uma triste compreensão.

​Caelum olhou para o sangue em suas mãos, depois para o casal, e por fim para o Rei. Sem dizer uma única palavra, com os olhos queimando em uma revolta silenciosa e uma dor insuportável, ele virou as costas e saiu a passos largos em direção às sombras da floresta, desaparecendo na escuridão da noite, enquanto Aria permanecia ao lado do seu novo escudo, deixando o passado sangrando no chão do jardim.