Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
23 O Som da Ruína
As sombras se alongavam no final da tarde em Astúria. No jardim leste, Aria estava sentada em um banco de pedra, sob a copa frondosa de um carvalho centenário. Seus dedos ágeis conduziam a agulha por um pedaço de linho branco, onde um intrincado padrão de folhas de carvalho e ursos de Valória — um brasão híbrido que ela desenhara — começava a ganhar forma.
A poucos metros dali, nas cavalariças reais, Julian cuidava pessoalmente de seu garanhão negro, um animal imponente trazido do Norte. O som rítmico da escova no pelo do cavalo e o murmúrio baixo e reconfortante de Julian com o animal criavam uma melodia de paz que parecia envolver o jardim.
Aria olhou para ele e sorriu. A conversa com seu pai no dia anterior, onde Gaspar lhe dera sua benção para aceitar a proposta de Julian, parecia ter tirado um peso de seus ombros. O futuro não parecia mais uma prisão, mas uma promessa.
A Notícia no Quarto do Duque
Enquanto a paz reinava no jardim, na ala oeste do castelo, o ar estava carregado. Richard, com o rosto sombrio e a postura rígida, entrou nos aposentos de Caelum. O quarto estava na penumbra, as cortinas pesadas fechadas, exalando um odor de isolamento e amargura.
Caelum estava sentado na beira da cama, com os punhos cerrados, olhando para o chão. Ele não se levantou quando o pai entrou.
— Caelum — Richard começou, a voz grave e direta. — Você precisa saber.
O Duque levantou os olhos lentamente. Suas olheiras estavam profundas, e a cicatriz em seu rosto parecia mais proeminente na luz fraca. — O que foi agora, pai? Gaspar decidiu me exilar de vez?
Richard suspirou, aproximando-se da cama. — Não. Gaspar deu a benção para o noivado de Aria com o Conde Julian. O anúncio oficial será feito no banquete de amanhã à noite.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Caelum não piscou, não se moveu, não emitiu um som. Mas Richard viu a fúria acender nos olhos azuis do filho, um fogo frio e devorador que substituía a dor.
— Você está me dizendo — a voz de Caelum saiu baixa, ríspida, como metal arranhando pedra — que o meu "escudo", o homem que eu trouxe para protegê-la, vai se casar com a minha Rainha?
— Ele a ama, Caelum. E, mais importante, ela o ama — Richard respondeu com firmeza, embora com pesar. — Gaspar viu a felicidade dela. Você teve a sua chance, meu filho. E você escolheu a Coroa acima dela. Agora, você tem que aceitar que ela seguiu em frente.
Caelum levantou-se lentamente, a postura imponente parecendo preencher o quarto.
— Eu não escolhi a Coroa acima dela! Eu escolhi salvá-la! De você, de Gaspar, de mim mesmo! E agora você me diz que todo o meu sacrifício, toda a minha dor, foi para que ela pudesse se entregar a um estrangeiro que mal conhece este reino?
— Ela é a Coroa, Caelum. E ela decidiu que Julian será o seu Escudo. É o fim da sua história com ela. Aceite.
Com essas palavras, Richard virou as costas e saiu do quarto, fechando a porta e deixando Caelum sozinho com a notícia que acabara de destruir os últimos vestígios de sua esperança.
A Explosão e o Eco
No instante em que a porta se fechou, a represa de fúria e desespero de Caelum rompeu-se.
O som do primeiro soco contra o guarda-roupa de carvalho maciço ecoou pelo corredor de pedra, um estalo seco e brutal. Em seguida, o som de madeira partindo, vidro quebrando e metal chocando-se contra a parede preencheu a ala oeste.
Caelum parecia possuído. Ele arremessou a cadeira contra o espelho de corpo inteiro, que se estilhaçou em mil pedaços, refletindo sua própria imagem fragmentada e furiosa. Ele derrubou a estante, livros e pergaminhos voando pelo ar. Ele quebrou a jarra de água, a porcelana se espalhando pelo chão molhado.
Era o som da ruína. O som de dezoito anos de expectativas, promessas e dores acumuladas sendo transformados em destruição pura e simples.
O Ouvir no Jardim
No jardim leste, o som chegou abafado, mas inconfundível. O staccato brutal da destruição quebrava a paz da tarde.
Aria paralisou com a agulha no meio do ar. Ela olhou para a ala oeste do castelo, o coração disparando. Ela conhecia aquele som. Era a fúria dele. A fúria que ela já havia visto, mas nunca de forma tão crua e destrutiva.
Nas cavalariças, Julian também parou. O cavalo inquietou-se com o barulho distante. Julian olhou para Aria e depois para a ala oeste, sua expressão tornando-se vigilante.
— Caelum — Aria sussurrou, a voz trêmula de uma mistura de medo, pena e uma antiga e dolorosa conexão que ela tentava ignorar.
— Fique aqui, Aria — Julian ordenou com firmeza, largando a escova e caminhando em direção ao pátio. — Eu vou verificar.
Aria largou o bordado no banco e levantou-se. Ela não podia simplesmente ficar ali. A destruição que ouvia era a resposta ao noivado dela. Era o som do passado recusando-se a morrer em silêncio.
Gaspar e Claire, que estavam no salão principal, também ouviram o barulho. Claire colocou a mão na boca, o rosto pálido.
— Ele sabe — disse ela, a voz cheia de angústia.
Gaspar suspirou, o semblante endurecendo. — Richard deve ter lhe dado a notícia.
A Saga dos Herdeiros de Astúria estava prestes a entrar em sua fase mais perigosa. O Escudo e a Coroa haviam sido prometidos a um novo portador, mas o antigo Escudo, ferido e furioso, não pretendia entregar seu posto sem que o castelo inteiro tremesse com a sua dor.
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