Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
26 O Silêncio sob o Altar
A capela do castelo era o único lugar onde o tempo parecia não ter sido tocado pela agitação do noivado. O ar ali era frio, carregado com o cheiro de incenso antigo e cera de vela. Aria estava ajoelhada diante do altar, a luz dos vitrais projetando manchas coloridas sobre seu vestido de veludo. Suas mãos estavam postas, mas seus pensamentos estavam longe das preces habituais.
O som de passos pesados ecoou pelas naves de pedra. Ela não precisou se virar para saber quem era. O peso da presença dele era algo que ela sentiria mesmo no escuro absoluto.
— Rezando pela sua alma ou pela sua escolha, Aria? — a voz de Caelum surgiu das sombras, rouca e tingida de um sarcasmo que não conseguia esconder a dor.
Aria suspirou e levantou-se lentamente, virando-se para encará-lo. Caelum parecia um fantasma de si mesmo. As roupas estavam desalinhadas e o olhar era de um homem que não dormia há dias.
— Eu estava rezando por paz, Caelum — ela respondeu, a voz calma mas firme. — Algo que parece ter fugido de você.
Caelum deu um passo à frente, entrando no círculo de luz das velas.
— Paz? Você chama isso de paz? Entregar-se ao primeiro estrangeiro que sorri para você e fingir que tudo o que vivemos foi apenas um "capítulo passado"? Você me deu um tapa na cara naquele quarto, mas o que você está fazendo agora dói muito mais.
— O que você queria que eu fizesse? — Aria deu um passo em direção a ele, a fúria começando a brilhar em seus olhos. — Que eu esperasse para sempre por um homem que me deixou? Que eu vivesse de migalhas de afeto escondidas em corredores escuros enquanto você decide se é meu primo, meu protetor ou meu carrasco?
— Eu te deixei para te salvar! — ele rugiu, sua voz ricocheteando nas paredes sagradas. — Cada dia naquela Academia, cada cicatriz que ganhei, foi pensando em voltar para você. Eu trouxe o Julian para garantir que ninguém te tocasse enquanto eu resolvia a bagunça que nossos pais criaram!
— Mas ele me tocou, Caelum — Aria disse, em um sussurro cortante. — Ele tocou a minha alma. Ele me viu como uma mulher, não como uma peça de xadrez ou uma coroa que precisava de um dono. Julian me deu a liberdade que você nunca teve coragem de me oferecer.
Caelum sentiu o golpe. Ele se aproximou tanto que Aria podia sentir o calor de sua respiração. Ele a segurou pelos ombros, não com a agressividade de antes, mas com um desespero que a fez estremecer.
— Você olha para ele e vê um herói, Aria. Mas ele não te conhece. Ele não sabe o que é crescer com o peso deste reino. Ele não sabe o sabor das suas lágrimas quando você era criança. Eu sei. Eu sou parte de você, e você sabe que, por mais que tente, nunca vai conseguir arrancá-lo totalmente debaixo da sua pele.
Aria sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ela não desviou o olhar.
— Você está certo, Caelum. Você faz parte de mim. Você é a minha infância, a minha primeira dor e o meu maior erro. Mas você não é o meu futuro. Eu não posso amar um homem que me faz sentir que o amor é um pecado ou um segredo sujo.
Ela se soltou do aperto dele, a voz recuperando a força.
— Julian me faz querer ser uma Rainha melhor. Você me faz querer fugir. E eu cansei de fugir, Caelum. Se você realmente me ama como diz, prove isso me deixando ser feliz. Deixe-me em paz.
Caelum recuou, como se tivesse sido fisicamente atingido. O silêncio voltou a reinar na capela, mas agora era um silêncio pesado, de luto.
— Entendo — ele disse, a voz subitamente gélida. — Você quer que eu seja o vilão da sua história perfeita? Pois que assim seja. Mas não se esqueça, Aria... escudos podem ser trocados, mas o sangue... o sangue nunca muda.
Ele deu as costas a ela e caminhou em direção à saída. Antes de cruzar o portal, ele parou por um segundo, sem olhar para trás.
— Espero que a luz dele seja forte o suficiente, porque as sombras que eu deixei para trás estão começando a me consumir. E eu não vou cair sozinho.
Aria ficou parada no centro da capela, observando-o partir. Ela tentou retomar sua prece, mas as palavras não vinham mais. Ela havia escolhido o escudo e a coroa, mas sabia que a guerra pelo seu coração — e pelo destino de Astúria — estava longe de terminar.
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