​O gabinete real do rei Gaspar sempre fora um local de decisões ponderadas e conversas de Estado, as paredes de pedra maciça testemunhas de séculos de alianças e declarações de guerra. No entanto, o peso que Julian sentia nos ombros ao entrar naquele aposento não se comparava a nenhuma batalha que já havia travado.

​Gaspar estava de pé junto à grande janela, observando o jardim onde, dias antes, a briga entre os dois primos havia ocorrido. O rei parecia mais velho, as linhas de expressão em seu rosto mais profundas, mas seus olhos mantinham a agudeza de sempre.

​— Conde Julian — Gaspar disse, sem se virar imediatamente. — Entre. Fui informado de que deseja uma audiência privada.

​Julian fechou a porta com suavidade e caminhou até o centro do gabinete, parando com uma reverência respeitosa. Ele trajava a túnica cinza de Valória, o tecido pesado parecendo mais apertado em seu peito do que o normal.

​— Majestade — Julian começou, a voz firme, mas o coração martelando. — Agradeço por me receber.

​Gaspar finalmente se virou. Seu olhar examinou o jovem Conde, detendo-se por um segundo no hematoma que ainda coloria a bochecha de Julian.

​— Você está se recuperando bem, vejo — o rei comentou, indicando uma cadeira. — Sente-se. Presumo que não tenha vindo discutir a segurança das fronteiras.

​Julian sentou-se, mantendo a postura ereta. — Não, senhor. Vim discutir o futuro da sua filha. E o meu.

​Gaspar arqueou uma sobrancelha, o silêncio preenchendo o ar. Ele cruzou os braços e esperou.

​— Eu cheguei a Astúria por dever — Julian continuou, escolhendo as palavras com cuidado. — Caelum me trouxe para ser o escudo de Aria. E eu prometi que a protegeria com a minha vida. E vou. Mas, nos dias que se passaram... nos cuidados que ela me dedicou, nas conversas que tivemos... eu percebi que não posso mais protegê-la apenas por dever. Eu a amo, Majestade.

​A confissão foi recebida com um silêncio ponderado. Gaspar não parecia surpreso, mas sua expressão era ilegível.

​— Amor é um sentimento nobre, Julian — disse Gaspar, por fim, com a voz grave. — Mas para uma princesa, para a futura Rainha de Astúria, o amor raramente é suficiente. Caelum também a amava. E veja o que aconteceu. O amor deles quase destruiu esta família e a estabilidade da Coroa.

​— O amor de Caelum por ela era uma prisão de sombras e segredos — Julian rebateu, com uma franqueza que surpreendeu o rei. — O meu amor por Aria é luz. Comigo, ela não precisa esconder quem ela é ou o que ela sente. Eu não trago o peso do passado, eu trago a promessa de um futuro. Um futuro onde ela pode ser Rainha, mas também pode ser feliz.

​Gaspar suspirou, caminhando até a mesa de carvalho e pegando um cálice de vinho.

— E você acha que Valória aceitaria uma aliança onde o seu Conde se torna o consorte de uma rainha estrangeira?

​— Meu pai, o Velho Lobo, valoriza mais a honra e a felicidade de seus filhos do que qualquer título ou fronteira — Julian respondeu, o orgulho de sua linhagem transparecendo. — Se eu for feliz e trouxer honra para a minha casa, ele não apenas aceitaria, ele celebraria. Astúria e Valória seriam aliadas poderosas, um pacto selado não por medo, mas por um laço verdadeiro.

​Julian levantou-se e deu um passo em direção ao rei.

— Majestade... Gaspar. Eu sei que o senhor quer o melhor para a sua filha. E eu acredito que o melhor é alguém que a faça rir, que a respeite e que a ame de uma forma que não exija sacrifícios dolorosos. Eu vim aqui hoje para lhe pedir a sua benção. Quero pedir Aria em casamento, oficialmente. Quero ser o seu marido, o seu companheiro e, sim, o seu escudo, até o meu último suspiro.

​Gaspar olhou para o jovem à sua frente. Ele viu a determinação de um guerreiro e a ternura de um homem apaixonado. Ele se lembrou da risada que ouvira de Aria no campo de arco e flecha, um som que não ouvia há muito tempo. E se lembrou da mãe dela, Claire, e de como ela olhava para Julian com aprovação.

​O rei se aproximou de Julian e colocou uma mão firme no ombro do Conde.

​— Eu estive esperando por este momento — Gaspar disse, um sorriso genuíno finalmente quebrando a severidade de seu rosto. — Eu vi o modo como você a olha, Julian. E vi o modo como ela olha para você. Caelum era o passado de dor que ela precisava enfrentar; você é o presente de esperança que ela merece.

​A voz de Gaspar tremeu levemente ao continuar.

— Você não precisa me convencer do seu amor por ela. E o meu consentimento político não importa se não houver a felicidade dela envolvida. Portanto, você tem a minha benção. E a benção do Rei de Astúria. Mas há uma condição.

​Julian sentiu o ar voltar para os pulmões. — Qual é, Majestade?

​Gaspar olhou-o nos olhos com uma intensidade renovada.

— A condição é que você me prometa, sob a sua honra de Valória, que nunca deixará que a Coroa se torne um fardo para o amor que vocês sentem. Proteja-a não apenas das espadas, mas da solidão que o trono traz.

​Julian ajoelhou-se diante de Gaspar, com uma mão no coração.

— Eu prometo, sob a minha honra e a minha vida, que Aria nunca estará sozinha.

​Gaspar sorriu e ergueu o jovem.

— Vá. O jardim está esperando por você. E, Julian... boa sorte. Ela pode ser uma princesa, mas ainda é uma Heraldrick. Ela vai fazer você trabalhar para ouvir o "sim".

​Com a benção do rei e uma esperança renovada, Julian saiu do gabinete com o passo leve, deixando para trás um Gaspar que, pela primeira vez em dias, sentia que o futuro de Astúria estava em boas mãos.

​Cena Pós-Conversa: A Proposta no Jardim

​Enquanto Julian caminhava para o jardim em busca de Aria, Gaspar foi até o gabinete lateral onde Richard e Katrina estavam. Richard estava sério, enquanto Katrina parecia ansiosa.

​— Ele veio — disse Gaspar, entrando no cômodo.

​Richard levantou-se bruscamente. — O que ele queria? Fazer mais exigências de segurança?

​— Não — Gaspar respondeu, o sorriso ainda no rosto. — Ele veio pedir a benção para se noivar de Aria.

​O rosto de Richard empalideceu. — E o que você disse?

​— Eu dei — Gaspar afirmou, mantendo o tom firme. — Richard, é o melhor para ela. E para Astúria. O caminho de Caelum e Aria está acabado. Nós temos que aceitar.

​Richard apertou o punho sobre a mesa. — E Caelum? Onde ele está? O que nós vamos fazer com ele?

​Katrina, que estivera em silêncio até então, aproximou-se de Richard, com a voz suave e reconfortante.

— Nós vamos cuidar dele, Richard. Mas temos que aceitar que o futuro de Astúria agora segue por outro caminho. E talvez o de Caelum também.

​Gaspar olhou para Katrina e depois para o amigo de longa data. A aliança que haviam planejado dezoito anos atrás estava desfeita, mas a paz estava se estabelecendo de uma forma que ninguém ali esperava. A Saga continuava, mas o destino já havia traçado um novo curso para o Escudo e a Coroa.