Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
30 Interrompendo a leitura
O sol da tarde banhava o jardim real com uma luz dourada, criando uma cena que parecia tirada de um conto de fadas — pelo menos para uma parte dos presentes.
Próximos à fonte, Aria e Julian caminhavam de braços dados, rindo abertamente. Julian gesticulava, descrevendo as montanhas nevadas de Valória, enquanto Aria o ouvia com olhos brilhantes, descansando a cabeça no ombro dele por um instante. A felicidade deles era radiante, quase palpável, e preenchia o ar com uma leveza que o castelo não conhecia há anos.
Afastada dali, sentada sob a sombra de um chorão cujos ramos tocavam o chão, Catarina tentava se concentrar em um livro de poesias. Ela queria dar privacidade ao irmão e à futura cunhada, mas a paz durou pouco.
Uma sombra alta e imponente projetou-se sobre as páginas de seu livro. Ela não precisou levantar a cabeça para saber quem era.
— Poesia, Catarina? — a voz de Caelum surgiu, carregada de um desdém refinado. — Achei que mulheres do Norte preferissem manuais de caça ou tratados sobre como amestrar cavalos.
Catarina suspirou, virando a página sem olhar para ele.
— E eu achei que Duques amargurados preferissem se esconder em bibliotecas mofadas. O que houve? O mofo atacou seus pulmões ou você só veio aqui para garantir que o sol não brilhe demais para o resto de nós?
Caelum contornou a árvore e parou bem na frente dela, bloqueando a luz que incidia sobre o livro. Ele parecia ter recuperado um pouco da sua arrogância habitual, mas havia um brilho provocador em seus olhos que ele raramente demonstrava.
— Vim observar a "harmonia" — ele disse, indicando Aria e Julian com um aceno de cabeça. — É curioso, não acha? Como o seu irmão parece um cachorrinho adestrado seguindo a dona. Ele sempre foi assim, ou Astúria amoleceu o pouco de espinha dorsal que ele tinha?
Catarina fechou o livro lentamente, mantendo o dedo entre as páginas, e olhou para ele com um sorriso cínico.
— O nome disso é amor e felicidade, Caelum. Coisas que, eu entendo, devem parecer línguas estrangeiras para você. Mas me diga... essa sua obsessão em vigiar os dois... é saudade do que perdeu ou você está apenas esperando o momento certo para latir e ver se alguém te joga um osso?
Caelum deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.
— Você tem uma língua muito afiada para alguém que está aqui apenas como convidada. Deveria ter mais cuidado. Este jardim tem muitos espinhos.
— E eu estou olhando para o maior deles agora — ela rebateu, levantando-se. — Você é patético. Está tão desesperado por atenção que veio tentar irritar a irmã do homem que te venceu. O que vem a seguir? Vai esconder os sapatos do meu pai? Ou vai escrever cartas anônimas dizendo que o Julian não sabe usar a espada?
Caelum soltou uma risada ríspida, inclinando-se para perto do ouvido dela.
— Eu não preciso de cartas, Catarina. Eu sou o Duque de Astúria. Eu sou o sangue desta terra. Enquanto o seu irmão é apenas... um substituto temporário. E você? Você é só a distração barulhenta que ele trouxe para tentar me manter ocupado. Mas saiba de uma coisa: você não chega nem perto de ser um desafio à minha altura.
Ele deu um sorriso de lado, vitorioso, achando que a calara. Foi o erro dele.
Em um movimento rápido e certeiro, Catarina levantou o livro — um tomo pesado de capa dura — e o acertou em cheio no peito de Caelum. O impacto fez um som seco: BUM!
— AI! — Caelum exclamou, recuando dois passos e levando a mão ao peito, surpreso.
— Isso é para você aprender que, em Valória, quando alguém nos irrita, nós não usamos palavras, usamos o que estiver à mão — ela disse, com os olhos faiscando e um sorriso de puro triunfo. — E da próxima vez que você se aproximar de mim para falar bobagens, eu não vou usar um livro de poesias. Vou usar algo que realmente doa na sua cabeça oca.
Longe dali, Aria e Julian pararam de rir por um segundo ao ouvir o barulho e a exclamação de Caelum. Julian olhou para a irmã e para o amigo, vendo Caelum massagear o esterno enquanto Catarina voltava a se sentar com a maior calma do mundo.
— O que foi aquilo? — perguntou Aria, curiosa.
Julian sorriu, voltando a caminhar com ela.
— Acho que o Caelum finalmente encontrou alguém que não tem medo das sombras dele. Deixe-os. Minha irmã sabe muito bem como lidar com lobos solitários.
Caelum, ainda sentindo o impacto no peito, olhou para Catarina, que já havia reaberto o livro como se nada tivesse acontecido. Ele sentia uma mistura de fúria e algo que, para sua total confusão, parecia um rastro de admiração involuntária. Ninguém nunca o havia golpeado com um livro. E, estranhamente, o silêncio que se seguiu não era mais tão amargo.
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