Saga Gabriele: Gabriele Expiscor INTERATIVA
2 Capítulo I: A Carta Dourada
Notas iniciais
Havia quase vinte anos desde que o último Lorde das Trevas ousou desafiar os bons bruxos e pôr caos no Mundo Bruxo, mas nada parecia mudar no velho e belo Rio de Janeiro. Os jardins, parques, praças e canteiros eram visitados sempre pelas mesmas pessoas e os mesmos sorrisos eram trocados, nada parecia mudar. Mas ao fundo poderia se ouvir os cantos das aves majestosas que habitavam aquela parte bem escondida do Rio onde havia cem anos atrás quatro bruxos fundaram o Colégio de Vicrregia e fora todo o Ministério que se erguera após a fundação do Colégio.
Uma rua de casas bruxas se estendia por todo o vilarejo de Santa Brígida, conhecido por sua elegância e sutileza era um dos locais onde se exigia muitos galeões para morar. Gabriele tinha exclusividade naquele assunto apenas por ser filha do Vice-Presidente do Ministério da Magia Brasileiro, o que acrescentava ao pai um bom salário, uma moradia exclusiva e uma lareira de pó de flu também exclusiva, mas isso não era vantagem para ela, pois em sua concepção estava cercada de pessoas de alto poder aquisitivo e alto poder de ignorância e soberba.
No entanto, Gabriele se dava ao luxo de dormir até tarde, afinal, suas aulas no Preparatório Bruxo Sannicholas havia acabado desde a metade do mês de Novembro do ano passado e estava apreensiva porque estavam quase chegando a Fevereiro e nenhuma carta recebera. Seu pai, Jorge, estava tão nervoso quanto ela, sempre notara as aptidões da filha e por isso decidiu coloca-la em um preparatório ao em vez de qualquer escola trouxa. O privilégio de estudar na segunda melhor escola bruxa do mundo era para poucos e Jorge esperava que a filha fosse para a escola e caísse na mesma casa que ele, a Alaflos, mas Gabriele ao menos não ligava para isso e todos seus amigos que fez no Sannicholas pensavam em ir para Vicrregia assim como ela.
Jorge ergueu seu corpo sobre a janela de carvalho localizada na sala de estar dos Pugio e notou algo peculiar; uma coruja de penas vistosas, algumas de cor de creme, outras de cor de chocolate, trazia um envelope de coloração dourado com o selo de Vicrregia — um pequeno rio que cercava um grande pinheiro que tinha seu topo no centro de uma estrela dourada, onde duas varinhas na diagonal se encontravam — e o pai de Gabriele não mediu seus esforços para convocar a filha enquanto via a coruja voar em direção a sua casa.
— Gabriele, desça já! — gritou o pai, ansioso.
— O que houve papai? — respondeu a garota com uma contra-pergunta.
— É melhor ir até os jardins, tem algo do seu interesse no bico de uma ave.
As escadas de madeira não eram problema para Gabriele, ela as desceu correndo quase como se estivesse dentro de algum filme trouxa de ação. Abriu a porta dos fundos da sala de estar dando direto para um belo jardim, onde rosas, margaridas, petúnias e lírios se encontravam e mostravam quão graciosos eram, mas seu interesse não foi direcionado para as flores que estavam ao seu redor, e sim para a coruja que pousara bem perto dos seus pés. A garota debruçou-se até alcançar a coruja, afinal, não era tão alta, tinha onze anos e a estatura entre um metro e meio a um metro e sessenta, acariciou a cabeça macia da coruja fazendo-a soltar o envelope e antes que pudesse pegar um abridor de cartas, rasgou o selo de Vicrregia com as mãos. Seus olhos se mantiveram atentos e vibrantes assim que começou a ler a carta que tinha em mãos,
COLÉGIO DE VICRREGIA
Diretora: Marina Marins
(Ordem de Merlin, Primeira Classe, Grande Feiticeira, Bruxa Chefe,
Cacique Suprema, Confederação Internacional de Bruxos).
Prezada Srita. Pugio,
Temos o prazer de informar que V.Sa. tem uma vaga no Colégio de Vicrregia. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários. O ano letivo começa em 1º de fevereiro. Aguardamos sua coruja até 31 de janeiro, no mais tardar.
Atenciosamente,
Hélio Deoris.
Diretor Substituto.
Gabriele abraçou a carta contra o peito e indagações sobre para qual casa ela iria começaram a explodir em sua mente. Ela correu pelo jardim como uma louca e começou a solta pequenos gritinhos, aquela era sua imensa felicidade, estava pronta para Vicrregia assim como a escola estava para ela.
Mas ela como todo mundo se cansou, depois de comemorar a chegada da sua carta foi até o seu quarto e olhou para sua imagem refletida no espelho; os olhos fundos e acastanhados, os cabelos castanhos claros, a boca rosada marcada pelas mordidas que ela costumava fazer nos lábios e o nariz aquilino que o pai sempre dizia fazê-lo lembrar da mãe de Gabriele, Olivia, e eram esses pensamentos que tomavam sua mente naquele momento, seu pai pouco falava sobre mãe, apenas dizia para a menina que ela morrera de tristeza, tristeza que acumulara por anos desde 1997 quando o irmão de sua mãe fora assassinado de forma brutal, apesar de pequena, ela pensava que deveria saber tudo sobre a mãe, precisava saber quem era a Olivia que ficava guardada em vagas lembranças de um bebê.
A garota Pugio deslizou o vestido de seda rosa que usava até os pés revelando uma cicatriz em forma de cobra no ombro direito, aquilo também não era normal e era mais outro detalhe que o pai dizia ser herança de Olivia. Ela se sentou ao chão e observou o candelabro acima da sua cabeça com velas queimando, seu quarto era bem bonito e bom para alguém que apreciava a arte e a alegria, paredes amarelas com desenhos de bailarinas e flores, piso amadeirado, a cama bege onde repousavam seus ursos de pelúcia, a penteadeira de nogueira esbranquiçada onde estavam seus perfumes de grife, pentes dentados de cabo incrustado com pedras de rubi e o grande armário onde guardava seus materiais de pintura e o violino que não usava desde os sete anos quando decidiu se dedicar mais a arte da pintura do que a da música, aqueles eram uma das suas virtudes, a determinação e a determinação era um dos seus maiores pilares.
Determinada, Gabriele recolocou o vestido e caminhou pelo corredor onde fotos bruxas dos seus ascendentes eram distribuídas até a última porta do corredor, o escritório de seu pai. Deu duas batidas rápidas na porta de madeira envernizada do escritório e esperou que o pai lhe respondesse algo.
— Entre — solicitou.
Gabriele girou a maçaneta e observou cada lugar daquele velho escritório do pai, parecia um mar negro de tantos móveis pretos, desde a escrivaninha até o gaveteiro de documentos, mas era alegre ao máximo para Jorge. Ela se sentou sobre uma poltrona de couro negro e pigarreou antes de começar a falar.
— Papai, eu posso fazer uma pergunta ao senhor?
— Diga Gabriele.
— A mamãe, você disse que ela morreu de tristeza, mas por que eu pouco sei dela?
Jorge pressionou os olhos tentando fingir que tudo aquilo era um sonho, mas não conseguiu.
— Há coisas que devem ser guardadas e esquecidas, nem sempre a verdade é tão boa quanto a omissão, mas te garanto que não omiti ou menti para você em momento algum.
— Mas eu preciso saber pelo menos o básico — o tom de Gabriele mostrava a quão indignada estava com tudo aquilo que o pai desejava ocultar.
O pai mordeu os lábios, uma das manias que eles tinham em comum, e ficou pensativo antes de dar sua palavra final.
— Pergunte o que quer saber, mas seja breve.
O semblante de indignação da garota fora substituído por um sorriso doce.
— Quantos anos eu tinha e quantos a mamãe tinha quando ela morreu?
— Você tinha um ano e sua mãe, vinte e dois.
— Qual era a casa da mamãe?
— Ela era uma Gaudiumfuriana, estava no sangue dela toda a fúria e alegria, mas depois da morte de seu tio Otávio estava parecendo uma Volotumana.
— Qual era o trabalho dela?
Um tufão passara pelos olhos de Jorge, sentia que não deveria responder aquilo, era terrível. Dizem que os bons homens eram salvos pelas boas oportunidades e aquilo de certa forma estava certo, porque no momento em que estava prestes a responder a pergunta de Gabriele, uma coruja de penas brancas com pintas cor de caramelo surgiu na janela do escritório deixando uma carta de envelope avermelhado, aquela coruja pertencia aos Soares Silva e certamente Jorge já tinha previsto o que era aquela carta. Ele abriu a janela, rasgou o selo da carta e a leu,
FESTA DE PAIS E CONSELHO
Prezados Pugio,
Eu, Elisandra Soares Silva, e toda a família Soares Silva, convidamos vossos membros para aproveitarem uma confraternização realizada no novo salão festivo do bar e restaurante Cabeça de Mula. Como de costume e como membros honrados do Conselho Diretorial de Vicrregia, após a aprovação de um dos membros no Colégio temos o dever de apresentar aos pais nossos métodos e até talvez convida-los para integrar o Conselho Diretorial.
Atenciosamente,
Família Soares Silva.
Antes que a filha pudesse questionar algo, ele se levantou e caminhou até o lado de fora do escritório.
***
— Está feito, James.
A voz de Harry era imponente e forte, decidido era um adjetivo tão pequeno pra demonstrar o quão determinado ele estava naquele momento. O Harry que entrara em Hogwarts aos 11 anos e sofrera durante anos moldara o Harry que agora estava ali, continuava sendo o mesmo Harry dos olhos que se pareciam com esmeraldas, os cabelos negros e o belo sorriso, mas era alguém forte acima de tudo.
— Então, isso significa que vou poder fazer o que quiser no Brasil?
Mesmo a decisão de Harry sendo algo sério, James não perdia a oportunidade de falar alguma gracinha em relação aquilo. Afinal, Harry só queria o bem do filho, queria dar ao filho o que tinha perdido no momento em que recebera a cicatriz em sua testa. O Brasil era um dos países com a melhor educação bruxa e menor índice de bruxos das trevas, o que pouco existia depois da queda de Voldemort.
— James saiba que você ainda tem muito que aprender sobre o Brasil, as coisas podem parecer ser menos rígidas lá, mas acredito que o título de melhor educação bruxa não nasceu da noite para o dia. — Harry abriu um sorriso. — Mas agora pense apenas que ainda temos algum tempo para nós despedir, vem aqui, me dê um abraço, James.
James não pensou duas vezes, avançou até o pai que o envolveu em um abraço carinhoso. Harry tentava dar ao filho todo o amor que nunca teve, não por falta de consideração e sim por que todos que queriam dar-lhe amor morriam, foi assim com seus pais e seu padrinho Sirius. Mas os bons homens de grande índole transformavam as frustrações em coisas melhores, diferente dos de má índole que acabavam sendo piores do que os que lhe frustraram, Harry sabia que tudo tinha um propósito na vida e quando teve os filhos, sentiu que deveria dar a eles apoio e ser o pilar inicial das vidas deles.
— Eu te amo, meu filho — murmurou Harry.
Depois do momento pai-e-filho, James se desvencilhou dos braços do pai e o encarou.
— Então, onde está minha carta de Vicrueiria?
— Vicrregia — corrigiu Harry tentando esconder o sotaque inglês sobre o português intermediário. — E bem lembrado, ela está aqui no meu bolso.
Harry retirou o envelope dourado do bolso do uniforme de auror e colocou nas mãos de James. O garoto abriu um sorriso e começou a abrir o envelope.
— Foi difícil providenciar, mas nada que um Potter não possa fazer. E sua carta de Hogwarts, ah, será recusada.
— Então, iremos comprar meu material no Beco Diagonal ou na Calçada Vermelha do Brasil?
— Eu preciso conhecer o país onde meu primogênito vai estudar, então, a Calçada Vermelha é a melhor opção, James.
— Ah, pai, antes que eu me esqueça, chegou alguma carta da Aurea? Ela disse que estava feliz de saber que vamos estudar na mesma escola bruxa e foi uma ótima ideia ter um correspondente brasileiro para me ajudar a me adaptar ao país, à língua e aos costumes.
— Talvez devesse olhar na sua cama. Tem algo a mais lá.
— Certo!
James apressou o passo e correu até o segundo andar da casa dos Potter onde ficava seu quarto. Sorriu enquanto olhava cada parte do cômodo que teria de abandonar, mas mesmo assim conteve a dor. Sua cama estava perfeitamente arrumada, afinal, Gina ou Harry sempre lhe faziam o favor de deixar tudo organizado, apesar de organização não fazer muita parte do dicionário de James. Um envelope de papel timbrado e uma caixa com um belo laço vermelho, James pensou em qual abrir primeiro, mas preferiu abrir a carta; ele rasgou o selo dos Moreal e leu,
AUREA MOREAL
Querido James,
Faltam apenas um mês para nos encontrarmos e a ansiedade de encontra-lo enaltece meu ser. Acredito que vai entender cada palavra escrita aqui, porque fez o trabalho de casa e aprimorou seu português, caso não entenda, saiba que eu vou cobrar de você entender cada divagação minha quando estiver ao meu lado. Essa semana recebi minha carta de Vicrregia e amei o envelope, apesar de não gostar de coisas tão soberbas, adorei a cor e a textura do envelope, afinal, envelopes são legais, não são? Meus pais disseram que eu deveria ir sozinha até a Calçada Vermelha para comprar meus pertences mágicos, mas eu os convenci de que mesmo sendo trouxas — acho essa palavra muito feia para definir os não possuidores de magia —, deveriam ir e me ajudar a escolher desde o meu animal que vou levar à Vicrregia — tenho dúvidas entre levar um coelho, talvez um gato ou um sapo, não, não, sapos são gelados e melequentos — até a cor dos meus livros de Construção Mágica — sim, os livros são personalizáveis, têm diversas cores, segundo meu pai, isso é para estimular nossa criatividade que ajuda na Construção Mágica. Acho que talvez vamos nos encontrar na Calçada Vermelha, então, não se esqueça de mandar uma coruja avisando quando chegar ao Brasil, você é um ótimo amigo e sempre será, independente de ser famoso, rico ou de ser filho do Harry Potter.
Com carinho e sorrisos, Aurea Moreal, sua amiga brasileira.
Demorou alguns longos minutos para James entender cada palavra da carta, mas os sorrisos e alegrias que a carta lhe proporcionara foram demais. O jeito de Aurea ser quase lhe fizera esquecer que ainda tinha mais um presente pela frente, ele estava prestes abrir a caixa quando um gato persa de olhos azulados saltou da caixa em direção a sua blusa. James sabia que aquele seria o seu novo companheiro no Brasil e então agradeceu mentalmente ao pai, mas ainda faltava algo para seu companheiro, um nome e ele o nomeou.
— Esperança — disse ele em um português “rasgado” enquanto acariciava o gato.
Esperança ainda tinha muito para viver ao lado de James e ele acreditava que estava levando duas esperanças para o Brasil, seu gato e a esperança de ter uma vida tranquila, diferente da que o pai teve.
Fale com o autor