Saga Entre Anjos e Demônios
5 Capitulo IV - As duas faces de Alessa
Notas iniciais
Capitulo IV — As duas faces de Alessa
“Eu estou procurando pela resposta
Porque alguma coisa não está certa.
Eu sigo os sinais, Eu estou perto do fogo.”
A Dangerous Mind – Within Temptation.
Aquela não foi uma noite fácil, Alessa se contorceu a noite toda em sua cama, o sono não lhe vinha aos olhos e os raios e trovões atormentavam-lhe os pensamentos.
Permaneceu atirada sobre sua cama com os olhos arregalados, tremendo a cada vez que o vento assobiava do lado de fora ou quando um clarão cortava o céu seguido por um estrondo que tremia as janelas.
Mas, nem a tempestade, nem a falta de sono eram seu pior problema. A cena da biblioteca se repetia em sua mente, varias vezes e ela tentava acreditar no que havia feito ou ao menos entender o motivo por suas ações descontroladas.
Não conseguia se lembrar com nitidez de tudo. Recordava da escuridão, dos braços fortes envolvendo-a com delicadeza e carinho então quando ela voltou a si, Dominic era o mesmo garoto ignorante e sarcástico de sempre.
Com o passar das horas os pingos pesados, que desabavam como uma torrente do céu começaram a diminuir e um chuvisco fino foi que embalou Alessa em um cochilo cheio de sonhos...
Ela se encontrava em uma floresta cinza e levemente escura. Olhava os enormes pinheiros com suas copas parcialmente molhadas e o céu cinzento sobre sua cabeça, um típico céu Britânico, cheio de nuvens pesadas e negras.
Um vento frio assoprava agitando velhas folhas, também havia neblina embaçando parcialmente sua visão, de forma que Alessa não podia enxergar onde pisava.
Embora tudo aquilo parecesse terrivelmente medonho, Alessa se sentia segura, ali lhe parecia familiar e ela prosseguiu andando. Olhando as faias, os pinheiros e os carvalhos solitários, que de vez em quando davam o ar de sua graça.
Era o comecinho da manha, o Sol tentava despreguiçar-se, mas as nuvens espessas não permitiam sua passagem e tudo assumia um tom azulado e frio. O vento gélido continuava a soprar no rosto descoberto causando leves arrepios na garota.
Mas nada disso parecia um empecilho para ela. Estava tão ansiosa para chegar até seu destino que continuava a andar, ignorando o vento frio que bagunçava seus cabelos e o caminho que se mostrava cada vez mais dificultoso.
E ela prosseguiu até alcançar uma clareira. Os pinheiros imponentes abriam passagem para uma pequena clareira, coberta por uma grama quase seca e folhas laranjadas arrancadas do topo de suas arvores e ele estava ali. Sentado entre as folhas, de cabeça baixa estava Dominic.
O coração de Alessa se encheu de algo que ela não sabia explicar e passou a bater mais rápido, ele era tão belo, parecia uma daquelas esculturas de anjos que se viam, mas era ainda mais perfeito e ela permaneceu ali ainda a observá-lo.
Dominic estava usando sua jaqueta de couro negra, ela estava repuxada até a altura dos cotovelos revelando as tatuagens misteriosas de anjos caídos. Seus cabelos negros estavam sobre seus olhos cobrindo parte de seu belo rosto, uma cascata negra, brilhando no azul da manha de outono. Um de seus braços estava escorado em sua perna levemente arqueada, e ele brincava com uma folha caída, ainda inteira, de uma arvore.
Alessa desejou ter ali consigo uma tela para que pudesse registrar a cena. Seus devaneios eram tamanhos que ela se esquecera do porque estava ali, se esquecera de todo o resto, olhá-lo bastava, somente poder observá-lo já era um prazer para ela.
Mas então Dominic se virou, seus olhos esmeraldinos brilhavam na direção dela e um sorriso brincou nos lábios dele, era o sorriso mais lindo que Alessa já havia visto em toda a sua vida, um sorriso que a fez perder o fôlego.
Então ele se pôs de pé e caminhou lentamente na direção dela. Alessa continuou a esperar, suas pernas tremiam e seu estômago se revirava na expectativa. Dominic se deteve a alguns passos dela e estendeu-lhe a mão que ela aceitou de bom grado.
E em um movimento sutil, porem ágil, ele a puxou, juntando seu corpo ao dela e fitou-a de perto com seus olhos esmeraldinos brilhantes. O mundo pareceu girar em velocidade máxima em volta dela, suas pernas tremeram e o ultimo vestígio de ar que lhe restava nos pulmões se foram.
Então Dominic envolveu-lhe a face com as mãos e se aproximou devagar, de forma que Alessa podia sentir seu hálito quente chocar contra a pele dela, os lábios rosados dele roçou sobre os dela causando-lhe arrepios e ela sentiu uma tontura dominar-lhe, ela precisava respirar, mas não conseguia se lembrar de como poderia obter oxigênio.
E Dominic grudou seus lábios doces sobre os dela, beijando-a levemente e delicadamente. Seus braços envolveram a cintura fina de Alessa em um abraço protetor e ela se sentiu a garota mais sortuda do mundo inteiro. E os lábios de Dominic se moviam carinhosamente sobre os dela, como se quisesse aproveitar de cada instante de cada minuto, como se tivesse medo de feri-la.
Seu perfume doce e envolvente inebriou Alessa, deixando-a em um estado profundo de torpor. Uma fina garoa começou a desabar, trazendo leves sussurros pela floresta silenciosa.
Ela cerrou os olhos com força afundando seus dedos nos cabelos de Dominic, sentindo seu coração palpitar, não interromperia, não faria nada, deixaria se levar e aproveitaria o máximo daquilo, pois algo dentro dela gritava loucamente de que tudo aquilo era apenas um sonho, mesmo assim Alessa aproveitou até o ultimo instante.
E quando por fim Dominic se afastou e Alessa abriu os olhos, ela estava em seu quarto, agarrada ao cobertor, foi um sonho. Pensou consigo, não havia pinheiros gigantes, não havia clareira, não havia um Dominic carinhoso pelo qual ela estava se apaixonando.
Havia apenas seu quarto vazio e parcialmente iluminado, o chuvisco era a única coisa fiel ao seu sonho, embora estivesse do lado de fora. Alessa levantou-se, ainda tonta e tentando se recuperar e caminhou lentamente até a janela de seu quarto, observando o céu vincado em nuvens negras.
Tinha uma sensação estranha, sentia-se doente, como se estivesse com febre ou prestes a apanhar um forte resfriado. Mas na verdade o que ela tinha era vergonha, como poderia encarar Dominic Weiss depois do que houve na noite passada? Certa vez alguém lhe disse que vergonha era como comer pimenta malagueta, queima por dentro e não a nada que se faça para mudar isso.
Abraçou-se, escorando na pilastra da janela, observando os pingos de chuva encharcar o chão, misturando-se ao gramado seco e as folhas laranja despregada precoce das arvores. Seus olhos ardiam enquanto um amontoado de lagrimas surgia embaçando sua visão sentia-se tão mal naquele lugar.
Não era bem vinda ali, embora fosse amiga de Zoey e Trevor, havia os que não a queriam ali e estes eram a maioria. Havia Annabelle e suas amigas, Helena com seu jeito estranho e principalmente Dominic, que não fazia questão de esconder ou disfarçar sua opinião, ele a queria longe e era exatamente isso que ela estava disposta a fazer.
O ignoraria por completo, esqueceria que ele existia e ficaria satisfeita com isso. Alessa deu as costas para a janela e as lagrimas, que não haviam escorrido por seu rosto, se foram de imediato e ela se encaminhou para um banho quente.
...
Dominic apanhou sua jaqueta de couro e a vestiu, então se sentou na bancada da janela com os olhos fixos no portão de grades esperando e torcendo para que ela não demorasse. Estava certo de que fizera a coisa certa, aquilo já estava indo longe demais.
Nunca, nenhuma garota havia se arriscado tanto assim, o que ela pensava estar fazendo? Por que ela não podia ser como qualquer outro humano comum, que pré sentia o perigo em Dominic e se afastava? Não, por mais que ele tentasse afastá-la, mais presente ela estava e no fundo Dominic sabia que ele não queria que fosse diferente.
Havia se sentido tão bem, tão puro enquanto ela estava em seus braços, fora a primeira vez depois de séculos de existência na Terra. Enquanto ela estava em seus braços, ele se sentiu como um anjo puro e límpido, bom e isso o assustou.
Alessa despertava algo de diferente nele e quando digo algo de diferente, não me refiro a ardência na linha invisível que suprimia suas asas, me refiro a pensamentos bons, a sensação de pureza, como se seus erros tivessem sido perdoados, como se ele fosse celestial novamente.
Ainda havia as sensações estranhas quando ele tocava a pele macia dela e seu corpo frágil. Era como se ele quisesse protegê-la, como se ela fosse tão importante que a vida dele dependesse daquela criatura magra, pálida, de cabelos negros e olhos grandes e escuros.
Mas, por mais que ele a quisesse por perto, ainda assim havia sua consciência lembrando-o de quem ele era e do perigo que ele representava para ela. Então decidido a mantê-la longe, Dominic foi até o quarto de Alessa e sorrateiramente enviou uma mensagem do celular da garota para seus pais pedindo que a buscassem pela manha.
Quando estava pronto para ir embora ouviu sussurrar o nome dele, seus lábios rosados se abriram levemente enquanto o nome: Dominic escapava juntamente com um suspiro pesado, então ele saiu dali antes que todas aquelas sensações estranhas voltassem.
O dia mal havia amanhecido quando um carro apontou no portão, logo em seguida uma jovem senhora de longos cabelos negros saltou do carro com um adorável, porem preocupado, sorriso nos lábios.
Dominic observou a conversa demorada entre a senhora Stembell e o diretor, então ambos adentraram no colégio e Dominic desceu ás pressas para certificar-se de que seu plano havia dado certo.
A mulher estava sozinha, aguardando próxima a janela da sala de visitas, pequeninas gotas pingavam da capa de chuva bege até o carpete claro da entrada. Seus longos e pálidos dedos apertavam firmemente o laço do casaco enquanto ela batia o pé em um ritmo irritante.
Quando Dominic adentrou no recito, ela se virou num impulso, como se esperasse ver a filha ali, seus olhos negros posaram demoradamente na figura do garoto e então ela abriu um leve sorriso.
–Pensei que fosse outra pessoa.
Ela olhou sobre os ombros dele certificando-se de que estava enganada. Dominic permaneceu em observá-la, parecia aflita e ele se perguntou se havia mesmo feito a coisa certa.
–Está esperando alguém? –Perguntou ele, fitando-a com os olhos semicerrados, como se esperasse enxergar algo além de suas ações obvias.
–Minha filha... –Ela apertou ainda mais o laço fitando rapidamente a paisagem alem da figura e depois retornado sua atenção para ele. –Ela estuda aqui... Você também é aluno do colégio?
–Sim... –Respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos de seu jeans, um silencio prolongado se estabeleceu entre eles e então Dominic se lembrou que deveria ser gentil. –Sou Dominic Weiss.
–Ivy Stembell. –Ela abriu outro sorriso e estendeu a mão direita para ele, que aceitou o aperto depois de alguns segundos de hesitação.
O toque não passou despercebido por ela, Ivy logo recuou a mão olhando-o um tanto espantada e Dominic abriu um sorriso amarelado tentando parecer normal e comum, mas ele entendeu que a senhora Stembell notara o perigo nele. Por que raio aquela garota não conseguia perceber isso?
–Mãe? –Uma voz fraca ressoou atrás de Dominic e ele se virou vendo uma Alessa abatida.
–Oi querida... Como está se sentindo?
Ivy se esquecera prontamente do garoto em sua frente e marchou pela sala atravessando-a e então abraçando a filha que a encarava espantada. Elas permaneceram assim por um tempo, Ivy era a típica mãe humana perfeita, carinhosa e amorosa.
–O que está fazendo aqui? Eu disse que não iria para casa. –Os olhos de Alessa vagaram para Dominic parado logo atrás de sua mãe com os braços cruzados e olhos no chão. A ultima coisa que ela queria era vê-lo. –Eu posso ficar sozinha com minha mãe?
Ela disse em tom rude encarando Dominic em seguida o diretor, sua mãe olhou-a com reprovação.
–Venha senhor Weiss acho que tenho mais alguns serviços para você.
–Obrigada diretor por ter liberado Alessa. –Ivy sorriu educadamente.
O diretor assentiu e esperou que Dominic o alcançasse para que juntos se retirassem. Ele passou pela garota olhando-a atentamente, já ela desviou o olhar enfiando as mãos no bolso do casaco.
–Eu vim buscá-la... –Sua mãe encarou-a como se não entendesse o motivo da pergunta, ainda assim Alessa continuou sem resposta. –Pensei em almoçarmos juntas, que tal irmos até Stanford e passarmos um tempo juntas? Você não me parece nada bem.
–Eu não sei... Eu tenho coisas para fazer aqui, tenho um relatório gigantesco e além do mais não dormi bem com as chuvas dessa semana.
–Incrivel como o tempo por aqui anda estranho, tem passado diversas vezes no noticiário as chuvas que rondam esses lados da estrada, eu e seu pai ficamos preocupados, você tem tando medo dos relâmpagos. –Ivy acariciou o rosto de Alessa e abriu um meio sorriso carinhoso. – Quando era pequena você corria para a nossa cama com os olhinhos esbugalhados gelada de tanto medo, e então colocávamos você deitada no meio enrolada nas cobertas e eu e seu pai olhávamos você dormir. Eu estou sentindo tanto a sua falta.
Ivy deixou que as lagrimas rolassem pelo seu rosto, Alessa sentiu um nó na garganta, sua mãe sempre fora tão frágil, sempre tão sentimental. A garota enlaçou a mãe em um único braço e afagou-lhe os cabelos.
–Que isso mãe! Não precisa chorar, aqui não é tão ruim assim! Além do mais agora você e o papai podem ficar sossegados sem mim.
–Seu pai quase não fala nada, mas ele sente sua falta também, até mesmo dos berros e discuções. –Ivy secou as lagrimas sorrindo. -Já conversei com seu diretor, ele a liberou, além do mais, você parece tão pálida, precisa sair desse tempo estranho e respirar o ar da cidade.
–Eu estou bem mãe! –Reclamou a garota. –Alem do mais seu marido não vai gostar nada disso...
–Não se importe com seu pai, ele é só um cabeça dura igualzinho a você... –Ivy segurou as mãos de Alessa e olhou-a com os olhos brilhantes. –Por favor, eu estou ficando maluca sem você naquela casa...
Era impossível negar algo a ela, Alessa sabia disso, por mais que se passasse por durona sempre fazia as vontades de sua mãe, não resistia a aqueles olhos negros pidões.
–Tudo bem mãe... –Ela esboçou um meio sorriso. –Vou me trocar.
Ivy abriu um gigantesco sorriso e lançou um beijo para a menina enquanto esta subiu vagarosamente os pequenos degraus e desaparecia por um corredor. Não demorou muito e ambas adentraram no carro. Alessa observava o velho casarão que ficava para trás, ela suspirou aliviada, aquele passeio veio em boa hora.
–Hei, me diz o que aconteceu para você estar com essa carinha triste... -As mãos quentes de Ivy afagaram as mãos de Alessa e ela tornou a olhar para sua mãe.
–Acho que só estou cansada, aqui é bem diferente das outras escolas, as matérias são mais difíceis e os professores mais rígidos com quesito aos deveres. Mas acho que estou me saindo muito bem, até fiz novos amigos.
–Por favor Alessa me diga que aquele garoto tatuado não tem nada a ver com isso...
Alessa respirou fundo, sabia que sua mãe diria algo sobre Dominic, ensaiara por aquele momento.
–Dominic Weiss e eu não somos amigos... Acredite mãe, estamos longe de sermos amigos!
–Que bom ouvir isso querida, sabe que nunca me intrometi em suas escolhas de amigos, mas francamente Alessa você só tem feito escolhas ruins querida, sou sua mãe, conheço você, tem se comportado tão mal de uns anos para cá, o que está havendo? Sempre foi uma ótima aluna, você é inteligente, é bondosa, mas... mas finge que não é.
–Mãe por favor... Agora não, nada de sermões... – Ela se virou escorando a testa no vidro gelado.
O caminho até Stanford foi tranqüilo e silencioso. Alessa permaneceu quieta e por mais que Ivy tentasse conversar, nada passava de poucas palavras. Assim que chegaram a Stanford, a senhora Stembell conseguiu convencer a filha a irem a uma loja, na desculpa de que a garota necessitava de novos casacos para o inverno que chegaria dentre em poucos meses.
Compraram dezenas de cachecóis, casacos pesados, luvas e toucas. Por fim, quando chegou à hora do almoço elas adentraram em um restaurante e pediram o cardápio. Alessa não tinha dormido bem e estava cansada, apanhou o cardápio sem muito humor e quando alegou que não estava com fome, sua mãe se ocupou em fazer os pedidos dizendo que ela precisava se alimentar.
–Quero dois Sunday roast... –Insistiu ela, e então o garçom se afastou. –Tudo bem, eu ignorei isso a manha inteira, agora quero saber o que está acontecendo. Eu não engoli a historia dos professores e deveres difíceis muito menos da desculpa de semanas mal dormidas.
–Não é nada mãe.
–Querida... –Sua mãe lhe afagou a mão. –Conte-me então um pouco sobre a escola, lá é legal? Você nunca liga, eu fiquei preocupada.
–Não precisa, lá até que é suportável! –Resmungou.
–Eu sabia! Já disse para seu pai que você não gosta daquele lugar, que isso não é uma forma saudável de puni-la pelo que houve, mas seu pai nunca me escuta, você é igualzinha a ele! Quer saber de uma coisa, eu irei tirá-la de lá...
O coração de Alessa acelerou em resposta, sair do Saint Edgar´s School? Não, Alessa não queria sair de lá. Por mais que detestasse aquele lugar, por mais que odiasse com todas as suas forças Dominic e seu jeito ignorante ela não queria ficar longe, não podia.
–Não! –Quase que ela gritou de tamanho pavor, não conseguia, não queria ficar longe dele. –quer dizer, eu já estou me acostumando com aquele lugar... Além do mais eu te disse que comecei a fazer amigos... e tem as aulas de artes, me deixaram pintar um quadro, ficou lindo.
–Mesmo querida?! –Seus olhos se apiedaram enquanto ela levava as duas mãos juntas ao peito e abria um sorriso largo. –Eu gostaria muito de vê-lo, será que o diretor me deixa levá-lo para casa? Acho que não... Mas tudo bem, conte-me dos seus novos amigos.
–È... Uma garota chamada Zoe, ela é legal, está na minha turma de biologia, e tem o Trevor, ele é capitão do time de Rúgbi.
–Capitão do time de rúgbi? –Sua mãe semicerrou os olhos e abriu um sorriso malicioso, cruzando as mãos sobre a mesa. –Conte-me como ele é?
–Ele é legal, sabe... Somo apenas amigos! –Alessa corou as bochechas e aproveitou a deixa do garçom para abocanhar um pedaço de seu carneiro com o molho de menta.
–Sei... e aquele garoto que estava na sala quando você chegou? Qual é mesmo o nome dele? –Alessa sentiu todo o seu corpo enrijecer, sabia muito bem de quem sua mãe referia. –Ah sim, Dominic Weiss...
–O que tem ele? –Perguntou ela tentando parecer despreocupada.
–Ele me pareceu que conhecia bem você, não sei tive um impressão quando você olhou para ele e disse que queria ficar a sos comigo.
–Já disse mãe, não sou amiga dele... Dominic não tem amigos! –Respondeu Alessa, foi impossível para Ivy não notar a pontinha de amargura na voz da garota.
–Era de se esperar... Eu não gostei dele, me parece o tipo de garoto que só se mete em problemas...
Alessa teve vontade de sorrir, o que diria sua mãe se soubesse das tatuagens ou se conhecesse o lado sarcástico dele?
–Gavin sempre se mete em problemas e você nunca falou pra ficar longe dele...–Alessa abaixou os olhos, fingindo uma conversa casual sem segundas intenções.
–È diferente, conhecemos os Clarck a tanto tempo! Sei que vocês se metem em problemas juntos, mas confesso ter medo de afastá-los e você... bem, você ficar sozinha. –A garota encarou sua mãe surpresa. –Quer dizer, está tudo bem agora não é?! Você tem novos amigos.
–Acho que sim! –Disse uma Alessa distante e alheia a conversa.
Durante todo o almoço Ivy falou sobre os planos de talvez a filha adentrar em um curso para artes, mas Alessa não reparou nisso, uma triste realidade tomou conta da garota quando sua mãe disse que ela era sozinha, nunca havia analisado por este lado, sempre se considerara uma garota feliz e rodeada de amigos, mas na realidade ela não era.
A maratona de compras não haviam chegado ao seu fim, para o terror de Alessa. Ivy continuou a arrastá-la por entre lojas e lojas, empurrando-a de cinco em cinco segundos para o provador com uma peça de roupa diferente.
E assim as horas começaram a passar, Alessa não podia negar que embora pensasse em Dominic com grande freqüência ela havia se divertido com a mãe. Sentia falta de estarem juntas, de fazerem coisas juntas, como nos velhos tempos que ficaram em uma lembrança antiga.
O dia chuvoso se fora mais cedo, não era nem cinco da tarde e a escuridão já havia tomado conta de toda a paisagem, Alessa e sua mãe passavam pela pequena e brilhante avenida, um vento congelado assoprava chicoteando os cabelos de ambas, fazendo-as gargalharem enquanto lutavam para segurarem as sacolas.
–Acho melhor irmos agora... –Avisou Ivy segurando ainda mais as alças das sacolas. Alessa assentiu e seus olhos alcançaram uma pequena loja de antiguidades na outra extremidade da rua.
–Importa se eu for ver algumas coisas antes? –Sua mãe maneou a cabeça revirando os olhos e sorriu feliz.
–È claro que não querida, estarei esperando no carro, não demore! –Ela apanhou as sacolas que Alessa carregava e continuou a caminhar até a esquina onde o carro estava estacionado.
A garota sorriu e apertou os braços em torno de si, realmente estava gelado ali. Esperou até que um ou dois carros passassem e então atravessou a rua correndo. Não conseguia entender a vontade que lhe assombrou, mas de repente ela sentiu que precisava adentrar naquela loja.
O pequeno sino ressoou sobre sua cabeça, o local era pequeno e mal iluminado, empilhado de artesanatos manuais além de peças antigas. Alessa vasculhou o cômodo vazio.
–Já vou... –Gritou uma voz masculina e a garota parou junto ao balcão olhando tudo em volta.
Havia pequenos cestos de palha torcida a mão em um canto, na outra extremidade havia uma prateleira com jarros pintados a mão e também fotografias em preto de branco de pessoas que Alessa jamais vira em toda sua vida.
Era um típico lugar estranhamente familiar, tudo ali cheirava a incenso e beirava a tranqüilidade extrema. A garota levantou os olhos para os origamis que envolviam a lâmpada e lançavam feixes amarelados na parede.
–Olha só isso... –Alessa sobressaltou e quando tornou a fitar o balcão, um belo garoto sorria para ela.
Ela precisou piscar varias vezes para saber se ele era de fato real. Cabelos loiros levemente bagunçados em um penteado adornavam um rosto branco com um sorriso largo e brilhante, incríveis olhos azuis encaravam-na, e ela sorriu, também, era impossível não sorrir para um rosto tão alegre.
–Veja... –Ele apontou para o teto que Alessa olhava anteriormente e sorriu ainda mais, feixes amarelados e prateados iluminavam o rosto do garoto que sorria como uma criança olhando para o teto.
Alessa fez o mesmo, tornou a fitar o teto sobre sua cabeça e o globo de origami girava no ar, fazendo os feixes dançarem tranquilamente como que acompanhados por uma canção de piano.
Algo remexeu dentro da garota, uma sensação gostosa, seu estômago se revirava e ela se sentiu como uma criança à espera do tão sonhado presente, e aquilo foi crescendo dentro dela foi impossível não conter a gargalhada, ela veio de dentro e explodiu, ecoando tão gostosa e verdadeira como Alessa jamais havia sorrido.
Ela fechou os olhos e em sua mente as lembranças de algo tranqüilo e feliz encheu-a, seu peito se arqueou com o ar que ela sugava para dentro de si e o estresse e a tristeza que ela vinha lutando há muito tempo se esvaiu dela por completo e quando ela abriu os olhos deparou-se novamente com os feixes brilhantes.
–Meu nome é Sammuel... –Ela tornou a fitar o garoto de belos olhos azuis, olhos tão claros que beiravam ao branco.
–Desculpe... –Ela sorriu envergonhada. –Sou Alessa Stembell.
–Não precisa se desculpar, eles causam isso em qualquer um... –Ele sorriu novamente, seu sorriso aberto e sincero que fez com que ela não conseguisse parar de olhá-lo. –Então do que precisa?
–Na verdade eu passei mesmo para conhecer. –Desviou seus olhos, encarando as coisas sem de fato vê-las, envergonhada por ter olhado-o por muito tempo. –Não me lembro de ter visto essa loja antes...
–È nova aqui. –Murmurou ele. Alessa então avistou uma prateleira e sobre ela três pequenos anjos de asas brilhantes, esculpidos em porcelana e pintados a mão.
Ela andou até eles, observando suas faces perfeitas e celestiais, todos os três olhavam para baixo, observavam algo, com seus olhares serenos porem julgadores. Um deles possuía as maiores asas, seu rosto estava adornado por uma barba branca e ele usava túnicas tão limpas e brilhantes quanto suas asas.
O segundo ao seu lado direito possuía uma imensa espada e ele tinha o olhar mais julgador que todos os outros, seu queixo estava levemente inclinado para cima e um ar de autoridade dominava-o.
O ultimo era o mais jovem, suas sobrancelhas também estavam unidas, mas ao contrário dos outros ele não tinha apenas um olhar julgador, mas também um olhar banhado de ódio e sede de vingança. E foi neste que Alessa olhou por maior tempo.
–São os três anjos de justiça... –Murmurou Sammuel surgindo logo atrás dela. –Deus, Miguel e seu braço direito.
–Horripilantes... –Murmurou Alessa sentindo um arrepio percorrer todo seu corpo. Sammuel abriu um singelo sorriso e então com uma única mão empurrou as três estatuas para o fundo da prateleira.
–Ninguém se importa mesmo... –Murmurou ele, olhando-a com uma expressão estranha, então ele deu as costas andando até outra prateleira. –Mas tem uma coisa que todos gostam de ver. Chama-se a dama misteriosa...
Alessa atravessou a pequena loja indo até o belo garoto de olhos azuis e fitou assim a pequena pedra em sua mão. Era pequena e achatada, como as pedras que se encontram a beiras de lagos, só que está era preta, tão negra e brilhante que a garota se encantou no mesmo momento que a viu.
–O que há de tão especial? –Perguntou ela depois de um longo momento.
–Veja isso... –Sammuel abriu um sorriso malicioso e brincalhão, estendeu uma de suas mãos grandes para Alessa como um convite ela nem se quer pensou direito e segurou a mão do garoto. –Segure-a, veja...
Era hipnotizante como aquela pequenina pedra parecia conter dentro de si uma chama, era um brilho avermelhado que começou discretamente, mas foi se abrindo na mesma proporção que os olhos de Alessa.
–È lindo... –Sussurrou a garota.
–Você ainda não viu nada. –Sammuel deixou a pedra nas mãos de Alessa e correu para trás do balcão batendo os dedos no interruptor, fazendo as luzes se apagarem.
E a pedra brilhou nas mãos de Alessa, um misto de luzes saiam, vermelhar, amarelas e brancas, criando uma cor que ela jamais vira, uma cor maravilhosa, lançando desenho e feixes por todos os lados.
–Surpreendente... –Alessa levou uma mão até seus lábios, seus olhos negros faiscando de admiração, e então, quando as luzes foram acesas ela indagou. –Onde encontrou isso?
–Em um lugar muito distante daqui... –Ele se escorou sobre o balcão passando as mãos nervosamente sobre os cabelos loiros. –Muitas vezes, nas viagens que eu faço, encontro coisas... interessantes, sou uma espécie de colecionador.
–È surpreendente, você tem mais dessas?
–Não, infelizmente é uma pedra rara, dificílima de se encontrar.
Alessa correu os dedos pela pedra em procura do preço, vasculhando-a e não encontrando nada.
–Quanto custa? –Indagou pondo a peça sobre o balcão.
–Não tem preço, ela é especial demais... –Disse ele lançando-lhe um olhar presunçoso.
–Diga-me seu preço... –Alessa inclinou-se levemente sobre o balcão e semicerrou os olhos, seus lábios curvando-se em um leve sorriso, ela gostava de coisas impossíveis ou difíceis de se terem.
–Talvez custe muito caro... –Ele devolveu-lhe o sorriso malicioso.
–Anda diga seu preço...
–Um milhão de libras! –Ele deu um tapinha no balcão quando Alessa juntou as sobrancelhas em expressão de derrota. –Mas... você pode obter essa bela pedra preciosa... somente se permitir que eu a leve para um passeio!
As bochechas de Alessa coraram de imediato quando seus olhos encontraram os de Sammuel, e ele a sondava, seus belos olhos azuis e seu sorriso encantador hipnotizando-a.
–Não dá... –Respondeu ela, abaixando os olhos para evitar o constrangimento. –Eu estudo no internato... Fora da cidade!
–Eu sei... –Alessa tornou a fitá-lo, espantada pela revelação. –Há muitas historias sobre você nessa cidade...
–Pessoas que não tem nada para fazer! –Resmungou ela, e Sammuel sorriu mais uma vez.
–Não se preocupe não me importo com essas historias... Tome, a pedra é sua!
Sammuel estendeu e pedra na direção da garota, que recuou indignada.
–Não, não posso aceitar! Não é justo não pagar por ela!
–Mas não estou dando-a a você de graça... –Sammuel apanhou uma corda e amarrou cuidadosamente em torno da pedra. –Vire-se por gentileza.
–Eu não tenho todo aquele dinheiro!
–Não tem problema! –Alessa sorriu e se virou levantando os fios negros. Sammuel com muito cuidado entrelaçou o cordão no pescoço da garota, dando um nó firme para que este não se soltasse. –Posso apanhá-la no sábado as oito?
–Que tal nos encontrarmos aqui? –Ela sorriu mordiscando os lábios.
–Estarei esperando ancioso...
O vento gelado sacudia calmamente as folhas amarelas das copas de arvores mais altas da floresta. Alessa observava a noite fria e a lua crescente no céu negro. Sentia-se bem melhor, apertava o cordão em torno dos dedos pálidos enquanto fitava tudo maravilhada, vibrando em êxtase.
–Então, não vai me contar como ele é? –Murmurou Ivy retirando seus olhos rapidamente da estrada para conferir o sorriso que brincava nos lábios da filha.
–Quem?
–Não se faça de boba Less, porque sei que de boba você não tem nada! Anda, conte-me quem fez com que seu dia transforma-se de puro tormento para o mais belo de todos?
–Ninguém... –Alessa revirou os olhos alisando a alça negra do cordão. –Só estou feliz por ter encontrado uma pedra tão bela assim!
–E quanto custou? –Ivy observou Alessa olhar para os lados como quem busca respostas, e então sorriu, como sua filha era imprevisível. –Meu bem, não precisa disfarçar nada, se não quiser me contar, não me conte...
–Tudo bem. O nome dele é Sammuel! Foi ele quem me deu esta pedra... –Ivy sorriu encantada, finalmente Alessa estava começando a se comportar como as filhas de suas amigas.
–E ele é bonito?
–Sim! –Alessa gargalhou ao se lembrar dos olhos azuis e vibrantes.
–Você combinou de encontrá-lo?
–Vamos nos encontrar na loja dele as oito...
Ivy sorriu. Alessa era realmente imprevisível, ela conseguia mudar seu humor rapidamente, hora se comportando como uma adulta e outras como uma adolescente inocente.
–Tenho certeza que ele vai achar algo bem divertido para fazerem... Vai ser maravilhoso.
O silencio se restabeleceu, e só então Alessa se lembrou de Sammuel mencionar que havia ouvido historias sobre ela, isso fez com que o seu humor se alterasse novamente. Será que seu passado nunca a deixaria em paz? Que as pessoas nunca a deixariam em paz?
–Mãe... –A chamou em uma voz baixa. –Sammuel disse que sabia quem eu era, que já havia escutado diversas historias sobre mim...
Pelo canto dos olhos Alessa viu sua mãe apertar o volante e olhar fixamente para a estrada um suspiro alto e pesado quebrava a estranheza do momento. Então uma mão agarrou a sua com força, afagando sua pele gelada.
–Não se importe com isso... Sabe como as pessoas dessa cidade são. Elas gostam de falar dos outros!
–As pessoas do colégio acham que eu... que eu cometi um crime! –Alessa tornou a fitar a janela, e ao longo da escuridão ela avistou o imponente prédio da Saint Edgar´s School.
–Você não fez isso Alessa! –A voz de sua mãe agora era grave e havia subido uma oitava, ela suspirou pesadamente com a raiva enchendo seus pulmões. –O que aconteceu não passou de um acidente... Eu sei disso, você sabe disso e o resto não importa.
–Papai não acredita em mim...
–Não se importe com o que seu pai diz, ele está nervoso com... Bem com os falatórios, assim como você ele se preocupa demais com o que os outros pensam.
O carro deslizava agora pela alameda que levava até a entrada, o vento sacudia mais fortemente as arvores em volta, havia algumas luzes acesas, e assim que Alessa pôs seus olhos no prédio algo estranho tomou conta dela, um arrepio percorreu todo seu corpo e os seus pêlos se eriçaram em aviso.
–Tem certeza que é aqui que você quer ficar? –Murmurou sua mãe, sua voz aveludada arrancando Alessa de seu transe temporário. Ela assentiu e depois que sua mãe depositou um beijo casto em sua testa Alessa desceu do carro com os olhos fixos no prédio velho.
–Hei mãe... –Murmurou ela quando ouviu o motor roncar... –Tome cuidado.
Ivy sorriu e acenou, Alessa observou o carro deslizar pelo caminhou de volta aos portões. Seu coração ressoava ainda mais alto, e seus olhos registrava cada pequeno detalhe mudar-se com o tempo.
O vento sacudia as copas das faias que acompanhavam o pequeno caminho, e a cada vez que o carro que levava sua mãe passava por uma, o vento as encurvava como se os galhos secos tentassem apanhá-lo.
E assim que o carro ultrapassou os portões, o vento mudou sua direção, as folhas caídas ao chão rolavam pelo gramado e pela pequena estrada de cimento, todas juntas, corriam, agora, de encontro com a garota.
Alessa arregalou seus olhos e deu as costas, subindo os pequenos degraus rapidamente e batendo a grande porta de madeira. Escorou-se sobre esta fechando os olhos enquanto tentava se acalmar. E gargalhou, aquela gargalhada a beira da histeria, aquela que a gente dá quando entende que se assustou à toa.
A mão direita levantada até o peito que ainda palpitava, o rosto vermelho enquanto a histeria do riso continuava a ecoar, diminuindo vagarosamente. Ela cerrou os olhos abandonando algumas sacolas no chão, tentando se acalmar.
–Qual o motivo da piada? –Alessa abriu os olhos deparando-se com uma loira parada ao corredor encarando-a seria com as mãos presas à cintura.
–Assunto pessoal... –A garota se abaixou para apanhar suas sacolas. –Ou seja, não te interessa...
–Olhe aqui Stembell... –Annabelle havia se aproveitado de quando Alessa passava por ela e então lhe agarrou o braço, girando-a, obrigando-a a olhá-la nos olhos. –Eu sei bem quem você é, e pessoas do tipinho como seu não tem cacife para freqüentar lugares como esses...
–Lugares como esses?! O que faz aqui então Annabelle... Não pense que eu não lhe conheço, pois sei bem quem você é... Garota mimada, com pais ricos que lhe dão tudo o que quer. Pois tenho uma péssima noticia para você, ficarei na Saint Edgar´s School pelo tempo que eu quiser, e não a nada que você possa fazer para mudar isso. –Alessa puxou seu braço e deu as costas a Annabelle.
–Então pague para ver garota Stembell, seus dias aqui estão esgotados! –Ameaçou ela, Alessa virou-se e lançando-lhe seu ultimo sorriso, caminhou em direção ao seu quarto.
Os casacos foram abandonados nos armários, dentro de suas sacolas, ela bufafa ao pensar em Annabelle. “Garotinha mimada”. Niguem dizia a Alessa o que ela poderia ou não fazer, onde ela deveria ou não ficar. Não era o tipo de garota que se calasse para alguém. Se Annabelle estava disposta a fazer com que ela saísse, agora Alessa estava disposta a provar o contrário.
Deitou sobre sua cama, segurando o cordão e se lembrando da sensação que teve quando o viu brilhar. Bateu os dedos no interruptor desligando as luzes e ficando na escuridão, em seguida segurou a pedra diante dos seus olhos, mas agora não conseguia entender o que estava acontecendo, ela não brilhava tanto quanto Sammuel a segurara.
Devia estar estragada, ou se não o Edgar´s School não fazia bem nem mesmo a uma simples pedra.
Mesmo assim Alessa a queria por perto, queria se lembrar dos mínimos detalhes de um belo sorriso, de um par de olhos azuis que a convidara para um passeio. Não demorou muito para que ela se lembrasse do que havia acontecido na biblioteca, e toda aquela coisa de se sentir mal e da vergonha pulsando em suas veias dominou-lhe novamente.
E junto com todas essas sensações ruins a imagem de Dominic invadiu-lhe os pensamentos, e ela se lembrou do sonho que tivera, onde os lábios dele se juntaram aos seus e ele a abraçava carinhosamente, mas fora um sonho, por mais que ela gostasse, fora um sonho.
E foi pensando em Dominic Weiss, lembrando do sonho que jamais poderia se tornar real, Alessa pegou no sono, um sono atormentado, no qual por diversas vezes ela acordou com a chuva que despencava do lado de fora.
A escuridão tomava conta de tudo, e o frio doia-lhe nos ossos. Também pudera, o vento frio do fim de outono soprava fortemente naquela tarde cinzenta. A cada passo que ela dava uma lufada era jogada sobre si, agitando-lhe os cabelos negros e levantando folhas secas do chão.
Alessa olhava atentamente tudo em sua volta, as arvores secas rangiam com o esforço do vento sobre elas e a rua parecia ainda mais deserta do que ela se lembrava. Abraçou-se na inútil tentativa de se acalmar.
Esfregava constantemente as mãos nos braços, procurando aquecer-se. Mas ela prosseguia andando, os olhos negros fixos na casa de madeira no final da rua, continuava embora não entendesse o motivo pelo qual fazia isso. Odiava aquele lugar e fazia anos desde que pisara ali pela ultima vez.
As casas pareciam-lhe estranhamente vazias e silenciosas, como se estivessem assistindo ao final de uma grande peça, aguardando a ultima cena da dramaturgia, esperando sempre pela a revelação ou o acidente trágico e nunca pelo feliz para sempre.
E as grandes janelas e portas de madeira observavam a garota que andava encolhida, olhos fixos para a gigante velha do fim da rua. E rapidamente Alessa chegou ao seu destino.
Os dedos trêmulos e congelados se fixaram no trinco de ferro enferrujado. Ela não hesitou em adentrar, forçou e depois de um longo rangido ele cedeu e o pequeno portão de madeira deu passagem pela estreita passarela de pedrinhas brancas.
Era como estar voltando para o passado, e assim como quando era criança, ela tinha a estranha sensação de percorrer o corredor da morte. Um arrepio percorreu todo o seu corpo quando ela subiu os três degraus e ficou de frente para a poeirenta área. Tudo ali parecia estar exatamente no lugar, e se não fosse pela poeira e abandono ela julgaria que o tempo não havia atingido aquela casa.
O que estava fazendo ali? Nem mesmo ela sabia. Odiava aquele lugar e sabia que não deveria colocar os pés ali, prometera a si mesma que jamais faria isso. Cerrou os olhos com força, decidida que daria o fora dali o mais depressa possível. Seu corpo todo já perecia reagir ao efeito de estar ali, suava loucamente embora a segundos atrás estivesse congelando, sem falar na tremedeira de suas pernas, aquilo não estava certo, ela sabia disso.
Ela ouviu o grasnar de um corvo, abriu os olhos de imediato, a tempo de ver a grande ave parada junto ao solitário carvalho que lançava seus galhos secos por cima da casa, era o pressagio, o aviso de que ela corria perigo. Puxou o máximo de ar que cabia em seus pulmões, buscando forças, qualquer coisa que fizesse suas pernas se moverem, que fizesse com que ela saísse dali.
Mas não podia partir, havia algo, ela procurava por algo, tinha que encontrá-lo. Olhou para a ave que a observava do galho mais alto da arvore. O pêlo negro como a noite brilhava embora não houvesse luz para reluzir sobre ele.
Ele grasnou mais uma vez, mais alto e mais agudo. Alessa protegeu os ouvidos e deu as costas para o animal, que parecia enlouquecido com seu cantar amedrontador, gritando, alertando-a de que algo a aguardava, algo muito ruim.
Pôs os dedos na fechadura redonda, preenchendo toda a sua mão com o dourado lustroso. Tentou ignorar, mas toda a sua pele formigava em alerta, todos os pêlos de seu corpo se eriçando em expectativa e medo.
Girou e imediatamente abriu passagem, rangendo enquanto ia de encontro com a parede. A primeira coisa que Alessa viu foi a escada que dava para o andar superior, a escada em formato de “L”, poeirenta com seus degraus de madeira corroídos e aparentemente frágeis.
Ela pôs a cabeça para dentro, olhando de um lado para o outro, certificando-se de que a casa estava vazia, que não havia nada nem ninguém que justificasse esse medo idiota que ela sentia. “Sou uma Stembell, os Stembell não temem nada!” reafirmou-se, embora se sacudisse com a respiração alternada e amedrontada.
Então pôs o primeiro pé para dentro da casa, imediatamente o piso rangeu sobre o peso de seu corpo. O corvo que até então continuava a grasnar do alto da arvore bateu asas, Alessa se virou a tempo de sentir as penas tocar-lhe a face e então ela caiu sobre o piso de bruços sobre a poeira. E ele se foi, desistindo de avisá-la abandonando-a naquela casa horripilante e cheia de lembranças amargas.
Ela respirou fundo e permaneceu por um tempo atirada sobre o chão, tentando acalmar o coração que batia descompassado e elétrico dentro dela. E sorriu, não um riso comum, mas daqueles que assombram no fundo da garganta, daqueles que mais beiram a histeria do que a felicidade.
Alessa se levantou sacudindo a poeira do jeans e da jaqueta, afinal ela deveria continuar, tinha que encontrar o que tanto procurava. A casa estava escura, suas espessas cortinas fechadas e o cheiro de mofo deixava tudo com um aspecto ainda mais terrível.
O primeiro cômodo que ela encontrara foi a cozinha, que estava vazia e intacta, nada ali mudara a não ser o feito dos longos anos. Ela deu meia volta e adentrou no outro cômodo, a sala, aquela mesma sala que ela passava as tardes no carpete quando criança, amaldiçoando a avó que prometia e nunca cumpria.
Alessa caminhou lentamente em direção ao centro do carpete, e então se virou para que pudesse olhar para o assento do sofá, nele havia marcas de fogo, a negridão e um buraco no meio do assento, de onde se via a madeira. Mas ao contrário do que ela esperava, somente onde sua avó estivera era onde havia marcas de incêndio. Não, ela se lembrava da casa em chamas, se lembrava do fogo devorando o piso de madeira, como agora tudo parecia intacto?
Ela franziu o cenho, observando as marcas do incêndio refletirem sobre o gesso branco do teto, como se as chamas estivessem alcançado ao topo da casa. Levou uma mão aos lábios, como pode ter feito algo tão horrível assim? Seus olhos arderam em resposta, era ela um mostro? Somente pessoas que não possuem sentimentos poderiam matar outra de maneira tão cruel assim.
Ela cerrou os olhos com força, ouvindo os gritos de sua avó ressoarem em seus ouvidos, o pedido de socorro enquanto as chamas devoravam-lhe todo o corpo, corroendo a carne velha e levando-a a destruição total.
–Ela merecia Alessa... –Uma voz ressoou logo atrás dela, uma voz infantil porem decidida e firme. A garota se virou espantada e arrependeu-se logo que o fez.
Uma garotinha estava de pé sobre o carpete há cerca de cinco passos de distancia de Alessa, os cabelos negros e lisos pendiam sobre suas costas até encontrarem com a cintura adornados por um laço de fita azul celeste.
Um vestido branco com babados de renda azul e pequenas florzinhas adornavam o miúdo corpo que o vestia. As meias brancas subiam pelo tornozelo enquanto um sapatinho preto e brilhante adornava seus pés.
Era impossível não reconhecer-se ali, era os mesmo olhos grandes e negros adornados por disfarçadas olheiras, o cabelo liso adornado por fita e o vestido azul eram os mesmos que ela usara a doze anos a trás, quando ela tinha apenas cinco anos e uma mente terrivelmente cheia de maldades.
–Ela prometeu que nos levaria para passear, prometeu que seria boazinha desta vez... você se lembra Alessa? –O corpo da garota perecia ter sofrido um choque quando ela constatou que a garota era realmente ela, uma Alessa criança e amargurada com uma mente assassina.
–Não... –Murmurou ela incapaz de dizer qualquer outra coisa.
–Nós demos o nosso jeito... Fizemos o que era certo! –Reafirmou a garotinha de grandes olhos negros banhados de rancor.
–Não foi certo... eu não fiz isso! –Reafirmou Alessa dando um passo para trás.
–Fizemos o que tínhamos que fazer... Acabamos com ela, e gostamos disso... –A garotinha avançava vagarosamente em direção a Alessa, as mãozinhas cerradas me punho enquanto ela gritava, erguendo sua voz perante aos berros negativos de sua copia mais velha. –Nunca permitiríamos que ela nos magoasse, é assim que fazemos não é Alessa? Acabamos com todos em nossa volta... Lembra-se da pele dela em chamas?
–Eu não... eu não fiz nada! –Berrava Alessa pondo as mãos sobre os ouvidos. Afastando-se cada vez mais da garotinha que insistia em se aproximar. –Eu não sou assim...
–Você gostou Alessa, nós gostamos de vê-la queimar, ela merecia isso, ela merecia assim como os outros! –Alessa abriu os olhos espantada: outros? Que outros?
A garotinha encarava-a com aqueles imensos olhos negros banhados de ódio e vingança, a pele branquinha estava vermelha e ela suava. Toda a pele de Alessa correspondeu a aquele olhar negro, imediatamente uma ardência insuportável tomou conta de toda ela.
E não demorou para Alessa descobrir o motivo, a casa inteira estava em chamas, o fogo tragando e devorando cada centímetro da madeira, enquanto a Alessa criança dançava e girava conduzindo as chamas, gargalhando alto.
Ela tentou sair correndo, mas independente de onde se virasse havia chamas, o fogo tragava e consumia tudo com uma rapidez inexplicável. A fumaça invadia seus pulmões e ela já sentia a tontura beirar-lhe, estava sem ar e sem chances de escapar.
As gargalhadas da pequena garota preenchiam aquela casa, ela rodopiava no centro do carpete, as mãos abertas e os braços estendidos para cima, e gargalhava como se brincasse com a melhor coisa do mundo.
O grito de pavor se acumulava na garganta de Alessa, principalmente porque não havia saída e não havia chances de escapatória. As chamas já esquentavam sua pele em uma forma exagerada, pareciam querer alcançá-la, tocar-lhe e envolve-la para a morte.
–Pare com isso! –Berrou Alessa para a garotinha, já não conseguia enxergar o que havia em sua volta, não conseguia raciocinar com clareza com toda aquela fumaça dixando-a tonta.
As chamas vinham como garras em sua direção circulando em sua volta formando uma barreira em torno dela. Alessa cerrou os olhos lacrimejados com força e apertou os dedos em torno de seu rosto protegendo-se das chamas quentes e então deixou com que seu corpo desabasse ao chão.
Para sua surpresa o piso parecia fresco e levemente macio, ela permaneceu de olhos cerrados e dedos juntos ao rosto. Uma brisa fria soprou, levando algumas mechas de seus cabelos e ela descobriu que poderia respirar sem ter a fumaça em seus pulmões.
Aos poucos ela pode começar a distinguir os ruídos em sua volta, havia pessoas correndo em algum lugar não muito distante dali, e também havia estalos de madeiras entregues as chamas ardentes.
–Ela está bem ali! –Gritou alguém. Alessa abriu os olhos encarando de imediato o ceú negro sobre sua cabeça. Estava deitada em um amontoado de folhas, próxima a igreja destruída nos fundos de seu quarto.
Apoiou os pulsos sobre as folhas erguendo levemente seu corpo para poder encarar o casarão em chamas. Trevor e Zoey corriam desesperados em direção a ela. Uma forte vertigem tomou conta dela quando percebeu que a única parte do internato que estava em chamas era seu quarto.
Uma nuvem de fumaça negra escapava por sua janela subindo com toda a força em direção aos ceús.
–Alessa... como você conseguiu? –Murmurou Zoey segurando-lhe a cabeça.
–Achamos que você ainda estivesse lá dentro! –Trevor abriu um sorriso nervoso enquanto Alessa encarava-o em um estado de choque.
–Alessa você está bem? –Perguntou Zoey, Alessa encarou a movimentação aos fundos, médicos e bombeiros tentando socorrer os alunos e deter as chamas. –Alessa?
Insistiu Zoey, Alessa semicerrou os olhos, como se não conseguisse compreender o que havia me sua volta, e enquanto ela percorria todo aquele cenário de horror ela notou algo estranho. Um vulto levemente brilhoso se deu perto as janelas de seu quarto, Alessa piscou varias vezes, estava zonza e confusa, mas tinha certeza que havia visto um garoto de asas.
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