O ar noturno envolvia tudo com um manto fresco e úmido, carregando consigo o aroma reconfortante da terra molhada pela chuva recente. Sombras dançavam entre as árvores, estendendo-se pelo chão como tentáculos de uma criatura adormecida, criando um cenário ameaçador, sob o luar filtrado pelas folhas, que incitava tensão em Chloe e ao mesmo tempo drenava sua coragem.

— Boa noite, senhores. Permitam-me conduzir os cavalos até os estábulos. — disse uma voz feminina, emergindo da frente da carruagem.

— Com todo prazer, minha bela donzela. — respondeu o cocheiro, quase rindo. O som de sua voz era como uma melodia suave, demonstrando interesse na garota misteriosa. — Kevin, saia daí. Chegamos. Vamos terminar este trabalho e aproveitar a festa. — instruiu, batendo no compartimento fechado onde seu colega estava, o eco de suas palavras flutuando no ar noturno como uma promessa de diversão iminente.

Após alguns instantes, Chloe percebeu o som de uma porta se abrindo à sua lateral, enquanto tentava manter-se o mais imóvel possível. A tensão pairava no ar, e cada som ecoava como um sussurro sinistro, não podia ignorar a ansiedade que a consumia, questionando-se se o Agility já teria recuperado os sentidos após o ataque dos corvos, fazendo com que seu coração martelasse no peito. Ela agradeceu silenciosamente pelas ferragens da carruagem que forneciam um apoio firme para seus pés, permitindo que ela se mantivesse pendurada por tanto tempo sem perder suas forças e cair rolando no chão. Uma sensação de alívio misturada com uma ponta de terror se espalhou por seu corpo enquanto imaginava o quão terrível seria estar sob aquelas rodas.

— Malditas galinhas, me pegaram justo quando eu estava com a audição aprimorada. Quase que eu morro! — reclamou Kevin ao cocheiro, sua voz carregada de frustração e exasperação. — Vamos levar essa coisa logo. Depois de concluirmos este trabalho, a melhor recompensa, além do dinheiro é claro, será beber pelo resto da noite.

Então, ambos partiram apressadamente para dentro do castelo, mas não antes de fazerem uma mesura exagerada para a mulher. Chloe observou suas silhuetas desaparecendo rapidamente, deixando-as sozinhas. Onde o único som que se podia ouvir era o eco distante de uma festa provavelmente enorme vindo do salão cerimonial.

Dessa vez, Chloe prestou atenção meticulosa em todo o trajeto, gravando na mente cada detalhe do caminho como se fosse um mapa crucial para sua missão. O percurso parecia se estender infinitamente, cada minuto se arrastando como uma eternidade sob a luz pálida da lua. Em menos do que o tempo parecia sugerir, a carruagem adentrou um ambiente grandioso, onde dezenas de outras carruagens estavam estacionadas, exibindo uma variedade deslumbrante de tamanhos e cores. Era como se fosse uma competição silenciosa para determinar quem era o mais rico e extravagante. Tão logo o veículo parou, um silêncio solene envolveu o local, quebrado apenas pelo suave farfalhar das folhas e o ocasional relinchar distante de um cavalo.

— Chloe, pode sair agora. Está tudo limpo. — disse a mulher, cuja voz soava estranhamente familiar, mas Chloe não conseguia associar a quem pertencia.

Desembarcando da carruagem com uma mistura de alívio e tensão, Chloe finalmente conseguiu ficar de pé após tanto tempo encolhida. Seus músculos protestavam contra o movimento, e a sensação de formigamento percorria suas pernas. Enquanto a mulher seguia em direção ao estábulo com os cavalos, Chloe hesitou por um momento, sentindo-se deslocada e incerta sobre o próximo passo. Mas, decidindo que seguir era a melhor opção, seguiu atrás dela, seus passos ecoando pelo solo úmido.

Ao chegar aos estábulos, a figura misteriosa ainda não havia proferido uma única palavra, dedicando-se apenas a amarrar os cavalos em suas respectivas baias. Chloe observava em silêncio. Finalmente, quando voltou para encará-la, Chloe deu um sobressalto de surpresa.

— Sofia? — exclamou Chloe, incapaz de acreditar em seus próprios olhos. — Como você cresceu, e que voz é essa?

— Prazer revê-la, Chloe. Faz quanto, três ou quatro anos? — disse Sofia, envolvendo Chloe em um abraço caloroso. Seu olhar percorreu a amiga, como se estivesse avaliando não apenas sua condição física, mas também seu estado emocional, e a expressão de descontentamento era evidente em seu rosto. — Apesar de toda essa lama, galhos e folhas, você parece ótima.

— Ah, obrigada? — respondeu Chloe, coçando a nuca em um gesto nervoso. — Ficar pendurada nessa carruagem, por seja lá quanto tempo, acho que não estou no meu melhor momento. — murmurou, um sorriso fraco brincando em seus lábios. — Como vai a vida no castelo? Se adaptou bem ao luxo e ao conforto? — perguntou Chloe, tentando mudar de assunto e evitar suas próprias preocupações.

— Estou me adaptando aos poucos, digamos assim. Para alguém que passou anos nas ruas, até mesmo as pequenas comodidades parecem um luxo, mas ainda sou apenas uma guarda de nível inferior. No entanto, a comida é surpreendentemente deliciosa. — respondeu Sofia, com um leve tom zombeteiro. — Creio que temos assuntos mais urgentes para tratar. Precisamos te preparar para a cerimônia e garantir que você consiga acessar a área real do castelo.

Chloe assentiu, sentindo o peso da seriedade do momento sobre seus ombros. Silenciosamente, elas caminharam em direção à baía vazia, que se tornaria o espaço de preparação para a missão que a aguardava.

Somente naquele momento, Chloe tomou consciência do ambiente ao seu redor. Ela já sabia que estava dentro de um estábulo, mas jamais havia imaginado que um estábulo pudesse ser tão colossal. O lugar parecia se estender até onde a vista alcançava, uma vastidão que a deixava intimidada. Seria capaz de abrigar facilmente centenas de cavalos, uma realidade que a impressionava. O forte odor que impregnava o ar era sufocante, um aroma acre que se agarrava às suas narinas, provocando náuseas. As tochas dispostas entre as baías lançavam uma luz trêmula e sombria sobre o local, criando sombras que dançavam nas paredes e no chão de terra batida, ampliando a sensação de imponência do local.

— Área real? — Chloe perguntou, sua expressão denotando dúvida e curiosidade. — Então você sabe onde vão guardar o fragmento?

— Sim, mas não será fácil. A área real é de acesso restrito apenas à realeza, aos líderes das ordens e a guardas selecionados que vigiam o local. Infelizmente, não faço parte desse grupo — lamentou Sofia, sua decepção evidente em cada traço do rosto. — Agora, pegue aquele baú que está debaixo daquele monte de feno. — apontou para uma baía aberta próxima.

Ao retirar o feno e abrir o baú, Chloe foi recebida pela visão de um vestido longo, decotado, de um azul profundo, adornado com brilhos que cintilavam como estrelas em uma noite escura. Enquanto os acessórios cuidadosamente dispostos ao lado acrescentavam um toque de sofisticação. Luvas delicadas, brincos reluzentes e um par de saltos altos completavam o conjunto.

Ela permaneceu ali por um momento, admirando a peça diante dela, sentindo-se ao mesmo tempo impressionada com a beleza dos materiais e repugnada pela ostentação e extravagância que representavam. Como poderia ela, uma jovem que cresceu em circunstâncias tão diferentes, se encaixar nesse mundo de luxo e opulência?

— Antes de se vestir, vamos precisar lavá-la. — Sofia anunciou, trazendo uma bacia com água e colocando-a aos pés de Chloe. — Vamos ver o que consigo fazer com você!

Parecia que o tempo se arrastava em câmera lenta, enquanto a água gelada penetrava até os ossos de Chloe, tornando cada respiração um desafio. O vestido que lhe fora entregue mal se ajustava ao seu corpo, e os saltos altos prometiam ser um tormento para seus pés já cansados. A preocupação de não conseguir caminhar com elegância aumentava a cada instante, pesando em seu peito como uma âncora.

Mas o pior de tudo foi o tratamento dado ao seu cabelo. Sofia não demonstrou nenhuma delicadeza ao desembaraçá-lo, suas palavras ásperas ecoando a cada puxão. Em meio às queixas, ameaçava Chloe de que ela ficaria careca se continuasse a ser tão desleixada. A jovem apenas resmungava em silêncio, pensando na dificuldade de cuidar de si mesma, mesmo com os cabelos já curtos, enquanto tinha tantas responsabilidades e pessoas para cuidar.

— Está feito, finalmente! — anunciou Sofia, com um sorriso de satisfação ao ver o resultado de seu trabalho.

— Finalmente acabou a tortura. Já pensou em trabalhar como carrasco, não? — resmungou Chloe, claramente chateada com o que teve que passar.

— Deixe de ser ingrata. Deixei você incrível. Deveria me agradecer por esse milagre. — respondeu Sofia, indignada com a acusação. — Tenho certeza de que todos os homens na cerimônia não vão conseguir tirar os olhos de você.

— Sofia... O objetivo da missão é roubar uma relíquia, não cortejar homens. — repreendeu Chloe. — Agora, qual o próximo passo? Como entro na área real?

— Deixe de ser limitada. Você vai precisar obter informações de algum jeito. Não sei se percebeu, mas dentro das redondezas do castelo, toda e qualquer habilidade é bloqueada por encantamentos.

Ao ouvir o comentário de Sofia, Chloe percebeu que de fato não conseguia mais ativar suas habilidades desde que atravessara os portões do castelo. Ela refletiu sobre a extensão da área do castelo e quantas pedrecitas não foram necessárias para encantar um castelo inteiro, imaginando quantas pessoas foram exploradas nas Minas Goleais para reunir aqueles recursos. Enquanto mergulhava em reflexões, Sofia interrompeu o silêncio.

— Todos os convidados são obrigados a apresentar seus emblemas na entrada do castelo. Como você já está dentro, eles vão presumir que você é uma convidada. — explicou Sofia. — Agora, escute com atenção.

Mudando o tom de voz para um tom mais sério, Sofia olhou nos olhos de Chloe e continuou:

— Vou acompanhá-la até as portas do grande salão, onde a cerimônia está acontecendo. Logo à direita do salão fica o jardim privativo de Vossa Alteza. Passando por ele, você encontrará uma porta grande, normalmente protegida por dois guardas.

— E como supostamente eu deveria entrar? — interrompeu Chloe.

— Como você vai se livrar dos guardas e entrar na área real, vai ter que descobrir sozinha, — rebateu Sofia, ficando ainda mais séria. — Depois de entrar, siga em frente pelo corredor principal e verá que ele se divide em dois: o lado esquerdo leva aos aposentos reais, enquanto o direito leva às salas dos espólios. Acredito que vão guardar o fragmento lá.

— Então, só preciso arrombar a porta da sala de espólios, roubar o fragmento e sair o mais rápido possível desse pesadelo?

— Continuando — transparecendo irritação por ser interrompida novamente. — O problema é que há diversas salas, e não sabemos exatamente em qual guardarão o Graal. Você terá que descobrir de alguma forma qual porta abrir.

Ao ouvir o plano detalhado de Sofia, uma onda de dúvida e insegurança tomou conta de Chloe. Como ela poderia se passar por alguém da elite, adentrar no jardim privativo da rainha e superar dois guardas, sem mencionar a possível presença de outros dentro da área real? E encontrar a sala certa que abriga a relíquia, parecia uma tarefa ainda mais desafiadora. A cada pensamento, a determinação de Chloe vacilava, corroída pela tensão crescente. No entanto, ela sabia que não havia tempo para dúvidas ou autopiedade. Era hora de agir e alcançar o sucesso, não importasse o que fosse necessário. Uma nova chama de determinação acendeu-se em seu peito.

— Excelente! Qual seria a graça de um plano sem grandes desafios, não é mesmo? Chloe conseguiu esboçar um sorriso, embora suas incertezas ainda a atormentassem — Daria as honras de me acompanhar ao grande salão, minha linda donzela? — Elas compartilharam um riso, aliviando um pouco a tensão presente, apesar da seriedade da situação.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.