Safe and Sound
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Long Island, Nova Iorque, 1813.
O combate era eminente, e todos da aldeia sabiam, a tensão chegava a ser palpável.
Os homens andavam preocupados com suas mulheres e filhos. Nem as crianças brincavam tranquilas. Todos sentiam o ataque se aproximar.
O vilarejo situava-se a leste de Manhattan, cercado por vários outros.
O ar geladoaçoitava toda a região, até o vento parecia querer lhes trazer o aviso, dizer para fugirem daquela terra. Aquela terra. Maldita terra. Antes tivesse ficado estéril como todas as outras da região. Antes não florescesse frutos e deixasse outros vilarejos invejosos. Antes tivesse morrido como devia ser.
O terreno do lugar era o único que ainda produzia na região. Havia enormes campos de morango que faziam o comercio do lugar continuar ativo, e atraia olhares perigosos dos vizinhos.
Avisaram. Mensageiros vieram dos quatro cantos avisar que o combate viria, outros queriam a terra. Mas os anciãos preferiram não ouvir. Fecharam os olhos. O conselho decretou segurança e paz: Que a vida continuasse. Mal sabiam eles que a vida não continuaria por muito tempo.
O conselho era formado por quatro membros, quatro homens altamente instruídos em artes exatas e politica, um estava velho e debilitado Rodolff Dupke, os outros três eram jovens e cheios de vigor, tinham filhos e esposas. O mais influente em politica chamava-se Elliot Davoglio, pai de Corey. O mais aventureiro e impulsivo do conselho chamava-se Joseph Defour, pai de Bradley. Por fim, o mais sábio de todos os três chamava-se Anthony Parsons, pai da belíssima Brenda.
Talvez você esteja se perguntando o porquê de serem citadas apenas três crianças nessa história. Aqui vai a sua resposta: Elas são importantes e darão vida ao nosso romance. Mas não pense que esse é um conto de fadas com um belo final. Acredite, está longe disso.
***
Naquela manhã, Brenda havia acordado ao som dos pássaros, mas esse era o único som que ela ouvia. Suas criadas prepararam seu banho, arrumaram suas roupas e pentearam seu cabelo. Ela estava cansada daquele tédio. Olhou-se em uma bandeja de prata. Seu cabelo estava enorme, loiro e ondulado. Seu pai dizia que era linda e em breve, poderia ser dada em casamento. Essa ideia a desesperava. Casamento? Com quem?
O pior é que ela sabia a resposta. Corey Davoglio ou Bradley Defour. E ela não gostava de nenhum.
Decidiu que naquela manhã passaria um tempo com seu pai e tentaria esquecer suas aflições.
Ao caminhar pelo vilarejo, em direção a casa em que seu pai estava ela se sentiu estranha. Era um ponto de limpeza em meio à sujeira. As crianças corriam, mas pareciam acuadas. Adultos olhavam em torno o tempo todo. Pareciam assustadose pegavam em armas. Por quê?
Bateu na porta, um homem de aparência cansada devido a idadea atendeu.
– Bom dia senhor Dupke, meu pai está?
– Senhorita Parsons, não é seguro andar sozinha por ai.
– Não é seguro? Que bobagem senhor – ela sorria – Este é o lugar mais seguro que conheço.
O velho homem assentiu e disse para esperar, logo, um homem alto, de expressão forte apareceu na porta.
A menina fez uma leve curvatura ante a presença do pai.
– Brenda, o que faz aqui?
– Eu... Pensei que podíamos passar um tempo juntos querido pai.
– Hoje nós não podemos. Preciso tratar de negócios. Vá para casa. Conversaremos lá.
Então, fechou a porta na cara da menina. Ela estava acostumada com aquilo, apenas suspirou e voltou para trás. Ao passar pelo lado da casa, ouviu algo.
– Temos que tomar alguma providencia senhores! – pode reconhecer a voz do pai, abafada como as outras que a seguiram.
– Que providencias Anthony? O que podemos fazer? – Era o pai de Corey, Elliot.
– Eu não sei! Avisem a população, é melhor que deixa-los nessa agonia! Nessa incerteza! Eles sabem que algo está acontecendo, mas não podem ter certeza! Esperam nossa pronunciação. Temos de agir homens!
– Agir como? Não podemos fazer nada! A população já está em pânico, dizer algo assim causaria apenas mais tumulto. Você conseguiria controlar o pânico da multidão? – Defour, ela o conhecia. Seu pai falava sobre ele.
– Rapazes! Rapazes! Mantenham a postura! Mantenham a calma. Aguardem. Se mais algum ataque acontecer nós saberemos, continuem abafando o último. Não espalhem pânico. – Mais algum ataque? Havia acontecido algum?
Ela pensou um pouco e como em um estalo lembrou. Erika Bouvier. A filha de um dos colhedores de morango havia desaparecido misteriosamente. Seu pai havia lhe dito que ela havia ido estudar em Londres. Era isso que a cidade dizia. Ela havia sido vitima de ataque?
– E, quanto minha filha? Haverá casamento? – Ela gelou. Seu pai discutiria seu futuro agora.
– Acho que a cidade precisa de uma comemoração. O casamento seria perfeito para isso.
– Mas, com quem eu a casaria? – Agora ela prestava uma atenção maior, prendeu a respiração.
– O que você acha Bradley? – Brenda levou um susto com a voz atrás de si. – Ouvir a conversa dos outros é muito feio, não?
– Com certeza Corey. Eu odiaria ter que entregar essa belíssima garota ao conselho.
Bradley Defour e Corey Davoglio. Ela estava com sérios problemas. Eles, assim como ela, eram filhos dos anciãos. Bradley era um descendente de franceses, de cabelos castanhos e olho profundamente verde. Tinha aparência atlética. Catorze anos de idade.
Corey Davoglio, um italiano de cabelos negros e olhos cor de mel. Assim como o amigo era atlético e tinha conhecimento de arco e flecha. Estava prestes a completar catorze.
Ambos eram bonitos e ela tinha de admitir.
– Chantagistas! O que fazem aqui? O que querem?
– Ei Bradley, acho que ela não é uma boa esposa. Não sabe a hora de ficar quietinha.
– Quem disse que quero me casar com algum de vocês?
– Você não tem escolha.
Aquilo era verdade, e a moça sabia bem. Precisava admitir? Nunca.
– O que você estava escutando ai?
Contaria a verdade agora? Ainda não.
– Estavam discutindo sobre meu casamento.
– Já escolheram o noivo?
– Ainda não.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
– Brenda! – A moça virou-se e viu seu pai lhe lançando um olhar reprovador. – O que faz aqui sozinha com esses homens? Não pega bem para uma dama um comportamento desse tipo.
– Desculpe senhor papai. Esses homens vieram me ajudar. Eu havia caído e eles me levantaram. Sabe como esses vestidos são pesados, apenas quiseram cortejar um pouco com sua futura esposa. Afinal, um deles será meu noivo, não é mesmo?
A garota havia acertado em cheio no que falar, por mais que isso fosse perigoso. Era audível o tom de desafio na sua voz.
– Isso não se discute em público Brenda. Vamos para casa. Agora. Cavalheiros. – ele fez uma leve mesura para os garotos e então a pegou pelo braço, sem muita força, e a levou até em casa. Quando chegaram ao local seu pai sorriu.
– Sua pestinha! – ele ria – Vou entrar numa encrenca por sua causa mocinha. Suas respostas estão ficando boas.
– Aprendi com o melhor.
A relação deles era assim. Eram extremamente próximos. A mãe de Brenda morreu no seu parto, ela foi tudo que restou ao velho pai. Ele tentava suprir todos os desejos da sua pequenina.
– Papai.
– Sim?
– Eu preciso casar?
O pai a observava com olhos amáveis.
– Filha, seu pai aqui está ficando velho, não vou poder cuidar de você para sempre. E eu quero netos antes de morrer.
– Mas você ainda vai viver por muito tempo papai.
– Eu não sei filha – o homem tinha uma face sombria. – Tanto Davoglio quanto Defour são bons rapazes. E bonitos também. Algum deles deve lhe agradar.
– Nenhum deles me agrada. São arrogantes.
– Filha, isso vai melhorar, com o tempo, passará a gostar deles, assim como sua mãe passou a gostar de mim.
Então, ficaram em silêncio. Mencionar a mãe sempre os deixava assim. Decidiram então passar um tempo conversando, desse jeito.
Ao fim do dia várias interrogações surgiram na cabeça da jovem. Mais uma coisa era certa, ela não queria aquela vida para si.
***
Depois de uma semana duvidas ainda surgiam constantemente. Enquanto Brenda fazia sua caminhada matinal apenas ouvia sussurros. “Você ficou sabendo?”; “Não esperávamos por isso”; “Nem se despediu de nós”; “Outro indo para Londres"; "Teria ido atrás de Erika?”.
Ela ficou cada vez mais atenta. Outra pessoa havia sumido. Londres. Erika.
A garota correu em direção à casa de Dupke, onde os conselheiros estavam. Esticou a mão para bater, mas parou. Será que poderia ouvir algo? Andou até a janela ao lado e ficou em silêncio.
– Precisamos de um plano de defesa! – seu pai.
– Nós sabemos! Mas não temos o que fazer. — Davoglio
– Prefere esperar? Quantos precisam morrer para alguém fazer alguma coisa?
– Parsons...
– Não comece. Algumas semanas atrásfoi Erika. Agora, Matthew. Querem esperar para ver quem será o próximo? Talvez Brenda, Corey ou Bradley. Seria divertido não acham?
A garota sabia quem era. Matthew Morgan, filho do padeiro. Eles eram amigos. Sentiu um aperto no peito.
– Parsons... Você já está exagerando. Os ataques cessaram. A terra ficará boa.
– Mas quando? E até lá? O que acontece?
– Nós esperamos.
– Sem nenhuma defesa?
– Não saiam dos limites do vilarejo. Mantenham-se armados.
Ela parou de ouvir. Não fariam nada? Esperariam todos morrer?
– Bradley, você acha que se virmos aqui todos os dias vamos poder contemplar a beleza dela assim de perto? Ela passa mais tempo por aqui do que os anciãos!
– Corey, ela gosta de bisbilhotar.
– Enxeridos. Ao menos, eu sei o que está acontecendo por aqui e não estou na ignorância como vocês.
– Como assim Brenda? O que você sabe que não sabemos?
Ela olhou para os lados, uma ideia surgindo, havia conseguido despertar interesse nos garotos e não deixaria isso passar.
– Aqui não é um bom lugar para falar.
– Então venha senhorita. Vamos dar um passeio.
Os meninos estenderam os braços que ela pegou, receosa. O que seu pai pensaria daquilo?
Andaram de braços dados pela cidade. Todos olhavam, mas ela não ligava.
– Então... Comece.
– Certo, tem haver com o vilarejo.
– Disso nós sabemos, eu e Bradley descobrimos a dias que o lugar está em apuros.
– Os outros lugares estão morrendo de fome Brenda. A terra parou de produzir e não se sabe por quê.
– Nós achamos que houve uma super exploração da terra, e ela secou.
Brenda assentiu, ela não sabia muito sobre isso.
– Certo rapazes, e sobre Erika e Matthew, o que sabem?
– Erika foi estudar em Londres, não gostava da cidade.
– Matthew, apaixonado por ela, foi atrás.
– E, se eu contasse uma nova versão dá história pra vocês?
– Nova versão? Brenda. Só existe essa versão.
– Não Corey, existe outra. Eu ouvi os anciãos. É disso que eles tem falado. Por isso tem se reunido.
– E qual é então, senhorita-sabe-tudo?
– Eles estão mortos – ela sussurrou.
– Estão o que?
– Mortos – ela continuava sussurrando.
– Estão o que?
– Você é surdo Bradley? MORTOS, eles estão mortos.
Os garotos ficaram em silêncio, depois sorriram zombeteiros.
– Mortos? Até parece. Saberíamos.
– Não saberiam não, estão todos escondendo o que está acontecendo para não criar pânico. Eles morreram porque saíram da cidade. Foram para os limites daqui. Acho que estão armando emboscadas... Não sei como está acontecendo, mas está!
– Brenda, isso é muito sério... Você está acusando nosso conselho de negligencia. Seu pai está envolvido. Tem alguma noção disso?
– Tenho. E isso me preocupa Bradley... Não posso nem confiar nele.
– Mas... Eles estão tentando ao menos táticas de defesa, não é?
– Essa é a pior parte! Não estão. Eles disseram para os cidadãos ficarem à mercê da sorte, cada um se defende com o que tem...
– Mas... E os que não podem se defender?
– Estão morrendo.
Ante esse argumento eles ficaram calados, pensando no peso de suas palavras. Aquilo era sério. Seus amigos estavam morrendo. As pessoas que eles conheciam estavam sumindo. Morrendo, essa palavra continuava ecoando nas suas cabeças.
Eles ouviram uma mulher gritar o nome de Brenda ao longe. Sua ama a estava avisando que seu pai logo chegaria.
– Meninos, eu preciso ir agora, me ajudem a encontrar uma solução. Não podemos deixar essas pessoas morrerem. Alguém precisa ajudar. Se não forem nossos pais, que sejamos nós!
Os meninos assentiram e a viram correr em direção a casa. O vestido branco esvoaçava, juntamente com o cabelo loiro, ela olhou para trás e sorriu para os meninos. Tudo o que eles pensavam é que aquele dentre eles que casasse com ela seria um homem de imensa sorte.
***
– Uma brigada?
Brenda estava confusa. Os meninos haviam tido uma ideia. Uma ideia ariscada, mas uma ideia.
– Sim, mas em escala muito menor – dizia Corey – Um pequeno grupo de defesa. Montamos um posto e vigiaremos o vilarejo.
– Eu e Corey conhecemos técnicas de combate Brenda. Conseguiríamos defender o vilarejo.
– Apenas vocês dois? – eles assentiram – Com uma condição. Eu vou participar.
– Você vai o que?
– É apenas uma mulher. Provavelmente nem sabe como usar um arco.
– Me ensinem.
– Até lá muitos mais podem morrer.
Como que num passe de mágica a ama apareceu ofegante.
– Senhora, senhores, trago-lhe más noticias de seus pais.
– Ande, fale logo.
– O senhor Rodolff Dupke... Ele faleceu.
– Faleceu? Mas como?
– Não se sabe, acredita-se que tenha sofrido um enfarte quando caminhava pelos arredores da cidade, foi lá que o encontraram e foi essa a história que seus pais pediram para informar.
Os três jovens se entreolharam.
– Nos arredores da cidade? – a ama apenas assentiu – Obrigada, pode ir. – ela então se retirou.
– Meu deus. Meninos... Ouçam... Ouçam-me, por favor. Nós precisamos fazer algo. O senhor Dukpe... Dupke morreu.
A menina encheu os olhos d’agua e esfregou os braços. Erika e Matthew eram bons amigos, mas Dupke? Era como um tio. Era da família.
– Acho melhor você se aprontar para o velório Brenda. Seu pai vai querer você lá. – a menina assentiu fracamente e se foi.
– Corey, é muito arriscado envolver Brenda nisso.
– Você acha que isso vai fazê-la desistir? É cabeça dura como o pai.
– Eu... Eu sei. Mas não sei se podemos apronta-la a tempo. Ela não pode se envolver em combate físico.
– Arco?
– Pode ser... Talvez se você a ensinar... Ela possa nos ajudar à distância.
Então ouviram uma voz gritarem seus nomes. Seus pais os chamavam, teriam de ser aprontar para o enterro.
***
Brenda estava sentada na primeira fila. Levantou-se e foi até Rodolff, ao lado de seu pai. Apesar da ocasião e de sua expressão de tristeza, a menina conseguia ser a mais bela jovem do lugar. Até a cor da morte lhe caia bem, até a expressão de tristeza a fazia parecer mais viva.
– Papai?
– Sim querida.
– De que ele morreu? – ela sentiu o pai engolir em seco ao seu lado.
– Nós já dissemos... Ele teve uma morte cerebral.
– Não havia sido de enfarte?
– Nó-nós não tínhamos certeza, agora sabemos.
Brenda aproximou-se ainda mais de Dupke e lhe acariciou a face, o rosto antes tão caloroso, alegre, estava agora sem vida, gelado, e ela estava profundamente triste. Ariscou-se a colocar a mão sob o peito do homem, foi então que sentiu algo estranho. Sob as roupas ela pode sentir algo. Havia um buraco ali. Morte cerebral não era a causa do falecimento, isso ela tinha certeza.
– Filha, tudo bem?
Ela estava pálida, e seu pai percebeu, então saiu do transe e concordou. Alegou uma falsa dor de cabeça e pediu para se retirar. Não queria precisar ver o enterro de seu quase tio. Acenou para que os meninos a encontrassem lá fora, e assim eles fizeram.
Os garotos estavam em suas roupas de luto, assim como Brenda. Mas ao contrário dela, eles não tinham aquela expressão de tristeza profunda, não eram próximos à Dupke.
– O que houve? Porque nos chamou aqui?
– Eles estão mudando as causas da morte... Se perdendo nas próprias mentiras. Ele não morreu de enfarte... Ou morte cerebral.
– Isso nós já sabemos.
– Acho que foi com uma lança transpassada no peito. Ou uma flecha bem gordinha. Mas acho que foi uma lança.
– Mas ele não teria visto eles se aproximarem?
– Não sei... Talvez... Talvez ele tenha vindo pelas costas.
– Talvez. É uma opção. Mas eles seriam tão baixos assim?
Ela os olhou com uma sobrancelha erguida. É claro que seriam.
– Meninos. Nós precisamos realmente fazer algo. Vocês conseguiram pensar em algo?
– Bem... Nós... Eu... Quer dizer, o Bradley...
– O que ele quer dizer é que ele disse que eu poderia lhe ensinar arco. Você poderia ficar por perto e segura.
– Arco?
– Sim.
– Você acha que consigo?
– Precisamos tentar caso não, você está fora.
Ela ponderou um pouco e por fim assentiu.
– Quando começamos?
– Amanhã.
***
Ela levantou num pulo. O que vestir para aprender arco e flecha?
Decidiu por algo leve, uma saia (longa, obviamente) marrom, blusa de mangas três quartos e bufantes branca, um corset marrom e sapatilhas pretas.
Andou até a cozinha e deu de cara com o pai.
– Aonde vai a essa hora? Onde está a roupa de luto?
– Papai! Apenas familiares usam roupas de luto por sete dias.
– E nós somos o que?
– Amigos.
– E aonde vai?
– Vou até a campina.
– O que vai fazer lá?
– Me exercitar um pouco.
– Volta que horas?
– Para o almoço.
– Vai para os arredores do vilarejo?
– Não. Algum problema? Não posso ir?
– Acho melhor não.
– E por quê?
– Bem... Uma garota andando por ai sozinha... Não pega bem para nossa família.
– Apenas isso? – com um nó na garganta visível, Parsons assentiu e viu a filha sair.
A cidade estava em silêncio, como se o próprio lugar estivesse de luto, a terra também poderia estar. Assim o tormento acabaria e tudo seria mais fácil. Por onde passava olhos viravam em sua direção. Homens admiravam sua beleza e mulheres cochichavam a seu respeito, preferia não ligar.
Ela chegou até a campina e os dois já estavam lá, tentando acertar algum alvo.
– Não... Segure mais alto. Isso... Agora... Aquela perna, mais para a esquerda... Não... A outra esquerda. Isso. Agora... Ah! Brenda.
Os meninos se ajeitaram em um pulo, alisando as roupas e passando a mão nos cabelos. Ela teve vontade de rir, mas se manteve séria.
– Então... Vamos começar?
Eles assentiram e Corey se posicionou ao seu lado.
– Primeiro, temos que saber qual é o seu olho dominante.
– Olho dominante?
– É. Você precisa mirar por algum lugar... E o olho dominante fará isso.
– E como eu descubro isso?
– É simples. Está vendo aquela maçã? Na árvore a uns... 8 metros daqui? — Ela assentiu – ótimo. Agora, estende a sua mão assim, apenas deixe um espeço entre os polegares e os dedos indicadores. Isso. Agora mire na maçã com os braços esticados e vá trazendo para mais perto. Devagar... Isso. Está vendo? O olho que sua mão se aproximar é o seu dominante, e o seu, pelo jeito, é o esquerdo.
– Isso é bom?
– Nada de mais. – ela assentiu
– Agora, pegue o arco com a mão direita. Escolha um alvo e vire o seu ombro direito na direção dele. – Ela mirou em uma arvore próxima e esperou. – Agora pegue a flecha e coloque assim, isso, e segure a corda e a flecha com a mão esquerda. Bom. Agora, afaste os pés, isso, imagine que o alvo está em uma linha reta entre seus pés. Muito bom. Agora, postura. Isso. Puxe com a mão esquerda e solte.
Ela fez exatamente como foi dito e a flecha voou um metro e caiu. Ela bateu o pé frustrada.
– Porque não deu certo?
– É a primeira vez que faz isso loirinha, como esperava aprender assim? Você vai errar muito até conseguir acertar o alvo.
– A é? Vamos ver.
Ela pegou a flecha e tentou novamente. A flecha andou uns cinco centímetros a mais que da vez anterior. Ela tentou, tentou e tentou novamente. Estava determinada. Os meninos deitaram na grama e ficaram observando-a. Era linda. Após uma hora eles já estavam quase caindo no sono.
– Consegui! Consegui! – ela gritava.
– O que? Ãn? Que foi?
– Eu acertei!
– Impossível!
– Sim, sim, pode ver.
Corey foi até a árvore e viu a flecha bem presa ao tronco. Ela havia conseguido.
Passaram as próximas horas treinando, e após o almoço também. Ao final do dia, os braços de Brenda estavam quase em carne viva. Não estava acostumada com aquilo e o arco a machucava. Mas ela não desistiu. Dia após dia ia para os campos treinar, após três semanas conseguia acertar alvos em movimento, ela progredia surpreendentemente rápido.
Até que um dia as coisas foram conturbadas. Mais um.
“Ouviram o que dizem?” sussurravam. “Mais um sumiu”. “Teria ido para Londres também?”; “Se perdido na floresta?”; “Afogou-se no mar?”.
Então ela soube. Aquela crueldade havia tirado mais uma vida. Era hora de começar a agir, mas como?
***
– Papai! Vou dar uma volta, mais tarde estarei aqui. Não me espere para o almoço.
Brenda andou com passadas largas até a orla do vilarejo e respirou fundo. Após um mês de treinamento e quatro mortes por aquelas malditas mãos o plano finalmente seria colocado em ação. Começariam a defender o lugar.
Ela esperou, e esperou, e esperou mais um pouco até que os meninos aparecessem. Juntos andaram até se afastarem das casas da cidadezinha e foram em direção à colina ao final do campo, após subirem decidiram demarcar um lugar para cada um. Foi decidido. Brenda ficaria ao alto de um pinheiro, no topo da colina com seu arco, de lá ela teria uma boa visão e dificilmente erraria o alvo. Os meninos se esconderiam entre a vegetação rasteira e ficariam responsáveis pelo combate corpo a corpo. Todos eles suavam frio.
As horas foram passando, e o sol finalmente sumiu de suas vistas e eles foram para casa. Fizeram isso por dias. Então descobriram que não estavam fazendo aquilo na hora certa. Agora já não iam durante a manhã. Poucas horas após o almoço pegavam suas coisas e saiam em direção ao seu ponto de observação. Voltavam para casa apenas depois de algumas horas depois do pôr-do-sol.
Passaram-se três dias após o estabelecimento do novo horário, então, durante a manhã, em uma terça feira, Brenda recebeu uma notícia enquanto fazia seu desjejum.
– Querida! – seu pai dizia – Trago-lhe ótima noticias. Eu, Davoglio e Defour entramos em acordo. Finalmente anunciaremos o seu noivado. Diga olá a vida de noiva, futura Sra. Defour.
A boca da menina abriu em um O enorme. Defour? Bradley Defour? Seria esse então, o prometido noivo? Tentou-se lembrar de sua indiferença quanto aquilo. Ela não se importava com quem casaria, não é?
Mas então porque seu coração tinha um peso estranho e lágrimas lhe subiam aos olhos? Porque Bradley?
– Eu... Eu...
– Está sem palavras não é? Imaginei que ficaria. Prepare-se. Antes do por do sol será realizada a festa de noivado. Todos precisam saber do casamento que se aproxima.
– Se aproxima? Papai. Se ficarmos noivos hoje... O casamento será dentro de meses, não dias.
– Mesmo assim! Que demore um ano! Ele se aproxima. Querida, anime-se. Ele é um bom garoto, com certeza me dará netos lindos. Agora, vá se aprontar. Comprei uma roupa especial para você.
Ela levantou sem dizer palavra e andou até seu quarto. Uma banho quente havia sido preparado e uma pilha de roupas e armações estavam sobre a cama, a vigia de hoje teria de ser adiada.
Depois de vestida ela sentia-se estranha. O vestido era de um tom de azul extremamente claro, com mangas levemente bufantes e extremamente curtas, faziam-na sentir-se como se estivesse sem manga alguma. Tinha um decote redondo e não muito grande, o espartilho dificultava sua respiração e as armações, por mais que poucas, em sua saia dificultavam seus movimentos. Seu cabelo havia sido preso em uma espécie de trança que ela desconhecia. Ao ver seu reflexo percebeu que aquela imagem não se parecia com ela.
Quando estava finalmente pronta e saiu de seu quarto percebeu que era tarde, pois convidados já chegavam. A partir dai foi tudo um borrão em sua mente. Cumprimentar, sorrir, cumprimentar, beijar a face, cumprimentar, fazer uma mesura... Quando Bradley apareceu, eles quase não se viram. Simplesmente pegaram um na mão do outro e sorriram para todos enquanto o pedido era feito e aceito.
Após o que pareceu ser uma eternidade todos foram embora e ela pode tirar aqueles trajes. Não poderia mais fazer a vigia naquela noite, e ela esperava que tudo corresse bem.
***
Aconteceu três dias após o noivado. O sol já havia se posto há mais de uma hora. Brenda começava a preparar-se para ter que descer do pinheiro, mas ai o viu. Ao longe, um homem vinha andando de modo furtivo, olhava por cima do ombro e se escondia. Ela acenou para os meninos esconderem-se. Ele poderia passar-sepor um viajante comum se não fosse a lança em sua mão. Ela descobriu como Dupke morreu. E aquilo a encheu de raiva.
Esticou o tronco e lentamente mirou na direção do homem que se aproximava a procura da próxima vitima.
Ela levou a flecha à altura das maças do rosto e inspirou, só teria uma chance, soltou o ar junto com a flecha. Quase que instantaneamente o homem caiu, ela inspirou novamente e lançou outra, apenas para ter certeza.
Depois de dois minutos ele ainda não se mexia. Os meninos andaram até ele e removeram as flechas do corpo. Checaram, estava morto. Arrastaram-no até um canto. Cavaram um buraco e o enterraram ali.
Ela desceu do pinheiro e disse que eles deviam ir. Provavelmente ninguém mais apareceria e já estava muito tarde.
Andaram calmamente até suas casas e foram dormir. Ou tentar.
Brenda levantou mais ou menos dez minutos após cair na cama. Enrolou-se a um roupão e saiu da casa, deitando-se no gramado.
– Não consegue dormir? – ela sorriu ao ouvir a voz, por mais que tivesse a assustado.
– O que faz aqui?
– Não se responde uma pergunta com outra. – ela ficou em silêncio – Também não consigo dormir e pensei em fazer uma ronda noturna.
– Sozinho? Isso é loucura! – ela exclamava enquanto ele deitava-se na grama junto dela.
– Você progrediu bem nas nossas aulas de arco. Em breve não vai mais precisar.
– Vou sim! Sempre irei precisar de aulas.
Eles ficaram em silêncio por uns minutos, apenas olhando para as estrelas. Elas eram lindas, era quase surreal que algo tão bonito pudesse aparecer ali, no meio daquele caos.
Ele olhava para o rosto angelical dela. Era tão linda. As madeixas loiras estavam esparramas e os olhos brilhavam mesmo na escuridão. Ele precisava tirar aqueles pensamentos da cabeça.
– Eu me sinto estranha – ela sussurrou. – Eu matei um homem. Isso é contra a natureza.
– Eles a teriam matado se tivessem chance.
– Pensar assim faz parecer que sou como eles.
– Mas você não é. Você quer salvar as pessoas que ama. É a mocinha da história. Eles são os vilões.
– Mas não é isso que eles estão fazendo também? Matar para garantir a sobrevivência dos que eles amam? Como pode ter certeza de que não somos nós os vilões?
– Nós estamos defendendo o que é nosso. Eles nos atacaram primeiro. Isso é defesa. Não ataque. Nós somos os mocinhos Brenda, aceite isso.
– Mas...
– Sem “mas”. Nós somos.
– Corey...
– Brenda.
– Eu estou com medo. – ela disse baixinho.
– Eu também.
– Eu tenho medo de não conseguir acertar o alvo e vocês se machucarem.
– Nada vai acontecer conosco Brenda, nada, confio em você e sei que vai nos proteger do alto do seu pinheiro. — ele sorria e a menina concordou com a cabeça, fazendo uma promessa interna: nada aconteceria com eles.
– E... Bradley. – ela falava cada vez mais baixo. – Eu estou noiva dele. E ainda não acredito.
O moreno fechou a cara ante a menção do amigo. Afinal, o premio não havia ido para si.
– Ele está feliz com isso. Não precisa se preocupar.
A voz dele era fria, e parecia cortar a menina. Ela sentou e olhou para ele.
– Porque este tom se está tudo bem?
– Por nada. – ele sentou também. – Você fez tudo direito. Apenas precisamos continuar com isso até que os outros vilarejos voltem a produzir. Então tudo dará certo. – continuava sério.
Ela encarava aqueles olhos cor-de-mel e perguntava-se o motivo daquilo tudo. Era loucura o modo que seu coração batia. “Você não sente nada por nenhum deles”. Ela tentava se convencer. ”Mas porque não fico desse jeito quando estou com Bradley?”
Ela mal percebeu quando o garoto se aproximou cada vez mais até quase poderem sentir a respiração do outro. Com um estalo ela percebeu. Ele a beijaria.
– Estou noiva. –ela sussurrava. – Ele é seu amigo. Isso não é certo.
Ele parou e continuou ali, quietinho, sentindo-a perto de si. A garota tinha razão. Aquilo não era certo. Ele levantou e com um aceno de cabeça retirou-se. A menina simplesmente deitou-se na grama novamente levando a mão à cabeça. Sua respiração estava descompassada. Que era aquilo que ela estava sentindo?
***
Trinta. Esse era o número de homens que já haviam morrido pelas mãos de Brenda. Três meses haviam se passado desde a fundação da pequena “armada”. Apenas uma baixa, uma garota colhia flores quando foi, supostamente, “atacada por um animal selvagem”.
A tensão era visível nos olhos dos anciãos, mas em grau menor quando comparado a como estavam antes. Acreditavam que a terra havia voltado a produzir nas aldeias a fora, e que talvez pudessem relaxar.
Nossos heróis treinavam arduamente, Brenda em seu arco e os meninos em combate corpo a corpo. O avanço da menina era notável, seu nível já se igualava com Corey, ela conseguia acertar qualquer alvo, perto ou longe, mas mesmo assim ainda treinava. Atirar do alto das arvores prejudicava sua postura e mira, errando algumas vezes.
– Não Brenda, — dizia Corey – estique os braços assim. – Ele posicionou, com o próprio arco, o corpo em um T, pernas mirando o alvo e coluna ereta. – Levante os braços desse jeito. Não, assim. — Largou suas coisas e andou na direção da menina, aproximou-se da mesma e parou atrás de si, com a cabeça ao lado da loira, sua respiração na nuca, ele continuou – Assim, cotovelo mais alto, braço mais esticado. Isso, desse jeito mesmo.
Ele separou-se dela e ambos estavam corados, desde a noite em frente à casa da menina as coisas estavam tensas entre os dois, e ali sentado, esperando a sua vez de treinar, Bradley observava tudo. Ele gostava de Brenda e havia ficado extremamente feliz ao descobrirem sobre seu noivado, em saber que ele havia sido o escolhido. Apesar de sempre ter sido bonita, Brenda estava ficando cada vez mais bela, os treinos vinham lhe favorecendo em sentido físico, agora seu corpo, antes tão delicado e levemente infantil, estava transformando-se em um corpo de mulher. Sua mulher. Cintura ainda mais fina, pernas bem delineadas, cabelos ainda mais longos. Fora suas roupas, ela havia descoberto que o modo mais eficiente de treinar e correr era usando calças. Sim, calças, os meninos ficaram em choque ao vê-la daquela forma na primeira vez, mas hoje já estavam habituados, além de deixa-la muito bonita. Mas ele estava percebendo a tensão entre os dois. A forma como as conversas cessavam quando ele chegava, ou até mesmo o modo como ela sorria para Corey. E isso estava deixando-o com ciúmes.
***
Brenda não tinha a menor vontade de sair da cama naquela manhã, ela sentia-se indisposta, mas foi obrigada a levantar quando ouviu batidas insistentes em sua porta.
– Brenda! – ela conseguia ouvir a voz abafada de seu pai.
– Um minuto! – ela levantou-se, pegando um roupão e vestindo-o, finalmente abrindo a porta e dando de cara com seu pai, muito estressado por sinal.
– O que você tem na cabeça? – ela arregalou os olhos, teria ele descoberto? – Já faz três meses que está noiva e ainda não vi nenhum preparativo! Já começou a lista de convidados? As comidas? E o vestido? Por Deus, o vestido levará mais de um mês para ficar pronto! Ande, se vista, você vai começar a ver isso hoje.
Ela começou a entrar em pânico.
– Hoje? Mas isso vai levar o dia inteiro!
– Se tivesse começando antes você poderia dividir as coisas. Querida, você não pode ficar um ano noiva. – ele ria – Isso é surreal. Você acha que algum dia as pessoas ficarão noivas por anos? Impossível.
– Mas papai... Fazem apenas três meses e...
– E... Nada! A comida demora, a roupa demora, convidados demoram, tudo isso custa tempo. Ande, ande, vá logo menina.
Com um suspiro ela foi se vestir e soube que aquele seria um dia ridiculamente longo.
(...)
Ela olhava para o desenho feito para seu vestido e não pode deixar de ficar de boca aberta. A menina podefinalmente descansar, após um dia inteiro correndo de um lado para o outro, Brenda finalmente pode sentar e explicar como o vestido seria a uma costureira. Sua cabeça latejava e ela ainda não havia feito nem a metade do que deveria ser feito. O vestido havia ficado realmente lindo. Era simples, do jeito que ela gostava.
Olhou para fora, o sol há muito havia se posto. Arregalou os olhos. Ela não avisou os meninos.
– Se me der licença, eu preciso ir!
Nem esperou a resposta da costurei e disparou em direção à orla da floresta, onde estava seu arco. Os meninos estariam bem? Ela não havia avisado.
– Sua estupida. Se eles se machucarem você é a culpada! – e foi xingando a si mesma. Caiu um tombo enquanto corria e o vestido não lhe ajudava em nada com tantos ferros e panos. – Roupa estupida.
Ao longe ela viu. Corey estava no chão e um homem andava em sua direção com uma lança. Enquanto Bradley lutava com outro. Meu deus.
– Corey! Não! — ela nem pensou no que estava fazendo, puxou uma flecha e lançou na direção do homem, flecha essa que passou longe enquanto ele ria.
– Mais uma para matarmos? Não sei, essa é bem bonitinha... Talvez pudéssemos leva-la. – ele tinha um sorriso cruel estampado em sua face.
Ela começou a tremer e mirou novamente, lembrou então das dicas de Corey, soltou o ar e lançou a flecha. O homem ficou em estado de choque, ela havia acertado o alvo. Sorriu ao perceber e atirou de novo, e de novo até ter certeza de que estava morto. Agora ajudaria Bradley.
Ela não podia atirar, acabaria acertando o garoto, eles rolavam no chão e o supercílio dele sangrava. O outro homem não parecia muito melhor que ele. Brenda não sabia o que fazer. Então a chance apareceu. Bradley tomou um chute que o jogou longe e o homem levantou limpando o lábio que sangrava, só então se deu conta de seu colega morto ao lado. Olhou para a garota surpreso e então correu para longe. Ela disparou, mas a flecha passou apenas de raspão e ele fugiu. Mas aquilo não importava mais. Corey ainda não havia levantado. A menina correu até Bradley que estava do outro lado e o abraçou, mas logo disparou em direção ao outro.
– Não, não, não... Mas o que houve aqui Bradley!?
– Nós... Nós estávamos conversando. Você não apareceu. Ficamos preocupados que tivesse chegado mais cedo e...
– Eu não faria isso! Sempre espero vocês na orla – ela ajoelhou-se ao lado do amigo e o chacoalhou – Corey, anda Corey, abra os olhos!
– Eles... Chegaram em silêncio. Provavelmente nos ouviram conversando... Disseram que tinham pego você e o Corey voou pra cima deles. Nós estávamos brigando aqui há um bom tempoquando você chegou.
Mas Brenda já não ouvia o garoto. Corey tinha sangue nos lábios, em um braço e na bochecha. Ela puxou o menino para seu colo, rasgou uma tira do vestido e começou a limpar as feridas.
– Água! Vocês trouxeram água?
– Sim... E alguns morangos... Por quê?
– Eu preciso de água! Agora!
Ela estava nervosa e o garoto nem hesitou em seguir suas ordens, ela devia saber o que fazia. Quando chegou com o que lhe foi pedido a menina estava à beira do desespero, havia limpado parte dos machucados e não entendia o que estava acontecendo. Ele bateu a cabeça? Era isso?
– Aqui.
Pegou a jarra com água e despejou o no rosto do menino e deu-lhe um tapa.
– Acorda! Anda! – ela começou a sacudi-lo – Para com isso Corey, eu sei que você tá bem. Vai logo. – seus olhos começaram a encher-se de água. – Corey? – Não resistiu. Nem quis. Começou a chorar, muito. E então puxou o menino para um abraço. – Ele não pode ter... – um soluço.
– Corey... – seu amigo sussurrou, em choque. – Não pode ser.
Então, os olhos cor-de-mel abriram e o menino respirou fundo.
– Brenda. Você está me esmagando.
Ela afastou-se dele rapidamente, espantada.
– Ai meu deus! Corey! – o puxou e abraçou-o novamente, sorrindo, então o largou e o derrubou, prendendo-o no chão com as mãos – Seu idiota! Achei que tinha morrido. Nunca, nunca mais faça isso! – começou então a chorar e sorrir ao mesmo tempo. E mais uma vez abraçou o garoto. Estava confusa com o jeito que seu coração batia.
– Hum... Brenda. Não que eu não goste de ser abraçado por você, mas... Seu noivo parece querer me matar com os olhos e você tá me sufocando.
Em um pulo a menina afastou-se dele ruborizando.
– Seus... Idiotas! Porque vieram? Por quê?
– Porque você não veio?
– Porque, querido noivinho, nós vamos casar se você não lembra, e você só vai precisar dizer que aceita! Eu tenho que organizar tudo com meu pai e não sei o que fazer!
– Estava organizando o nosso casamento?
– Obvio.
– Então... Acho que está tudo bem. – então assentiu sorrindo, mas Corey não parecia muito feliz.
– Andem rapazes... Enterrem logo esse... Homem. E vamos... Não é seguro ficar aqui, vocês estão fracos.
Levantaram-se e foram fazer o que foi pedido. As coisas estavam ficando sérias por ali.
***
Aquela era a grande noite. E Brenda nem podia acreditar.
Depois de perder a conta de quantos homens matara ela iria finalmente casar com Bradley?
Ela se olhava no espelho, enquanto suspirava. Estava linda. Nem parecia ser ela. Os cabelos loiros estavam presos em um coque bem elaborado e alguns fios lhe escapavam, dando um ar de rebeldia aos cachos. O vestido era, obviamente, branco. As longas mangas de renda lhe davam um ar de delicadeza e sofisticação. O vestido ficou com mais camadas do que ela gostaria, dificultando seus movimentos. Aquilo era mais pesado que ela mesma. Sorriu internamente, quem diria que ela casaria?
Ouviu então batidas na porta.
– Se não for o Bradley pode entrar. – Não que ela acreditasse nessas besteiras de má sorte, mas do jeito que ela era azarada seria melhor não ariscar. A porta abriu, revelando um homem alto de expressões fortes, ela apenas voltou a encarar seu reflexo.
– Você está linda. Parece com sua mãe.
Ela preferiu não responder. Não queria ser comparada com sua mãe. Aquela doce mulher nunca machucaria ninguém, como poderia ser comparada a assassina que era a filha?
– Eu... Queria lhe dar uma coisa. Um presente de casamento. De sua mãe.
Agora ela estava interessada. Nunca havia recebido nada da mãe, e um presente seria algo maravilhoso, mesmo sendo um presente de casamento. Seu pai lhe estendeu um embrulho de pano e ao desenrola-lo algo que brilhava surgiu.
– Ela ganhou da mãe dela, que ganhou da sua mãe, que ganhou da sua mãe e assim sucessivamente. Um dia você dará isso para sua filha.
Era um colar. Um lindo colar de brilhantes. Muitos deles compunham a peça, e bem no meio dela, pendurado por mais daquelas pedrinhas, uma safira. Era beleza demais para os olhos da menina.
– É... Lindo. – seu pai concordou, sorrindo com os olhos.
– Posso colocar em você? – ela assentiu e sorriu. Seria ótimo ter um pedacinho de sua mãe lhe acompanhando naquele momento. – Ficou lindo, parece feito para você.
E parecia mesmo. Combinava em tudo com ela, e por alguma razão, aquilo fez seu coração pesar.
– Agora eu vou deixar você terminar de se aprontar. Não se atrase demais. – e com um beijo na testa ele se foi.
Brenda continuava a se olhar no espelho como se a qualquer instante a imagem fosse mudar e surgiria algo com o que ela conseguisse conviver.
Batidas ecoaram novamente.
– Esqueceu-se de alguma coisa pap... – ela ia dizendo enquanto se virava até perceber quem era. – Ah, olá.
– Você está linda.
– Obrigada, você também está muito bonito. – voltou então a encarar seu reflexo. Seu coração palpitava e ela conseguia ouvi-lo bater. Ou seria coisa da sua cabeça?
E ela não podia negar que o rapaz estava belo. Aliás, a beleza lhe caia muito bem, ela tinha a impressão que mesmo que o menino-homem usasse trapos ainda sim estaria belo ante seus olhos. E isso a preocupava.
– Vim lhe desejar felicidades. – ela apenas concordou com a cabeça. – E não se esqueça de que faremos uma ronda depois da cerimonia. Já está tudo programado. Bradley já providenciou alguma coisa para comermos lá.
– Mais alguma coisa? – os pés da garota pareciam extremamente interessantes naquele momento.
– E, bem, queria testar uma coisa.
Ela virou na direção do garoto com uma interrogação evidente em sua expressão.
– Calma Brenda... Apenas... Apenas feche os olhos. É uma surpresa.
– Uma surpresa boa?
Ele sorriu e concordou e ela fechou os olhos. Seu estomago estava dando nós. E uma incontrolável vontade de sorrir lhe subia aos lábios. Aquilo era nervosismo? A sala não fazia ruído algum, igualmente as pessoas nela estavam em completo silêncio, até que aconteceu. A leve pressão que surgiu em seus lábios lhe fez ter um sobressalto. Os lábios tímidos do outro aos poucos iam ficando mais fortes e mãos foram parar na sua cintura, lhe trazendo para mais perto de si. Sua cabeça estava a mil, era aquilo que fazia os cérebros derreterem e dava vida às loucuras de amor que via nos livros? Era aquela sensação? Porque se fosse ela estava disposta a lutar contra o mundo para sentir aquilo mais uma vez. Mas que loucura era aquela? Como era capaz de sentir algo assim? Não podia e nem deveria. Um suspiro escapou por entre seus lábios.
E então tudo parou. Quando abriu os olhos novamente só teve tempo de ver uma figura correndo para fora de seu quarto. Ele também estava lutando contra aqueles sentimentos? Ela não sabia.
Virou para o espelho novamente. Ela havia conseguido trair Bradley antes mesmo de casarem.
***
Borrões. Era o que ela se lembrava da cerimonia. Porque toda cerimonia só volta em borrões para a mente da garota? Todos pareceram prender a respiração quando ela entrou, e Bradley sorriu quando ela disse que aceitava. Mas a única coisa que Brenda conseguia pensar naquela hora era que o beijo de Bradley não a fez sentir nem a metade do que o outro havia feito. E isso também lhe preocupava.
Depois de todos se dirigirem ao salão de festas a noiva, o noivo e um garoto saíram furtivamente.
Os três caminhavam calmamente em direção ao pinheiro, ficariam por ali cerca de uma hora e voltariam para a festa. Não poderiam se ausentar por muito tempo.
Os meninos caminhavam afastados um do outro e Brenda tentava arrastar o vestido. Aquilo pesava.
Depois de pegarem suas armas sentaram-se no lugar que Bradley havia preparado, começaram a comer as frutas que dispunham ali e a jogar conversa fora. A aquela altura a tensão já havia passado e estavam rindo e jogando frutas uns nos outros.
– Sua gorda, já comeu meio pote de morango.
– Eu tenho que manter o corpinho não é? – ela deu uma risada que fez os garotos rirem também. Mas Brenda parou. Algo havia se mexido.
Não podia, era coisa de sua cabeça. E continuaram a conversa, mas Brenda ainda estava atenta.
Até que foi inevitável. Agora ela tinha certeza. Eram cinco. Calmamente, ela levantou. Mas se arrependeu na mesma hora. Com o arco em punho ela viu ao longe. Dezenas de carroças podiam ser vistas no horizonte, abarrotadas de homens com tochas e lanças.
– Meninos. Vão buscar ajuda. Agora. – eles ainda não haviam visto os homens escondidos. Isso lhe daria uma vantagem, sabia que não seriam pareôs para aqueles homens. Mas ele tinham uma promessa a cumprir. – Eu consigo me virar enquanto eles estiverem longe. Podem ir.
– Mas...
– Vão logo.
Com um aceno, Bradley começou a descer a colina, mas Corey não se mexeu.
– Vai Corey. – ele negou. – Se... Eu fizer uma coisa você vai ter que ir.
– O que? – ela aproximou-se lentamente. Aquilo lhe daria forças para dar tempo de fugirem, lentamente ela lhe deu um beijo, que de lento nada tinha. Pouco ligava para seu noivo atrás de si, ou para os assassinos ao seu lado. Tudo o que queria era sentir aqueles lábios novamente antes de se entregar para o perigo. E aquilo era melhor do que ela conseguia se lembrar. O mundo pareceu parar de girar e tudo andava em câmera lenta. Tudo que importava ali era Corey e ela faria de tudo para dar uma chance de vida a ele.
– Vá, agora. – ela vacilou o olhar ao ver os homens se mexerem. Com isso Corey se virou na mesma direção. – Nem pense nisso Corey. Vá.
– Mas... Não mesmo. Não posso deixar você aqui sozinha.
– Eu não estou lhe dando chances de escolha – seus olhos lacrimejaram e ela mirou a flecha em direção ao amigo. – Vá. Não me force a te machucar.
– Você não seria capaz.
– Quer tentar a sorte? – as lágrimas continuavam a descer. E Corey não se mexeu. Ela disparou a flecha que pegou de raspão no braço do rapaz fazendo um filete de sangue cair. – Você sabe que eu consigo acertar. Vá buscar ajuda. Assim você vai conseguir me ajudar. Anda logo!
– Eu vou voltar Brenda.
– Tirem o máximo de pessoas que conseguirem de lá. – ela gritou enquanto corria em direção ao pinheiro e ele descia colina abaixo em direção ao amigo. – Pois bem. É agora. E... Essa droga de vestido.
Fez então, o que era sensato, arrancando as camadas da saia e correu o máximo que suas pernas permitiram para subir no pinheiro. Virou para trás e lançou a flecha. Três dos homens a perseguiam. A flecha cravou na testa de um deles. Agora faltavam dois. Quando alcançou o pé do pinheiro outra flecha foi disparada. Só mais um.
Começou então, a escalar o pinheiro. Não contava com apenas uma coisa: os galhos estavam abarrotados de homens. Ela agarrou o colar de sua mãe com força para então solta-lo e preparar uma flecha.
Cada molécula do corpo de Brenda gritou por socorro e então ela soube que seria o fim.
***
Corey correu com toda a força que podia até Bradley:
– Tire o máximo de pessoas que você puder daqui, eles vão destruir tudo!
– Mas e a Brenda?
– Eu vou tentar levar algumas pessoas até lá, vai logo, encontre crianças, mulheres, vai Bradley!
Cada um correu em uma direção diferente, mas Corey conseguia ver Bradley gesticulando para uma mulher com três crianças e apontando em direção às florestas laterais. Era uma boa rota. E os meninos esperavam que as pessoas a seguissem.
Quando o garoto finalmente chegou ao grande salão onde estavam os anciãos aproveitando o jantar de casamento recebeu olhares reprovadores de todos, mas ele não ligou. Tinha de falar com os conselheiros.
– Eu preciso da ajuda de vocês.
– E em que seria rapaz? – ele nunca havia percebido em como os olhos de Brenda eram parecidos com o do pai.
– A colina. Tem aldeões vindos de todos os lugares.
Eles riram nervosos do rapaz.
– Aldeões? Enlouqueceu garoto? – o pai dele lhe repreendia – Porque aldeões viriam? E como você sabe disso?
– Sente-se ai e aproveite o casamento homem! Talvez encontre uma noiva para si!
– Aliás, onde estão os noivos?
O garoto já estava ficando cansado daquilo.
– Escutem bem porque só irei falar uma vez, nós sabemos de tudo. Eu, Bradley e Brenda. Se vocês não se importam com suas próprias vidas protejam seus filhos. Brenda está no topo da colina, sozinha, com carros infestados de homens vindos de todos os lados. Bradley está tentando tirar o máximo de pessoas da cidade, mas eu duvido que ele consiga alguma coisa, então levantem seus corpos dessas cadeiras e vão de uma vez fazer algo que faça com que suas vidas valham a pena!
Seria necessário dizer como os anciãos ficaram pálidos? Levantaram-se em um pulo e cada um correu em uma direção diferente. Logo, os homens que não estavam bêbados demais por conta do casamento foram em direção da colina, que já ardia em chamas e a única coisa em que os meninos pensavam era Brenda.
Foi um massacre. Os anciãos e o restante dos cidadãos lutavam para defender o lugar, mas era uma causa perdida. Estavam em desvantagem numérica. Mas, o que poderiam fazer? Sentar e morrer?
Os jovens tinham sido encarregados de levar o máximo de pessoas que conseguissem para fora, afim de não participarem do combate principal, mas ninguém os ouvia. Muitos estavam em estado de choque e outros tantos tão bêbados que não conseguiam nem levantar do local. Com pesar, os garotos fugiram junto com o restante da população. As baixas foram imensas, e pouco mais de cinquenta pessoas se salvaram.
No dia seguinte os rapazes não reencontraram seus pais ao voltarem ao vilarejo para procurar sobreviventes. O lugar estava todo em ruínas. Os restos de uma vida inteira. Também não encontraram Brenda, e foi ali que seus corações morreram: junto à menina dos cabelos loiros e sorriso deslumbrante. Junto ao pinheiro do qual estavam prostrados onde uma joia brilhava em contraste àquela escuridão. Junto ao pinheiro de Brenda.
O pai de meu bisavô lhe contou essa história, história essa que o mesmo contou ao meu avô, que contou ao meu pai, que contou a mim e que agora conto aos meus filhos. E você, para quem irá contar?
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