Safe & Sound II: A Sociedade Secreta
20 Inesperado
Notas iniciais
“E nós vimos essa luz, eu juro, surgir piscando
Para me dizer que vai ficar tudo bem
Quando voamos pelas paredes, toda sirene é uma sinfonia
E cada lágrima é uma cachoeira
É uma cachoeira.”
Sara
No domingo á tarde, quando chegou a hora de voltarmos para a Universidade, os problemas e as lembranças do que eu teria que fazer voltaram a me preocupar. Eu queria ficar lá com Pedro pra sempre, em nossa pequena bolha de ignorância e felicidade. Desejava poder deixar o resto pra trás e fugir com ele.
Mas eu não podia fazer isso com minha mãe, não podia fazer isso com meus amigos.
– Está tudo bem? – Perguntou enquanto dirigia para a Universidade.
– Sim, eu só estava pensando...
Eu estivera mesmo devaneando desde que saímos da casa dele, pensando na melhor forma de fazer o que eu precisava. Eu tinha que achar uma forma de ser franca sobre tudo sem prejudicar nossa relação e sem dar muitas informações.
– Pensando em quê?
– Luke.
Ele ergueu a sobrancelha e fez cara de quem não estava entendendo nada.
– O que tem ele?
– As coisas não precisam ser assim.
– Assim como? Eu não estou entendendo nada do que você está falando.
– Você e Luke eram amigos, não?
– Sim, nós éramos amigos. Antes de ele me trair.
– E já te ocorreu que ele pode ter sido tão vítima quanto nós da Sociedade? Que assim como nós fomos obrigados a fazer coisas que não queríamos, pode ter acontecido o mesmo com ele?
– Por que acha isso? Nem todas as pessoas são vítimas, algumas são realmente más...
– Você o conhecia melhor do que eu, pode responder isso.
Ele ficou em silêncio refletindo sobre o que eu dissera. Depois de algum tempo voltou a falar.
– Eu o conheço desde que nasceu, brincávamos juntos quando éramos crianças e ele sempre foi um garoto bom, apesar do pai que tinha.
– O que tem o pai dele?
– É um carrasco. Sempre colocou a política e o dinheiro acima da família. Não era a toa que ele e o meu pai se davam tão bem.
– Luke disse que ele tratava Daniel como um filho...
– Ele tratava os outros assim, não ele, não me admira essa atitude.
– Ele nunca lhe falou sobre o Daniel?
– Não. Aparentemente ninguém sabia disso, eles mantiveram isso longe da mídia até hoje. E eu fiquei muito tempo sem falar com Luke, nós perdemos o contato quando ele terminou o Colegial.
– E o que você acha? Acha que ele pode ser uma vítima como nós ou acha que ele está nessa por que quer?
– É difícil saber, as pessoas mudam. Pode ser que ele não fosse assim na época que eu o conheci e tenha se tornado isso depois.
– Você já pensou em conversar com ele sobre isso? Saber o que aconteceu pra ele ter mudado?
Ele voltou a me encarar desconfiado.
– Por que está levantando esse assunto agora?
– Eu só estou tentando entender essa bagunça toda! Pense comigo, se Luke for uma vítima como nós, ele pode nos ajudar e...
– Não, não adianta! Não podemos contar com mais ninguém. E depois ele pode mentir e nos enganar. O pai dele é praticamente quem manda na Sociedade, é um dos seniores mais respeitado e temido. Ele jamais se voltaria contra o pai a nosso favor, por mais que ele o odeie.
– Eu só pensei que você podia tentar falar com ele e saber como ele entrou nessa, podíamos tentar convencê-lo...
– Esqueça isso, não vai dar certo, eu sei disso.
Eu respirei fundo e desisti, teria que arrumar outro argumento, esse havia falhado.
Naquela noite quando fomos jantar, as meninas ficaram loucas quando viram a minha aliança. Elas me encheram tanto que me obrigaram a tirar a aliança pra elas olharem de perto.
– Suas malucas! – falei enquanto minha aliança passava de mão em mão na mesa – Parece que nunca viram uma aliança!
– Viu querido, – Rosane começou a dizer enquanto olhava a minha aliança – eles estão juntos há oito meses e já firmaram compromisso. Nós estamos juntos há quase dois anos e você nunca me deu uma dessas! – Ela começou a balançar a aliança na frente do nariz de Emerson.
– A gente não precisa disso, ursinha! – Ele se defendeu – Isso é só um símbolo material de compromisso.
– Pode ser um símbolo material, mas é tão lindo, tão romântico... – discordou Mandy – Faz três anos que namoro o Jacson e ele também nunca me deu uma! – reclamou fazendo biquinho e fulminando o coitado do garoto com os olhos.
– Eu achei que você não ligava pra esse tipo de coisa — ele disse se defendendo e ficou vermelho como um pimentão. – Mas se você quiser, amanhã mesmo eu mando fazer uma pra nós!
– Ahhhhhhhhhhhh. Claro que quero! – Ela gritou, começou a quicar e depois foi cobrir o rosto do namorado de beijos.
– Bonita a aliança, Sara! – Ângela elogiou enquanto me devolvia o anel.
Ela e Bruno também estavam juntos há mais tempo que nós, mas parecia que ela não ligava muito pra esse lance de símbolo material de compromisso.
Quando subimos para o dormitório e eu abri a porta, havia uma carta no chão endereçada a mim.
Jana viu, mas não disse nada. Aproveitei enquanto ela entrava no banho e abri o envelope. O texto estava escrito a mão:
Sara
Dê-me a chance de lhe mostrar que não sou como você pensa. Encontre — me amanhã à noite às 21:00 hrs no endereço abaixo.
Com carinho
Luke
Abaixo tinha o nome e o endereço de um restaurante.
Tudo o que eu dissera a Pedro sobre a possibilidade de ele ser vítima da Sociedade era verdade. Eu podia estar enganada e como ele dissera, Luke poderia realmente ser mau. Eu queria ir nesse encontro e tentar descobrir até onde ele compactuava com tudo aquilo e se ele realmente não era como eu pensava que fosse.
Talvez eu não precisasse mentir, poderia abrir o jogo e convencê-lo a me dizer onde estavam Daniel e Leonardo. Ou talvez eu estragasse tudo...
Eu estava num dilema. Poderia ir nesse encontro e aproveitar a chance de me aproximar dele, mas eu não poderia contar ao Pedro porque ele tentaria me impedir.
Ou poderia não ir e pensar melhor no que eu ia fazer. Mas eu não tinha nenhum plano em mente, aquele jantar poderia ser minha única chance. Era num local público e ele não se atreveria a fazer nada comigo. Se eu não gostasse de algo, poderia simplesmente me levantar e ir embora.
Continuei pesando os prós e os contras até que Jana saiu do banheiro.
– Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou e eu percebi que continuava encarando a carta em minhas mãos.
– Não! — Respondi enquanto escondia a carta no bolso das calças Jeans – É uma cobrança da biblioteca sobre um livro que eu esqueci de entregar.
Ela não disse nada e eu fui pegar o meu pijama pra dormir.
Decidiria o que ia fazer no outro dia.
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