Safe Harbor
1 The Beginning Of A Likely End
Notas iniciais
POV Natália
02h35min — Juiz de Fora, 21 de Outubro de 2014.
As pessoas dizem que há situações em que um filme de sua vida inteira passa em frente aos seus olhos, como se tudo aquilo tivesse acontecido em apenas alguns minutos. Um desses momentos é a hora em que você sabe que vai morrer, como se não existisse dúvida que aqueles eram os últimos instantes da sua vida.
O engraçado é que esse momento está acontecendo comigo nesse instante. Eu poderia estar desesperada, afinal, vou morrer. Mas não estou. Na verdade, estou feliz. Posso estar agindo como uma louca, mas percebo que fiz tudo o que quis e não me arrependo de nada, porque fui feliz.
A única coisa difícil nisso tudo é saber que vou perder minha vida com apenas dezessete anos de idade e que nunca mais irei ver as pessoas que amo.
A sensação de saber que todas as suas dores, frustrações e decepções vão acabar em apenas alguns minutos é incrível. Eu sei que nunca mais vou chorar, me humilhar e ter o coração partido novamente.
Durante esses anos eu amei de verdade uma única pessoa: David Luiz Moreira Marinho. Ele foi única pessoa que me fez feliz com apenas um sorriso, a pessoa que me transformou, ou melhor, tentou me transformar, porque se ele tivesse conseguido eu não estaria aqui, prestes a morrer. Não que eu esteja colocando a culpa nele. Se hoje estou aqui à poucos minutos de encontrar a morte, a culpa é única e inteiramente minha. Minha irresponsabilidade e insanidade me levaram à isso.
Como disse no início, quando o seu fim está chegando, sua vida passa diante de seus olhos. Mas, o que está passando diante de meus olhos nesse instante são as escolhas e decisões que me levaram até David, e daí por diante, todos os momentos que, apesar de lindos, foram dolorosos. A melhor e pior época da minha vida está passando nesse instante na minha frente.
17h22min — Juiz de Fora, 06 de Junho de 2014.
O último amistoso da seleção antes do início da copa do mundo estava no segundo tempo, e o Brasil ia muito bem. Sempre gostei de futebol, principalmente quando é a seleção que está jogando. Claro que eu tenho os meus ídolos no futebol, afinal, eu sou mulher e é impossível não reparar em homens bonitos. Eu amo o Neymar, Júlio César e principalmente o David Luiz. Não sei por que eu gosto de um cara que parece um cotonete, ou melhor, um espanador de teto. Ri sozinha com o meu pensamento. Sou a única naquela sala que está prestando atenção no jogo, o resto de meus amigos está mais preocupado com as suas bebidas e a festa que vai ter hoje à noite. Todos os meus amigos me conheciam muito bem, por isso eles evitavam me incomodar quando eu estava assistindo algum jogo de futebol.
O jogo encerrou em 1x0 para o Brasil. Foi por uma questão de segundos até André levantar, desligar a TV e colocar uma música para tocar. Aproximei-me da rodinha que eles tinham feito, peguei a latinha de cerveja que estava na mão de Felipe — meu namorado — e a sequei.
Os meninos falaram que vão dormir em casa hoje Rafaela disse rindo. Vê se pode?
Desde que eles não façam bagunça... Bruno chega amanhã na hora do almoço respondi.
Bruno é meu irmão, tem 25 anos e mora no Rio. Ele vem passar o sábado com a gente, já que é o dia da última folga dele. Bruno trabalha como assistente do fisioterapeuta da Seleção Brasileira. E como todos os jogadores estarão de folga amanhã, ele também vai estar.
Nós ficamos ali, bebendo e rindo. Tenho amigos incríveis, amo cada segundo que passo com eles.
Felipe se ofereceu para levar eu e Rafaela em casa.
Rafaela é minha outra irmã, tem 20 anos. Isso quer dizer que sou a mais nova dos três filhos de meus pais. Meus pais moram no Pará, eu e Rafaela nos mudamos para Minas esse ano. Viemos pra cá por causa da minha faculdade de jornalismo. Rafaela veio comigo por eu ainda ser menor de idade.
Conheci os meus amigos há dois anos, quando Bruno ainda morava aqui e fazia faculdade de fisioterapia. Eu e Rafaela passávamos as férias e feriados prolongados em Juiz de Fora. Na virada de ano de 2011 para 2012, eu conheci Felipe, meu atual namorado, e assim minhas vindas para cá ficaram mais frequentes, até que finalmente terminei o ensino médio no ano passado. Escolhi a Universidade de Juiz de Fora para cursar jornalismo e no início do ano nos mudamos pra cá, e moramos no apartamento em que Bruno morava.
Rafaela e eu fazemos de Minas uma grande festa, mas por incrível que pareça, levo à sério a faculdade.
Felipe estacionou o carro em frente ao prédio onde moro.
Será que nós podemos conversar? perguntou, logo depois de Rafaela descer do carro. Eu respondi um 'claro'.
Felipe não era do tipo de namorado que conversava. Nunca tivemos momentos românticos ou algo do tipo, a única coisa que compartilhávamos eram festas, bebidas e às vezes a mesma cama.
Natália... Eu quero terminar disse sério. Apenas levantei o olhar para encará-lo.
Me desculpa, acho que não ouvi direito me aproximei dele.
Eu. Quero. Terminar. falou tudo pausadamente, e assim voltei pro meu lugar.
Encarei o lado de fora pela janela, estava nervosa. Então Felipe começou a gritar, jogou todos os meus defeitos na minha cara, disse coisas absurdas. Eu só tentava assimilar as suas palavras e ver se eu tinha feito algo errado, mas nada me veio à cabeça. Ele continua gritando e eu apenas ouvia. Não queria discutir, não com ele.
Depois de alguns minutos que ele ficou gritando sem parar, encarei-o. Ele estava esperando que eu falasse algo que, segundo ele, o impediria de terminar o nosso relacionamento de dois anos, mas eu não conseguia argumentar. Estava cansada de ouvi-lo gritar e dizer o quão irresponsável sou. Só queria que ele ficasse calado e me deixasse formular alguma frase coerente em minha mente.
Um turbilhão de pensamentos e perguntas sem respostas invadiram a minha cabeça, estava tentando entender algo que não havia explicação.
Felipe nunca foi o cara mais responsável do mundo, ele era completamente imprudente, assim como eu. Éramos um casal "vida louca". Ele sempre dizia que amava o meu jeito insano, então não havia explicação para o surto que ele resolveu dar e assim decidir por um fim em nosso namoro.
Respirei fundo, tentando evitar que as lágrimas que já se formavam no canto dos meus olhos caíssem. Eu posso ser uma louca, mas tenho sentimentos e costumo demonstrá-los, mesmo quando não quero.
Felipe voltou a pedir um único motivo para que ele não me deixasse. Fechei meus olhos e deixei as lágrimas caírem, continuando em silêncio. Estava doendo, mas se ele quiser ir embora, que vá! Eu não preciso me humilhar por um cara que consegue ser tão mentiroso ao ponto de dizer que quer terminar nosso relacionamento por algo que nunca o incomodou. Eu sei que minha irresponsabilidade não é o motivo da sua decisão completamente impulsiva. Ele está terminando comigo simplesmente porque... Ele tem outra!
Abri meus olhos e vi que ele ainda estava ali, esperando por uma resposta. Eu desisti de tentar formular um argumento, quando finalmente percebi que nada de que eu dissesse o impediria de terminar comigo.
Respirei fundo novamente, antes de finalmente conseguir dizer algo.
Se você quiser ir embora, pode ir. Só não diga que está terminando comigo porque sou irresponsável, porque até onde sei, isso nunca lhe incomodou minhas palavras saiam de uma maneira fria. Eu imaginei que você seria homem o suficiente pra assumir que essa sua decisão tem uma única explicação, e posso te garantir que não é por causa da minha personalidade.
E por que seria? seu tom, assim como sua expressão era de deboche. O Felipe canalha está de volta.
Você tem outra meu tom foi duro o suficiente para que ele desfizesse aquela expressão irritante que se encontrava em seu rosto. Posso ser tudo, menos idiota.
Foi à vez dele de ficar calado, ele pode até ter tomado a iniciativa de acabar com o nosso namoro, mas isso não significa que ele vá sair por cima nessa história.
Você acha realmente que vou me humilhar e implorar que você não desista da gente? Que você não destrua em apenas alguns minutos o que construímos em dois anos? Agora a debochada da história sou eu. Engano seu. Vai embora e esqueça completamente que um dia estivemos juntos. Garanto-lhe uma coisa: você vai se arrepender, Felipe. Um dia você vai encarar o espelho completamente frustrado e se perguntar o por quê de você ter terminado comigo. Você irá olhar pra vadia que será sua namorada e verá que ninguém vai ser boa o bastante pra você como eu fui. E você vai vir atrás de mim, e mesmo que você descubra isso amanhã, já vai ser tarde demais.
Saí do carro após dá o meu melhor sorriso. Eu estava um desastre pro dentro, mas isso não quer dizer que vou pra casa, me sentar na frente da TV com um pote de sorvete entre as pernas e assistir um filme de romance idiota, onde a mulher passa o filme inteiro sofrendo por um babaca e no final de tudo, é só ele sorrir lindamente e fazer uma declaração dizendo todos os motivos porque ele a ama e assim ela esquece todas as lágrimas que derramou; esquece quantos quilos ela ganhou por ter passado várias noites comendo vários potes de sorvete; esquece de todas as vezes que se perguntou onde havia errado, quando na verdade quem havia errado era ele e se esquece quantas vezes se condenou por não se achar boa o bastante para um cara que só resolveu se importar com ela no final, simplesmente porque eles tinham que ter um final feliz.
Mas quando o amor é de verdade ele não tem final feliz, porque o amor verdadeiro nunca acaba.
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