Sacrifício
17 Vingança
Notas iniciais

Ao avistar a cabeleira loira circulando pelo teto do templo à sua procura, o sangue de Rachel ferveu. Terra estava trabalhando com Slade novamente. Depois de ter sido detida anos atrás, ficou anos afastada e após convencer “todos” os heróis dizendo que estava arrependida, que adquiriu bom senso ao atingir a maior idade, foi recebida de braços abertos pelos Titãs ingênuos, com exceção dela e Dick, que obviamente também mantinha um pé atrás. Ela estava presente no dia da sua recepção, para ter certeza de que Tara não teria intenção de aprontar novamente. De alguma forma ela conseguiu enganar a todos.
Fez questão de surpreendê-la e tentar quebrar a sua cara, mas se segurou quando percebeu que Tara já estava sangrando demais e desacordada enquanto seu pai clamava por atenção em meio aos seus pensamentos. Tinha que se controlar, e então lidaria com ela mais tarde.
Voou agilmente em direção à Zatanna, que estava de costas para si enquanto trocava palavras com Slade. Ela logo lhe direcionou o olhar com um meio sorriso, e Rachel a acertou com um chute em suas costelas ao mesmo tempo que desviou da lâmina ágil do Exterminador. Com a força da pancada, a mágica acabou caindo à alguns metros para longe do pentagrama que já queimava em chamas negras. Eles teriam que se esforçar para conseguir derramar o seu sangue ali. O homem tentou acertá-la mais vezes e ela desviou de todos os golpes com destreza, e no último usou seus portais para que Slade perfurasse a si mesmo com sua espada, fazendo com que caísse de joelhos no chão entre grunhidos, exatamente como ele havia feito com seu amigo estúpido. Sabia que John ainda estava vivo, mas isso não a impediria de vingá-lo. Sorriu. Tinha esquecido de como a luta corporal era satisfatória.
O golpe que atingira Zatanna obviamente não a afetou, muito menos a acertou. Ilusionista, sempre com seus golpes baixos. Olhou para a névoa em sua volta à procura da mesma. Tinha que impedi-la de fazer o que já esperava. Seu corpo estava coberto de suor e poeira, estava arfando pelo nervosismo e o coração estava acelerado. Precisava salvar sua equipe e retirá-los daquela maldita igreja antes que aquele trio os machucasse.
— Zatanna, seja lá o que estiver planejando, eu não quero ter que feri-la. John e eu iremos banir Trigon e sua presença está nos atrasando — sua voz soou firme e determinada, não deixando espaço para que a mulher se aproveitasse dos sentimentos conflitantes que habitavam em si.
Ouviu passos hesitantes em suas costas, girou o corpo com a escuridão em mãos e se deparou com uma morena com as sobrancelhas franzidas e as mãos no peito.
— John? John Constantine? — sua voz era alarmada enquanto procurava o loiro naquele breu — Não o vejo... Onde ele está?
Seus olhos claros emitiam o brilho da preocupação, mesmo que contido. Ela ainda sente algo por ele, Rachel concluiu. Segurou um sorriso pela descoberta, mas não baixou a guarda.
— Slade o deixou jogado na entrada depois de atravessar a katana na barriga dele — foi honesta, a deixando de queixo caído, com o olhar perplexo ao homem que tentava tirar a própria lâmina de seu tórax com dificuldade. Ao vê-lo tentar ficar em pé, Ravena chutou sua nuca e conseguiu deixá-lo desacordado — Se você deixar de intervir, eu poderei curá-lo e terminar com esse problema de uma vez.
Não respondeu por ainda estar atordoada pela notícia, apenas fitou o chão após engolir em seco e seguiu para fora do templo às pressas. Rachel deu um longo suspiro, torcendo para que o amigo colocasse a cabeça da morena no lugar.
Imediatamente desfez o encanto de Zatanna, libertando sua equipe daquele encanto ardiloso. Infelizmente as bestas voltaram a se mover sobre eles a procura de uma vítima, fazendo com que o local ficasse mais escuro ainda, como se estivessem no meio de uma madrugada, as velas eram praticamente inúteis. Ouviu o arfar de alguns e reclamação de Garfield e surpreendentemente a voz de Damian, que só havia o visto poucas vezes. Mas não tinha tempo para conversas. Sentia a pressão em sua cabeça, a hora estava chegando e infelizmente teria que lidar com aquele problema sozinha.
Chamou a atenção da equipe, que se reuniu perto das chamas negras. Todos muito provavelmente estavam doloridos pelo que a maga fizera. Pretendia retirá-los dali, mas o tremor abaixo de si os desestabilizou. Pensou que era o seu pai, mas ao olhar para trás Tara a encarava furiosa, com o corpo sujo do próprio plasma vermelho.
Não pôde esconder seu olhar de frustração. Queria matá-la, mas por ter que manter a postura de heroína em frente à um dos líderes da Liga, ela deveria manter o decoro e apenas tentar prendê-la. Tinha a vontade de fazer como Grayson havia comentado sobre o comportamento de Batman. Bruce não matava, mas espancava o bastante para deixar alguém tetraplégico ou até mesmo em coma. “Quem mata é Deus”, Dick zombava dele quando eram mais jovens.
— Hoje você morre — a loira praticamente rosnou ao começar a reunir grande parte do solo molhado pela chuva que se misturava com um ciclone lá fora, a areia passava pela única entrada do local. Batman, Damian e Dick se espalharam pelo templo, com a densa névoa a favor deles. Victor estava indeciso sobre contra-atacar a amiga que estava surtando ou proteger Rachel da tempestade de areia. Estelar subiu para ter um ângulo melhor para agredir sem piedade a traidora e Garfield tentava intervir com as palavras que ele não sabia usar por estar nervoso. Mas Terra sequer notou sua presença.
Ela estava cega de ódio, e lançou toda a areia e pedaços da catedral em direção à Ravena, que agiu da mesma forma quando o Exterminador tentou acertá-la com os projéteis de fuzil. Entretanto, quando Kori fora atingida pelo mercenário já acordado, não pensou antes de ir em sua direção para a acudir, desfazendo o seu escudo, o que deu a oportunidade para Tara a prender firmemente com a areia e guiá-la a força ao meio do pentagrama, como Zatanna havia instruído antes de chegarem ao local.
Enquanto a segurava, aguardou Slade que se aproximava em lentidão com a espada em mãos, tentando esconder a dor que a morena havia causado. Garfield na forma de uma harpia voava por ordem de Batman, com o intuito de distrair as criaturas para manter sua névoa escura distante do chão, facilitando o trabalho de sua equipe. Lançou o olhar para baixo, observou o que acontecia e se alarmou.
— Robin!
— O que!? — Damian e Grayson se entreolharam ao responderem ao mesmo tempo. Eles procuravam uma maneira de atacar a loira por trás em meio ao redemoinho de areia enquanto o homem morcego e Victor interviam pela frente. Se estivessem em outra ocasião, Mutano daria gargalhadas.
— Slade pegou a Rachel!
Eles estavam muito distantes e o mercenário só precisava de uma coisa. O sangue dela, que já começara a se espalhar pelas linhas de fogo que de negras passaram a ser vermelhas conforme o líquido espesso se alastrava. A jugular foi a que havia sido atingida e o corte só era impedido de cicatrizar pela espada que era mantida presa em seu pescoço. A areia que lhe impedia de se mexer havia a libertado depois da loira ser atingida no torço pelo disparo de Cyborg e um forte golpe nas costas vindo de Estelar, que a desestabilizou. Batman pegou o Exterminador de surpresa, apertando seu pescoço com um mata-leão. Slade o acertou nas costelas com o cotovelo tentando se libertar, mas foi em vão ao ser cercado pelos outros dois heróis de Gotham que o golpeavam em perfeita sincronia. Aquele homem tinha mais força que o normal, e para detê-lo rapidamente foi necessário três contra um.
Com Terra contida por Victor e Kori, e Slade pelos outros três, Gar se aproximou para acudir Rachel, que estava coberta pelo próprio sangue. Ele se assustou ao vê-la com a pele mais pálida que o normal, mas isso não a impediu de levantar-se rapidamente e se afastar do centro do pentagrama, que começara a ruir. Sua equipe percebeu o seu chakra emitir o brilho vermelho com intensidade, e a morena com dificuldade tentou manter-se de pé com o apoio de Mutano. Apertou sua cabeça, tentando inutilmente cessar a dor avassaladora.
— Chegou a hora — Slade murmurou em meio a um sorriso perverso enquanto estava contido nas mãos de Batman. Damian socou seu rosto inchado que já estava sem a máscara pelos golpes. Cuspiu o sangue que acumulava em sua boca — Não há como impedir.
—
John Constantine estava furioso por estar na porta daquela igreja sem conseguir se levantar, encharcado pela forte chuva em meio ao ciclone. Onde já se viu um temporal desses no meio de um deserto? Ficou parado observando o sangue acumulado em seu casaco que havia secado pelo banho de areia que levou alguns minutos atrás. Não entendeu o que diabos estava acontecendo lá dentro. O que sugou a areia para dentro do templo? Não encontrou nenhuma resposta em todo o tempo que esteve parado ali.
Ouviu alguns passos atrás de si e soube exatamente de quem era. Respirou fundo, pronto para ouvir qualquer merda vindo da mulher que a tempos não via. Entretando, se deparou com a bela morena com os olhos marejados, mordendo o lábio inferior para conter qualquer fala que demonstrasse preocupação e arquejou enquanto observava sua deplorável situação. Ela ficou de joelhos, molhando e sujando a meia calça de sangue misturado à areia e tentou retirar o seu sobretudo que o protegia do ar gelado em Jump City e agora o deixava com calor em meio ao deserto. Não conseguiu evitar o gemido em protesto ao movimento brusco.
— Eu já quase morri para o seu amigo e está tentando concluir o processo? — foi sarcástico enquanto cooperava, ficando apenas com a camisa que antes era branca e a gravata frouxa. Viu a morena revirar os olhos e estalar a língua enquanto pousou as duas mãos na costela do loiro.
— Cala essa boca. Aruc! — suas mãos emitiram a luz que só poderia ser vista nas mãos daquela mulher que tentava inutilmente fugir do olhar compenetrado de John. Ele sentiu um breve formigamento e logo ficou livre daquela dor horrível. Damian apenas havia o poupado de morrer, agora Zatanna o deixou novo em folha.
— Agradecido... — levantou-se sem dificuldades, passando as mãos nas roupas amassadas para retirar o excesso de areia molhada, logo as colocando nos bolsos da calça — mudou de lado por minha causa?
Ela encarou os olhos azuis zombeteiros e não conseguiu omitir um sorriso. Caminhavam lentamente para a porta aberta da igreja, fugindo do vento.
— Está parecendo um zumbi.
— E você uma bruxa malvada — ele rebateu, a fazendo fechar a cara — Qual o seu problema? Já parou para pensar que tem mais de trinta anos e ainda faz birra com uma garota inocente?
— Eles precisam ser banidos, John. Todos eles — foi ríspida, se irritando com o olhar descrente que recebeu — Inclusive os seus amigos, que tenho certeza de que arranjou mais.
Ele deu de ombros após olhar para o buraco em sua camisa, lembrou do dinheiro que gastou na compra e suspirou, frustrado.
— Sei que o que ocorreu com seu pai... Comigo e seu pai te afetou bastante. Entretanto, isso não é motivo para banir todos os demônios que vê pela frente. Esse é o meu trabalho — apontou para o próprio peito com o indicador, não tirando os olhos dos da maga — Zatanna, você tem que aprender a diferenciar o mal que habita na Terra. Rachel é parte demônio, mas ela não escolheu ser assim, não vendeu a alma ao diabo, muito pelo contrário. A garota faz de tudo para esconder quem é, tem vergonha disso e até hoje protege todos de Trigon. Protege você de Trigon, com aquela pedra maldita na cabeça que eu já me ofereci para retirá-la e guardá-la, nem que seja na porra da Casa dos Mistérios, mas não... Ela não quis, nem confia em mim para tamanha responsabilidade e eu concordo plenamente com ela. Só Rachel é capaz de manter o aquele destruidor de mundos fora daqui, e você... — se aproximou da morena que tentou o interromper, mas não a deixou ter oportunidade — Sim, foi você que instruiu aquele babaca que quase me matou a contatar aquele demônio para atiçar a garota, não foi? Deixando Rachel banindo o pai, com a intenção de mandar os dois para a puta que pariu. Você foi cruel, Zatanna. Está muito diferente da última vez que nos vimos. Está parecida comigo... e eu não gosto disso.
Não conseguiu esconder o constrangimento em sua face. Desviou o olhar do homem que a censurava agora em silêncio e que nem esperava por uma resposta sua. Ele sabia que a mulher não diria nada. Quando estava errada sempre ficava em silêncio.
— Se você ainda tem um pouco de bom senso, entre comigo para retirar o restante daqui. Eles não têm a menor chance de sobreviver. Depois pode ir embora, já causou estrago o suficiente e provavelmente os mocinhos irão te castigar.
— Para eles, Slade é quem fez isso — argumentou sem pensar.
— Mas eu sei a verdade e faço questão de te entregar.
Bufou enquanto seguia o homem que adentrava na névoa escura. Em partes ele tem razão. Tentou ignorar o discurso do loiro enquanto voava à procura dos Titãs, logo se deparando com um ponto vermelho em meio à neblina e ouviu a voz de Rachel suplicando para a equipe sair da igreja. A garota abriu o portal com dificuldade para eles passarem, entretanto o restante queria a amparar, com exceção de Batman e Robin, que iam em direção ao portal junto de Slade. Grayson tentava puxar a Kori preocupada pelo braço e Victor carregava Terra desacordada em seus braços. Não conseguia ouvir a discussão de Mutano com a Ravena até se aproximar. O pentagrama já estava em pedaços, caindo no poço de fogo que em meio as chamas os chifres de já Trigon surgiam.
— Eu disse que ficaria com você até o fim! — Gar gritava enquanto os seis irmãos de Ravena se reuniam em volta do poço onde seu pai surgia — Você não vai ficar aqui sozinha! Por favor, Rachel! Não faça isso — ele clamava com a voz embargada, pois pensava que se a morena encarasse Trigon e seus irmãos de frente provavelmente morreria. Ela segurou o rosto dele entre as mãos com firmeza, o olhar concentrado para usar os seus poderes da maneira que mais odiava.
— Garfield se quer me ver de novo, vai ter que estar vivo. E se quer estar vivo, precisa sair daqui. Não confiava em mim? Me responda! — o pressionou, recebendo um aceno afirmativo em resposta — Então se me ama assim como eu te amo, você vai ir embora daqui e me deixar terminar isso. Eu vou voltar, entendeu? — conseguia ver a luz de seu chakra refletindo nos olhos marejados do namorado, e ouvia o rosnado de sua família atrás de si — Confie em mim.
O abraçou da forma que nunca mais faria. Despejou em sua mente todo o amor, calma, carinho, contentamento, equilíbrio e removeu o máximo que pôde da preocupação, angústia, pânico, tensão, terror e desespero que vinham dele. Nunca se perdoaria por deixá-lo sair dali com a memória levemente comprometida. Mas era o melhor a se fazer no momento.
Se desfez do abraço e o guiou até o portal onde todos já passaram, e assim que Gar entrou, ela se virou para encarar as seis criaturas que tomaram forma graças à Trigon. Os pecados capitais ali em sua volta, com feridas abertas na pele avermelhada, os chifres horrendos nas cabeças que pegavam fogo e aquelas presas imundas de sangue fresco. O local fedeu a enxofre, que só não vomitou por já estar levemente acostumada. O sorriso maligno estampava o rosto de todos.
— Retornará conosco, irmã? — James, da avareza riu após rugir as palavras.
— Nunca estive com vocês para retornar.
— Então por que nos invocou? — Jack, da preguiça murmurou enquanto lançava o olhar fascinado para seu pai, obviamente muito maior do que eles saindo do portal que Slade criara, seu primeiro passo vez o chão tremer. Os olhos endiabrados a encararam, e Trigon logo levantou os lábios, contentado por finalmente estar ali.
— Não foi ela... — sua voz grave ressoou, olhando para trás dela. Seguiu o movimento e assistiu Slade surgir em meio à névoa pelo portal que seu pai criara. Ele estava muito ferido pela surra que levou, contudo não deixou de sorrir — Slade Wilson, vejo que concluiu seu objetivo.
— O mais rápido que pude... Agora eu aguardo meu pagamento ansiosamente — lançou o olho para a morena que o observava com desprezo, entretanto não conteve o olhar de pavor ao perceber a presença de Garfield caído aos pés do Exterminador. Ele estava com o braço quebrado e ao encontrar os olhos violeta tentou passar tranquilidade, mas era impossível — Também trouxe o companheiro de sua filha, caso queira usá-lo para entrar em um acordo com ela sem mais conflitos.
Ouviu Trigon dar uma curta risada ao cruzar os braços. Os olhos cor de fogo lhe encaravam, e uma sobrancelha arqueada surgiu no rosto macabro. Ele esperava sua resposta em silêncio.
Alguns segundos se passaram com Rachel em conflito interno. Não podia estar crendo no que via. Precisava de tempo para saber o que fazer. Estava sozinha, e com o Garfield jogado no chão em sua frente não conseguia pensar direito.
— Eu nunca me unirei a vocês — gritou para o pai e seus irmãos com fúria em sua voz, que riam como malditas hienas — Todos vocês serão banidos e não voltarão enquanto eu viver.
— Minha querida filha do orgulho... — sorriu abertamente, mostrando os dentes amarelados e exalando o hálito de podridão — Veremos. Slade, se não for pedir muito... — A voz grave do demônio foi em um tom tranquilo e observou o mercenário pegar a pistola bem escondida em sua calça e a encostar na cabeça de Garfield, que estava sem forças para fugir. Ela observou os lábios do garoto que sussurrava um “está tudo bem” com um sorriso cansado — E então, Rachel... A escolha é sua.
A morena demorou para responder por estar em pânico. Os olhos arregalados, respiração entrecortada e o coração batendo rapidamente. Não havia imaginado o restante do dia daquela forma. Deu um sobressalto ao ouvir o tiro que desfez parte da cabeça do garoto que havia tentado se soltar. A massa encefálica se espalhou em meio à areia, junto com o líquido escarlate jorrando no chão. Aquela dor intensa no peito voltou, o gosto em sua boca amargurou e uma pequena lágrima escorreu em seu rosto sujo do próprio sangue já seco. Ao ouvir as risadas sádicas de seus familiares, esqueceu quem era, o que deveria estar fazendo ali ou quem estaria presente.
— Rachel, não! — John gritou enquanto corria o mais rápido possível para alcançá-los, ele não enxergou nada do que aconteceu, mas foi impossível não notar os quatro olhos vermelhos em meio aquele breu. Zatanna apenas observava o que ocorria em silêncio, por medo de ser vista pelas criaturas assustadoras. Ficou surpresa pelo que Slade fizera, não esperava a morte precoce de Mutano. Entretanto, parecia que aquele acontecimento era a única maneira de tirar a mulher do controle, que já mostrava seu lado demoníaco, os dois pares de olhos vermelhos e o voo em direção ao Exterminador, que começou a atirar em sua direção, todos os disparos a acertaram, mas não causou efeito. Os outros heróis haviam o desarmado, aquela pistola era a única coisa que lhe restara.
Ravena gritou de puro ódio, e só por pensar em partir aquele homem ao meio não percebeu que já havia feito. As partes esquartejadas de Slade foram lançadas para todos os lados, seu irmão Gluttony, o demônio da gula fez questão de pegar a cabeça do mercenário no ar e começar a mordiscar a pele com seus caninos enormes.
A garota fora de si ouviu o arfar involuntário da morena escondida no canto da igreja, e ao encontrá-la não pensou antes de ir rapidamente até ela. Zatanna com pavor fez um feitiço o mais rápido que pôde para impedir que Rachel fizesse o mesmo estrago com ela, já que anteriormente havia lançado um encantamento de proteção no Exterminador que agora só lhe restou pedaços. As duas dançavam no ar pela luta corporal, com Ravena no controle por estar deixando sua fúria em primeiro lugar na mente, esquecendo completamente os seus irmãos que observavam a luta em completa euforia, e Trigon deixou as duas de lado para tentar derrubar uma das paredes do templo, com o intuito de sair dali.
O demônio percebeu que estava dentro de um campo de força pelo fracasso e rosnou por descontentamento. Imaginou que não fora Zatanna quem havia feito o feitiço, já que era ela quem a filha espancava sem misericórdia enquanto ficava rouca de tanto berrar. A mais velha usava sua magia como podia, porém, não havia como se comparar com a magia negra e força que Rachel usava contra si. Estava cansando rápido e parecia que a mais nova nem havia começado. Ao tentar encontrar Constantine com os olhos, foi atingida no estômago pela mulher que ela tanto humilhava. Rachel fez força com os dedos para perfurar o corpo da maga, mas pelo feitiço de proteção a tentativa foi falha.
— John, me ajude! — Zatanna assustada implorou, tentando se desvencilhar da mulher descontrolada.
Ele estava ocupado demais para prestar atenção, suas palavras ditas em sânscrito deveriam aos poucos adormecer os parentes de Ravena sem que percebessem, e aproveitou o momento já que todos estavam distraídos com a luta das duas. Se Trigon percebesse sua presença, ele estaria fodido. Zatanna sabia se virar, e ela meio que estava pagando pelos seus pecados de qualquer forma.
Jared, o demônio da ira agora passeava pela neblina e quase encontrou John, que continuando seus sussurros se afastou lentamente para não chamar atenção. Ouviu um grito agudo vindo de cima, e percebeu que Trigon estava transportando as pessoas para dentro da igreja com o intuito de encontrar o responsável pelo feitiço que o prendia ali. Desta vez foi Tara, que quase caiu após surgir dentro do local, porém uma rocha solta a impediu de chocar-se contra o chão. A loira se assustou com Jared em sua frente, que saltou em direção a ela para provavelmente provar a carne, mas desviou e começou a atirar rochas em sua direção e a areia voltara a se mover, começando a grudar no rosto suado e boca de Constantine. Ele não poderia parar de falar, senão teria que começar tudo de novo. Já estava chegando ao fim.
— Morra, seu demônio nojento! — a voz de Terra fez com que Rachel imediatamente parasse de espancar Zatanna, já caída no chão desacordada. Seus olhos vermelhos e chakra eram vistos de longe, mesmo em meio à neblina e areia. Ela ainda não havia notado sua presença por estar distraída com seu irmão, mas a morena logo se fez presente, jogando Tara com toda a força contra a parede que com o impacto algumas pedras racharam. Tentou se soltar, mas era em vão — Me larga, sua bruxa! Eu nem sei como vim parar aqui! — Ravena segurava a mulher pelo pescoço enquanto criava um escudo para se proteger das rochas ridículas que ela tentava atingir. A morena viu uma forte luz dourada em sua visão periférica e seu ouvido zuniu, mas não deu atenção.
— Se você não estivesse junto de Slade e Zatanna bisbilhotando, talvez Garfield ainda estaria vivo... — sua fala fez com que ela enrugasse a testa, confusa — Se fosse inocente e não trabalhasse com ele por todos esses anos de traição, eu até te daria uma chance — a sua voz enfurecida soou rouca por ter gritado anteriormente, a respiração estava pesada e mais lágrimas limpavam o seu rosto sangrento, mas o sorriso sádico era o que chamava mais atenção, causando um calafrio na mulher sem saída. Pegou uma das velas que estava ao seu lado e espremeu a chama junto com a cera quente em um dos olhos com força, a loira gemeu de dor — Agora você deve conhecer o lugar que tanto me manda ir pelas costas. O inferno, Tara. Você vai para o inferno.
— Rachel, não faça isso — John que havia concluído o feitiço a interrompeu. O olhar furioso da amiga não o assustou — Seus irmãos já adormeceram, preciso de você para atingir Trigon. Está fora de si, se matar alguém inocente, sabe que não terá mais volta — sua voz infelizmente falhou nas últimas palavras, e engoliu em seco ao ouvir uma risada vindo da amiga, que usou mais força no pescoço da loira que se debatia e tentava inutilmente respirar.
— Inocente? Você não sabe o que ela fez. E não ter mais volta pra quê? Se eu matar alguém irei para o inferno, John? — foi irônica enquanto ainda chorava sem perceber — Demônios não vão para o céu, e essa daqui com certeza também não vai.
O loiro tentou argumentar antes de Rachel usar sua escuridão para lentamente quebrar os dedos, braços e as pernas de Tara que urrou de dor, tirando um sorriso aberto vindo da morena ensanguentada. Ouviu as costelas de Terra se partirem, uma por uma. O sangue já saía de sua boca enquanto encarava a mulher em sua frente buscando misericórdia até ouvir seu pescoço estalar.
Tara Markov foi jogada no chão com brusquidão, já sem vida. Constantine não escondeu o desconforto enquanto encarava o corpo retorcido devido aos ossos estraçalhados. Pensou que seria o próximo ao ouvir os passos lentos da amiga se aproximando, mas ao fitar os olhos já violeta, soltou o ar que prendia pela tensão que sentia.
— Merda, tem noção do que acabou de fazer? — gritou para a mulher que tentava enxugar as lágrimas, espalhando mais sangue no rosto. A areia e rochas agora pararam de se mover, e só se ouvia a respiração lenta de Trigon em suas costas. Ele estava ruindo.
— Vingança, John. E eu ainda não terminei — a voz foi baixa pelo esforço anterior, seu coração que batia rapidamente aos poucos se acalmava, junto com a respiração. Se arrependeu por olhar para o lado e ver o corpo de Gar no chão longe de si, com parte do rosto irreconhecível — Preciso da sua ajuda para tirar aquele escudo da Zatanna — elevou o corpo, mas o loiro a segurou pela capa imunda.
— Certo, vingança. Não vou me meter quanto a isso, agora o problema é totalmente seu, mas tem que perceber que tem a porra de um demônio com mais de dez metros de altura quase dormindo... — apontou para Trigon apoiado na outra ponta do templo — o que acha de acabar com o problema maior? Eu te deixo livre para fazer o que quiser, porque depois do que você fez, eu nem vou me meter...
A morena encarou o homem que escondia o nervosismo na fala com as mãos para o alto em rendição, e depois lançou o olhar para o próprio pai. Respirou fundo e voltou ao piso empoeirado, puxando sua capa da mão do loiro com brusquidão.
— Certo. Vou reunir os idiotas e criar o selo de banimento — murmurou enquanto pegava todos seus irmãos inconscientes espalhados no templo e os juntando perto de Trigon que lutava para se manter acordado. Discretamente também repousou o corpo de Zatanna junto deles. Sabia que Constantine estava mentindo. Ele não iria deixar Rachel se vingar da morena.
Ambos trabalhavam em silêncio, até que a luz dourada emanou no peito do demônio. Estava feito, não iria acordar enquanto Rachel estivesse viva. John olhou para a morena, dando a deixa para que encerrasse aquela missão. Seus olhos ficaram brancos após dar um longo suspiro, e uma leve brisa bateu em seu rosto.
— Pelos poderes de Azarath, eu suplico — sussurrou com os olhos fechados e cansados — Azarath, Metrion, Zinthos!
A escuridão tomou conta dos corpos inconscientes, e gradativamente todos eles desapareceram. Naquele momento o vento afastou seus cabelos melados de sangue do rosto, apagaram-se as velas, e retirou toda a neblina do templo, onde finalmente o silêncio reinou, como se nada houvesse acontecido.
John observou Zatanna partir junto com os demônios em silêncio. Ela acordaria em algum momento junto deles, provavelmente ficaria muito assustada, entretanto, por mais que a amasse, o que ela havia feito foi inadmissível. Ela conseguiria voltar, e quando retornasse teria que enfrentar a Liga da Justiça. Não pôde impedir a pequena lágrima cair pela dor da separação. Trocaram apenas algumas palavras antes da maga partir. Tentou relembrar o calor das mãos dela em sua pele ao curá-lo e sentiu um aperto no peito. Mas essa dor com certeza não era nada comparada ao que Ravena estava sentindo ao ver o corpo imóvel da pessoa que praticamente crescera junto com ela.
Rachel se ajoelhou perto de Garfield em meio a poça de sangue. Pousou a mão suja na parte do rosto intacto e o acariciou, ele já estava frio e com a expressão serena. A morena não tinha mais forças por toda a energia que havia gastado quando estava com sede de vingança, e mesmo assim tinha certeza de que se tivesse todo o seu poder, não conseguiria trazê-lo de volta. Não neste estado.
Se sentiu vazia e culpada, por ter se envolvido com ele nesses últimos dias, ter permitido que ele tenha a ensinado a amar, a abraçar, a compartilhar seus sentimentos mais obscuros. Esqueceu do seu orgulho e chorou alto enquanto o abraçava. Seus soluços ecoavam pelas grandes paredes do templo. Agora que finalmente havia motivos para ser feliz, a felicidade estava morta em seus braços.
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