Sacrifício

12 Desconfiança


Notas iniciais
Voltei. Boa leitura!

Após de aproximadamente meia-hora, Mutano e Cyborg conseguiram resgatar quatro dos seis funcionários que estavam no andar da enfermaria. Victor procurava os corpos do restante já que o único sinal de vida que encontrara fora o das suas amigas abaixo de si. A Liga da Justiça já sabia do ocorrido, entretanto, Batman fora o primeiro a chegar para o alívio de Robin, que não estava preparado psicologicamente para lidar com a morena mágica que logo estaria presente. Estelar e Ravena ainda não saíram debaixo dos destroços pois o feitiço de Zatanna impedia a morena, e a ruiva provavelmente estava a protegendo. Se Rachel estivesse acordada, teria avisado como estava a situação. O comunicador das duas estava desativado. E por sorte o fogo ainda não atingira o andar que elas estavam. Conseguia ouvir os bombeiros e socorristas se aproximando com as suas sirenes e as luzes piscantes refletiam nas janelas dos prédios de Jump City.

— Mais alguém vai aparecer além de você? — perguntou ao morcego que estava parado em sua frente escondendo seu descontentamento por ter que retornar ao local e se deparar com o caos que mais uma vez a “heroína” dos Jovens Titãs havia feito. E muito provavelmente teria que inventar uma desculpa para que não a levassem detida com o intuito de evitar um confronto obviamente falho dos Titãs contra a Liga da Justiça. Estavam aguardando a mulher que pouco tempo atrás tinha um bom relacionamento, mas agora com a situação atual envolvendo o seu pupilo acabou criando certa desconfiança com a mesma.

— Não. Zatanna tem magia o suficiente para resolver tudo isso. Inclusive a Torre.

— Sem chance. Não quero que ela encoste mais um dedo aqui. — Estava furioso e extremamente incomodado por ter que lidar com a presença daquela mulher sem dar suspeitas de que sabia no que ela está envolvida — Inclusive, você esteve presente aqui na cidade na noite passada? — mudou de assunto drasticamente, fazendo com que Batman desviasse o olhar da Torre destruída para o mais novo, que estava com a camisa clara suja de sangue, curativos mal colocados e escoriações que provavelmente surgiram por uma luta recente.

Bruce demorou para responder. Dick Grayson novamente havia se envolvido com os assuntos da Liga sem permissão. E o pior de tudo é que não poderia repreendê-lo, pois o garoto que já era um adulto acabou seguindo os seus passos. Acabou dando um sorriso quase imperceptível, satisfeito por Dick ter feito o que ele mesmo faria.

— Não, Lanterna Verde e Zatanna foram interceptar uma possível ameaça a cidade. Não comunicamos vocês porque provavelmente envolveria a presença dos demônios de dias atrás — a voz séria e grave do moreno foi cortada pelo mais novo que massageava a testa com a mão suja de poeira. Havia colocado a máscara em seu rosto pela presença dos bombeiros e socorristas.

— Houve algum relato vindo do John?

— Eu estava em Gotham — respondeu recebendo um riso sarcástico vindo do mais novo, que ao colocar a mão na cintura logo fez uma careta por ter se esquecido do corte que estava ali.

— Ele não estava lá, Batman. E se estivesse, aquela mulher mexeu com a mente dele e o fez esquecer o que aconteceu — seu tutor cruzou os braços, intrigado, esperando uma explicação — Slade está sozinho em um prédio abandonado, e a magia de Zatanna está o impedindo de sair. Terra estava lá também, mas não a encontramos. A gravidade da situação seria grande o suficiente para assustar os civis, que estão agindo como se nada tivesse acontecido. Então me diga, por que o Exterminador está lá sozinho, cercado da mesma magia que está aqui, prendendo a Ravena e não detido e sendo interrogado?

O silêncio reinou entre ambos por alguns segundos, só se ouvindo a sirene da emergência que acabara de chegar. Bruce ficou incomodado por surpreendentemente não saber o que acontecia pelas suas costas. Ele iria pedir a localização até sentir a presença repentina da mulher que todos aguardavam.

— Boa noite meninos. Que grande estrago ocorreu por aqui, não?

Zatanna chegara com um ânimo que não reinava no local, tanto pela Torre destruída, mortos, fogo e duas mulheres soterradas, quanto para um início de madrugada no meio da semana. Estava vestida como se estivesse em seu show de mágica, com um vestido curto preto e apertado de mangas longas, salto alto e uma maquiagem que realçava ainda mais sua beleza, com a cartola em sua cabeça. Ela sorria para o caos que estava em sua frente com as mãos na cintura fina, como se estivesse satisfeita pela destruição da Torre que dava mais razões para levassem Ravena para longe da cidade.

— Creio que não seja o momento certo para tais comentários, Zatanna — o mais velho respondeu enquanto ela se aproximava dos dois — Já sabe o porquê de ter sido chamada.

— Sim, finalmente levaremos a garota-demônio.

Dick respirou fundo, se segurando para não falar o que ela merecia. A morena tinha sorte por Mutano não ter percebido sua presença. Provavelmente ajudava Victor com os destroços.

— Você vai retirar esse campo de força para podermos ver como ela está.

— Ela está dormindo enquanto Estelar segura ou empurra alguma coisa para não cair em cima delas — disse divertida com a situação, para provocar um pouco o moreno mais novo — Vai acordar rapidinho.

— Zatanna, não teste minha paciência — Robin ameaçou, ouvindo um riso baixo em resposta.

— Como se você pudesse fazer alguma coisa... — murmurou fazendo pouco caso do que ele disse antes de levantar as mãos cobertas por luvas brancas e falar palavras ao contrário, desmanchando o campo de força magenta que logo desapareceu. O brilho repentino chamou a atenção de todos, inclusive de Mutano que em forma de serpente saiu dos escombros com pressa e se transformando em uma águia desceu para de encontro a morena que sorriu abertamente ao avistá-lo. Ele se aproximou em passos largos, pronto para começar uma rixa com a maga até Grayson o segurar, o impedindo de piorar a situação.

— Se você não tivesse colocado essa merda aqui nós ainda teríamos uma casa, sua maluca! — gritou irado para a morena que lhe lançava um olhar provocativo.

— Está colocando a culpa em mim, garoto? Eu não sou temperamental, não fui eu quem li um livro que não deveria, e muito menos não ultrapassei um campo de força sem permissão.

Os três homens a encararam em silêncio com a expressão séria e com certa surpresa, e percebeu que tinha falado demais.

— Foi você que fez isso com ela? Estava observando tudo como se aqui fosse um reality show? — Dick começou a falar sem pensar — Que livro era aquele? Foi você que o colocou lá?

A morena agora desmanchou o sorriso e tentava o intimidar sem sucesso, com o olhar frio e desdenhoso.

— Ele era do meu pai, não sei como foi parar aqui, mas o quero de volta. A garota não sabia o que estava fazendo e usou uma magia que não era dela, e aí estão as consequências — apontou para a Torre que o fogo ainda se alastrava, mesmo com o esforço dos bombeiros — Não sairei daqui sem o livro. Se me entregarem, não vou me meter na decisão de vocês sobre onde esse pedaço de demônio deve ficar.

Garfield rosnou furioso para a mulher, que desviou o olhar de Grayson para ele, pensando o que poderia fazer para acalmar aquela fera. Bruce observava a discussão em silêncio, atento ao comportamento de Zatanna para descobrir se ela de fato falava a verdade. Ouviram um estrondo vindo de um dos andares da Torre, que ao direcionarem o olhar viram Koriand’r saindo do prédio com a morena desacordada em seus braços. Gar deixou a conversa de lado para ir de encontro as duas, que estavam imundas pela poeira, e alguns rasgos nas roupas.

O semblante de Zatanna voltou a postura que estava antes, e em silêncio voou até o fogo que destruíra a metade do prédio e o apagou, dispensando a ajuda dos bombeiros que lhe agradeceram. Mais acima encontrou Cyborg onde o teto quase caía. Ele encontrara os corpos dos dois médicos que não conseguiram serem resgatados a tempo. Estavam esmagados, um deles faltava membros e o homem-robô estava cabisbaixo por não ter conseguido salvá-los.

— Às vezes a morte pode ser evitada, Victor — disse lhe chamando a atenção enquanto pousava em frente aos corpos — para uma equipe de heróis, vocês estão mais matando do que salvando inocentes. E tudo isso para deixarem uma bomba relógio perto da cidade. Por que não percebem que a sua amiga é um perigo para todos, inclusive vocês? Veja o que aconteceu mesmo com o feitiço que fiz para o mal não atingir a cidade!

Ele a olhou para dar algum argumento inventado que lhe desse tempo para pensar, mas ficou sem palavras ao ver como a mulher estava vestida, ainda mais linda do dia que a viu pela primeira vez. Por alguns segundos esqueceu onde estava, até notar que a mulher percebera o olhar e lhe lançou um sorriso travesso. Se recompôs, olhando toda a fumaça, o sangue dos corpos se misturando com a poeira e cinzas perto dos saltos da mulher que tinha noção do que estava em sua frente, mas ignorava.

— Ravena estava bem, não foi o pai dela.

— Não precisa ser, ela é parte demônio — falou com a voz firme, já farta pela mesma desculpa — Mesmo que consiga matá-lo, como ela diz ser seu plano, ainda assim Rachel tem os genes de Trigon. Ele é imortal, mas pode ser contido. E existem sementes dele plantadas que já germinaram e só estão esperando-o morrer para tomar o seu lugar. Rachel tem irmãos, não sabia?

Ele negou com a cabeça e suspirou, frustrado.

A morena riu desacreditada enquanto tentava remover as cinzas de sua cartola, ele bufou já irritado por estar dando atenção a mulher que quase estava lhe convencendo a desconfiar da amiga de longa data.

— Pois então, pense bem sobre isso. Todo cuidado é pouco, não? Enfim, obrigada pela conversa, mas estou procurando algo que é meu. — Lhe mostrou o sorriso clássico dos finais de espetáculos dela, que o deixara fascinado dias atrás e o assustou quando suas mãos enluvadas começaram a brilhar — Riurtsnocer!

O chão começou a tremer e as cinzas que o vento frio do fim de outono levava retornava ao prédio, o deixando confuso e assustado. A Torre que estava ruindo agora lançava o som de vigas e concreto sendo reconstruídos, as lâmpadas acenderam enquanto os utensílios da ala médica retornavam para um refrigerador e a maca atrás de si quase bateu em seu braço. Os dois corpos sumiram de sua visão, junto com o sangue em meio ao chão já limpo da sujeira, branco, assim como as paredes. Ouviu a porta que ele arrombou minutos atrás voltar ao que era, o deixando dentro do local intacto junto da morena que batia a sola do sapado no chão com os braços cruzados, esperando impaciente o barulho cessar.

Do lado de fora Robin olhava indignado para o prédio que estava voltando a antiga forma, os cacos de vidro voltando a ser as janelas, cinzas se transformando em livros e roupas, e lamentou quando viu dois corpos no chão a alguns metros de onde estavam os bombeiros, um deles era o do médico que lhe atendera horas atrás.

Kori olhava fascinada para o prédio que já tomava forma, como que estivesse montando um quebra-cabeças gigante com os pedaços de parede se encaixando. Garfield estava sentado no chão transformado em um urso porque estava tremendo de frio e a cabeça de Rachel estava apoiada nele, já acordada e pensativa enquanto afagava os pelos do grande animal. O sentimento de culpa e a angústia dominavam sua mente, e segurava o choro para não piorar as coisas. Observavam tudo em silêncio, já que minutos atrás nem sabiam para onde iriam porque Dick havia deixado claro que não queria ficar na Torre de Vigilância da Liga da Justiça, e juntar sua equipe em Gotham era inadmissível. Enquanto Zatanna estava dentro da Torre com Victor, Batman aproveitou para pedir mais informações sobre o paradeiro de Slade e investigar sozinho ainda nesta madrugada. O pouco que Zatanna confessara sobre tal livro e o resultado do feitiço falho de Rachel já deu a entender que aquela destruição poderia ser considerada um “acidente” por Trigon não estar envolvido no ocorrido. Então por ora, a equipe continuaria unida por decisão dele já que era o único ali. A única coisa que impedia a noite continuar era a resposta da mulher teimosa que cabelos arroxeados.

— Ela não pode ficar com ele, eu preciso para terminar de ler o feitiço que estou —

— Foda-se a porra desse feitiço, Rachel! Só entrega essa merda para aquela mulher ir embora daqui de uma vez!

Os quatro presentes lançaram o olhar para Dick que nunca havia elevado a voz daquela maneira. Ele se recompôs depois de afastar os fios escuros sujos de poeira do rosto e dar um longo suspiro, com o estresse acima do limite. Kori franziu as sobrancelhas pela preocupação enquanto observava o estado do namorado com os curativos que fizera, agora estes estavam imundos, e outros já haviam caído deixando algumas feridas e novos arranhões a mostra. O dia fora intenso para todos, menos para ela que passou o tempo assistindo TV e depois impediu que sua amiga desacordada tivesse contato com o campo de força, que foi uma tarefa simples. Ela se aproximou e lhe deu um abraço para confortá-lo que demorou alguns segundos para ser correspondido. Mesmo com os corpos cheios de poeira ele fez questão de procurar o perfume adocicado da ruiva em seu pescoço, encontrando uma maneira de relaxar.

— O que deixaram vocês neste estado? Até agora não compreendi o que aconteceu — a ruiva perguntou sem se dirigir a alguém específico.

— Fiz um feitiço que tirei de um livro que eu pensei ser o certo, mas não era. Quando eu o desfiz, senti uma dor absurda e perdi a noção do que estava acontecendo. E Dick e Victor encontraram algo que ele não quer me envolver, mas tenho certeza de que tem a ver comigo — olhou torto para o moreno que já separado da namorada havia cruzado os braços, com o maxilar travado e olhar indecifrável.

— Eu encontrei algumas páginas com palavras no idioma sânscrito, — falou baixo para o grupo, chamando a atenção da morena — se puder traduzir agora seria ótimo para a minha investigação.

— Não é sua investigação, Grayson — Batman o alertou — se você descobriu algo, passe direto para mim. Por mais que tenha informações, elas não deveriam estar com você.

O moreno ignorou o comentário e moveu seus dedos ao seu pulso onde usava pulseira de metal escuro discreta para buscar as fotos que tirara a algumas horas atrás, logo as mostrando para o grupo em um pequeno holograma. As palavras chamaram a atenção de Rachel que após se levantar, aproximou-se do moreno com os olhos vidrados nas escrituras.

— Então, o que lê? — Garfield falou pela primeira vez, ansioso.

— É sobre um ritual de invocação demoníaca. E nas outras páginas... — ela arregalou os olhos, surpresa com o que via — é exatamente o feitiço que eu tentei fazer e não deu certo. Só algumas palavras são distintas. Onde encontrou isso?

O moreno abaixou o antebraço quando percebeu que Zatanna e Cyborg se aproximavam, deixando a morena frustrada.

A expressão da maga era de descontentamento por não ter encontrado o que queria, reconstruiu toda a Torre para recuperar os livros da morena que agora a olhava com desgosto tanto pela lembrança de ter sido atingida pelo chute e se ferido pelo campo de força, quanto por ter sentido a presença dela em seu quarto. Rachel tinha conhecimento de que o livro havia pertencido ao pai da mais velha, mas anos atrás surgiu a oportunidade de pegá-lo para si, sabendo que um dia ela o procuraria para fazer algo perigoso. Não existia feitiço benéfico naquelas páginas, todos mexiam com magia negra, ocultismo e o interesse de Zatanna pelo livro a deixou alarmada, pois existia a possibilidade de a mulher trair da confiança da Liga da Justiça. Entretanto, decidiu que entregaria o que ela queria e deu o alerta na mente do homem morcego que estava ao seu lado para não chamar a atenção dos demais. Deixaria para ele investigar e impedir uma futura ameaça. Estava cada vez mais cansada de tantos problemas que surgiram em menos de uma semana e não conseguiam resolver nenhum.

— Rachel, querida. Que bom que está acordada e bem! — a outra morena disse em uma falsa alegria, Garfield bufou enraivecido sem disfarçar, já humanoide. Cyborg observava as amigas para ter certeza de que estavam bem, com o olhar mais demorado em Rachel — Tive uma breve conversa com meu amigo Batman, e nós decidimos que —

— Não decidimos nada, Zatanna — a voz grave e imponente de Bruce a desconsertou por uns segundos pela interrupção — Eles estão gratos pela sua atitude, e agora que cumpriu o seu papel, já podemos ir embora.

— Não sem ter o que eu quero. Não encontrei o livro e tenho certeza de que está com você — apontou para a morena que revirou os olhos, que já entregou o livro que surgira em sua mão, tirando um sorriso satisfeito de Zatanna — Este mesmo! Ele é complexo demais para os seus estudos diários.

Ela olhou para o homem morcego e acenou com a cabeça, confirmando que não interferiria mais na situação da equipe, e lançando um beijo no ar desapareceu. Todos os Titãs suspiraram em alívio, e Batman que já havia recebido informações o suficiente de Grayson e o alerta e Rachel, decidiu que era hora de partir para a localização indicada pelo pupilo.

— Eu entro em contato.

Os Titãs em silêncio observaram o Cavaleiro das Trevas dar as costas e entrar no Batmovel, partindo a toda velocidade para longe dali.

— Vamos entrar, — Robin tomou a frente, sendo seguido pelos demais — vocês precisam do restante da noite para descansar. Amanhã teremos trabalho a fazer.

Notas finais
E então? No próximo capítulo a pessoa que tantos "amam" aparecerá! Hahahaha