Notas iniciais
Os meses se passaram muito rápido, a reunião do alto comando que haviam espionado tinha acontecido em Março, mas agora, a neve já ameaçava a cair, sinal que Novembro estava próximo. Talon fez alguns cálculos e percebeu que mais de trinta reuniões já haviam acontecido. Junto com Riven, descobriram pequenos fragmentos do plano daqueles homens, nada muito revelador, porém, que de alguma forma, ajudava na investigação. Praticamente toda sexta-feira, Talon estava naquele telhado, esgueirado no forro do teto, ouvindo as conversas daqueles homens. Riven acompanhou-o algumas vezes, mas Talon tinha sempre um mal pressentimento toda vez que saia das reuniões, preferindo deixar a garota cuidar de outros assuntos da investigação.
O fato mais significante de tudo o que haviam descoberto sobre o “grande plano”, fora na última semana, quando Phillipe apresentara um jovem oficial aos comandantes no Galão de Aço, seu nome era Jericho. Jericho Swain.
— Sexta-feira, dia 24 de outubro de X17, Galão de Aço –
— “Senhores, a conversa está boa, mas precisamos seguir com os planos.” – pronunciou-se Phillipe, o ministro das finanças de Noxus – “Os cofres públicos estão apresentando déficits crescentes, principalmente com o último carregamento de armas zaunitas que encomendamos.”
Boram se empertigou na cadeira, enquanto que Reece e Marcus voltaram a atenção para o homem. Phillipe se levantou e foi até a porta, abrindo-a por breves instantes e chamando por alguém. Talon suava, tamanha sua ansiedade. Ele observava tudo o que acontecia no ambiente através de um pequeno furo que havia no forro. O garoto percebia que as vezes o tal de Marcus encarava bem onde ele estava, mas decidiu acreditar que aquilo era coincidência. ‘Ou é coincidência ou estarei morto se ele resolver matar a pulga atrás da orelha...’.
Phillipe voltou com um homem que aparentava ter aproximadamente 30 anos. Usava uma máscara que cobria sua boca e mancava levemente com a perna direita.
— “Apresento-lhes, Jericho Swain.” – o homem curvou-se respeitosamente. Boram deu um meio sorriso enquanto que os outros homens o trataram com desconfiança. – “Ele tem me ajudado com as relações internacionais, as finanças e as estratégias comerciais.” – Phillipe fez uma pausa e encarou Marcus – “Agora, penso que ele possa lhe ajudar Marcus, ajudar a arquitetar a mobilização tática das tropas.”
Marcus encarou o olhar frio do homem e fez uma rápida leitura. Percebeu que a aura dele era carregada de ódio, mas era uma aura fina, afiada. Certamente o homem era um sociopata.
— “E quais são suas referências, Swain?” – inquiriu o general.
— “Passei com as melhores notas em Estratégia e Táticas militares na academia, escrevi o novo manual de conduta dos recrutas e reformulei o currículo da escola de oficiais.” – o tom era monótono, como se tivesse ensaiado a resposta.
— “Não me importa notas ou documentos que tenha escrito. Quais são suas experiências de batalha?” – irritou-se Du Couteau.
— “Não tenho experiências com combates general Du Couteau, atualmente eu comando um esquadrão de forças especiais.”
— “E o que esse esquadrão fez até agora?”
— “Executou os assassinatos necessários para que os planos de vocês pudessem continuar.”
Talon estancou na hora. ‘O quê?!’. Os homens no recinto ficaram surpresos, menos Du Couteau, que franziu o cenho.
— “Conte-me mais sobre.”
Swain puxou uma cadeira que estava recostada no canto da sala e se sentou, continuando a história:
— “Organizamos uma investida única para todos os alvos fora de Noxus. Infiltrei agentes em todas as cidades-estado de Valoran. Os agentes me passaram os padrões dos alvos e em apenas um dia, ordenei a execução.” – Boram sorria como se o Natal tivesse chegado. Reece encarava o homem com uma expressão vazia, Phillipe fazia uma pose de orgulhoso e Du Couteau apenas sustentava um ar desdenhoso – “Já aqui em Noxus, as mortes foram assíncronas pois levantaria a desconfiança dos agentes públicos.”
— “Alguma dificuldade na execução?” – questionou Marcus.
— “Somente o ferreiro. Ele percebeu Beatrice rondando sua casa durante uma semana. Tive que ir pessoalmente até o local para executar o serviço.”
— “Engenhoso.”
— “Obrigado.”
— “Não foi um elogio.” – rebateu o general. – “Conte-nos sobre sua perna.”
Marcus pareceu tirar um sinal de fraqueza do homem, pois na hora que comentou sobre sua perna, Swain fez um olhar de desgosto e esfregou a sua coxa direita como se ela estivesse o incomodando.
— “Foi neste último serviço. O ferreiro me percebeu no último momento antes da ativação dos hexplosivos. Quando virei as costas para o local, ele arremessou uma talhadeira na minha perna direita.”
— “Resultado?”
— “Tíbia e fíbula rompidas, ligamentos cortados e grande perda de tecido.” – resmungou.
— “Com tudo isso, como consegue andar ainda?” – impressionado com o dano sofrido, o general passou a reparar mais na perna do homem.
— “Algumas sequelas e nada mais.”
A reunião seguiu por mais alguns minutos até Boram dispensar todos. Talon rapidamente saiu dali, com muitas coisas na cabeça, não sentiu a presença assassina o seguindo de volta para o abrigo onde morava com Riven.
— Presente, segunda-feira, 27 de Outubro de X17 –
A cabeça de Talon estava cheia. Não sabia se contava para Riven ou não, pois a garota, apesar da inocência, poderia perder a cabeça e partir para cima do homem que explodiu a loja de seus pais. No dia da reunião, Talon chegou tarde propositalmente, não queria discutir os resultados da reunião com Riven. Quando adentrou o abrigo, viu que Riven dormia esparramada no sofá, deu um pequeno sorriso, pegou uma coberta e a cobriu, deitando-se em seguida no chão da sala e adormecendo rapidamente.
Quando acordaram no sábado, Talon omitiu o fato de Swain ter explodido a loja de seus pais, mas contou os demais detalhes. Ele precisava planejar uma forma de contar para ela sobre o fato sem que ela reagisse de uma forma agressiva. ‘Um presente, quem sabe?’.
Frustrada, Riven, agora com 13 anos, decidiu que daria o passo definitivo na sua vida. Já tinha feito a inscrição para o exército e iria hoje verificar se tinha sido convocada. Aproveitaria que Talon sairia para buscar itens para o café e almoço e iria até a junta militar em Ivory Ward.
— “Podíamos jantar na Capela Dourada nesta quarta-feira...” – falou Talon, tirando Riven dos seus pensamentos – Me disseram que a queima de fogos lá é muito bonita.
‘Capela Dourada?’ – espantou-se Riven. A Capela Dourada era um dos lugares mais finos de Noxus, frequentado apenas pela elite e pelo alto comando.
— “Como assim Talon? A Capela Dourada só é frequentada pela elite noxiana! Levaríamos meses para conseguirmos uma reserva. Fora que não temos roupas para ir lá...”
— “Não se preocupe, já planejei tudo.” – respondeu simplesmente o moreno. – “Topa?”
A loira apenas meneou a cabeça, aceitando o convite. Quando Talon se retirou, ela se organizou rapidamente e saiu também. Ivory Ward ficava a quase 20 minutos caminhando.
Esgueirando-se entre os becos e vielas, evitando as ruas principais, chegou em Ivory Ward, um distrito nobre de Noxus. Lá, somente a elite noxiana vivia, somente os oficiais comandantes, comerciantes muito ricos e pessoas chave viviam.
Dirigiu-se até a junta militar, que ficava próximo a entrada do distrito e conferiu a lista. Seu nome fictício estava lá: Riven Narauli. Abaixo de todas as listas de convocação estava um aviso:
“Aos candidatos: apresentem-se até 30 de outubro, as 06:00 no quartel general. Não é necessário levar objetos pessoais. Tudo será fornecido pelo exército.”
‘Quinta-feira...é agora ou nunca!’ pensou a loira. Voltou rapidamente para casa e começou a ler algumas anotações para que Talon não desconfiasse.
Talon demorou um pouco mais que o esperado com os itens, mas voltou com dois pacotes a mais.
— “Para você...” – disse entregando um embrulho grande para Riven.
A loira pegou o pacote e percebeu que ele era...’macio?’. Desembrulhou rapidamente e desembrulhou um belo vestido branco.
— “Não sabia qual cor comprar, então escolhi esse para você...” – fez uma breve pausa – “...achei que ficaria bonito.” – terminou constrangido.
Talon tentava ser gentil, entretanto, sua natureza era muito reclusa e agressiva, não existiam gestos de carinho ou de bondade. O mundo já o havia traído diversas vezes e sua guarda não ficava baixa nem mesmo por um segundo. Mas naquela manhã o moreno não soube explicar a razão de ter feito aquilo, comprar um vestido para a garota parecia tão surreal há alguns meses atrás que agora até parecia fazer sentido.
Afeto poderia estar nascendo dentro de Talon sem que ele se desse conta, mas seu subconsciente, treinado para matar, não deixava este sentimento florescer, ele agia como um mecanismo de defesa.
— “M-Muito obrigada, Talon!” – disse surpresa, abraçando-o logo em seguida. ‘Droga, droga, droga! Mil vezes droga! Porque você teve que deixar isso tão mais difícil?’. Riven queria chorar, por vários motivos distintos, pela atenção e cuidado dele, mas ao mesmo tempo, chorar pela raiva, pois aquilo tudo tornavam as decisões mais difíceis para ela.
Afastou-se do moreno e forçou um pequeno sorriso, encarando a peça com um olhar avaliativo.
— “Vou experimentar, espera um pouco.” – Talon apenas sustentava um sorriso suprimido em sua face. Sentou no sofá e aguardou Riven voltar.
Tamborilava os dedos levemente na cara. Passados dez minutos, a loira voltara vestida, e estava ‘impecável’.
A garota não sabia ao certo como fazer aquilo, mas vestiu rapidamente a peça, caindo perfeitamente em seu corpo, um grande sorriso surgiu em seu rosto.
Encarou por mais algum tempo o espelho e uma estranha sensação começou a envolvê-la, um nó foi se formando na garganta e, subitamente, Riven sentiu-se sufocada. Apoiou-se na parede e conteve as lágrimas ao máximo. Seu coração implorava para que ela fosse sincera com ele, mas sua mente a lembrava que aquilo tudo era por uma causa maior. ‘Causa maior?’
A loira era outra mulher naquele vestido, na visão de Talon. A situação era constrangedora para ambos, mas ambos aproveitaram o que viram. Talon fitava uma Riven encantadora, enquanto que, Riven fitava um Talon de boca aberta. ‘Impressionado? Hahahaha’.
— “Você...está...m-muito bonita!” – disse sem jeito o jovem assassino.
— “O-Obrigada!” – agradeceu envergonhada.
— “V-Você não precisa usar ele agora se não quiser...”
— “S--" — Riven pigarreou para não gaguejar novamente — "Sim."
— “Vamos aproveitar o dia, está cheio lá fora hoje...”
Tomaram café em silêncio, apenas aproveitando a companhia um do outro.
Quarta-feira chegou rapidamente, aumentando ainda mais a ansiedade do “casal”.
— Mansão Du Couteau, 17:00, 29 de Outubro de X17 –
O general descansava nos jardins ao fundo da mansão. Rabiscava em um velho papel vários esquemas de como proceder para encurralar o jovem Talon. Ouviu rumores no mercado central de que o garoto tinha alguma aptidão para assassinar pessoas. Mas e assassinos? Como reagiria? A grande questão não era essa, como o convenceria seria fácil, mas e a garota que estava com ele? Mal o general sabia que os ventos estavam a seu favor neste dia.
— “Vernon, chame os rapazes, temos uma missão um tanto especial hoje.” – disse para o seu faz-tudo que se encontrava próximo ao canteiro de rosas.
— “Helf e Ivan estão na cidade, acabaram de chegar da missão que o Sr. designou para eles.”
— “Ótimo. Precisamos apenas parar um garoto, acha que consegue?”
— “Não vejo grandes impedimentos Sr...procedemos com cautela?”
— “Sempre, meu amigo. Sempre.”
A noite chegou rapidamente e Du Couteau explicou o plano para os três rapazes que se encontravam a sua frente. Atrairiam Talon para fora do abrigo, o provocariam para leva-lo para longe da garota e então o sequestrariam. O plano seria executado após a queima de fogos do aniversário da Ivory Ward, pois as ruas estariam mais escuras e silenciosas, auxiliando-os na ”caçada” do tal garoto.
— Ivory Ward, 20:00, restaurante Capela Dourada -
O casal chegou no restaurante no horário marcado. Talon estava vestindo um terno preto com um sobretudo que ia até a metade da sua coxa. Riven usava seu vestido branco com um bolero cobrindo seus pequenos braços.
O maitrê encarava o jovem casal com desconfiança. Talon se aproximou e pagou uma pequena quantia pela sua reserva. O homem olhou um pouco torto, mas em seguida abriu um pequeno sorriso falso, chamando um garçom para levar os jovens até a mesa designada.
O Capela Dourada era um pequeno espaço bistrô, ficava no centro do distrito de Ivory Ward. Um restaurante muito concorrido. E muito caro.
Possuía um belo teto envidraçado, que dava vista para o céu estrelado, as cadeiras e mesas eram rústicas e davam um ar exclusivista ao ambiente. As janelas eram bem grandes e o espaço era razoavelmente amplo.
O casal se acomodou em uma mesa ao fundo, com uma vista para o amplo pátio do mercado. Algumas velas decoravam o ambiente e uma musica suave de piano tocava ao fundo.
Impressionada, a loira perguntou:
— “Como você conseguiu uma reserva aqui?”
— “Eu consegui de um oficial do alto comando que cobrava dinheiro em troca de proteção para um mercador de armas lá do distrito central...” – respondeu o moreno. – “Tecnicamente, não poderíamos entrar pois somos “crianças”, mas com a quantidade correta de ouro, e um lugar discreto como o nosso, fica fácil.”
— “E porquê viemos aqui?” — curiosa com tudo aquilo, Riven precisava da resposta.
— “Não sei, eu...” – fez uma pequena pausa – “Eu só quis te trazer aqui, acho bonito...e acho que combina com você.”
Um pouco encabulada, resolveu deixar a conversa morrer para observar ao seu redor o maravilhoso ambiente. Era maravilhoso, e poder experimentar aquilo era melhor ainda, porém, aquilo só aumentava o seu conflito interno.
Talon acenou para o garçom que estava ali próximo e pediu a sugestão de jantar para ambos. Conversaram timidamente sobre assuntos banais e aproveitaram aquela comida, que possivelmente, nunca mais comeriam na vida.
Faltando dez minutos para as 22:00, Talon levou Riven até o distrito militar, que no momento, estava enchendo de gente por causa da queima de fogos. Um pouco apreensiva, Riven olhava a todo o momento para as portas da academia. Logo menos estaria passando por ali, mudando completamente sua vida.
As 22:00 os fogos preencheram o céu do distrito, com várias cores bonitas. O casal se afastou um pouco da multidão e sentaram em uma mureta que dava uma visão ampla para os fogos.
Riven segurava a mão de Talon e tinha um lindo sorriso estampado no rosto. O moreno apenas a fitava, contido, mas impressionado com a beleza dela. Sem perceber, foi se aproximando da garota pouco a pouco, e quando os fogos terminaram, Talon já estava a menos de um palmo do rosto de Riven.
A loira virou-se para comentar alguma coisa com ele e se deparou com uma proximidade incômoda. Os olhos castanhos claros fitavam intensamente os castanhos avermelhados. Como se um imã a atraísse, Riven venceu a distância que restava entre os seus lábios e os de Talon.
No primeiro momento, ambos ficaram surpresos, mas em seguida, fecharam os olhos e aproveitaram o momento. Cada segundo ali era uma eternidade na cabeça de ambos. Pouco a pouco foram se dando mais liberdade e se fundindo em um abraço, e aquilo que tinha começado carinhosamente começou a se tornar selvagem, como se fosse o último suspiro de ambos.
Sem ar, se separaram lentamente, com os olhos fechados, respirando aquela sensação nova para ambos. Talon tinha um sorriso singelo no rosto, estava maravilhado com tudo aquilo. A loira ainda saboreava aquele momento e sustentava um pequeno “bico”.
Nenhuma palavra precisava ser dita, o momento já havia sido eternizado por ambos, a suavidade, textura, tudo fora guardado pelo casal. Voltaram de mãos dadas até o abrigo e aproveitaram mais um pouco, antes que o cansaço vencesse a boa vontade.
Quando Riven foi para o quarto, Talon levou menos de meia hora para cair no sono, sua animação o deixava inquieto, mas sua paz interior o acalmava. No quarto, a garota já tinha tudo separado, inclusive a espada quebrada que achara no que sobrou de sua antiga casa. Não deixaria nenhum bilhete de despedida ou qualquer coisa semelhante.
O desespero no interior de Riven parecia aumentar a cada segundo que passava. Sua cabeça já não mais funcionava direito, estava completamente confusa e triste. Queria muito ficar ali e passar todo o verão com Talon, compartilhar novas experiências, viajar, conhecer novos lugares e pessoas. Aquela angústia foi crescendo e crescendo dentro da loira até sair em forma de lágrimas. Soluçava em silêncio dentro de seu quarto. A vida era injusta, mas sacrifícios eram necessários.
Já passava da meia-noite quando a garota passou pela sala silenciosamente e encarou uma última vez o moreno. Uma lágrima solitária correu o seu rosto. Apertou firme o pequeno saco de roupas que tinha consigo, abriu a porta e disparou em direção ao ventre da noite.
Do lado de fora, o general Du Couteau e seus subordinados aguardavam em posições estratégicas, cada um entretido observando o bairro em volta onde Talon e Riven moravam.
Subitamente a porta se abre e todos entram em estado de atenção. Vernon era o único que estava sentado em um banco no pátio em frente ao abrigo. Quando a presença passou por ele, rapidamente fez um sinal para Du Couteau.
‘A garota?’ – analisou a situação. – ‘O que está acontecendo aqui?’ – com mais alguns gestos, o general pediu que os mesmos ficassem de olho no abrigo enquanto iria atrás da garota.
Uma leve brisa percorreu a espinha de Talon, que acordou assustado. Olhou para os lados para verificar se estava tudo bem e percebeu que a porta do quarto de Riven estava entreaberta. Levantou-se e foi verificar se estava tudo bem.
A realidade caiu como um balde de água fria para o jovem assassino. A cama estava arrumada e as gavetas abertas, ‘sem nada’.
Vasculhou os demais cômodos apenas para sentir o pânico começar a crescer dentro de si. Rapidamente vestiu-se e guardou suas adagas. – ‘O que está acontecendo aqui?’ – abriu a porta de casa e disparou em direção aos becos. Seu desespero era tão grande que não havia reparado nos dois homens no telhado e o outro sentado no banco em frente a sua casa.
Du Couteau seguiu a garota até certo momento, escondido entre as sombras de um dos telhados, quando subitamente ela parou e falou:
— “Para de me seguir, por favor!” – pediu a garota – “Se você veio me impedir, faça isso de uma vez...”
— “Pegue a direita e em seguida a esquerda no fim da rua. Você estará a dois quarteirões da Ivory Ward, e ninguém vai perceber.” – disse ainda escondido Du Couteau.
A garota, seguindo o conselho, chegou rapidamente a academia e aguardou por meia hora, alguns recrutas já estavam na porta e olharam ela chegar. Sem se intimidar, acomodou-se em um canto e esperou as portas abrirem. Uma nova vida estava por começar.
Talon seguia desesperadamente qualquer rastro que conseguia encontrar. ‘Pra onde ela foi?’ – olhava desesperadamente para todos os lados, em todos os cantos e não encontrava nenhum vestígio.
As lágrimas escorriam livres no rosto do assassino. Apenas uma palavra se repetia em sua cabeça: ‘Por quê?’. Ajoelhou-se e apertou com forças seus cabelos. Quando conseguiu se acalmar já era tarde demais. Helf, Ivan e Vernon cercavam o rapaz, que olhou a principio, confuso.
— “O que foi? Não sabem quem sou?!” – gritou com raiva para Vernon.
— “Só queremos conversar, garoto.” – respondeu Vernon – “Acompanhe-nos, por favor.” – indicou a direção oposta com a mão.
Ignorando o convite do homem, decidiu ir em frente, e ao ficar ombro a ombro com Ivan, o homem puxou Talon pela camisa com força e disse:
— “Acho melhor você aceitar o convite antes que as coisas fiquem ruins para você, jovem.” – disse em um tom calmo.
Frustrado e irritado com aquilo tudo, Talon sacou uma de suas adagas e afastou o braço de Ivan com grande destreza. Observou friamente os homens a sua volta e pensou consigo – ‘Três caras de médio porte...não vai ser difícil’.
No primeiro ataque, Talon soube que seria mais complicado do que imaginava. O homem mais baixo, com cabelo curto e pele escura, movimentava-se em grande velocidade e apenas ficava na cobertura dos outros dois. O que estava mais próximo dele tinha reflexos impressionantes, desviou de todos os golpes desferidos de adaga que Talon fez contra ele. O homem era alto e tinha um olhar gélido.
O terceiro homem estava parado, apenas observando. Foi o que lhe havia feito o convite um pouco antes da briga começar e, diferente dos outros dois, ele se vestia de maneira diferente. Uma calça de cetim preta, camisa de mangas compridas cinza e botas de couro. Utilizava um cinto com duas adagas e carregava junto a si, no braço esquerdo, uma grande lâmina de pulso. Os outros dois homens vestiam uma espécie de uniforme com calça e camiseta cinza e uma jaqueta azul por cima. Tinham várias adagas e pequenas kodachis embainhadas na cintura.
A cada segundo que Talon perdia atacando-os, era um segundo a menos na busca. Já passava das quatro da manhã e em breve o sol estaria nascendo, o que de certa forma, lhe tirava um pouco de vantagem, uma vez que utilizava as sombras para se locomover com sua velocidade.
O jovem moreno os atacou com grande rapidez, aparecendo nas costas de Helf e cortando levemente o seu pescoço, deixando os homens impressionados, porém, Talon percebia que os homens apenas estavam fazendo-o perder tempo. Pegou uma adaga em cada uma das mãos e desferiu golpes com força, fazendo os homens terem um pouco de trabalho.
O monstro que vivia dentro de Talon estava começando a ficar inquieto. ‘Não, não agora, por favor’ – suplicou para si o garoto. A adrenalina já invadia as veias de Talon e o desespero começou a tomar conta de si. A ferocidade de ataques obrigou até mesmo Vernon a entrar no meio da confusão.
O general Du Couteau conseguira voltar para o local onde havia deixado os homens, mais viu que eles não se encontravam mais lá. ‘O garoto! Deve ter saído atrás dela!’. Rapidamente seguiu as pistas de seus homens, e, quando estava chegando próximo ao local onde o combate estava acontecendo, desequilibrou-se devido a uma telha frágil e, na velocidade que estava, agarrou-se em uma calha que estava próxima para não despencar de uma altura de seis metros. No processo, Marcus cortou a mão mas ignorou o ferimento e continuou até chegar na pequena praça onde seus homens tinham dificuldade em conter o jovem.
— “Vejo que estão se divertindo sem mim... que pena.” – fingiu um rosto decepcionado. Os homens, ao ouvirem a voz, pararam de ir para cima de Talon e recuaram, deixando o garoto confuso. ‘Mais um? Que inferno, já vai amanhecer... ’
— “Estávamos com um pouco de dificuldade general.” – comentou Ivan, perguntando em seguida – “Podemos leva-lo agora?”
Talon achou estranha aquela pergunta, mas quando começou a analisar a cena, viu que o homem que acabara de chegar tinha sangue em uma das mãos. Ele encarava o jovem com uma seriedade ímpar, como se o analisasse. Levou apenas um segundo, mas Talon se tocou. O homem tinha ido atrás de Riven e havia voltado para buscá-lo.
— “Cadê ela?” – murmurou o garoto. Tremia completamente. – “CADÊ ELA?!!” – gritou com força. O general encarou a figura do garoto a sua frente com desdém e respondeu:
— “Quem sabe...”
Aquilo foi mais do que suficiente. A tremedeira parou subitamente. A respiração ficou calma e ritmada. Os homens se olharam confusos e antes que qualquer um pudesse falar ou fazer algo, Talon reduziu os seis metros que os separavam em menos de um segundo, surpreendendo a todos, fazendo com que Ivan, que estava na frente do general, caísse no chão, sem cabeça.
Abismados com aquilo, os homens se separaram na tentativa de cansar o garoto, porém, perceberam que o jovem estava atrás somente do general, que parecia se divertir com a situação.
— “Volta aqui seu desgraçado!” – a voz estava mais rouca, anasalada. – “Vou arrancar sua cabeça também!”
— “Você pode tentar me arranhar, se conseguir chegar perto de mim, é claro.” – devolveu Marcus, provocando o garoto.
Em dez metros, Talon aproximou-se o suficiente para conseguir cravar a adaga nas costas de Marcus, mas antes que o fizesse, Helf, o homem mais baixo, apareceu subitamente na sua lateral esquerda e fez um corte enorme em seu braço, o chutando em seguida.
O garoto caiu em um canteiro de plantas, mas ao invés de reclamar de dor, o menino riu.
— “Hahahahaha” – era uma risada vazia – “Vou arrancar sua cabeça também! Você me atrapalhou.”
Marcus adquiriu uma distância segura e fez alguns sinais com a mão para que Vernon desse suporte para Helf, mas não houve tempo para isso. Talon disparou para cima do homem uma saraivada de adagas que Helf desviou com habilidade, entretanto, Talon usou isso como distração e com um movimento muito rápido ele já estava nas costas de Helf, com um punhal atravessando o seu peito.
Apenas um olhar de Talon serviu para que Vernon sentisse seu sangue gelar. O garoto, como um grande felino, retirou o punhal das costas de Helf, que agora caia morto no chão, e apontava em direção a Vernon, como um aviso: ‘Se você se intrometer, vai pagar’. Ao se virar de costas para procurar Du Couteau, recebeu um forte soco na cara, soltando o punhal no chão e abrindo seu lábio inferior com um grande corte que jorrava sangue.
O general parecia transtornado com o surto do garoto, havia perdido dois homens para aquele garoto. O moreno, estirado no chão pelo impacto, rastejava em direção ao pé de Marcus, que agachou lentamente e falou:
— “Satisfeito, Talon?”
Sem forças para mais nada, Talon apenas chorou um forte choro silencioso. Vernon se aproximou e o general apenas fez um gesto para que ele ficasse longe.
— “Ser abandonado é doloroso, eu sei, mas a vida não é fácil...” – suspirou – “Você sempre terá a chance de recomeçar garoto, esse é o grande presente que a vida te oferece.”
— “... não sem ela.” – fungava, tentando controlar-se.
— “Me deixe provar que você só precisa de força de vontade pra viver.” – disse Marcus, estendendo a mão para o garoto.
— “Não vou ser escravo de ninguém, prefiro morrer!” – disse ignorando a mão do homem.
— “Não preciso de escravos, Talon.” – fez uma pequena pausa – “Preciso de um filho, um pupilo.”
— “Como sabe meu nome?” – perguntou, tentando se sentar no chão.
— “Longa história, meu jovem, longa história.” – estendeu a mão novamente.
— “Não quero ir com você... a Riven... você matou ela...” – disse ressentido.
— “Acha mesmo que eu, um nobre general noxiano, saio no meio da noite para matar menininhas?” – o general viu que o garoto encarava sua mão suja de sangue seco – “Isso aqui foi um acidente enquanto estava vindo para cá, e não o que você está pensando...”
Sem dizer mais nada, Talon se levantou e apenas disse:
— “Tudo bem Sr. general, mesmo não acreditando em você, ainda estou em dívida. Só tenho uma condição: eu servirei a você e somente a você, não quero ser um porco noxiano que trabalha para o alto comando.”
Com um pequeno sorriso nos lábios, Marcus apenas respondeu:
— “Melhor ainda.”
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