Notas iniciais
Viver, ou melhor falando, sobreviver no submundo de Noxus não era uma coisa fácil. Aquela cidade ganhou o título de mais cruel e fria de Runeterra e aquilo tinha um por que. Para os noxianos, de nada valia a palavra, não importava o sexo, não importava sua raça, muito menos sua classe social. O que realmente importava, era a força. A força era o que fazia você ser reconhecido naquela cidade cinzenta.
A vida era difícil para quem morava nas ruas, ainda mais para quem era órfão. Para Riven, uma garota de cabelos loiros quase platinados não era diferente. A vida para ela nunca foi fácil e certamente nunca seria. E ela sabia disso. Ela sabia que não seria fácil sobreviver ali. A maior parte do tempo buscava uma maneira de viver melhor nas ruas, seja se alimentando de restos dos restaurantes que ficavam próximos ao centro comercial de Noxus, seja catando papéis na rua para botar fogo em um barril de óleo em um dos becos para se aquecer ou até mesmo despistando soldados do alto comando noxiano, que a viam como uma ameaça para o comércio da cidade. Mas sua vida nem sempre foi assim.
Desde criança ela tinha o sonho de ser reconhecida e respeitada em toda a cidade. Queria ser forte, de entrar para o exército e ser a melhor guerreira de Noxus. Tinha o sonho de ser temida nos campos de batalha. Mas isso mudou, tudo mudou. Sua vida foi virada de cabeça para baixo naquele dia. O dia que persegue Riven por todos os seus sonhos, os transformando em pesadelos cruéis.
Sua vida era assim desde quando havia perdido seus pais adotivos. O inferno e o céu estavam separados por apenas uma tênue linha chamada sanidade. Seu pai adotivo era um ferreiro respeitado em Noxus. Boram Darkwill o chamava de “Brasa Viva”, por viver sempre com os metais das armas brilhando na cor do fogo. Seu nome era pouco falado, mas Riven lembrava até hoje: Masamune.
Riven sempre ia com seu “pai” ao trabalho, não entendia muito do processo de fabricação das armas, mas admirava o trabalho. Era divertido e havia tirado algumas lições valiosas daquele lugar. Masamune vivia dizendo: “A espada reflete o seu portador”, ou então, “Uma espada quebrada é mais do que necessária para tipos como você”, mas a principal lição que havia aprendido era: “Tudo que está quebrado, pode ser reforjado”. Seu pai havia dito isso em uma ocasião em que Riven ganhara uma pequena espada quadrada. A espada em si não era uma lâmina, mas Masamune havia a presenteado, pois observava nos olhos da pequena a admiração que ela tinha pelas armas. O presente durou apenas um dia, a menina, descuidada, deixou sua pequena arma cair em um caldeirão de forja, dentro da loja do seu pai. Chorou durante horas nos fundos da loja, e, ao fim do expediente, seu pai veio ao seu encontro com um semblante tranquilo e falou:
– “O que aconteceu pequena?”
– “Minha espada caiu dentro daquele balde gigante” – disse Riven, indicando com a sua pequena mão o enorme caldeirão.
Masamune foi até o caldeirão, e, com luvas de proteção, tombou uma pequena quantia de ferro líquido em uma forma de adaga. Com um martelo, pinça e um balde de água o homem forjou rapidamente uma pequena adaga de 15 centímetros. Riven, curiosa, se aproximou e viu seu pai trabalhar no objeto.
Após terminar, ele se virou para a criança e indicou com a cabeça um banquinho que havia ali próximo.
– “Filha, existem algumas coisas na vida que não é possível consertarmos, mas essas coisas não são materiais” – Masamune aproximou seu dedo indicador na cabeça de Riven e logo após moveu ele em direção ao seu peito, então continuou. – “Nossos sentimentos são cristais de diamante, somente a natureza consegue forjar com tamanha perfeição e, durante a vida, nós vamos polindo esse cristal até ele virar uma joia perfeita.” – fez uma pausa, expirando um pouco de ar. – “No entanto, objetos e coisas materiais, que pegamos para nós ou que damos aos outros, são coisas que podem ser refeitas, afinal, tudo que está quebrado, pode ser reforjado.” – terminou, entregando a pequena adaga para Riven. – “Considere isso como uma etapa de transformação: quando você achar que perdeu, trabalhe e se esforce para reconstruir, é isso que nos faz felizes, é poder recomeçar várias e várias vezes.” – completou, levantando-se e estendendo a mão para Riven – “Vamos jantar?”
Sua mãe era uma pessoa caridosa, tinha uma aparência doente e saia muito pouco na rua. Alessa era o nome dela. Ensinou Riven a ler e escrever, além das operações básicas de matemática. Antes de dormir, ela sempre contava uma história para Riven, de guerras épicas entre as nações a contos de fadas. Masamune e Alessa não podiam ter filhos, e aceitaram de bom grado quando alguém misteriosamente deixou Riven, ainda uma recém-nascida, na porta de sua casa, há nove anos atrás.
A vida perfeita de Riven durou apenas alguns meses, faltando apenas quinze dias para completar dez anos, Riven saiu de casa em uma manhã fria e nublada para comprar alguns itens para o café da manhã na mercearia a algumas quadras de sua casa. Havia tido pesadelos durante a noite, até sua mãe vir e lhe acalmar, dizendo que aquilo eram somente sonhos. Levou dez minutos para chegar à padaria, pegou os itens que estavam em uma lista feita por sua mãe e, enquanto aguardava para pagar, ouviu uma explosão no lado de fora, o estrondo tinha sido tão forte, que alguns vidros da vitrine haviam rachado com a força do impacto. Assustados, os clientes foram para rua para saber o que tinha acontecido. Ao longe, na direção que Riven veio, uma nuvem de fumaça subia lentamente. Aos poucos as pessoas foram saindo nas ruas e janelas para ver o que havia acontecido.
Primeiro veio o susto, depois o atordoamento, então os sentimentos se misturaram: pânico, ansiedade, preocupação, adrenalina, desespero. Riven largou tudo no chão e correu em direção ao local. Sua cabeça, freneticamente dizia para que ela voltasse, mas ignorou, não seria possível, ou seria?
– “NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO” – gritou com a força da sua alma ao ver sua casa totalmente despedaçada. As casas próximas estavam destruídas também. Caiu de joelhos na calçada do outro lado da rua da sua casa. Rapidamente uma aglomeração se formou próximo ao local e muitas pessoas comentavam a tragédia, ignorando a pequena garota que chorava no chão.
Riven levantou-se e saiu rapidamente entre a multidão, trombando em algumas pessoas. Foi em direção ao centro e entrou no primeiro beco que viu, sentou e terminou de derramar suas lágrimas.
Desde aquele fatídico dia até então, Riven teve que aprender a arte de viver nas ruas, no submundo a céu aberto de Noxus. Roubar foi o primeiro passo, lutar para se defender o segundo e por último, o homicídio. Este último havia sido motivado por condições extremas de miséria e fome, onde Riven atacou um homem que voltava com uma sacola cheia de comida tarde da noite. Seus olhos vermelho sangue na escuridão do beco fitavam o homem, que andava a passos rápidos, como se soubesse que era uma enorme presa em um mar de tubarões. A mente de Riven estava nublada neste dia, estava sendo movida pelo simples desejo de sobreviver a tudo aquilo, atacou o homem impiedosamente com uma barra de ferro na cabeça assim que ele passou pelo beco em que estava. O homem caiu com a cabeça jorrando sangue, o olhar vitrificado de pânico em sua face povoou os pesadelos de Riven durante seis meses, até a mesma aceitar o fato.
Novos episódios como o anterior se repetiram até que Riven não teve mais forças para continuar com aquilo. Matar para sobreviver. Temia que não sobrevivesse naquele ritmo estando em Noxus. Quando completou 12 anos, chegou a uma situação crítica, não tinha mais forças para continuar roubando ou matando e estava sentada encostada numa lixeira, enrolada numa coberta tentando se esquentar. A frente da lixeira, ela tinha deixado uma placa. Nela estava escrito “Por favor...estou faminta.” mas ninguém era solidário em uma cidade onde força era motivo de orgulho, as pessoas enxergavam sua aparência fraca como se fosse uma barata gigante, ninguém lhe dava comida, muito menos dinheiro.
Já estava há uma semana nessa situação, comendo apenas grãos e tomando água das calhas de chuva até que ouviu um barulho próximo ao local em que costumava ficar. Alguém havia deixado cair uma sacola com uma baguete dentro. Olhou para os lados para procurar a alma caridosa que havia lhe dado a única refeição que tinha visto naquela semana. Não viu ninguém. Então olhou para cima. Havia ali uma silhueta estranha, imersa nas sombras, empoleirada no balaústre da sacada da casa a qual estava encostada, não era possível enxergar suas feições.
– "Obrig--" — Antes que pudesse completar o que ia dizer, uma voz masculina se manifestou.
– "Não deixe suas forças desaparecerem para poder agir". – Então ela encarou a sacola e o olhou logo em seguida.
– "Mas por--" — E novamente, antes que ela pudesse dizer algo, a voz a cortou.
– "Não pergunte, apenas pegue e coma".
O silêncio tomou conta do local. Ela pegou o pão, e deu uma mordida. A sombra se moveu um pouco em direção à luz e ela pôde vê-lo. Era um garoto. Ele a fitava e tinha um ar levemente interessado, mas não o bastante para perguntar qual era o seu nome. Alguns minutos se passaram em pleno silêncio, era possível apenas ouvir o barulho do papel amassando enquanto Riven ia devorando o pão rapidamente. Ao ver a garota terminar de comer, ele se levantou para ir embora. Nesse momento, o silêncio foi quebrado.
– "Qual é o seu nome?" – Riven sussurrou, na esperança de uma resposta.
Ele a olhou de canto e sussurrou de volta com um pequeno sorriso nos lábios – "Meu nome...é Talon". – E então saltou em direção ao telhado da próxima casa e sumiu nas sombras da noite.
Logo depois de o garoto ir embora, ela se levantou e olhou para a lua. E proferiu as seguintes palavras: “Deixe as dúvidas para trás”. Decidida, ela caminhou pelos becos escuros até o subúrbio, voltando para sua antiga casa, lá remexeu nos escombros durante boa parte da madrugada até encontrar uma espada. A única espada que havia achado estava quebrada, mas emitia uma estranha energia verde e tinha alguns escritos rúnicos. Ficou com ela e foi arrumar outro beco para morar, não sem antes rezar uma prece e agradecer aos ensinamentos de seus falecidos pais. A partir daquele dia ela iniciaria uma jornada nova, em busca de um futuro glorioso.
Algumas semanas se passaram e a pequena garota loira ainda pensava no garoto de capuz que havia lhe dado comida. Ele insistia em esconder o rosto em seus sonhos. De algum jeito, aquele momento mexeu com ela. Aquele garoto a fez sentir algo que ela já havia esquecido na vida: afeto. De certa forma, aquele afeto era diferente do que havia sentido com seus pais, era uma sensação confortante. Ela queria reencontrá-lo para poder sentir aquilo de novo. Concentrou-se em memorizar o rosto do menino em sua cabeça e voltou para o local onde o encontrou. Fez uma ronda pelas redondezas e quando anoiteceu, ficou escondida em um telhado próximo, na tentativa de encontra-lo ali por perto.
A sua tática tinha dado certo, viu um vulto saltar rapidamente de um telhado para o outro, Riven se impressionou com a velocidade do garoto, era muito ágil, como se saltasse de uma sombra para outra, como se dançasse sobre o véu da noite.
Quando Riven achou que estava perdendo seu rastro, parou no próximo telhado onde tinha visto a última sombra para respirar, pois estava extremamente ofegante com a perseguição. Ao apoiar as mãos no joelho e abaixar sua cabeça para tomar fôlego, sentiu uma lâmina em seu pescoço. Prendeu a respiração por um momento, até ouvir aquela voz que ansiava:
– “Patético...” – era Talon, sua voz estava um pouco mais fria do que no último encontro – “Que descuido da sua parte, garota! Por que estava me seguindo?” – retirou a lâmina do pescoço de Riven, que rapidamente se virou para o garoto.
– “Queria te encontrar de novo, precisava te agradecer!” – disse Riven fazendo uma mesura – “A propósito, meu nome é Riven” – completou estendendo a mão para Talon.
Talon observou friamente a mão estendida de Riven e a tocou ligeiramente, sentindo uma maciez até então desconhecida por ele. Ergueu os olhos para a garota e perguntou:
– “Vejo que conseguiu dar a volta por cima” – disse observando a garota, que estava com um ar muito mais saudável. – “Vem comigo, não podemos ficar parados aqui, é perigoso”. – vendo que Riven ia perguntar o motivo – “Já te explico, apenas me siga, vou devagar para que você me acompanhe”. Riven assentiu e seguiu Talon, o ritmo dele era frenético, diversas vezes ela quase caiu dos telhados, Talon a ajudou em todas. Estavam chegando próximo da divisa entre o subúrbio e o centro quando Talon subitamente parou e se agachou, Riven achou estranho, mas fez o mesmo. Talon apoiou-se entre as telhas e foi rastejando até a beirada do telhado, esgueirou-se e olhou para um beco que estava vazio, até que se virou e disse para Riven:
– “Vou checar para ver se está tudo bem, quando eu assobiar, você pode descer” – disse, saltando na escuridão do beco. Riven aguardou menos de dois minutos quando escutou o assobio.
O beco de Talon era praticamente vazio, não havia lixos ou ratos, fazia a separação do fundo de duas lojas, uma padaria e uma sapataria, as paredes altas, de aproximadamente sete metros, mergulhavam o beco em pura escuridão, mesmo a luz das ruas ou da lua não penetravam naquele espaço. Havia uma porta no final do beco, Talon se aproximou dela e abriu. Curiosa, Riven o seguiu. Ao atravessar a porta, Talon acendeu um lampião, revelando um cômodo com um pouco mais de nove metros quadrados. Havia uma cama de solteiro no canto e uma estante na parede ao lado da porta. Ao lado da cama dois banquinhos e um criado mudo, que Talon usava como mesa.
– “Sente-se.”
Chocada, Riven obedeceu. Talon mexeu em uma sacola que estava na pequena estante e tirou uma garrafa de lá, tinha agua fresca. Trouxe alguns biscoitos e um pão. Talon soltou uma pequena risada, Riven tinha os olhos esbugalhados. Não via biscoitos a mais de dois anos, desde que perdera seus pais.
Comeram em silêncio até que Talon permitisse que ela falasse.
– “Você tem uma casa para morar!” – disse impressionada – “Como você paga isso?” – antes que Talon pudesse responder, Riven fez várias perguntas ao mesmo tempo, como se sua curiosidade fosse um trem desgovernado caindo de um penhasco – “De quem você estava fugindo? Por quê você me deu pão aquele dia? Onde est--” – antes de terminar a pergunta, Talon a interrompeu:
– “Riven, certo? – disse recebendo anuência da outra — Pare. Sem afobação.” – disse erguendo a mão em sinal de pare. – “Te dei um pouco de comida e um refúgio temporário, me fale sobre você e depois conversamos sobre mim.” – seu semblante sério mostrava que isso não era negociável.
– “Mas...” – tentou insistir Riven, mas Talon foi firme.
– “Você primeiro.”
– “Tudo bem então...” – suspirou cansada. Começou a contar a sua história para Talon, que tinha um olhar concentrado e penetrante, que desconcertava a garota. Riven chegou a derramar algumas lágrimas quando contou sobre seus pais, mas parece que isso não comoveu o jovem que a observava. Uma hora depois, após escutar os relatos em silêncio, Talon falou:
– “Interessante.” – sua expressão era de pura seriedade – “Essa cidade transforma nossas vidas em um piscar de olhos...” – surpresa com a seriedade dele, Riven fez menção em falar algo, mas ele continuou – “A explosão na casa de seus pais não foi acidente, tenho certeza.”
BOOOOM! Uma bomba havia explodido no coração e na mente de Riven naquele momento. Talon percebendo a expressão dela, rapidamente se pronunciou:
– “Calma, antes de falarmos sobre o que penso, quer ouvir sobre mim?” – indagou a loira.
Isso foi a única coisa que conseguiu desarmar Riven no momento, a curiosidade que tinha do garoto. Meneou que sim com a cabeça e Talon se levantou e deitou-se na cama, apoiando as mãos atrás da cabeça.
– “Bom, eu nunca sei por onde começar, mas ai vai: meu nome é Talon, tenho 14 anos e sou o assassino mais procurado do mercado central...”
A garota arregalou os olhos e passou a fitá-lo com intensidade. As coisas começaram a ficar interessantes...
Fale com o autor