Sacrifício
20 Recomeço
Notas iniciais

Mais uma vez ela acordou com um movimento na cama. Mas este não foi de nenhum animal. Garfield a abraçou por trás e beijou seu pescoço. Sensação boa, porém, não queria ser acordada tão cedo.
— Bom dia. Infelizmente você precisa levantar — sussurrou em seu ouvido e mordeu o lóbulo da orelha, a respiração dele lhe causou um arrepio. Mergulhou o rosto no travesseiro, não queria abrir os olhos de jeito nenhum. Sentiu ele afastar as cobertas e levantar parte do seu moletom, expondo a pele de sua barriga, se arrepiou novamente, com o ar gelado — Ah, as escoriações já sumiram. Isso é ótimo! — Ela não queria se mexer, até sentir o aroma.
— Café — murmurou antes de espreguiçar-se, ouviu a risada divertida se afastando e zombando “pra isso você se mexe!”. Abriu os olhos para observar o retorno do namorado com a maior caneca da Torre em mãos. Nunca amou tanto uma cena como esta. Ao se sentar em sua cama pode sentir seu corpo extremamente relaxado graças à massagem maravilhosa que recebeu ontem à noite. Estava sendo mimada por ele, e não podia negar que estava adorando o momento.
— Ele está bem forte, madame. Eu mesmo experimentei e detestei — lhe estendeu a caneca com uma expressão amarga, como estava a bebida — Tive que trazer até aqui, senão a gente vai se atrasar.
— Que horas são? — a reunião na Sala da Justiça seria às 8h30. No fim da noite Dick havia os avisado.
— 8h. Não tive coragem de te acordar mais cedo — coçou a nuca, incerto se a decisão dele teria sido a correta — Eu sei que você se apronta rápido, então não encontrei motivos para te acordar na mesma hora que o Dick. Na verdade, eu acho que ele nem dormiu.
Ela só acenou enquanto bebericava a bebida favorita. Realmente não demorava para se arrumar, ainda mais se era apenas colocar seu traje e sair. Notou que ele já estava pronto, e com um penteado estranho, deixando os fios verdes para trás. Deve ter usado o gel de Grayson.
— Você está ansioso. Quando está ansioso faz bobagem, então peço encarecidamente que desfaça o que fez no cabelo. Está esquisito — foi sincera, fazendo com que ele fosse ao grande espelho em frente a cama e tentasse ajeitar o estrago. Sugeriu que ele fosse retirar o gel no banheiro, e ele sumiu por lá.
Agora aquecida e bem acordada, levantou-se e foi em direção ao seu closet. Pegou seu macacão escuro desta vez, com as calças e mangas longas. Ouviu uma batida no banheiro e um palavrão vindo de Gar. Ele bateu a cabeça na pia pela pressa.
Após ele lhe dar espaço com uma toalha na cabeça, ela fechou a porta e fez sua higiene matinal. Não estava preocupada com o que viria porque não se arrependera de nada, e pelas palavras do Senhor Destino sua história já estava escrita. Não havia nada a temer. Garfield estava nervoso porque não ouviu a conversa, mas com o tempo ele ficaria melhor. Ou não.
Sentiu uma pontada de tristeza vindo dele, e após pentear o cabelo abriu a porta, se deparando com o rapaz desanimado em frente ao espelho novo. Ele estava pensando em Tara. Respirou fundo e com cuidado se aproximou, apoiando a cabeça em seu ombro. Fitou os olhos escuros pelo reflexo do espelho.
— O funeral será hoje, depois da reunião — suspirou, desgrenhando os fios verdes úmidos — Vai ser difícil para você estar lá.
— Eu não vou.
Sentiu o ombro dele ficar tenso. Ficou em sua frente e segurou o rosto entre as mãos, o tanto de alívio, agora ele também tinha de tristeza.
— Além de eu não ter considerado ela como uma amiga, heroína e companheira de equipe, fui eu quem a matou. E não foi uma boa morte, Garfield — confessou, assistindo uma lágrima escorrer. A secou com o polegar — Não vou mentir para você, Tara sofreu em minhas mãos. E eu sei que se tivesse a oportunidade, faria de novo. Precisa saber disso vindo de mim. Se for para mantermos um bom relacionamento, ter conhecimento disso é necessário. Sei que ela foi importante para você... mas para mim nunca foi.
Ele pegou sua mão úmida pela lágrima e a beijou, logo a puxando para um abraço. Não segurou o soluço e o choro seguinte. Alisou suas costas enquanto tentava o consolar em vão. Ele estava segurando aquelas lágrimas o tempo todo.
— Rachel, por favor... Sei que você detesta fazer isso — sussurrou em meio ao enlaço, segurava sua capa com certa força — Tira isso de mim — ela suspirou pesadamente — por favor.
— Não é o certo, Gar. Você pode se arrepender mais tarde.
— É perda de tempo, Raven. Não quero gastar meus dias chorando por alguém que me magoou tanto. Ela me usou o tempo todo, e não é justo chorar pela morte dela. Agora é hora de seguir em frente, como no videogame, sabe? — fungou antes de rir desanimado — Já consegui experiência o suficiente, posso deixar isso pra trás e recomeçar. Faça isso, por favor.
Fitou os olhos chorosos e suplicantes banhados em lágrimas. Encostou sua testa na dele, como estavam fazendo com certa frequência. Um grau elevado de intimidade, que fazia com que se sentissem um só. A respiração foi ficando mais calma, e o choro diminuiu. Só retirou o suficiente para que não precisasse mais vê-lo chorar tanto como agora. Nunca mais queria presenciar essa cena.
— Garfield, não me peça para fazer isso novamente — seu tom de voz foi firme, para que ele levasse seu pedido a sério — Você tem que aprender a lidar com crises emocionais, compreende? — ele confirmou com a cabeça, respirando fundo após se acalmar um pouco — Eu vivi com dores no peito por anos, e nem a meditação fez eu me sentir melhor. Vocês que fizeram nesses últimos dias sem que eu percebesse. Com a convivência, meus desabafos. Chorar no seu peito, ser amparada por Kori, provocações com o Dick e os “bom dia” de Victor, já que ele sempre foi a primeira pessoa que eu via pela manhã na cozinha, após acordar com sensação de vazio por dentro. E com tudo isso, não. Eu ainda não estou curada e sei que levará um bom tempo para isso acontecer. Mas tenho vocês e estou livre do meu pai. Já é um grande começo. O mesmo serve para você.
Não lembra da última vez que falou tantas palavras seguidas em meio a um diálogo. Ficou surpresa consigo mesma. Observou ele se afastar e ir em direção ao banheiro em silêncio, provavelmente para limpar o rosto. Respirou fundo. Aquele seria uma manhã cansativa para os Titãs. Torcia para que aquela reunião não durasse o dia inteiro.
— Enfim! Eu estou pronto. O restante já saiu? — tentou inutilmente demonstrar animação em meio a um sorriso forçado. Demorou poucos segundos até assentir. Estavam sozinhos — Então vamos lá, gatinha.
—
Após algumas horas na Sala da Justiça, a morena já não aguentava mais tanta repetição. E ver o Caçador de Marte a encarando descaradamente para procurar algum resquício de mentira a deixava cada vez mais desconfortável, por também estar em meio àquelas pessoas que detestava e ter que ficar quieta, a pedido de Bruce antes de entrarem. Cada um teria sua vez e falar, e ela foi a primeira. Contou todo o ocorrido desde o incidente na cidade, problemas na Torre, com a Zatanna, seguindo para Constantine, as mortes, banimento, Senhor Destino e ressurreição de Garfield. A maioria reclamou da falta de respeito vindo do loiro que estava ausente e mesmo sendo contatado ignorou o chamado, como se fosse uma ligação de cobrança de cartão de crédito. Se segurou para não soltar um pequeno sorriso. Após as versões e opiniões de todo o restante, Batman tomou a fala, e suas últimas palavras encerraram a longa conversa.
— Ravena concluiu uma missão que estava em aberto por anos. Esta e outras dimensões estão salvas de Trigon. A morte de Slade Wilson e Tara Markov não foram um acidente, ambos estavam contra Rachel e ela fez o necessário para que não a impedissem de concluir o feitiço — foi o primeiro a levantar, sua voz grave interrompeu os protestos vindo de Shayera e John Stewart, que temiam pela sua liberdade — Com o demônio contido, são mínimas as possibilidades de o descontrole ocorrer novamente. Em outras palavras, não existem motivos para que Rachel seja detida ou deixar de ser uma Titã, já que em nenhum momento ela esteve contra nós. Quem estiver contra minha decisão, deverão falar comigo após o funeral. Estão liberados — saiu rapidamente em passos largos, sem olhar para trás. O restante ficou sem silêncio pelo clima pesado, mas também se levantaram levemente intrigados, entretanto, Superman que estava no centro da mesa levantou a mão, os interrompendo.
— Acredito que tenham se esquecido, não? — seu sorriso gentil surgiu, o que fez os Titãs ficarem confusos — Victor Stone, precisamos ter uma conversa em particular.
— O que? Mas eu não fiz nada.
— Não importa. Será uma conversa amigável entre nós. O restante pode se retirar.
A morena os observou em silêncio, mas por dentro triunfante os olhares da Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Caçador de Marte, Mulher Gavião e Flash, que lamentaram a ausência de Batman. Diana, Clark, J’onn e Barry concordaram com Bruce e a defenderam. Victor engoliu em seco ao assistir os fundadores da Liga voltarem a se sentar agora sorridentes, enquanto os Titãs se distanciavam.
— O que será que querem com ele? — Kori falou baixo entre eles. Estava encantada com os corredores do local.
— Sério que perguntou isso, amor? — Dick perguntou após um riso, vendo o desânimo de Garfield — Você vai saber mais tarde.
Os quatro pararam em frente ao prédio e se entreolharam, esperando Victor retornar, mas este não vinha.
— Ele está surpreso... e feliz — a morena murmurou com um pequeno sorriso e segurou a mão de Gar, em despedida — Vejo vocês mais tarde.
— Então não vai ao funeral mesmo, minha amiga?
— É melhor assim, Kori. Até depois.
Entrou em seu portal e já estava em seu quarto novamente. Agora sem toda aquela pressão social, pode respirar fundo para espantar o estresse. Acabou. Batman tomou a frente e encerrou o ciclo. Estava feliz.
Até agora não sabe o porquê de Bruce ter se esforçado para mantê-la protegida na Torre Titã, estar presente após sua sobrecarga e destruição do mesmo local. Se não fosse por ele estar ali naquele dia, com certeza seria levada detida por sair do campo de força sem autorização, arriscando a vida dos civis ao testar o feitiço falho. Ele suspeitou e investigou uma integrante de sua equipe de confiança, por míseras frases trocadas entre Zatanna e ela, o que fez ir atrás do que nem lhe dizia respeito. Ele a encontrou no deserto, entrou em uma Igreja do Sangue junto com o filho, cheia de magia negra e demônios, e participou da luta ao lado dos Titãs que alguns integrantes da Liga, na qual ele próprio era um dos líderes, faziam questão de evitar fazer contato. E depois de ela se declarar culpada pelas duas mortes e o banimento de uma das heroínas mais poderosas da Terra, lá ele estava novamente, na Sala da Justiça. E em poucas palavras a defendeu. Em todas essas ocasiões ela não lhe agradeceu, e ele nem a encarou nos olhos. Simplesmente a protegeu. Talvez soubesse que ela era grata, mas não fazia questão de cobrar por isso.
Após ficar parada por minutos no meio do quarto pensando nisso, voltou a si e vestiu uma roupa quente e confortável. Curiosa, pegou o livro que ela tinha desde o início da adolescência e procurou pelo poema, que enquanto estava sentada na volta de todas aquelas pessoas, os versos lhe surgiram em mente.
“Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doloridos
Sorri
Vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz”
Cada palavra ela levou consigo durante anos. Pensou quantas vezes ela sorriu forçadamente durante todo esse tempo. Foram poucas, pois sua face sempre fora inexpressiva, o que escondia sua depressão. Não demonstrava felicidade ou tristeza a nenhum deles, apenas sua irritação e impaciência. Mas na última semana, depois do que aconteceu, assistindo seus amigos muito preocupados, torcendo pela sua melhora, foi o momento em que tinha que receber abraços e sorrir nos momentos banais nos dias que passavam lentamente, quando na verdade queria estar chorando em seu quarto. Duas pessoas a flagraram nesses momentos humilhantes, e agradeceu a qualquer entidade do bem ao saber que nada sairia da boca deles. Não iriam compartilhar seu estado deplorável com o restante da equipe, pois realmente se importavam com ela. Os sorrisos forçados sempre foram direcionados a quem lhe tirou do chuveiro, na água fria. Kori tinha noção da sua doença desde sempre e nunca lhe disse nada, muito provavelmente para não causar intrigas.
Então sorrir daquele jeito para Kori durante quase uma década foi totalmente desnecessário. Sentiu-se uma idiota por isso.
Jogou a porcaria do livro para o lado e criou coragem de visitar o terraço para meditar. Levitando, cruzou as pernas e fechou os olhos. Ao sentir a brisa gelada em seu rosto respirou fundo, e deu o máximo de si para ignorar a paranoia, prevendo ouvir as vozes do seu pai a qualquer momento. Não aconteceu. Sua mente estava aberta, pronta para novas e boas energias vindo dela mesma, pelas suas realizações e...
— Rachel, tá frio demais aqui, te trouxe um casaco — a águia fechou o bico ao encarar o olhar de fúria da mulher. Ele a interrompeu novamente — Que merda. Tenho que deixar essa minha habilidade no currículo. Me desculpe.
Ela deu um longo suspiro e segurou a língua para não o xingar, já que ele apareceu por novamente estar preocupado com ela, querendo que a morena ficasse confortável no frio mesmo ela já tendo o avisado que gosta do clima gélido. Ele não tinha noção do quão era frustrante ter uma meditação interrompida. Entretanto, ela percebeu que com certeza estava ali a mais de uma hora. Estava perto do meio-dia, pela posição do sol.
— Está perdoado — pegou o casaco de suas mãos e selou os lábios com os dele brevemente — Espero que não aconteça novamente. Vou ter que te dar uma aula, para aprender a ficar quieto e em silêncio.
— Nunca daria certo.
— Comigo vai. Com certeza vai dar certo.
Eles voltaram para dentro, e ela estranhou a equipe estar sorridente após retornar de um funeral, que ela nunca iria perguntar como havia sido. Sentiu a animação vindo de todos, e uma mínima tristeza de Gar. Ficou impaciente com o mistério até Dick surgir sair do elevador, também sorrindo. Sua curiosidade foi maior e acabou perguntando o que aconteceu.
— Eu finalmente fui convidado para fazer parte da Liga da Justiça, porra! — Victor gritou, com os dedos indicadores apontados para cima — Obrigado, Deus! Sempre soube que existia! Ainda não estou acreditando.
Todos se voltaram para ela, que deu um sorriso verdadeiro e o parabenizou. O restante deu uma salva de palmas, e Garfield lamentou a ausência do melhor amigo, mesmo ficando muito feliz por ele.
— E eu estava na sala de controle, fui comunicado de que semana que vem teremos novos integrantes — disse ainda animado — Inclusive o Damian — desviou o olhar após puxar o cabelo para trás, ficou preocupado com esta parte, pelo temperamento do garoto.
— Como vai ser agora? Serão dois Robins? — Gar provocou, fazendo com que ela sorrisse e Kori soltasse uma risada alta.
— Não sou mais o Robin faz anos, caralho. Quando irão parar de me chamar assim?
— Nunca! — todos disseram em meio ao riso, inclusive ela. Ele rosnou em irritação, e mudou de assunto, dizendo que Rachel deveria ter coragem, porque o namorado queria fazer o almoço.
—
Enquanto estavam sentados em volta da mesa, observavam Garfield jogar ingredientes exóticos em uma massa suspeita, que com certa força batia com uma colher em uma bacia. Victor e Kori sussurravam, dizendo que tudo aquilo era desperdício de comida e que deveriam comprar um lanche.
— Eu estou ouvindo cada palavra, seus babacas. Parece até que eu não sei cozinhar! — Grayson riu com o nariz, e ela alisou chakra involuntariamente, se segurando para não dizer nada — Eu sei, e muito bem. Vocês só não comem porque é vegano. Sequer dão uma chance.
— Todos nós vamos comer, Gar — ela disse, tentando diminuir a irritação do namorado — Dê o seu melhor.
Ele realmente se esforçou. Após mais de uma hora de espera, aquela espécie de lasanha ficou pronta. Todos se serviram e se encaravam, esperando quem teria a coragem de provar primeiro. Kori tomou a frente, e depois de um “magnificamente saboroso” o restante também experimentou. Dick engoliu com dificuldade, não desejando mais mastigar. Victor colocou o que pôs na boca em um guardanapo, seguindo de tomar um grande gole do suco, e ela foi mais esperta. Removeu a massa espessa e comeu os vegetais e pequenos pedaços de tofu, que no hambúrguer que ela deixou pela metade um dia atrás não estava tão ruim. Notou que ele a observava esperançoso, quase suplicante.
— Tirando essa massa, a comida está boa — murmurou antes de comer mais um pouco. O restante a encarou em confusão, com exceção de Kori, que antes havia se servido apenas o suficiente para beliscar a comida, agora encheu o prato — É só tirar a massa. Vocês não gostam de legumes? É o que mais tem aqui.
— Obrigado, gatinhas. Eu sou um excelente cozinheiro — se gabou, ignorando os comentários de Cyborg.
— De fato! — a ruiva concordou, logo comentando que queria comer mais. Não estranhou, já que o apetite da amiga sempre foi diferente dos demais.
— Querendo com toda certeza mudar de assunto, hoje não tem treino — Dick comunicou, ouvindo comemorações vindo dos preguiçosos — Vamos aproveitar para descansar por ontem. Mas amanhã voltamos com tudo. A louça é pra quem deixou sobra no prato.
Victor olhou descontente para o líder da equipe que já se retirava, e começou a reclamar sozinho.
—
Com exceção de Cyborg, a equipe estava espalhada pela sala. Dick novamente jogado no sofá, recebendo um cafuné nas mãos de Kori, Gar jogando com os olhos vidrados na televisão e ela sentada sobre o tapete, com as pernas cruzadas e de frente para o casal. O moreno começou a comentar sobre o ocorrido, e estava curioso sobre o que a mesma sentia após matar duas pessoas. Disse que estava contente por terem se livrado do pai da garota junto com os irmãos, mas lamentou a morte de Tara. Disse que a traição fez com que o funeral tivesse outra energia. Por mais que fossem colegas, tudo o que descobriu anteriormente fez com que o carinho que sentia por ela quase se esgotasse. Disse que as pessoas apenas ficaram lá em silêncio, sem ter o que dizer. Foi desconfortável, confessando que também não queria ter estado presente.
Voltando aos sentimentos, mencionou os próprios problemas em se comunicar com a equipe em uma situação parecida com aquela. Pediu desculpas a eles, principalmente à Kori por deixar ela trancada para fora do quarto, impedindo que ela o visse entristecido. Como sempre a ruiva o perdoou, comentando que cada um tinha um modo de se sentir melhor. Foi quando ele pensou alto, chamando sua atenção.
“Heróis também podem fazer terapia”
Comentou brevemente sobre o passado de Bruce, afirmando que teria sido melhor se ele tivesse crescido acompanhado de um psicólogo, assim hoje em dia talvez ele teria o mínimo de misericórdia durante a sua terapia, que era esmurrar bandidos até estarem inconscientes. Mas ela também tinha sua maneira de relaxar. A meditação.
— Já tentei meditar hoje, e foi um bom começo — murmurou levemente animada, percebendo o olhar constrangido de Gar pela sua visão periférica.
— Tentou? O que houve de errado? — Kori perguntou, já preocupada.
— Eu, como sempre... interrompi de novo — o homem verde lamentou, pausando o jogo de luta. Dick deu um tapa na própria testa — prometo que não vai acontecer de novo.
— Você sabe que vai, não consegue evitar. Só tente ser mais discreto — falou em tom de tranquilidade, lhe lançando um sorriso cálido, compreensivo. Recebeu outro em resposta, e ele voltou a jogar.
— Aí, Raven? — o homem robô surgiu de repente, chamando a atenção do restante. Ele tinha um sorriso suspeito no rosto — Se importa de conversarmos a sós?
Enrugou as sobrancelhas, confusa pelo mistério. Ao afirmar com a cabeça se levantou e o seguiu até o elevador. Ficaram em um silêncio que deixara o homem robô nervoso e ela ainda mais curiosa, até chegarem na área de treinamento interna, onde Tara havia tentado atacar Grayson.
Ele fez questão de checar se estavam sozinhos, e isso a deixou mais intrigada. Estava com a expressão séria e o corpo tenso até parar em sua frente. Depois de olhá-la nos olhos, não conseguiu manter a compostura e já mostrou a face atormentada que escondia.
— Rachel, eu precisava falar com você. Não aguento mais guardar isso na minha cabeça. — Fitou a face inexpressiva. A maneira que estava posicionada não ajudava. De pé, braços cruzados, com o ombro apoiado na parede e a cara fechada. Obviamente não estava gostando daquele segredo todo. — Estava a dias dividido sobre confiar em você ou não.
— Isso não é novidade — foi seca, já demonstrando impaciência.
— Estou falando sério. Sempre te considerei como uma grande amiga, mas desde aquele dia que você... não! — se interrompeu com o olhar ameaçador da mulher — Trigon! Deste o dia que Trigon quebrou o pescoço do Gar, eu passei a desconfiar do seu comportamento, pensei que estava usando-o para fazer dele o seu brinquedo, — começou a gesticular sem olhar para a morena raivosa — já que depois de toda a confusão você se afastou de todos, e ele foi o único que teve coragem de entrar no seu quarto e tentar conversar. Pensei que após ter conseguido, você tivesse feito alguma coisa na mente dele para o Gar confessar aquela paixão que sentia por você — repetiu, piorando a situação. O rosto dela já estava ficando vermelho — E depois veio a Zatanna, e confesso que as palavras dela me cegaram, por mais que eu tivesse pedido desculpas aquele dia, já no dia seguinte novamente eu passei a acreditar que seria melhor se você saísse da Torre para que não só a equipe, mas a cidade ficasse segura.
— E você não a apoiou por quê? — sua voz era mansa, por mais que estivesse irritada. Ergueu o queixo para fitar o olho castanho, o incentivando a continuar. Ele engoliu em seco. Devia agir com maturidade, mas a morena sempre o intimidou em meios as discussões, mesmo com a diferença de altura sendo drástica.
— Porque vi a felicidade do meu melhor amigo, e eu me sentiria péssimo e estaria fodido caso ele descobrisse que eu queria me livrar de você — sua voz falhou ao escolher as palavras erradas.
— Se livrar de mim?! — apontou para si mesma, pasma — Acha que eu queria fazer parte disso tudo?
— Não! Não me livrar de você, só... Só manter certa distância até tudo ser resolvido. Zatanna fez minha cabeça, eu não deveria ter ouvido.
— Não ouse culpar a Zatanna pelo que você mesmo pensa! — bradou, dando dois passos em direção ao homem robô nervoso e apontar o dedo em seu peito de aço — Ela é uma maga habilidosa, poderia mesmo ter feito isso com você. Entretanto, Victor... no dia que Trigon atacou o Garfield, você me empurrou e gritou comigo, assim como a Tara — baixou o tom para não chamar a atenção dos demais — e você nunca tinha visto aquela mulher na vida. E aposto que sequer sabia da existência! Então, não. Ela não fez sua cabeça. Eu fui uma ameaça para você o tempo todo. Só está usando as palavras erradas nessa confissão ridícula.
— Eu estava errado, Rachel. Você não faz ideia do quanto estou arrependido.
— Por que todos vocês usam o “você não faz ideia”? — Fez aspas com os dedos no ar — Eu detesto saber o que sentem o tempo todo! Se eu não tivesse esse poder, eu poderia continuar discutindo com você agora, dizendo que está mentindo, que não está arrependido, só quer fazer com que eu te perdoe para depois voltar a me olhar torto e esperar a próxima merda acontecer — espantou os cabelos do rosto com força e raiva, nunca havia falado tantas palavras em sua vida em um só dia — Se deseja o meu perdão, Victor, infelizmente vai ter que esperar, por mais que eu saiba que está sendo sincero.
Respirou fundo após desviar o olhar do homem frustrado consigo mesmo e foi direto para seu quarto usando o seu portal.
—
Ainda nervosa, tomou um banho frio para relaxar o corpo e tentar esquecer tudo o que ele disse. Ele realmente estava arrependido, mas não era motivo para perdão. Isso a magoou a ponto de lembrar dos encontros que teve com a maga. Quando era adolescente ouviu as mesmas palavras, e na reunião pela manhã novamente. E agora, pensando que o assunto tinha acabado, descobre que o amigo pensava o mesmo dela. Seu peito doeu, pela mágoa e raiva. Tentou inutilmente segurar a lágrima teimosa. Teria que sorrir falsamente para o restante novamente, até que toda aquela pressão passasse.
Ouviu batidas na porta, e respirou fundo para se controlar e não despejar tudo em Gar, que agora estava de luto pela traidora e feliz pelo amigo que acabou de estragar seu dia. Pensou que com a saída de Victor facilitaria sua recuperação, entretanto, não fazia ideia de quando ele iria embora, e seu orgulho a impediria de perguntar.
Fechou o chuveiro, logo enrolando uma toalha no corpo e outra nos curtos fios escuros e abriu a porta, dando de cara com o rosto verde. Nesse momento ele faria uma cara de safado, mas em meio da face inexpressiva o infeliz conseguiu perceber que tinha algo de errado.
— Estava chorando? — perguntou ao notar os olhos levemente vermelhos. Talvez pudesse culpar o shampoo. Seu tom de voz preocupado passou a ser de irritação — O que o Cyb queria?
Alguns segundos passaram, um olhando para o outro em silêncio. A morena estava decidindo se deveria falar ou não. O dia fora estressante para todos, e com certeza Gar era um dos mais afetados. Ele próprio morreu, afinal. A ex enganou ele por anos, e a atual a matou, Victor vai embora e agora ela estava ali com a cara provavelmente emburrada sem perceber.
— Como disse antes, para manter um bom relacionamento é necessário ter honestidade — a voz rouca tomou o cômodo, ainda incerta — Então vou te dar duas opções. Eu posso piorar o seu dia agora, ou posso poupá-lo pelo restante do tempo e contar amanhã de manhã. Pense bem antes de responder.
— O que ele disse? — o desgraçado não levou nem um segundo para pensar. Respirou fundo enquanto revirava os olhos. Ele já estava incomodado de qualquer forma, que se dane.
Ao se sentarem na cama, já com um roupão para ele parar de reclamar do frio, fazendo com que ela ligasse o ar-condicionado contra sua vontade, explicou o que aconteceu calmamente sem vacilar o olhar. Usou as palavras certas e devagar, com o intuito de convencer o namorado de que o pedido de perdão era honesto, para que ele não entendesse errado e pensasse que o amigo era um babaca filho da puta.
— Mas que babaca filho da puta.
Ele socou o travesseiro com força, enquanto ela só fechou os olhos em meio a um suspiro frustrado, alisando a testa com a mão esquerda. Gar era impossível. Não tinha como domar a criatura.
— Já disse que ele foi honesto. Foi um dia cheio e lotado de emoções a flor da pele, não precisa se estressar com mais um assunto irrelevante — tentou. Apenas tentou fazer com que ele tirasse a ruga entre as sobrancelhas. Ele ficava bonito quando irritado, mas não era o momento para pensar nisso.
— Assunto irrelevante? — balbuciou, olhando para ela com os olhos arregalados — Ele estava pensando nisso a semana inteira, enquanto você estava sofrendo a cada minuto dentro deste quarto! Ainda se ofereceu para comprar seus móveis — apontou para as estantes, cômoda nova com a toalha molhada por cima e o espelho — Eu fiquei jogando videogame com ele enquanto te elogiava, dizendo o quanto eu ainda estou orgulhoso de você, e ele estava pensando nisso enquanto eu falava? — a voz ficou aguda pelo berro nas últimas palavras — Eu só não vou falar com ele agora porque não quero te deixar sozinha. Mas se eu tivesse um clone, já iria lá dizer poucas e boas para aquele idiota.
— Por mais que eu ache isso amável da sua parte, — ela o interrompeu, segurando a sua mão e entrelaçando os dedos — não preciso que fale por mim. Consigo me defender sozinha e já fiz isso. Vou deixá-lo sofrendo um pouco — sorriu, quase maquiavélica — Quando ele pedir desculpas novamente, porque eu sei que vai... Vou dizer que o perdoo. Não quero mais intrigas, muito menos que discuta com Victor agora que ele irá embora — ele bufou, incomodado pela teimosia de ambos, mas tentou deixar o assunto de lado.
— Mesmo por ter ficado com medo desse seu sorriso, eu não vou conseguir me segurar na primeira vez que ele passar por mim — aproximou o rosto do dela, selando os lábios em um beijo carinhoso. Ela aprofundou o beijo, movendo sua língua com destreza junto com a dele enquanto o puxava pelo moletom, ele massageou sua nuca, fazendo com que a toalha que estava em sua cabeça caísse. Ele encarou os olhos nublados de desejo, e os lábios levemente inchados — Sempre que a gente discordar você vai me tratar assim?
— Se você quiser.
Ele mordeu o próprio lábio enquanto se aproximava do seu pescoço, a fazendo arfar quando sentiu um beijo ali. O atrevido foi movendo os lábios lentamente, embriagado por seu cheiro, subindo aos poucos e chegando novamente na sua boca, enquanto desamarrava o nó do roupão, descaradamente.
Ela não o impediu, sorrindo em meio ao beijo pela audácia do rapaz. Já que ele agia assim, concluiu que também poderia. Sem cerimônias colocou a mão no cós da calça de moletom e ele deu um sobressalto, se afastando levemente, dando a oportunidade para que ela ficasse por cima. Ele apertou suas nádegas com certa força enquanto a encarava debaixo, praticamente babando. Ela sorriu divertida, fazendo com que Garfield concluísse que ela poderia ficar mais linda.
O beijo dela foi lento e sensual, as mãos dele abaixavam o tecido do roupão para acariciar livremente suas curvas. Deu um longo suspiro a procura de ar, e o ajudou a retirar a roupa com certa dificuldade, pois se recusava a sair de cima dele. Queria experimentar coisas novas, ali poderia ser a segunda vez deles, e por mais que fosse tentador fazer com que durasse mais tempo, deveriam ser rápidos por estarem no meio da tarde em um dia que normalmente a equipe inteira ficaria reunida, devido ao fim de uma missão. Kori procuraria por eles.
Assistiu ele dar o máximo de si para conseguir se sentar enquanto ela o atacava com mordidas e beijos em seu peito, ombro e pescoço. Quando finalmente conseguiu alcançar os mamilos entumecidos, os acariciou com as mãos e abocanhou com avidez, fazendo com que involuntariamente jogasse a cabeça para trás e cravasse as unhas nas costas verdes. Já estava o sentindo enrijecido entre suas pernas.
Puxou os cabelos do rapaz, o afastando do seu divertimento e o prendeu com as mãos. Ele tentou se soltar, mas viu que ela fez de propósito e deu um sorriso malandro. Começou a rebolar sobre o quadril, fazendo com que ele soltasse um gemido. Tentou se soltar, mas ela usou a magia para segurá-lo.
— Trapaceira.
— Cala a boca.
Agora sem mais preocupações, com um sorriso arteiro se afastou para fazer o que tinha curiosidade. O encarou enquanto ele estava com o olhar falsamente incomodado por estar contido, e apertou o membro mais duro do que antes, movendo a mãos com lentidão. Ele reclamou e se debateu por um curto período, até ela levá-lo à boca. Ouviu ele sugar o ar para os pulmões e tentar puxar os braços de novo, enquanto ela lentamente chupava e depois lambia a glande. Ele pensou em quantas vezes ela já tinha feito aquilo, não poderia ser a primeira vez. Não sabia que deveria aumentar a velocidade ou estava fazendo de propósito? Aquilo era uma tortura.
— Por favor, não faça isso comigo — choramingou, assistindo a morena nua o encarar como se ele fosse a presa, tinha uma visão melhor ainda pelo reflexo do espelho — Eu não te fiz nada de mal, me solta.
Ela se afastou para se sentar em cima dele novamente, mas agora o sentiu dentro de si, soltando um longo suspiro, quase gemendo pelo prazer. Aproximou o rosto do dele, fingindo ter a intenção de beijá-lo para o deixar frustrado, e após morder levemente a pele de seu pescoço, começou a se mover, já que o próprio corpo também ansiava por isso. De vez em quando, parava para rebolar em uma lentidão que o fazia rosnar, e depois de sentir as bochechas doerem, sentiu que estava sorrindo o tempo todo e o soltou.
Agora livre, ele a girou com certa brutalidade, ainda dentro dela e a beijou com ânsia, ela sentiu o canino dele arranhar seu lábio e soltou um gemido sem perceber. Ele estava irritado, e como no dia anterior soltou a risada rara por ver a cara emburrada. Ele investia rapidamente e com força, enquanto chupava e lambia o pescoço, ombro e os seios, procurando o sabor dela em todos os cantos.
— Você não existe — ele arfou em meio ao beijo, irritado. Estava trapaceando de novo, aproveitando as emoções dele para sentir mais prazer, o que remeteu a um orgasmo, fazendo com que o corpo dela contraísse em meio a um gemido, contraindo sua intimidade involuntariamente e com isso ele acabou não aguentando também. Ouviu um barulho atrás de si — Ah, merda! Não! — ele meio que gritou, ela estava com os olhos fechados, tentando controlar a respiração acelerada, assim como o seu coração. Sentiu a falta do calor em cima de si bruscamente.
— O que houve?! — falou pela primeira vez, escorando o peso no cotovelo. Se assustou com o animal gigantesco em frente a cama, segurando o grande espelho com os chifres. — Um alce? Qual o seu problema? — endireitou o espelho com sua magia, sem precisar levantar — Por que esse bicho?
— Eu acabei de gozar, não tô pensando direito — explicou, voltando ao normal ainda aéreo e se jogou na cama, arfando — A culpa foi sua, bagunçou tudo de novo.
Olhou em volta, e percebeu que ele estava certo. Alguns livros que ela guardava com o maior cuidado estavam jogados no chão, por sorte a lombada deles não quebrou. Se o espelho ornamentado quebrasse, ficaria furiosa consigo mesma.
— Com o tempo talvez isso pare de ocorrer — falou para si mesma, pensando em formas de evitar a bagunça.
— Não! — pulou em cima dela, roubando um beijo — Isso quer dizer que gostou. Se parar, eu vou me sentir um incompetente.
O encarou com a sobrancelha arqueada, não acreditando no que ouvira. Era só o começo da relação entre eles, com certeza um dia essa bagunça teria que ser evitada.
Os dois estavam abraçados sob o cobertor, apreciando o calor um do outro. Esqueceram completamente os problemas que estavam fora daquele quarto. Não lembra do que levou ele até a cama. Estava tranquila e relaxava, assim como ele. Sentiu a energia se aproximando e respirou fundo antes dela bater na porta.
— Eu não quero sair daqui — reclamou ao se remexer na cama, puxando a morena mais para si ao ouvir as batidas na porta.
— Amiga, está aí? — a ruiva não perguntou se poderia entrar justamente porque não queria — De noite nós sairemos para nos divertir no parque de diversões!
— Quem diabos vai em um parque de diversões no mesmo dia que foi em um funeral? — ele sussurrou em seu ouvido, fazendo com que ela lembrasse de como havia sido o início do dia — Quer que eu a tire daqui? — perguntou, recebendo um olhar repreensivo da morena.
— Eu estou tentando meditar, Kori — se sentiu mal por mentir — Eu vou pensar. Mas não estou no clima.
— Oh, tudo bem — ouviu a voz desanimada atrás da porta — O restante também não está. Mas pensei que seria uma boa distração... Nos falamos mais tarde!
Não precisou responder, Kori já estava acostumada com seu jeito de ser. Ao mesmo tempo em que a ruiva se afastava, ela se levantou da cama, fazendo com que Gar reclamasse. Olhou para o pequeno relógio antigo que decorava o bidê ao lado da cama. Quase 18h30.
— O céu estava limpo. Quero assistir ao pôr do sol. Ainda dá tempo — avisou enquanto procurava algo quente para vestir.
— Por quê? Podemos ver amanhã. O sol aparece todo dia.
— Mas os dias não são todos iguais, Gar. Se não quiser vir, fique aí.
Suas palavras obviamente o atiçaram, fazendo com que ele saltasse da cama e vestisse as roupas rapidamente. Não entendeu o que a morena queria dizer com aquilo.
Passando pelo portal, estavam de volta ao terraço. Se sentaram no chão em silêncio, enquanto observavam o sol que parecia aquecer suas faces. Ele olhou para a morena, que estava abraçada nos próprios joelhos com um sorriso no rosto, os olhos violeta focados na luz alaranjada, sem reclamar. Um sorriso que ele jamais vira. Daria sua alma para saber o que passava em sua cabeça.
Dias atrás ela se perguntou se estava feliz e não sabia a resposta. Não tinha a certeza.
Na última semana por já ter concluído que morreria, se permitiu viver nossas experiências. Quis conhecer a sensação se der abraçada, beijada, amada. E se esforçou para aprender a abraçar, beijar e amar. Encontrou motivos para sorrir, ao mesmo tempo em que tentou fugir dos motivos para chorar. Deixou que a vissem em momentos de fraqueza e que cuidassem dela, já que sempre lidou com os problemas sozinha.
Percebeu que sua vida era uma merda, e que mesmo com seu pai em sua mente poderia ter aproveitado os dias de sol, a sensação da neve em seu rosto a qualquer momento. Poderia ter aproveitado sozinha, levando um livro para ler cada dia em um local diferente. Saído do seu quarto, degustar refeições de novas culturas, ouvir mais melodias... Todas essas coisas ela poderia ter feito sem nenhuma interação social. Interagir socialmente poderia fazer com que se apegasse a alguém, e seu pai encontraria uma forma de usá-la contra si. Perdeu todos esses anos, ficando dentro do seu quarto, se escondendo do mundo. E quando se deu a data da própria morte, se arrependeu pelo tempo desperdiçado.
Mas agora ela estava ali, observando o pôr do sol ao lado da pessoa que amava. Liberta de seu pai ainda jovem, graças a própria determinação e força, que pensava que não tinha. Jovem o suficiente para recuperar e viver ainda mais do que os anos perdidos. Segurava firmemente a mão de quem ela obrigaria a acompanhá-la, para continuar aprendendo a se divertir e socializar. Continuar a dar tudo de si para alcançar a total felicidade, como se o próximo pôr do sol fosse o último. Relembrou o primeiro verso do poema.
“Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios”
Sorriu. Porque não havia mais dor alguma, saudade nenhuma e seus dias tristonhos acabaram. Jogaria aquele livro no lixo.
— No que você está pensando? — ele perguntou, se aproximando e a abraçando pelos ombros. Não desviou o olhar da luz que já diminuía.
— No meu futuro... Meu recomeço.
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