Sacrifício
18 Destino
Notas iniciais

Victor estava muito preocupado pela demora. Assim que saíram com Slade e Tara detidos, dois portais de fogo apareceram, sugando a dupla junto de Garfield que gritou pedindo ajuda, no entanto, não tiveram forças para separá-lo. Ele ficou desesperado e correu até a porta da igreja, só que deu de cara em um escudo mágico. Tentou analisar o que acontecia com o olho vermelho, mas não havia um movimento sequer, por mais que ouvisse rugidos, gargalhadas e depois berros que com certeza eram de Rachel. Kori também tentou passar naquele momento, mas falhou. Todos eles estavam encharcados pela chuva, que após cerca de meia hora agora cessou abruptamente, junto com o escarcéu que vinha de dentro do templo. Cyborg quis entrar, mas a voz imponente de Bruce o impediu.
— Você não vai querer ver isso, acredite. Estamos aguardando o reforço.
— Reforço? — perguntou estupefato, com a única sobrancelha arqueada, encarava o homem morcego que estava com os braços cruzados e o olhar sério, omitindo a impaciência — Não acha que está um pouco tarde para reforços, Batman? Você disse que integrantes da Liga viriam ajudar, mas ninguém chegou até agora. Deve ter sido o feitiço de Zatanna já que ninguém veio aqui. Ninguém. E Gar está lá dentro e do jeito que é provavelmente está assustado em meio tanta magia que ele só via da parte da Raven. Agora tem mais dois, fora os demônios que na última vez o deixaram assustado.
— Victor, o Garfield já é um homem adulto — Dick interveio, levemente irritado por tal comportamento — Quando ele viu demônios pela primeira vez era uma criança, agora já passamos por muitas batalhas. Por favor, nos poupe desse amor paterno esquisito. Você não é o pai dele.
— Amor paterno? Ele é o meu melhor amigo. Só estou preocupado com ele.
— E a Rachel, Victor? Não está preocupado com ela? — o moreno o pegou de surpresa — e a Tara? Mesmo que tivesse nos traído ela estava aqui conosco. Éramos amigos por anos, não está sentindo nem uma pontada de preocupação?
— É claro que eu estou preocupado, — murmurou olhando torto para Dick — Só estou tentando dizer que os poderes do Gar não são tão úteis para o que está acontecendo lá dentro. Ele não deve estar preparado.
— O nosso treinamento diário serve pra quê, porra? — já se alterou, dando um passo à frente — Acha que ele é incompetente? Que ele só sabe se transformar em bicho? Eu não tenho poder nenhum e estava lá lutando!
Bruce se segurou para não dar um tapa na própria testa. Aquela discussão estava fazendo com que ele pensasse que o tempo corria mais lentamente. O céu já estava sem nuvens e as primeiras estrelas estavam surgindo ao final da tarde. Ele já deveria ter chegado, estava tentando pensar em motivos pela demora, mas com aqueles dois discutindo o deixava incomodado.
— É normal se preocupar com os companheiros de equipe, mas acima de tudo temos que acreditar no que eles são capazes — Batman tentou amenizar a discussão — Segundo meus dados, o grau de habilidade de Garfield aumentou consideravelmente nos últimos anos. Essa discussão é inútil e o temos que fazer é aguardar. De preferência em silêncio.
— Ele tem razão, Victor. Todos nós estamos apreensivos — a voz doce de Kori tentou o tranquilizar. Ela tinha as longas mechas ruivas em mãos, as apertando para retirar o excesso de água — Paciência. Tenho certeza de que todos os nossos amigos estão bem.
A discussão fora interrompida pelo rompimento brusco do campo de força, fazendo com que o grupo se afastasse rapidamente. No mesmo momento Victor se apressou para entrar, mas foi interrompido por Bruce que o segurou firmemente, o deixando paralisado. Arfou por não conseguir se mover. Mas ainda assim ele conseguia analisar o local, e só pode ver dois movimentos por trás da parede, bem distante. E não eram do Garfield, nem de Tara e Slade.
— Não, Kori. Ele não está bem. Não consigo detectar a presença dele.
— Cara, cala a boca e espera — Damian falou pela primeira vez, se segurando para não socar a cara do homem robô — Esse lugar é enorme, podem demorar para sair.
Batman que estava imóvel após pousar seu dispositivo em Victor, olhou de soslaio para Grayson que agora estava em silêncio enquanto fitava o pôr-do-sol, tentando ocultar a aflição de sua face. Suspirou. Estava querendo que todos fossem pacientes enquanto ele mesmo estava irritado pela demora.
Tudo o que ele e os Titãs fizeram lá dentro já estava escrito na história. Cada passo, fala e sangue derramado. Entretanto, a partir que Trigon fora invocado em sua ausência ele já tinha o conhecimento de que não era o destino de Rachel e Constantine serem interrompidos por Slade e Zatanna naquele momento. A única questão era que quem poderia resolver este problema estranhamente ainda não aparecera. Não tinha a intenção de derrubar mais nenhum dos outros Titãs, mas se tentassem passar por aquela porta vermelha, era o que faria. E explicar para qualquer um deles sobre a situação poderia alterar o destino das pessoas que estavam dentro daquela igreja. Então o mais correto era esperar, nem que fosse para passar a noite inteira ali.
— Eu estou ouvindo um choro... — Victor falou baixo, mais para si mesmo, mas os outros escutaram também.
— A Rachel está chorando — a ruiva comentou, agora aflita.
— Era a família dela, não? — o moreno mais novo deu de ombros, já impaciente por estar de pé no meio daquela merda de deserto há tempos — Talvez tenham dito algo que a feriu emocionalmente.
— Ou feriram alguém... — Cyborg insistiu, largando o foda-se e tentando se mexer do que quer que Batman havia colocado em seu corpo, mas no primeiro movimento sentiu uma forte onda de choque. Ele gemeu pelo incômodo enquanto ouvia os passos de Bruce se afastando novamente — O que você fez?
— Impedi que alterasse o Destino.
—
Ele realmente estava se sentindo extremamente desconfortável naquela situação, e tinha certeza de que obviamente não deveria estar ali, vendo a morena se despedaçando de tanto chorar. Não conseguia deixar de procurar involuntariamente seu maço de cigarro em seus bolsos, mesmo sabendo que eles estavam lá fora, no seu casaco. Fumar o acalmaria, o distrairia daquele momento terrível. Poderia invocá-lo, mas não o fez por saber que Rachel odiava a nicotina.
Se perguntou o porquê de ela não ter tentado trazê-lo de volta, já que ela tinha o conhecimento e habilidades para tal, mesmo que fosse arriscado. Tinha certeza de que nenhuma palavra que saísse se sua boca a confortaria. Era péssimo com esse tipo de coisa, ainda mais com uma mulher que tinha o temperamento parecido com o dele. Entretanto, ele começou a avistar um pequeno feixe de luz, menor que a palma de sua mão em meio ao templo, poucos metros atrás da morena. Estava tomando forma... um Ankh dourado lentamente aumentava de tamanho e imediatamente entrou em desespero.
— Rachel, eu acho que devemos ir — disse rapidamente, visivelmente nervoso. Tocou gentilmente o ombro da garota que soluçava, com o rosto escondido no peito do rapaz morto — É sério, você pode olhar para...
— Saia daqui, John! Me deixe sozinha! — ela tentou gritar, mas não tinha forças nem para isso pelo seu surto de ira momentos atrás. Estava aproveitando a ausência permanente de seu pai para poder extravasar toda a dor que sentia. Seu coração estava em pedaços, mal conseguia se levantar pela exaustão e sabia que no momento em que saísse da igreja eles diriam que ela deveria tentar ter uma vida melhor, por mais que tivesse certeza de que não seria possível. O que havia a deixado melhor estava ali em seus braços.
O Ankh dourado aumentava cada vez mais, emitindo um brilho ainda maior, quase cegando o loiro que não conseguia esconder o nervosismo. Rachel que estava com a visão embaçada pelas lágrimas, acabou percebendo a movimentação e repousou o corpo de Garfield, levantando-se logo depois. Não acreditava no que estava presenciando.
— Puta que pariu... — John murmurou querendo correr dali.
De dentro da cruz Ansada surgiu a entidade que Constantine havia a provocado anos atrás, fazendo com que o próprio deus Anúbis matasse o hospedeiro do elmo de ouro que estava em sua frente. E agora obviamente Nabu estava controlando outra pessoa, e não fazia ideia de quem. A roupa azul escuro justa, com o Amuleto de Anúbis no peito, o manto dourado em constante movimento fazia com que o homem que usava o elmo de Nabu levitasse. Olhou rapidamente para Rachel, que por mais que a expressão estivesse séria e obviamente entristecida, os seus olhos violeta brilhavam fascinados para a entidade que era vista raramente, por eles é claro. O maior feiticeiro de todo o Universo estava ali em sua frente. Ele estava tremendamente fodido.
O Senhor Destino lançou o olhar para ambos antes de pousar os pés no chão. O elmo de ouro perfeitamente ornamentado reluzia pelo brilho do grande Ankh em suas costas. John pensou no que dizer, já que o silêncio estava o deixando agoniado, mas a voz da entidade tomou a frente.
— John Constantine, Rachel Roth — o som grave ecoou pelo grande templo, fazendo com que os dois sentissem arrepios na nuca — O feitiço criado por vocês causou desequilíbrio na ordem do Universo. O Descanso Eterno e o Banimento desfizeram a possibilidade da existência da vida e a morte entre as dimensões.
Aquele homem não era a mesma pessoa que John havia desafiado, senão provavelmente o início da conversa não seria esse. Relaxou os ombros minimamente.
Anos atrás, John aproveitou a oportunidade de colocar o elmo de Nabu em si próprio, o que não causou uma boa experiência, já que ele não era o verdadeiro hospedeiro daquela época. Ao devolvê-lo, ele desafiou o Senhor Destino a conseguir desobedecer às ordens da entidade. Obviamente isso ocasionou na morte do cara, o que fez que Nabu fosse à procura de outra pessoa. Zatanna e o pai Zatara também já inventaram de enfiar aquela merda na cabeça, e depois da morte do sogro, nunca mais o viu, então não fazia ideia de quem que estava agora em sua frente.
— Fizemos o necessário para salvar meu planeta esta dimensão de Trigon — a voz de Rachel o tirou das lembranças incômodas. Ela ainda soluçava um pouco, por mais que as lágrimas já tivessem cessado — Nunca permitiria a entrada do demônio aqui novamente, e já que ele é imortal, o melhor que fizemos foi bani-lo em uma dimensão que o mesmo havia destruído. Não existe a possibilidade de ele ferir ninguém.
— Entretanto, Rachel Roth, isso faz com que as mortes futuras no Universo sejam interrompidas.
— O que? — a morena aumentou o tom da voz rouca, já estava ficando com raiva novamente — A sua “Ordem” é permitir que seres inocentes morram? Quem você pensa que é para decidir quem deve morrer ou não?
— Sou um Agente da Ordem, que observa os acontecimentos e intervém nos momentos necessários, como esse, por exemplo.
Rachel fechou os punhos e cerrou os dentes, tentando conter a raiva. Ele não achava que chegou um pouco tarde para isso? Encarou o homem ao seu lado, que para sua surpresa estava visivelmente com medo.
— Outro exemplo, Rachel Roth — a entidade indicou com uma das mãos cobertas por luvas douradas o loiro, que afrouxava ainda mais a gravata, suando frio — Seu amigo acredita que pode decidir quem vai para o “céu” ou o “inferno” com seus feitiços, exorcismos e visitas a dimensões em que ele não foi convidado. Inclusive tentou decidir quem deveria ser meu receptáculo — seu tom soou levemente cômico — Acredite, não tenho a intenção de despertar seu pai e seus irmãos. Estou aqui em sua presença para avisá-la que o feitiço de banimento para uma dimensão destruída também causa o desequilíbrio na ordem, fora a maga que vocês enviaram junto deles. Ela jamais conseguiria sair de lá viva. Irei enviar seu pai e irmãos de volta a Azarath e trazer Zatanna Zatara de volta à Terra — ouviu ambos soltarem suspiros frustrados pela parte do esforço ter sido em vão — Saibam que tal feitiço seria melhor concluído caso Slade Wilson e a maga não houvessem intervido. Seu sangue derramado não está escrito na história, e nem a morte dele — apontou para o corpo verde no chão, fazendo com que mais lágrimas voltassem a escorrer em seu rosto — A morte de Garfield Logan já está escrita, porém o modo de intervir do mercenário à uma fuga causou o desequilíbrio, já que o jovem será de grande utilidade em um futuro não tão distante.
Ela soltou o ar que segurava, começando a hiperventilar. Pousou as mãos nas coxas enquanto abaixava o tronco. Ficou olhando para baixo com os olhos arregalados, pensando em todas as maneiras que aquilo poderia ter ocorrido. As mortes sendo evitadas, ele não mencionou o seu descontrole, que no caso só percebeu que tinha acontecido quando viu o corpo de Terra no chão.
— Enquanto a Terra? — ouviu o loiro perguntar. Provavelmente ele se assustou pela forma de como ela havia morrido. Ele pensou que fosse uma morte desnecessária, por lembrar da expressão de desespero vindo da garota que sofreu nas mãos da morena. Senhor Destino lançou olhar em direção ao corpo e retornou aos olhos azuis.
— Slade Wilson e Tara Markov desafiaram a própria vida quando lutaram a favor dos demônios. A história de Rachel Roth também já está escrita. A intervenção de sua vida levaria a morte de ambos em qualquer momento nas mãos dela. Era apenas questão de tempo.
Constantine olhou desconfiado para a entidade em sua frente. Ravena não estava mais prestando atenção no que o Senhor Destino dizia, só queria ver Garfield de pé em sua frente.
— Certo... Então porque Zatanna deve voltar viva até a Terra? Ela também estava envolvida com os dois e tinha a mesma intenção de fazer mal à Rachel.
Nabu não respondeu. Apenas o encarou profundamente, como se estivesse lendo sua alma. John sorriu em deboche, todo o seu medo de esvaiu.
— Eu não acredito que você está vivo, Zatara.
O nome fez com que a morena voltasse a si, e olhou confusa para os dois. Ela estava observando suas pernas e capa ficarem sujas apenas de poeira e poucos resquícios de sangue. Senhor Destino estava fazendo o que explicou sem ao menos se mover.
— Nabu disse que minha história não havia acabado. O destino de minha filha pode ser alterado se ela souber de minha existência — murmurou enquanto tirava o elmo de ouro da cabeça, fazendo com que sua voz agora fosse reconhecida — Por favor, perdoem a minha filha. Farei com que ela nunca mais apareça para incomodá-los. Inclusive desfiz o encantamento que lançou sobre os membros da Liga da Justiça.
O rosto enrugado do mago estava amargurado, visivelmente cansado por estar sendo usado por Nabu. O que ele fazia agora era incorreto, estava desobedecendo a ordem por puro egoísmo para manter a filha viva. Mas dos dois sensitivos ligaram o foda-se, o problema não seria mais deles.
— Não estará perdoada, mas aceito sua decisão — Rachel não pensou antes de falar, estava visivelmente ansiosa — Será que é possível trazê-lo de volta logo?
— É só olhar para atrás, minha jovem — Zatara disse com um pequeno sorriso nos lábios, assistindo a mulher virar os calcanhares e correr afobada em direção à Garfield Logan.
Não poderia dizer que estava satisfeito com o que Nabu decidia, mas não tinha escolha. Faria com que Zatanna visse os seres diferentes dela com outros olhos, já que pelo trauma de sua morte acabou fazendo com que ela odiasse e repudiasse tudo o que o atingiu sem ao menos conhecê-los. Agora ele mesmo fazia parte de uma entidade, e não pretendia também ser odiado por ela, mesmo que não o reconhecesse. Permaneceria afastado e a observando em segurança. John Constantine estendeu a mão, expressando gratidão com o olhar. Ele a apertou sem pestanejar.
— Cuide dela, Zatara. Provavelmente ela não se lembrará de mim — sua voz grave soou firme, mesmo que ainda estivesse abalado pela situação — E se lembrar, prometo tentar me manter afastado.
— Tentar? — ergueu a sobrancelha, vendo o antigo genro lançar um sorriso encabulado, parecendo um adolescente — Eu estarei vigiando até encontrar uma parceira. Não vou conseguir usar o elmo por muito mais tempo sozinho.
— E sobre a morte do garoto... O que quis dizer sobre a história? Como ele vai morrer? — foi curioso em meio a um sussurro, deixando de ser carrancudo por rever o antigo conhecido. O mais velho comprimiu os lábios, desviando o olhar para a morena de joelhos no chão, assistindo o corpo do rapaz se restituir.
— Ele deve se manter longe de... demônios. — Fitou os olhos azuis agora surpresos e preocupados. Deu um leve tapa no seu ombro esquerdo, encerrando o assunto — Mantenha isso em segredo se quiser que o casal seja feliz, como se fosse você com Zatanna.
John afirmou enquanto o via colocar o elmo de ouro sobre a cabeça, um grande Ankh dourado surgiu e o Senhor Destino desapareceu com o mesmo. Respirou fundo, tentando esquecer da maldita resposta do homem. Não deveria ter perguntado.
Se segurou para não se aproximar e checar se Garfield estava bem. Obviamente ele estaria, então para deixar a Rachel confortável virou as costas, indo lentamente em direção à saída do enorme templo cheio de areia e sangue. Precisava fumar e beber.
Ela observava cada centímetro do rosto verde se reconstruindo, junto com a ponta da orelha que também havia sido destruída pelo tiro do Exterminador. Ansiava para ouvir a respiração, a primeira batida do coração daquele homem todo sujo, mas que continuava lindo. A pálpebra com os cílios curvados já estava perfeita, junto com a sobrancelha. Ouvir o som asqueroso do cérebro sendo refeito a deixava ainda mais ansiosa. Crânio já intacto, os fios verdes cresciam, se misturando com a areia. Maldita areia. Olhou na direção do corpo de Tara em irritação, que ainda estava lá todo retorcido. Ficou pensando no que o Senhor Destino disse. Ela era a causadora da morte de Terra. Era inevitável. Ficou imaginando o que aconteceria se a loira descobrisse isso de algum modo antes de se conhecessem.
— Você está imunda — a voz cálida dele aqueceu o seu peito, não conteve a risada ao assistir o sorriso bobo de Gar que a contagiou. Ele passou os dedos em seu rosto, enxugando as lágrimas que insistiam em cair — Ouviu essa risada? É a primeira vez que eu ouço isso.
Ignorou o comentário e o abraçou com força, a sua felicidade estava de volta. Sentiu ele rodear seu corpo com os braços agora quentes, que antes já estavam quase rígidos pela falta de circulação de sangue. O abraço reconfortante, matando uma saudade que parecia ter durado diversas eternidades. A alegria era tão grande que seu peito doía. Uma dor boa. A sensação nova de amparo, pois minutos atrás estava destruída e em pedaços. No momento se perguntou se era possível morrer de felicidade, porque se fosse ela já estaria morrendo. Ao se separarem ela fez questão de acariciar o lado do rosto que antes tinha um rombo, com carne e ossos em pedaços. Estava intacto e lindo como antes.
— Você também não está limpo — murmurou enquanto ele se levantava sem dificuldades, e a enlaçou pela cintura com um sorriso aberto no rosto — Do que você se lembra?
— Um cara elegante com um capacete dourado falou comigo, me lembro de tudo. Mas não, Rachel. Eu não sei como é estar morto — ele seu uma curta risada por ter pensado que adivinhara a próxima pergunta. O sorriso dela diminuiu, o fazendo franzir as sobrancelhas ao ficar confuso.
— Então sabe sobre o que eu fiz com Slade e a Tara... — sussurrou enquanto o fitou nos olhos que lhe transmitiam tranquilidade — Confesso que em partes eu sabia o que estava fazendo, Gar.
— Rachel, essa parte não vai ser fácil para mim, já que era uma grande amiga... Pelo menos eu pensei que era — passou os dedos no rosto sujo pela poeira e sangue da loira e de Slade, já que o seu corte na jugular não deveria ter ocorrido, estava com as vestes e o cabelo mais limpos — Ela nunca foi parte de nós, nada foi sincero, recíproco. Tara nos usou, me sinto traído e obviamente não tem como se sentir feliz por uma morte, mas eu estou de volta e com você. Com o Titãs, que devem estar nos esperando — começou a olhar para os lados, mas a morena segurou o seu queixo bruscamente, o impedindo de olhar para o corpo de Terra. Eles ansiavam por um beijo, mas não fariam ali porque ela não é esse tipo de pessoa. Pegou sua mão e o guiou para a saída.
— Certo. Vamos embora.
—
— Jesus, Maria, José! — Victor gritou sorridente ainda paralisado, vendo a dupla sair pela porta vermelha com as mãos unidas. Garfield quase tropeçou em Constantine, que estava sentado em um dos degraus fumando o cigarro. Por magia conseguiu recuperar, já que todo o seu casaco estava encharcado e pisoteado quando voltou. Ele havia explicado o que aconteceu do jeito dele, meio vago, que quase ninguém entendeu. Mutano pediu desculpas e encarou o amigo parecendo uma estatueta — Será que pode me soltar agora?
Batman que conversava seriamente com Dick explicando o acontecido só olhou de relance para Damian, que libertou Cyborg. Depois de se ajeitar ele recebeu um abraço literalmente de urso do amigo. Kori se enfiou entre os braços para fazer parte do aperto peludo e forte de Garfield. Rachel passou lentamente por eles, extremamente exausta. Por mais que também estivesse feliz pela missão concluída e o presente que o Senhor Destino lhe deu, ela não demonstrava muito ânimo.
— Como você está? — Damian lhe chamou a atenção, fazendo com que ela olhasse para o mascarado que normalmente era irritadiço em sua frente.
— Eu estou viva... e feliz — respondeu baixo, estranhando a frase dita em voz alta. Ele sorriu pra ela antes de cruzar os braços.
— Então aproveita enquanto pode, porque daqui a algumas horas isso pode ser diferente.
— Damian! — Asa Noturna o repreendeu, deixando Rachel confusa que, no entanto, não mostrou reação.
Ele só estava provocando e ela nem percebeu. Já estava noite e o que ela mais queria era tomar um banho quente, se deitar em uma cama confortável e ficar embaixo dos cobertores. De preferência com Garfield, mas sabia que o pessoal tinha energia para comemorar, mesmo que achasse estranho por ter a ex-companheira de equipe morta lá dentro.
— Batman — coçou a garganta por ainda estar rouca — se não se importa, eu vou embora. O relatório pode ser feito amanhã.
— Ele será feito amanhã — Grayson concordou em meio a um sorriso. Estava cheio de orgulho dela, por ter conseguido novamente e se Deus quiser, permanentemente se livrar de Trigon — Constantine, você estará conosco?
— Não mesmo — o loiro e Rachel disseram ao mesmo tempo, fazendo com que ela lhe dirigisse um breve olhar cômico — Eu estava com ela o tempo todo. Vou pra casa e não pretendo voltar tão cedo — mentiu. É claro que um dia retornaria para talvez voltarem a estudar juntos. Ele se levantou e foi em direção a ela, que pela primeira vez em todos os anos que se conheciam, a abraçou em despedida. Olhou seriamente nos olhos violeta que mesmo cansados emitiam um brilho de felicidade — Eles não irão voltar tão cedo. Mas nunca baixe a guarda, Rachel — sussurrou em meio ao abraço, após se separarem abriu o seu portal, reluzindo a luz amarela no rosto de todos em meio ao breu onde antes só era visto os olhos de Kori e do Victor — Não pretendo mais trabalhar em grupo depois dessa. Garfield, cuide dela.
E desapareceu, deixando Batman incomodado pela falta de informações que desejava e o restante sorridente pela última frase dita.
— Garfield, você vem? — convidou, fazendo com que ele se despedisse rapidamente e passasse com ela pelo portal. Ela poderia falar com o restante mais tarde.
—
Eles apareceram direto no quarto dela. Se encararam ao mesmo tempo, o que tirou um meio sorriso dele, que se aproximou de si. Pensou que Gar iria a beijar, mas as mãos verdes soltaram a capa imunda da morena, a deixando apenas com o collant e as botas.
— Precisamos urgentemente tomar um banho e encher o bucho — murmurou em meio aos lábios de Rachel, que com certo esforço pousou os braços em seu pescoço. Se assustou quando ele a levantou, fazendo com que por instinto cruzasse as pernas em seu quadril. Arfou pela surpresa e alívio de não carregar o próprio peso — se importa de eu usar o banheiro?
— Não...
Gar a carregou um pouco desengonçado até o outro cômodo, e enquanto isso ela fazia questão de observar cada traço em seu rosto, o piscar dos olhos e a respiração com toda a atenção, para nunca esquecer dele vivo ali, quase caindo com ela em seus braços até o chuveiro.
— Você está acabada, gatinha. E com razão — disse enquanto ajustava a temperatura da água — Só aquele cara pra me deixar inteiro, porque eu me lembro de também estar...
— Eu não quero falar sobre isso — o interrompeu depois de respirar fundo, sentindo todos os seus músculos doerem.
Ele concordou com a cabeça, sem tirar o sorriso do rosto e começou a remover seu collant enquanto ela descalçava as botas. Ficou embaixo da água quente ouvindo-o reclamar da própria roupa, mas logo o sentiu a abraçar por trás. Ele a entregou o shampoo e pegou o sabonete para passar em suas costas junto com uma esponja. As grandes mãos passeavam em seu corpo como uma carícia em mistura de uma massagem relaxante. Deu um longo suspiro. Algumas horas atrás imaginou que nunca mais sentiria aqueles toques.
Encheu a mão de shampoo e depois de esfregar o próprio cabelo se virou e começou a lavar o dele também, que fechou os olhos com o carinho. Não sabia como ele mantinha o sorriso por tanto tempo. Tinha certeza de que seu rosto estava sem expressão alguma, mas o rapaz sempre a encarava profundamente e com o olhar lascivo.
— Essas coisas não têm cheiro algum. Como pode ser tão perfumada? — perguntou enquanto também acariciava os fios escuros.
— O seu olfato é melhor que o de todos aqui. Eu não uso nenhum perfume.
— Mesmo que eu não tivesse o melhor olfato, ainda sentiria. É natural e eu amo demais — sussurrou enquanto levava as cabeças para enxaguar os cabelos. Ele observou a espuma descer em suas curvas, o que levou a perceber algumas escoriações no corpo da morena. Não comentou sobre isso para não a incomodar — Você sabe o quanto é gostosa? — ela suspirou pesadamente e encarou todo o corpo verde sem expressão.
— Você também não é nada mal — falou baixo, e sorriu depois de ouvir uma gargalhada contagiante — preciso do condicionador.
Ele logo a alcançou e começou a esfregar o próprio corpo, depois o dela. Fez questão de dar beijos demorados nos seios, na clavícula, subindo pelo pescoço, mordendo o queixo e finalmente alcançando os lábios rosados que já o esperavam, entreabertos.
Não fora um beijo lascivo e com luxúria, suas línguas se acariciavam lentamente. Um beijo doce, cálido. As mãos passeavam da nuca até abaixo da coluna, enquanto ela puxava mais o rosto para perto de si. Rachel estava aquecida por dentro e por fora. Se sentia completa naquele banho sem fim. No mesmo local em que havia tido seu ataque de pânico agora estava trocando beijos com o homem que amava.
— Eu amo você — disse pela primeira vez o olhando nos olhos. Jamais se perdoaria se o perdesse de novo e não tivesse expressado tal sentimento em palavras. Quando havia dito mais cedo só foi para ele calar a boca e ir embora. Mas agora era sério. Ele mordeu seu lábio inferior, tocando a testa na dela. Fechou o chuveiro.
— Eu sei. Agora vamos descansar.
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