Sacrifício
13 Cumplicidade
Notas iniciais

— Fugiu da batalha e resolveu voltar?
— Não tive a intenção de fugir em momento algum, muito pelo contrário. Minha missão era te encontrar.
— E o que pretende?
— Dei meu parecer à Liga da Justiça e agora vou tirar você daqui. Depois retorno aos Titãs para que não desconfiem de nada.
Tara observava o antigo tutor que estava sentado em uma cadeira simples em meio ao cômodo vazio do prédio onde fora encontrado. Fazia dias que estava possuído por uma criatura demoníaca, por isso a loira demorou para achá-lo. Havia apenas duas cadeiras e uma pequena mesa em meio às escadas, uma das paredes claras tinha uma mancha de sangue e não sabia de quem era. Ele estava com sua máscara em mãos, a lustrando com a barra da camisa preta. Tinha um sorriso irônico quase imperceptível nos lábios.
Era a segunda vez que estava ali, a primeira foi quando finalmente o encontrou, ainda possuído por um dos demônios que ele mesmo invocara dias atrás e ela tinha a obrigação de contatar seus superiores, que após poucos minutos Zatanna e Lanterna Verde chegaram. Este segurou Slade até que o feitiço da morena acabasse.
Houve um tumulto pelos civis curiosos após a maga ter feito um exorcismo às pressas, fazendo com que o demônio que habitava Slade tentasse fugir e assustasse os civis com seus guinchos em alarde no terraço do prédio baixo. Terra e o Lanterna interviram, não sem antes serem feridos pela criatura que voltou para sua dimensão após o grande esforço da maga, que pela sua observação não estava preparada para aquilo. Enquanto a morena dispersava o grande grupo de pessoas após remover a lembrança de suas mentes, aproveitou para deixar a dupla e partir para o real esconderijo de Slade, onde planejava encontrá-lo mais tarde porque tinha certeza de que ele conseguiria escapar sem a ajuda dela. Porém, ele não chegou, e a loira retornou ao local para descobrir o que aconteceu.
— Terra, você saiu antes de Zatanna ter criado um campo de força para me manter aqui temporariamente. Lamento lhe informar que sua presença é perda de tempo. Eles irão retornar em breve, e se quiser fazer alguma coisa para impedir, terá que ser no momento em que a morena desfaça esse projeto de escudo — o moreno pousou a máscara na mesa e a fitou no fundo dos olhos claros, em tom de desafio — você é capaz de impedir que me levem?
A expressão da loira mudou, agora estava enraivecida pelo mais velho duvidar dela. Se aproximou apressadamente da mesa e deu um forte soco para expressar seu descontentamento, a quebrando. Os papéis amarelados pelo tempo que continuam as instruções de rituais planaram é o chão, que agora havia uma rachadura pelo quase descontrole da garota. O mais velho nem piscou o olho. Se ela queria o intimidar, teria que se esforçar mais.
— Eu vou tirar você daqui comigo. Quero me livrar daquela bruxa e você é o único em quem confio para ajudar.
— E eu posso saber por que de dando ódio pela morena? — perguntou com a voz branda ao se levantar e ir de encontro a sua armadura que repousava no corrimão da escada — Pelo que eu descobri houve mortes de inocentes causados por ela, provavelmente a Liga da Justiça tomará providências e Rachel sairá do seu caminho.
A loira lhe lançou um olhar desacreditado, até que deu um longo suspiro, buscando paciência. Esqueceu que o mais velho estava possuído esse tempo todo, então não tinha noção do que estava acontecendo.
— Aquela mulher surtou de novo e quase matou o Mutano. Batman viu tudo e ainda assim a deixou livre para fazer o que quiser dentro da Torre. Ela é um perigo para a sociedade.
O Exterminador deu uma pausa enquanto se vestia para soltar uma risada alta o suficiente para irritar Tara ainda mais. O olhar de descrença do mesmo fez com que engolisse em seco.
— E desde quando liga para a sociedade? Você só está com o orgulho ferido por ser dispensada por eles, e ter que assistir de camarote o garoto tentar conquistar aquela morena difícil — Slade debochava enquanto procurava sua espada que havia sido lançada para algum lugar quando Grayson o havia chutado mais cedo — Voltou para mim por puro ciúme e inveja. Por mais que eu deteste aquele grupo, ainda não vejo motivos para matar a filha de Trigon quando pretendo me aliar a ele.
— Se aliar a Trigon? Como pode achar que isso é possível? Você não passa de um grão de areia sob os pés de um ser tão poderoso.
Não estava entendendo a tranquilidade do homem a sua frente. Ele estava sem saída, iria ser preso em instantes e não mostrava sinal de preocupação. E nem planejava escapar dali. Ele já embainhava a katana em suas costas, como se ninguém viesse lhe desarmar. O ouviu suspirar entediado e voltar a sentar-se na cadeira com os dedos entrelaçados sobre a mesa quebrada.
— Eu te dou o meu apoio, Tara. Mas meu nome não deve ser mencionado quando pegarem você. Por mais que pense que está planejando alguma coisa, está sendo impulsiva. O correto seria retornar à sua Torre e agir normalmente até chegar o momento certo, não ficar cutucando Ravena para ver se ela explode mais uma vez. Assim ela pode ferir o seu ex-namorado, ou estou equivocado?
— Que momento certo, Slade? Vá direto ao ponto, sabe que não posso ser pega falando com você.
— Farei uma troca com Trigon. Vou entregar Rachel para o pai e os poderes dela serão meus.
O silêncio reinou por alguns segundos. A loira o olhava em dúvida, mas ele não mudou a expressão do rosto. Não estava mentindo. Ela riu pra si mesma enquanto cruzava os braços. Estava impressionada pela falta de inteligência do Exterminador.
— Deixe-me ver se entendi. Você fez um acordo com um demônio. Um demônio. E acha que ele vai cumprir sua palavra? Enlouqueceu?
— Já dei o que ele pediu. Permiti que ele mandasse uma mensagem a filha através de mim. Isso a desestabilizou. É a sua deixa para agir, Tara — ele levantou e se aproximou, pousando a mão em seu ombro, com o olhar de cumplicidade — A não ser que não queira se envolver com o inimigo de sua inimiga.
Ela retribuiu o olhar, logo abrindo um sorriso. O momento foi interrompido pela luz laranja do campo de força surgindo, dando o sinal de que a mágica chegara. Foi a deixa que Tara saísse às pressas na escuridão, sem se despedir.
—
Rachel não precisou dizer que queria ficar sozinha para que Garfield a deixasse na porta de seu quarto sem contestar. Perdeu a noção de quanto tempo estava embaixo do chuveiro, ainda vestindo suas roupas rasgadas pela destruição que ela mesma criara. As lágrimas se misturavam com a água fria que escorria em seu rosto mais pálido que o normal. Ela pensava que havia criado o plano perfeito, mas a primeira etapa já foi falha, e ceifou a vida de duas pessoas que ela via com frequência e tinha muito respeito. O pior de tudo foi ver os corpos surgirem de repente perto de si, em frente ao prédio que era reconstruído por Zatanna. A mulher que tanto odiava fez questão de restaurar o caos que ela criara pelo bem deles. Rachel sabia que a maga poderia encontrar o livro em meio segundo sem ter feito isso. Fez um grande espetáculo, impressionando todos os seus colegas, sabendo que o livro estava com ela o tempo todo.
O que mais pode acontecer? Quantas pessoas ainda morrerão em suas mãos? Havia muitas dúvidas, mas tinha certeza de que a culpa era dela, pois foi sua teimosia, sua insistência no erro. Sua obsessão pela morte do seu pai estava causando a morte de inocentes. Se enganou ao pensar na possibilidade de derrotá-lo e ainda sobreviver. Aquele mal é hereditário, mesmo com a intenção de fazer o bem, tudo acabava em destruição e brigas. Discussões onde ela era o assunto. A briga era para defendê-la, onde ela mesma estava contra isso. Naquele momento, ali na água fria pensou novamente que tudo seria melhor se estivesse morta. Se sua família não existisse.
Ouviu batidas na porta e uma voz abafada, a chamando. Não quis responder. Queria ficar sozinha até estar estabilizada para conversar com alguém normalmente.
— Rachel, querida. Está tudo bem? — a doce voz da amiga ruiva foi mais alta, a despertando mais um pouco, mas não se mexeu — Está vestida?
Por ficar sem resposta, Kori entrou devagar no banheiro de luzes apagadas, com os passos ainda incertos, na dúvida de poder estar ali ou não. Ela já estava limpa, os cabelos levemente molhados grudando na camisola branca que realçava a cor de sua pele bem bronzeada. Se espantou em encontrar a amiga naquele estado, olhando para o nada enquanto a água suja que saía aos poucos de suas roupas ia em direção ao ralo.
Rapidamente se aproximou, e ao tocá-la assustou-se pela sua temperatura, naquele frio pela mistura das estações Raven estava embaixo de uma água congelante. Ralhou baixo, enquanto controlava a temperatura da ducha. Logo se abaixou, não ligando em se molhar novamente e deixou o rosto da morena entre as mãos, tentando chamar atenção.
— Amiga, está me ouvindo? Você está muito gelada, pode ficar doente assim — acariciava o rosto frio que ainda chorava em silêncio, fitando os raros olhos verdes que brilhavam no cômodo escuro — se importa de eu tirar essas roupas sujas? Precisa se ajeitar para descansar.
Não obteve resposta. Pensou em chamar Garfield, mas não sabia o nível de intimidade dos dois para ele poder ajudá-la na tarefa, então decidiu por ela mesma dar banho na morena. Sem dificuldade retirou as roupas encharcadas de Rachel, já que não tinham mais uso rasgou o restante delas. A mulher agora nua começou a chorar alto e encolheu o corpo, se sentindo humilhada por não ter coragem nem de se mexer. Rachel não percebeu as lágrimas escorrendo no rosto da ruiva preocupada que lavava os seus cabelos, após o shampoo começou a desembaraçar os fios escuros com os dedos usando o condicionador que era nada parecido com o dela, Kori gostava de aromas florais. Rachel não usava perfumes.
Após esfregar a maior parte do corpo da morena, a motivou a limpar as partes íntimas por si só, e saiu para buscar roupas quentes para a amiga, que mesmo com o banho morno ainda estava gelada. Não colocou a água mais quente para evitar que Rachel ficasse doente, por mais que duvidasse de que isso era realmente possível.
Agora a morena estava mais alerta, porém desviava o olhar para o chão enquanto era vestida por Kori que fazia tudo em silêncio, com um pequeno sorriso no rosto.
As duas mulheres mesmo com curtas palavras trocadas diariamente eram grandes amigas. Estelar não pensou duas vezes ao vê-la naquele estado e a ajudou sem questionar, por mais que quisesse. Ficou longos minutos com Rachel desacordada em seu colo enquanto impedia uma parede enorme cair sobre as duas algumas horas atrás. Sentiu o grande poder da companheira de equipe lhe atingir, o que causou uma dor que nunca recebera antes, e fez o máximo que pode para não deixar que ela entrasse em contado com aquele escudo mágico que a maga bonita havia criado. Fazia e faria de tudo para o dar o melhor para os seus amigos. Os que lhe acolheram quando chegou ao planeta Terra, e jamais os abandonaria.
Observou a morena na cama, coberta até o pescoço por três edredons que a ruiva encontrara no closet. Ficaria ali até a amiga dormir. Esta olhava para o teto, pensativa, com os olhos marejados. Queria saber o que ela estava pensando.
— Rachel, vejo que está passando por uma dificuldade que eu jamais compreenderia — chamou a atenção da morena, que lhe direcionou o olhar sem expressão — então não posso resolvê-los por ora. Mas irei lhe fazer companhia se quiser. Segure a minha mão, já que sei que não gosta de abraços.
A morena demorou alguns segundos para estender o braço em direção a Kori. Segurou a mão dela com força por baixo do cobertor. Sentiu que a amiga não estava com pena dela, e sim preocupada. Fechou os olhos e se permitiu apreciar os sentimentos da ruiva. O amor, carinho, afeto, bondade. Tudo aqueceu o seu coração. Respirou fundo, soltando um soluço involuntário e deu um minúsculo sorriso. A ruiva percebeu o que ela fazia e um resquício de alegria surgiu, o que fez a morena abrir os olhos e fitá-la.
— Sim, Kori. Você pode me dar um abraço agora.
Se aproximou sorrindo e deu um forte abraço em Rachel ao ouvi-la falar pela primeira vez, molhando um pouco os cobertores que cobriam a morena, por não ter se secado até agora. Ela retribuiu como pôde, e escondeu o rosto no pescoço perfumado.
Raven estava um pouco melhor, mas o que sentia não a deixaria permanentemente. Sua depressão sempre esteve ali. Entretanto, existiam momentos em que ocultavam a doença, como aquele abraço quente e reconfortante, cheio de paz e ternura que Koriand’r era especialista em dar.
— Obrigada, Kori — sussurrou sem pensar. A ruiva se surpreendeu com a palavra quase nunca dita pela mesma. Ela se separou do abraço e colocou o rosto alvo em suas mãos, e a encarou os olhos violeta tristes profundamente.
— Você não precisa agradecer, minha amiga. Eu não fiz um favor. Te tirei do banheiro, te aqueci com essas cobertas e estou aqui porque quis. Nunca vou saber o que passa em sua mente, mas nunca se esqueça, eu sempre estarei aqui para você!
Beijou a cabeça ainda úmida da morena e se sentou na beirada da cama. Ficaram alguns minutos em silêncio até a morena entrar em um sono profundo. Após ter certeza de que a amiga não acordaria tão cedo, saiu do quarto levitando para não fazer barulho e se deparou com Garfield, que esperava por notícias atrás da porta o tempo todo. Ela o tranquilizou e foi em direção ao seu quarto. Dormiria lá essa noite pois sabia que Grayson também queria ficar sozinho.
—
Cyborg estava na sala de controle observando tudo em sua volta, ainda admirado por tudo estar no seu devido lugar. Contudo, não havia esquecido das palavras de Zatanna sobre Rachel. Novamente ela havia perdido o controle dos poderes, causando a morte de dois médicos e deixando os outros com grandes ferimentos. Mas ela não tinha culpa. Ou será que tinha?
Durante todos esses anos via Rachel como uma amiga fiel, mas agora não havia encontrado o porquê de ter concluído esta afirmação. Quando ela lhe deu motivos para confiar nela? A morena vivia no mais puro silêncio, apenas ouvindo as conversas e participando com poucas palavras. Mantinha os olhos nos livros e grande parte do fim da adolescência passou os dias no terraço, meditando e observando o grupo. Estava presente em todas as reuniões e treinamentos que Grayson a chamava. Às vezes quando ele tinha a intenção de chamá-la no quarto ela já surgia em sua frente. Como se estivesse a par de tudo, com os olhos e ouvidos por toda a Torre. Sempre sendo fria, arisca, misteriosa, com o olhar que às vezes o amedrontava.
Quais foram as últimas vezes em que passaram o tempo juntos com uma conversa normal? Não lembrou de nenhuma. O que fez Garfield se atrair por ela? O homem verde era totalmente o contrário da personalidade da garota. Tara foi difícil quando entrou na equipe, mas depois se tornou divertida e o cativou. O que fez Mutano abandonar o carisma da loira e ir atrás do silêncio da morena?
Aqueles ataques estavam cada vez mais frequentes, e Rachel não deu satisfação em nenhuma das vezes. Inclusive quando quase quebrou o pescoço do seu melhor amigo. Ela não disse uma palavra, e Garfield a defendeu e agora estavam juntos. Conhecia os poderes dela. Ela teria a ousadia de mexer na mente do amigo para fazê-lo ficar junto dela? Talvez tenha feito isso ao ficar sozinha com ele na enfermaria, enquanto o garoto estava morrendo pelo “ataque de Trigon”. Oportunidade perfeita, já que Gar na maior parte do tempo ficava na companhia dele.
— O que está fazendo aqui? — uma voz que não ouvia a algum tempo o tirou dos pensamentos que o deixaram perturbado.
— Tara! — forçou um sorriso ao aproximar-se da mulher escorada no batente da porta — Chegou agora?
A loira lhe deu um sorriso torto, e socou a mão estendida do amigo para cumprimentá-lo.
— Sim. O que houve lá fora?
A pergunta o desconsertou, involuntariamente colocou a mão esquerda na nuca e desviou o olhar, querendo evitar o assunto. Tara cruzou os braços, esperando uma resposta.
— Houve um pequeno incidente aqui, mas a Liga enviou Zatanna e Batman para resolver. Está tudo certo — por mais que quisesse sair firme, sua voz falhou.
— "Pequeno incidente”? Estamos no meio da madrugada e consegui ver que não existe mais gramado, e existem rastros recentes de vários veículos. Eu irei saber de qualquer forma, Victor. — A loira com a voz moderada insistiu, o fazendo dar um suspiro derrotado.
— Rachel passou mal, sobrecarregou os poderes. Houve uma explosão, bombeiros vieram, Zatanna restaurou a Torre em menos de cinco minutos e agora está tudo resolvido.
Tara encarou o moreno com a sobrancelha arqueada, esperando mais detalhes da história, mas este não disse mais nada.
— “Tudo está resolvido?” Ela ainda está aqui?
— Quem? — respondeu com outra pergunta, distraído.
— A Rachel, Victor. De quem mais eu estaria falando?
Ele respirou fundo, olhando para o teto e depois afirmou com a cabeça. A loira tentou segurar a raiva para seguir as instruções de Slade. Após colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha, foi de encontro ao grande computador, para enviar a mensagem à Liga sobre seu retorno à Torre Titã. O moreno só a observou. Não pretendia sair dali. Já que não dormia a madrugada era o seu turno de vigília. Após alguns minutos Tara se levantou da cadeira acolchoada e foi em direção à saída.
— Vou para o meu quarto. Preciso de um banho e descanso. Nos vemos pela manhã.
Deixou o moreno sozinho, que novamente voltou a pensar em Rachel.
Fale com o autor