Seguimos por mais algumas horas até quase o nascer do Sol. Como toda a movimentação da cidade começar, decidimos nos esconder e esperar um momento melhor para prosseguir. Achamos uma pequena casa abandonada, que provavelmente seria revistada a qualquer momento pelos soldados, mas seria tempo suficiente para nos reorganizarmos. Ao nos alojarmos na casa, preparamos nossos equipamentos, comemos um pouco e descansamos alguns minutos. Eu estava um pouco sonolento e quase fechando os olhos, apesar de ser meu turno como vigia, quando ouvi Davi chamando por Terzo:

– Terzo, é o Bacco... Ele não está bem.

Assim que ouvi o nome de Bacco, me levantei e fui ver o que estava acontecendo. Ele estava ardendo em febre e delirando, a única coisa que conseguia dizer é que não conseguia se mover, pois seu corpo doía por inteiro. Ninguém ali tinha conhecimento médico e muito menos qualquer tipo de medicamento. Olhando Bacco se contorcer de dor dava pra ver que não se tratava de um mal estar qualquer.

– Você consegue levantar, garoto? – Perguntou Terzo.

– Não... dor... muita... – O pobre garoto nem conseguia falar direito.

Isso era tudo de que não precisávamos, um de nós doente. Não podemos deixar Bacco aqui nesse estado, e encontrar algum medicamento ou um médico seria uma missão quase impossível, além de suicida.

Estávamos a poucos quilômetros do nosso destino, mas teríamos que nos arriscar. Ninguém iria deixar um de nós para trás, ainda mais doente. E depois de tentar amenizar a febre com uma toalha molhada sobre a cabeça de Bacco, Terzo chamou a mim, Davi e ao Protetor para sairmos a rua a procura de um médico. Todos sabiam do perigo, mas ninguém se opôs, e Rebecca ficou encarregada de permanecer na pequena casa, cuidando de Bacco e de nossos equipamentos.

Como era de dia e o movimento na cidade era grande, teríamos que nos misturarmos entre os outros, mas nossas vestes nos denunciariam. Então, antes de qualquer coisa, roubamos algumas roupas que secavam em varais nas estreitas ruas do vilarejo que não iriam nos disfarçar completamente, mas seriam menos chamativas do que as vestimentas de gatunos que possuíamos.

O pequeno vilarejo estava bastante movimentado, principalmente por conta de seus mercadores, que formavam uma feira próxima à pequena casa que tínhamos invadido. Logo nos primeiros metros de caminhada atraímos alguns olhares curiosos, talvez por sermos forasteiros. Em uma vilarejo pequeno como aquele, todos se conhecem e qualquer um de fora é facilmente reconhecido. Achamos uma barraca que vendia ervas medicinais, e o mercador foi logo nos oferecendo seus produtos:

– Bom dia nobres companheiros! Interessados em algum tipo de erva? Tenho de todos os tipos: para dor, para cicatrizar feridas, para ganhar força, e até uma para agradar às belas donzelas desse vilarejo, se é que vocês me entendem... – O mercador soltou uma risada rouca. – Mas se quiserem relaxar, depois de uma jornada longa, se quiserem algo para acalmar seus ânimos, tenho algo aqui que veio do outro lado do continente...

– Precisamos de um médico, o senhor conhece algum por aqui? – Terzo estava meio tenso, e aquela conversa de mercador estava o irritando mais ainda.

– Médico? Não temos muitos médicos por aqui. Os moradores costumam usar minhas ervas em caso de emergência e ninguém nunca recla...

– Há médicos aqui ou não?! – O mercador foi interrompido por Davi, que já tinha perdido a paciência com toda aquela cena.

– Nossa, vocês precisam de uma erva para ficarem mais calmos. Existe um velho que presta serviços médicos no final dessa rua. É a última casa, não tem como errar.

Mal o mercador terminou a frase, nós já estávamos em direção a tal casa, mas o indivíduo tinha que abrir a boca novamente:

– Vocês têm certeza de que não querem nenhuma erva? Eu posso fazer uma promoção para meus nobres visitantes.

Davi, visivelmente perturbado pela situação em que Bacco se encontrava, e querendo encontrar um médico o mais rápido possível, parou, respirou fundo e voltou à barraca do falastrão. Ele chegou perto, levantou um pouco a capa que o cobria, deixando um pedaço da lâmina de sua espada à mostra e sussurrou para o mercador:

– Você tem alguma erva que junte seus braços ao corpo novamente?

Assim que avistou a espada, o mercador mal conseguia falar:

– Na... não... é que... bem. Boa viagem, nobre companheiro. – Uma gota de suor descia pelo rosto do mercador, que sustentava um sorriso mais amarelo que o Sol.

De onde estávamos conseguíamos avistar a casa no final da rua, e foi pra lá que seguimos, a passos largos. Faltavam apenas duas casa para chegarmos quando eu notei que, além dos olhares desconfiados que os moradores lançavam, também começaram os burburinhos. Será que estavam desconfiados de que éramos da Resistência? Provavelmente, ainda mais depois do que Davi fez com o mercador. Aquele falastrão não deve ter contido a língua dentro da boca e deve ter nos entregue. Mas até então nenhum sinal da Guarda ou de qualquer soldado nas redondezas. Doce ilusão... Foi só voltar meus olhos para a entrada do vilarejo que eu pude notar um grupo de soldados chegando, muito bem armados como de costume.

Avisei ao resto do grupo, que disfarçadamente aperto o passo mais ainda a fim de chegar logo à casa do tal médico. O que já estava complicado piorou quando o mercador, aos berros, denunciou quem éramos:

– Esses vermes são da Resistência! Matem esses hereges!

Agora não adiantava mais fingir, era hora de lutar. Empunhamos nossas espadas causando um alvoroço na pequena feira, onde todos começaram a correr e alguns gritavam:

– São os malditos da Resistência! Matem todos, façam a vontade de Deus! Acabem com a vida pecaminosa desses vermes! — Sim, nós éramos muito bem vistos pela sociedade cristã.

Com as espadas em mãos, estávamos prontos para combater com o grupo de soldados de, aproximadamentedez soldados, que vinha contra nós. Mas novamente algo impediu o confronto, e para nossa maior surpresa, dessa vez não foi Rebecca a protagonista da cena, e sim Bacco!

Aquele moleque estúpido, mesmo mal conseguindo ficar em pé, saiu com Rebecca imobilizada e uma adaga apontada para ela, como se a fizesse refém.

– Vocês, soldados da Guarda! Parem ou eu mato a garota!

– Socorro, por favor, não deixem que ele me mate! – Gritava Rebecca completando a encenação.

De um jeito ou de outro, conseguiram o que precisávamos, distrair os soldados, que estavam parados, receosos de que Bacco fizesse algo.

– Ele é maluco?! Não vê que mal se aguenta em pé e está se arriscando daquele jeito? – Davi não se conformava com a ação, apesar de estar dando certo.

Seu estado debilitado, porém, estava a trair o plano de Bacco, que ameaçava cair a qualquer instante.

– Aguente só mais um pouco, Bacco. – Sussurrou Rebecca.

– Eu não vou agüentar Rebecca, mas você pode se salvar.

– Não diga isso, resista só mais alguns minutos.

– Eu seria só peso morto para vocês. Corra e junte-se aos outros.

– Não Bacco.

– Corra Rebecca!

E Bacco a empurrou para que se afastasse, no mesmo instante que suas pernas já não o sustentaram mais, caindo totalmente entregue no chão.

Rebecca correu em nossa direção olhando para trás, relutando em deixar o garoto. O grupo de soldados que estavam estáticos com a ameaça de Bacco contra a refém não perdeu tempo e saiu em disparada para capturar nosso jovem companheiro, que estava bem mais próximo que nós.

– Bacco, seu idiota, levante-se! – Eu gritei, na esperança de que aquele estúpido viesse em nossa direção. Mas em vão...

Rebecca nos alcançou no mesmo momento em que os soldados chegaram a Bacco e o receberam com golpes de espada, covardemente. Nós olhamos aquilo aterrorizados. O fim de um jovem que se sacrificou por nós. E antes de que pudéssemos lamentar qualquer outra coisa, ouvimos Terzo dizendo:

– Vamos! Não façamos da morte de Bacco algo em vão, vamos aproveitar e fugir!

Eu ainda não conseguia acreditar no que via, e Rebecca corria em prantos também em choque diante daquilo. Mas era verdade, ficar ali e lutar só iria fazer com que o ato de Bacco tivesse sido em vão, então corremos em direção à saída do vilarejo, deixando armas, equipamentos, comida e um grande irmão e companheiro para trás...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.