Sabor de Sangue
13 Capítulo 10
Quando Gabriel entrou no escritório de seu pai este nem mesmo ergueu os olhos dos papéis sobre a mesa.
– Deixe-me adivinhar. – disse Patrick aparentemente referindo-se ao problema que estava prestes a ouvir sobre. – Hyden.
– Você está certo. – disse Gabriel. – Ele teve um problema com a aluna nova.
– Katherine Madden. Pelo que me contaram e pelo que vi, ela parece ser uma garota bastante educada e promissora, não entendo o que seu irmão pode ter contra ela.
– Eu também não. – disse Erin representando a estudante educada e promissora e finalmente Patrick ergueu os olhos e a encarou, como se só naquele momento tivesse se dado conta de que ela também estava na sala. – E obrigada pela sua boa opinião sobre mim. É realmente uma honra.
Erin estava recostada na porta, logo atrás de Gabriel, a alguns poucos metros de distância. Ela segurava um caderno de capa dura, preta e rabiscava anotações aparentemente alheia a tudo que estava acontecendo ao seu redor.
Aparentemente, porque na prática não era verdade. Ela só se preocupava em desgrudar os olhos do caderno quando falava algo, como naquele momento, sempre com um sorriso calmo no rosto. Gabriel quase caiu na risada ali mesmo quando notou que ela era uma atriz muito melhor do que ele havia imaginado anteriormente.
– Aliás, desculpe-me por ter saído com tanta pressa antes. – continuou ela. – Fiquei bastante desconcertada com a rejeição tão espontânea de Hyden e queria saber qual teria sido a causa de tal grosseria, ou me desculpar pelo caso de talvez ter feito algo errado inconscientemente, no entanto, ele é um garoto de temperamento muito forte e voltou a me destratar assim que nos vimos novamente. Talvez demore um pouco de tempo para se dar conta de que minha presença é inofensiva.
– Certamente. – concordou Patrick. – Verei o que posso fazer sobre isso. O comportamento de Hyden é inconcebível em nossa instituição.
– E é por isso – falou Gabriel. – que estamos aqui. Gostaria que liberasse Erin das aulas pelo resto da manhã para que possamos resolver esse problema. Vou conversar com Hyden e descobrir o que está acontecendo – mentiu. Sabia muito bem o que estava acontecendo. Melhor do que Erin até. – O senhor sabe que ele me escuta. Além do mais, Katherine precisa que alguém mostre todo o colégio a ela e não vejo hora melhor que agora.
– É uma boa ideia – disse Patrick. – Vocês tem a minha permissão.
Erin voltou a olhar para Patrick.
– Obrigada novamente, senhor. Agora se nos permite, vamos nos retirar.
Patrick assentiu e voltou aos seus papéis.
Gabriel notou que o sorriso angelical no rosto de Erin permaneceu enquanto passavam pela sala da secretária, mas logo se modificou quando saíram para o corredor e se encontraram sozinhos. Se tornou algo que poderia ser colocado entre o sarcasmo e a animosidade. Ela continuava com seu caderninho em mãos e parecia rir internamente de algo.
– Diga-me, Hyden tem muito amigos? – Erin perguntou.
Gabriel não entendeu exatamente o porquê daquela pergunta, mas disse:
– Ele tem sim amigos, mas não confia muito nas pessoas, por isso prefere ficar sozinho as vezes.
– E a única pessoa que ele tem problema por aqui é comigo, ou posso ter esperanças de que esse rancor todo possa ser dividido com um outro alvo?
– É só você.
Erin revirou os olhos e fez mais algumas anotações em seu caderno.
– A pessoa lá dentro nem parecia ser você. – ele comentou apenas para não permanecer em silêncio. E porque queria saber mais sobre Erin, assim poderia atormentar Hyden mais tarde.
– Pelo simples fato de que não era. – disse ela. – Aquela era Katherine, essa sou eu. Particularmente gosto mais dessa minha personalidade.
– Na verdade o pacote completo é bastante interessante.
Ela riu brevemente.
– Você é mais agradável que seu irmão.
– Não deixe Hyden assustar você. Ele é um cara bem legal na verdade.
– Sim – ela concordou com ironia. – num lugar bem, bem, bem lá no fundo. Tipo, no subsolo do fundo do poço, ou mais fundo ainda.
Ele balançou a cabeça.
– Seu senso de humor é realmente estranho.
– É isso que se ganha quando se aprende a cultivar a frieza. – ela inclinou a cabeça um pouco. – E quando se está com bastante raiva. Como estou agora. Tenho vontade de quebrar a cara do seu irmão, o que seria um verdadeiro desperdício, mas…
Num rápido movimento Gabriel puxou o caderno de suas mães e Erin se calou.
– É um diário? – perguntou o abrindo. Ela assentiu. – Bem, não acho que combine muito com você.
– E por que não? – Erin estreitou os olhos. – Eu sou uma garota.
– Uma garota não tão normal, diga-se de passagem.
– Dou graças a Deus por isso. – ela apontou para Gabriel. – Estou sendo boazinha agora, mas da próxima vez que for pegar algo meu, peça permissão.
– Quer dizer que não se importa se eu ler seu diário agora?
Erin deu de ombros.
– Não tenho nada a esconder de qualquer forma. – ela disse e com um gesto de mão deu-lhe permissão.
Gabriel se apoiou com o ombro em um armário ali no corredor e abriu o diário na última página em que ela havia escrito:
Hyden é um pé no saco. Mesmo.
Nunca vi aquele garoto a minha vida todinha e agora ele fica agindo desse jeito.
Fico imaginando se eu devia contar isso para Elora. Ela deveria saber, mas se souber, vai querer ir embora daqui o mais rápido possível e vou ficar sem as respostas que quero. A não ser, claro, que ela mesma me ofereça essas respostas em sua boa vontade. O que não vai acontecer, porque, se ela não recorreu a essa boa vontade nos últimos 15 anos, não será agora que vai acontecer.
Estou morrendo de raiva. Preciso liberar isso. Sair para caçar hoje seria uma boa, mas como acabei de chegar aqui em Londres e não conheço a cidade, Elora não ficará muito feliz caso eu resolva sair a noite de novo. Principalmente porque faço isso sem permissão.
A culpa disso tudo é de Hyden.
No pouco tempo que passei com ele e com o irmão dele, Gabriel, percebi que:
1. Hyden é lindo de morrer, o que é um desperdício já que ele é chato para caramba;
2. Ele é antissocial porque quer e isso meio que me dá nos nervos;
3. O problema dele é só comigo. Palavras de Gabriel. Quero bater nele por isso. Em Hyden, claro.
Ninguém nunca deve me rejeitar ou fazer pouco de mim. Uma hora ou outra acabará pagando o preço.
– Foi só impressão minha, ou tem uma ameaça velada aqui no final? – Gabriel perguntou e Erin se esticou nas pontas dos pés para olhar o caderno.
– Ah, não se preocupe com isso. Algo me diz que seu irmão é forte o suficiente para suportar algumas porradas. Apenas um corretivo para a falta de educação dele. Sei que vocês tem sangue sobrenatural, só não consegui definir a mistura híbrida ainda, mas acredito que se curam fácil.
– Ah, mas eu estou preocupado com você e não com meu irmão teimoso. Ele é forte, Erin, não pense que seria tão fácil assim sair sem dano. E como diabos você descobriu que somos híbridos?
– A não sei, o cheiro talvez? O rastro de poder? – ela realmente parecia não saber explicar aquilo. – Tanto faz. Só quero saber o que é esse sangue diferente que vocês tem.
Isso não era normal em hipótese alguma. Geralmente se torna mais fácil descobrir a espécie de um ser, quando eles estão sangrando, não por um único olhar.
– Vamos considerar isso um segredo por enquanto. Hyden arrancaria minha cabeça se soubesse que estou dando informações que não devia.
– Hyden é um belo idiota no momento.
– Algo me diz que você não o deixará em paz só por causa disso. – Gabriel fechou o caderno, mas continuou em posse dele. – Isso vai ficar comigo por enquanto.
– Contanto que me devolva.
– É claro. Agora vamos até Hyden, quer ele queira ou não. Depois te mostro o resto do colégio e vamos tomar um sorvete como um pedido de desculpas.
Ela abriu um largo sorriso, enganosamente feliz.
– Assim está bom para mim, obrigada por pedir minha opinião. Não achei que fosse ter um encontro com um cara bonito hoje, será que preciso retocar a maquiagem?
Ele riu.
– Guarde seu sarcasmo para Hyden, Erin. Vou adorar ver isso.
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