Foi na trilha de trem, o sol do verão estava pendido no céu, eu a vi balançar uma folha de papel pra se refrescar, ela usava uma mochila e uma saia longa pra piorar a situação, resolvi oferecer carona na minha bicicleta.

Diferente das garotas da minha escola, que costumavam me evitar, essa desconhecida aceitou com livre e espontânea vontade a minha gentileza. Pensei que ela era diferente ou talvez fosse o calor estar muito quente. De qualquer forma, não me lembrava mais de sorrirem pra mim como ela sorriu.

Suas mãos pequenas ficaram sobre meu ombro e eu dei a partida, paramos em muitos lugares e achei estranho.

— Onde é sua casa? — Perguntei depois de me tocar que fazia voltas na cidade sem parar em algum lugar. Deveria ter dado a partida assim que ela me dissesse onde queria ir, era por essa e outras que as garotas não gostavam de falar comigo, eu era completamente estranha a ponto de andar com outra estranha.

— Fugi de casa. — Ela respondeu plena, lambendo um itu de sabor céu azul.

Estávamos empoleiradas no parapeito de um píer, vendo as mansões da cidade presas numa ilha e o seu dejeto sendo mandado para o mar através de um cano. O local cheirava mal.

— Como assim? — Talvez eu não fosse tão estranha assim. Parando pra pensar, essa garota era igualmente estranha por ter aceitado a carona de uma estranha. E esse papo? Esquisito, pensei. — Tipo, agora?

— Na verdade faz um tempo, sou de outra cidade. — Ela terminou o seu picolé e arremessou o palito no mar. — Pretendo pegar o trem para continuar minha partida.

— Ah... não está alojada aqui?

— Não.

— E como você se sustenta?

— É só fazer uns "servicinhos" pra alguns homens.

Meu estomago embrulhou ao ouvir essa estranhes.

— Vixi... pensei que você fosse diferente, mas é igual a todos. — Ela se debruçou no parapeito e parecia chateada. — Parece com as garotas da minha antiga escola.

Eu pisquei os olhos. — Você é mesmo a estranha?

Ela virou o rosto pra mim, abruptamente. — Eu? Elas que são!

Comecei a rir. — Tá tudo bem ser a estranha, eu também sou.

— Hum... por que motivo?

— Eu gosto de garotas.

A estranha sorriu e girou o corpo, ficando de costas para o parapeito. — Eu também gosto.

Eu retornei o sorriso debochado dela. — Quer extorquir dinheiro de mim?

— Eu disse que faço isso com homens.

— Então, por que está me olhando assim?

— Eu decidi.

— Decidiu o que?

— Quando você me ofereceu a carona, prometi a mim mesma que teria um romance contigo por um dia. — Ela se aproximou de mim, ajeitando uma mecha de cabelo para trás da minha orelha. — Suas amigas são idiotas, você não tem nada de estranha...

Eu estava acanhada com o seu rosto tão perto do meu.

— Na verdade, você é muito bonita.

— Que cantada mais furada é essa?

Ela passou a rir. — Foi horrível mesmo, mas sabe, eu sei como é ser a estranha do grupo. Então, é mais que certo que eu te lembre o quanto é bonita.

Eu sorri. — Acho que está no time certo para me dar um beijo.

A garota da minha idade se aproximou e me beijou, o céu já estava escurecendo e nem o cheiro de esgoto me impediu de sentir seus lábios com sabor céu azul. Depois a levei até a estação, a ligação de nossas mãos foi interrompida pelo o movimento do trem e ela teve que se acomodar no interior da janela. Restou-me dar um aceno.

Não soube seu nome.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!