Notas iniciais
As vezes tudo o que precisamos é de alguém que nos ajude a encontrar a direção correta.

O sol brilhava intensamente aquela manhã, quando alguns raios atingiram o rosto de Arryn. O barulho dos pássaros parecia familiar. Ele suspirou e abriu lentamente os olhos, não conseguia enxergar muito bem, sua vista estava um pouco embaçada, mas pode perceber alguns detalhes: ele estava em uma cama, existia um teto sobre sua cabeça, alguns móveis e, o mais importante, estava vivo.

Estou de volta ao orfanato? Será que sequer saí, e foi tudo isso apenas um sonho? – Pensou ele, enquanto tentava se levantar, mas uma dor aguda o fez perceber que foi tudo real.

— Acho melhor você não fazer muito esforço. – Uma voz rouca recomendou. – Você quase não saiu vivo, me pergunto o que uma criança faz sozinha nessa parte da ilha. Você veio do orfanato? – continuou a voz.

— Quem é você? Onde estou? O que aconteceu com o macaco? – Arryn perguntou à voz misteriosa.

— Fique calmo jovem, uma pergunta de cada vez. Meu nome é Hatiro Fuma, mas pode me chamar de Fuma. – Respondeu a voz. – Você está em minha casa, no centro da Floresta do Macaco, apesar desse nome, a criatura que te atacou hoje cedo não era um macaco, como você bem deve suspeitar.

Arryn tentou se levantar mais uma vez. Com muito esforço colocou uma das mãos apoiadas na cama de palha e se sentou. Sentia muitas dores, seu braço estava enfaixado, o mesmo com a sua cintura. O seu olho estava inchado, o que dificultava muito ter uma visão clara das coisas ao seu redor.

— Tenho que sair daqui, não posso perder ainda mais tempo, preciso daquela mochila. – Disse Arryn com raiva. – Obrigado por tratar meus ferimentos, mas tenho que seguir jornada.

O velho riu alto.

— Ferimentos? Eu estou surpreso que consiga falar, se não tivesse chegado a tempo você teria virado comida de monstro.

Arryn rapidamente pôs-se de pé, com um olhar furioso para Fuma. Aquelas palavras o atingiram mais fortemente que qualquer golpe, pois eram as mesmas que Juliver proferira em sua partida.

Infelizmente o velho tinha toda razão, mal ele ficou de pé e as forças lhe faltaram. Exausto, caiu de frente e lá permaneceu olhando para o chão por alguns instantes. Era difícil acreditar no que estava acontecendo, não poderia seguir jornada sendo tão facilmente derrotado.

O momento de reflexão, no entanto, foi interrompido por uma tosse rouca.

— Já decidiu o que planeja fazer? – Perguntou Fuma, coçando a cabeça e sem mais o sorriso de antes.

Arryn olhou mais uma vez para o velho, finalmente o sangue parecia estar voltando a circular melhor, agora sim ele podia pensar com mais clareza e até sua vista estava mais límpida.

Fuma era um velho muito decadente, parecia ter todos os anos do mundo nas costas. Possuía um corpo magro, os olhos puxados e um longo bigode branco de um palmo mais ou menos de comprimento.

— O que aconteceu depois que eu desmaiei? – Perguntou Arryn enquanto voltava para a cama.

— Eu estava à procura de ervas da floresta quando ouvir um forte barulho, ao perceber minha presença a fera partiu, ela não queria confusão, apenas estava raivosa por você ter importunado a cria dela. – o velho respondeu enquanto puxava os bigodes para baixo. – Você tem o corpo bastante resistente, a julgar pelo estado em que a árvore ficou. Como você se chama?

— Meu nome é Arryn Kiseki, eu venho do orfanato. Estou em jornada para me alistar em alguma esquadra e ajudar a humanidade a recuperar o mundo, eliminando todos os monstros que eu encontrar no meu caminho.

— Por que todos os monstros? – O Velho perguntou surpreso enquanto sentava num banquinho e levantava sua sobrancelha grossa e despenteada.

— Uma dessas besta arrancou impiedosamente a vida de meus pais, em nome da vida deles e das outras vidas que essas criaturas malditas tiraram eu juro que vou acabar com todas elas! – A essa altura o Arryn gritava com toda propriedade.

— Em seguida pretende exterminar toda a humanidade? – O velho Fuma perguntou, mais calmo do que nunca.

Aquela pergunta sem dúvidas acabou quebrando por completo o raciocínio do garoto.

— Que pergunta insana é essa?! O que a humanidade tem haver com isso?! Não fale besteira seu velho! – Arryn apontou o dedo, com raiva, mas sem entender a razão daquele questionamento.

— Você alimenta seu ódio, culpando os monstros por uma desgraça que já existia muito antes deles aparecerem. Antes mesmo de esta terra ser tomada por feras e demônios, muito antes de eu ou você nascermos, já existia morte, destruição, órfãos por todas as partes.

O velho sabia bem do que estava falando, ele já estava a muito mais tempo no mundo e conhecia a natureza destrutiva dos homens. o seu discurso parecia ter acabado de vez com o resto da determinação que sobrava no jovem guerreiro. Mais uma vez ele se acalmou e voltou a pensar com clareza.

— Você é muito novo para entender direito como o mundo funciona, mas admiro seu senso de aventura, sinto que em breve encontrará seu destino, se quiser seguir jornada pode descansar em minha casa o quanto precisar.

Um estrondo chamou a atenção do lado de fora. Os dois foram surpreendidos por uma enorme árvore que foi arremessada contra a casa, atravessado a porta e indo em direção a Fuma. O velho, com os olhos fechados, saltou por cima do tronco, com calma, enquanto o mesmo atravessava a parede do outro lado da sala, deixando para trás um rastro de destruição.

A besta de antes resolveu voltar com mais duas, a maior, que parecia ser o chefe do bando, tinha uma cicatriz vertical que cegava dois de seus olhos e músculos bem mais voluptuosos. Ela foi a primeira a cruzar o buraco onde antes se encontrava a porta. As outras duas tentaram segui-lo, mas foram detidas por um gesto de mãos seguido de um poderoso rugido, não havia mais dúvidas de que aquele fosse o líder.

Sentindo o desafio no ar, Fuma juntou as mãos e respirou fundo por um segundo. Seu olhos se abriram com bastante firmeza. Aquele olhar lançou tamanha pressão que fez a criatura dar um passo para trás. No entanto não havia mais volta. O Baduke avançou com fúria, lançando suas garras na direção de seu oponente, que não se moveu um centímetro sequer.

Quando suas patas puderam alcançar o corpo de Fuma, atravessaram-no como se não existisse ninguém no local. Em um rápido movimento, o velho havia se deslocado para o lado esquerdo da fera. Com as pernas bem espaçadas, curvou seus joelhos, posicionando a mão direita por debaixo do braço do Baduke, enquanto recolhia o braço esquerdo e desferia um golpe firme e preciso em seu peito.

Todos esses movimentos foram executados a uma velocidade tão impressionante que aquele Baduke nem mesmo tinha baixado seu braço ainda. A fera voou pelo lado direito da casa, atravessando a parede e deixando para trás um terceiro buraco. Os seus companheiros, impressionados, correram para socorrê-lo. Do lado de fora da cabana a besta inconsciente foi arrastada para dentro da mata, até que o último deles sumiu de vista.

Arryn estava estático e de boca aberta, mal podia acreditar nos seus olhos. Os movimentos daquele velho, o salto sobre o tronco, sua velocidade e força eram tão impressionantes que toda a cena se passou de forma descontínua em sua mente. Ele nem mesmo tinha tido tempo para esboçar alguma reação, seja de defesa ou ataque. Mais uma vez tudo o que ele conseguiu fazer foi assistir ao desfecho do combate.

— Eu já decidi! – Disse Arryn, ficando novamente em pé na cama. Naquele momento ele ignorava qualquer dor que sentia. – Você vai me treinar vovô! – Ele sorria e apontava entusiasmado para Fuma.

Fuma estava com um olhar sério.

— Para que você quer ficar mais forte? – Perguntou.

— Para me tornar um líder de esquadrão, eu quero tomar esse mundo de volta para nós!

Após alguns instantes em silêncio, o velho se virou e caminhou até ficar próximo do garoto.

— Você vê o que tive que fazer hoje?! Fui obrigado a machucar aquela besta por sua causa! – Fuma falava com raiva e voz rouca, quase gritando. – Você se meteu onde não devia, sem saber de nada, esta floresta é o lar daquele filhote de Baduke. Você diz que quer o “seu” mundo de volta, mas não sabe respeitar a casa dos outros!

— Eu não tive culpa de você ter que machucar aquele monstro, ele te atacou... – Arryn falava quando foi interrompido por Fuma, que pôs a mão sobre seu ombro e se ajoelhou.

O garoto estava impressionado com o que via. Os olhos daquele velho, vermelhos, deixavam lágrimas escorrerem. De alguma maneira, aquele gesto mudou algo dentro dele.

— Aquele Baduke era um líder, quando ele me atacou já sabia o seu destino, mas não se deteve, porque ele estava defendendo o seu bando. Em honra a sua coragem eu o ataquei sem hesitar. – Fuma continuou, enquanto segurava um colar de pedras negras que tinha no pescoço

O velho respirou profundamente e disse as seguintes palavras:

“Quando você encontrar um objetivo digno, eu serei seu mestre.”

Fuma deu as costas para Arryn, passou pelo buraco da porta e desapareceu na floresta.

Notas finais
O que seria mais verdadeiro do que fugir das mentiras que assombram o seu passado?