Notas iniciais
E ai, demorei um pouco mas continuamos nossa saga. ^^

Arryn notou algo diferente enquanto voltava para a casa: aquele angustiante sentimento de vazio que sentia, desde que colocou os pés na floresta, havia sumido. Ele sorriu e olhou para seu novo companheiro. Cinzento o seguia a uma certa distância. Observava desconfiado os arredores, como quem descobre um mundo novo.

Ainda faltava um pouco para que os dois chegassem à casa de Fuma. Arryn resolveu apressar o passo.

— Vamos logo, por que está demorando tanto? A casa dele fica por ali. – Apontou.

Cinzento interrompeu a caminhada e se voltou para o lado, tomando uma postura hostil. Com os dentes à mostra, ele rosnou para os arbustos que estavam próximos. Arryn estranhou aquela atitude, mas antes que pudesse dizer algo, o dragão se lançou para dentro da mata, correndo em alta velocidade e deixando-o para trás.

— Espera aí! Para onde você tá indo?! Eu já disse que a casa do fuma fica para lá! – Gritou o garoto, tentando segui-lo. – Será que todos os monstros dessa floresta só sabem correr?

Cinzento seguiu por mais alguns instante em linha reta, antes de parar. Quando Arryn finalmente o alcançou, ele estava espreitando por entre alguns arbustos.

— Tá louco, por acaso? – Perguntou, enquanto se aproximava para ver o que o dragão estava perseguindo. – Hã? Ah, então é isso, foi para cá que elas vieram.

Em uma árvore, a poucos metros do local onde os dois estavam escondidos, havia um gigantesco ninho de Zoombs. Os insetos monstruosos pareciam estar ampliando a sua morada. Para todos os lados que se olhasse mais e mais daquelas criaturas voavam, carregando toras de madeiras que traziam da florestas e usando o líquido viscoso azul que saía de sua extremidade para colar os pedaços.

A cera de cor azul era grudenta. As Zoombs operárias a usavam como armadilha para capturar pássaros e outras criaturas maiores, que serviriam de alimento. Já os soldados, eram maiores e mais agressivos. Eles possuíam uma cera corrosiva de cor verde. Esta era usada como defesa, pois caso atingisse uma presa, acabaria por inutilizar sua carne. Havia também a cera de cor vermelha, exclusividade da rainha. Seu sabor era delicioso e era utilizado para nutrir os filhotes. Os três tipos de cera eram vendidas a um preço bastante elevado no mercado.

— Entendi, então era para isso que eles queriam a madeira. Devem estar pensando em aumentar a ninhada. – Disse em voz baixa. – Bem, eu não estou mais chateado com isso, eu posso facilmente cortar mais algumas. Acho melhor a gente sair daqui Cinzento... Cinzento?

Arryn olhou os arredores procurando seu dragão e o avistou próximo ao ninho importunando um Zoombs.

— Sai logo daí, é perigoso, Cinzento! – Gritou preocupado.

O dragão não deu muita atenção, mas em instantes o garoto estava cercado. Arryn saltou para fora do arbusto em que se escondia e se aproximou de seu amigo, já com a adaga em mãos.

Eles foram encurralados por dezenas de Zoombs furiosos que começavam a se movimentar ao redor deles. Um dos insetos espirrou sua gosma azul em direção a Arryn. O garoto rolou para o lado, evitando o golpe.

Após aquele disparo inicial, dezenas de jatos voaram em várias direções. Arryn saltava tentando esquivar de todo o modo dos ataques. Um dos disparos acabou acertando a cauda do dragão, que ficou presa a uma rocha.

O filhote começou a se debater, na tentativa de se soltar, mas aquela cola era muito forte. O coração de Arryn batia acelerado. Ele tinha receio do que poderia acontecer, caso seu amigo fosse capturado.

— Cinzento, eles são muitos, vou tentar abrir uma brecha e te tirar daí. Quando eu fizer isso me siga correndo o mais rápido que puder! – Gritou.

Pela primeira vez o dragão pareceu compreender o que o garoto falava. Ele parou de puxar e aguardou o comando. Arryn saiu da defensiva e partiu em direção um dos insetos arrancando duas de suas asas.

Eles parecem ser fracos individualmente, mas um enxame desse tamanho pode significar o nosso fim. – Pensou.

Ele continuava bailando de um lado para o outro tentando escapar daquela chuva azul. Enquanto se movia, ia abrindo caminho, sempre pelo lado esquerdo, atingindo quanto Zoombs podia. Enquanto manejava sua adaga, ele começou a se lembrar de cada ensinamento de Juliver sobre a arte da espada.

Comparado ao meu treinamento em Mizuri, esses ataques não são nada. Juliver, não vou lhe decepcionar. – Pensou.

Arryn já havia derrubado uma dúzia de inimigos, mas eles não paravam de vir, alguns Zoombs maiores apareceram para dar suporte. Os jatos esverdeados que eles soltavam atingiam algumas árvores derrubando-as, uma delas quase atingiu o dragão que ainda esperava o sinal de Arryn.

Que droga, essa outra gosma é diferente. Não posso demorar mais ou Cinzento vai acabar sendo atingido. – Pensou.

Arryn saltou em direção ao dragão, golpeando o solo com sua adaga. A pedra que ele estava preso se partiu, liberando um pedaço junto com a cauda.

— Agora! – Gritou.

Os dois correram juntos pelo lado esquerdo, onde havia mais espaço. Os Zoombs começaram a persegui-los. Os fugitivos corriam mais do que acreditavam ser possível. Arryn indicava com a espada a direção que deviam seguir. Mesmo sem terem combinado nada, Cinzento entendia todos os seus comandos. Eles seguiram descendo uma colina em direção à velha cabana, desviando as árvores e tentando, com muita dificuldade, manter distância.

O pequeno órfão começou cortar os galhos das árvores pelas quais passava, usando sua adaga. Após ter arrancado o suficientes ele diminuiu o passo até se igualar com cinzento, agarrando-o pela asa e arrastando-o para perto de uma moita. Eles se esconderam entre alguns arbustos e Arryn usou os galhos que havia coletado para criar uma camuflagem.

Os insetos passaram direto, voando, por cima deles. Por sorte e alívio deles, os Zoombs não eram muito inteligentes. Arryn respirou fundo e logo começou a rir, dessa vez de felicidade.

— Não sabia que você tinha tendências suicidas. – Disse sorrindo e ofegante. – Agora vamos direto pra casa.

Após alguns minutos, sem mais nenhuma surpresa, eles finalmente avistam a clareira e a cabana. Por um dos buracos, podia-se ver Fuma tomando chá calmamente em sua mesa. Arryn e Cinzento pararam na entrada, sua sombra e a do dragão se projetavam na parede.

O velho olhou para a figura de Arryn e ficou um pouco surpreso com a cena: havia algumas manchas de sangue e terra em sua roupa, algumas folhas enganchadas nos cabelos, além disso o garoto trazia consigo um filhote de dragão.

— Parece que teve um manhã bem agitada. – Comentou, fuma.

— Eu gostaria de te pedir desculpas, velhote, por destruir sua casa. Acho que eu entendo mais ou menos o que você quis dizer aquele dia. – Arryn tinha novamente os olhos sérios de quando deixou o orfanato. – Eu ainda não sei o que pensar sobre os monstros, mas você me pediu um objetivo digno para me treinar e eu já tenho um: eu vou descobrir o que está acontecendo nesse mundo e tentar consertá-lo. – Disse olhando para Cinzento.

— Há muitos anos atrás, esse mesmo dragão veio voando até a floresta, desorientado, ferido e totalmente descontrolado. – Falou Fuma com uma voz rouca. – Devia ter se envolvido em algum combate, caia uma forte tempestade de granizo aquele dia, tremores ocasionais derrubaram algumas árvores. Necessitei de muito esforço e tempo para conseguir acalmá-lo. Quando o seu frenesi terminou, ele estava tão exausto que se direcionou até a cachoeira, adormeceu por meses e depois nunca mais saiu de lá. Eu o tenho alimentado desde então.

Arryn observava atento a historia de Fuma, sem conseguir imaginar como seria acalmar aquela criatura enorme que ele havia conhecido na cachoeira, Fuma parecia mesmo incrível.

— São poucas as criaturas que têm o privilégio de viver uma vida inteira nesse mundo, especialmente uma tão longínqua quanto um Dragão. – Continuou, Fuma, sua história. – No entanto, quando isso acontece, existe uma pequena, uma ínfima possibilidade, de voltar à vida como um filhote. Sem memórias, sem a mesma magnitude que tinha antes e completamente indefeso. Um recomeço. O que você presenciou hoje foi um verdadeiro milagre, e se ele decidiu fazer esse renascimento na sua frente obviamente é porque viu em você algo que eu não pude ver aquele dia. Eu vou ser seu mestre. Eu irei treinar vocês dois.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comente aqui o que vocês esperam desse treinamento, o que estão achando da história ou mesmo deixem um "oi" que eu vou adorar responder. Um abraço e até o próximo capítulo.