Notas iniciais
Uma pequena luz em meio a escuridão as vezes se torna suficiente para nos guiar de volta a superfície.

Os soldados ainda estavam desnorteados, mesmo assim todos correram ao auxílio de seu companheiro ferido. O confronto contra a besta marinha perdurava e parecia demais para eles. Alguns começaram a imaginar que talvez o pescador tivesse razão em tentar fugir. Além disso, todos começaram desconfiar daquele estranho a quem Heldone confiou a liderança da missão.

Droga, eu preciso terminar logo com isso antes que mais alguém morra ou saia ferido. Será que eu preciso usar aquela técnica novamente? – Pensou, Juliver.

Ele também percebia a insegurança de seu grupo. Decidiu então tomar uma medida mais extrema.

— Já vi o bastante! – Gritou enfurecido. – Não vou mais permitir que nenhum sangue seja derramado! Usarei toda minha energia para acabar com isso de uma vez!

Os soldados olharam incrédulos para o seu momentâneo líder, mas logo perceberam que havia algo de diferente nele. Juliver curvou novamente seus joelhos e segurou sua katana. A áurea que sua espada começou a emitir era insana, as pessoas ao redor podiam sentir uma sede de sangue vinda de sua lâmina, quase como se ela sussurrasse seu desejo de morte.

A Nagare berrou e se lançou novamente em direção a Juliver. O espadachim permaneceu imóvel, concentrando-se em sua técnica. Os olhos dele continham uma fúria cega e seus cabelos balançavam com o vento. Um fio de sangue escorreu de sua mão, devido à força que estava exercendo.

Antes que a Nagara pudesse alcança-lo, Juliver pulou em direção à fera e atingiu seu pescoço atravessando até o outro lado. O monstro caiu morto com a cabeça sobre o píer.

Os soldados, os pescadores, e até mesmo Gólidas, que o conhecia a algum tempo, ficaram impressionados com a força daquele golpe.

Juliver continuou em linha reta, até cair por sobre as ondas do mar e começar a afundar lentamente. Ele tinha chegado a seu limite de exaustão. Por algum motivo lembranças boas e de tempos tranquilos vieram a sua mente, aquela sensação confortante o fez sorrir.

Com olhos ainda fechados, ele ouviu um choro, como de um bebê, o barulho o fez despertar imediatamente e voltar a si.

De início ele acreditou estar delirando. – Seria apenas um truque do mar? – Pensou, mas assim mesmo fez um esforço para nadar até a superfície.

Com a cabeça fora d’água, ela olhou em todas as direções. Há mais ou menos uns duzentos metros dali, em direção contrária à praia, Juliver percebeu um pequeno cesto que já quase afundava com as fortes ondas.

Ele não ouvia mais choro algum, mesmo assim usou o resto das forças que tinha para nadar até o local. Gólidas não entendia nada do que estava acontecendo e apenas acenava para que Juliver retorná-se.

Enquanto se aproximava do cesto, Juliver voltou a ouvir, sem acreditar, o choro de uma criança. Ele apressou às braçadas até chegar ao local. Agarrando o cesto com firmeza ele pôde ver a cena mais milagrosa de sua vida. Em meio aquele caos e tempestade, um bebê recém-nascido, que chorava escandalosamente alto. Suas mãos tremiam ao acariciar o rosto daquela tão frágil forma de vida. Juliver prendeu o cesto a suas costas e com todo cuidado voltou à terra firme.

Quando chegou ao local, ninguém podia crer que aquilo fosse real, pois se nem mesmo as embarcações conseguiam ficar de pé com a tempestade como aquela criança estaria viva, além disso, de onde ela vinha? Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. Juliver soltou o cesto delicadamente no chão e revelou a criança para que todos pudessem ver.

Ela tinha a pele clara e olhos dourados, nenhum pelo no corpo e já não mais chorava, apenas observava, admirando, aquelas pessoas com cara de espanto que olhavam para ela.

Enquanto todos vislumbravam àquela pequena criança, os restos mortais da serpente marinha começaram a tremer, o que fez a atenção retornar para a batalha.

— Essa merda nao tem mais fim?! — Juliver confiou a criança a Gólidas, e sacou mais uma vez sua katana.

Uma densa e escura fumaça começou a sair pela boca e pelos ferimentos da Nagare, subindo até uma altura de aproximadamente dois metros e em seguida se dirigindo para o fundo do mar.

Os soldados, inclusive o que havia perdido um braço, retiraram um amuleto de dentro de suas armaduras e o direcionaram para a criatura. Parte da fumaça passou então a ser absorvida pelos amuletos.

— O que vocês estão fazendo? Parem agora mesmo com isso! – Ordenou Juliver.

Mesmo sem saber ao certo do que se tratava, ele tinha um mau pressentimento com tudo aquilo.

O comando de Juliver foi ignorado pelos soldados, os quais continuaram a coletar a estranha fumaça. Gólidas, impaciente, deitou o cesto com a criança próximo ao pescador desacordado, caminhou até o corpo da Nagare e desferiu um poderoso soco em sua face.

A cabeça da Nagare, juntamente com o resto do seu corpo, começou a trincar e se partiu, liberando uma onda de pressão que percorreu todo o local. A criatura então se desfez por completo em uma enorme quantidade de fumaça, que foi toda em direção ao mar. Apenas alguns cristais de suas costas permaneceram intactos, caindo no chão.

— Quem permitiu que vocês interferissem?! – Gritou um dos soldados bastante irritado. – Seguimos suas ordens sem hesitar nessa missão unicamente por Heldone ter designado você como comandante, mas agora essa missão está terminada, então não se meta nos assuntos da guarnição!

Os ventos haviam parado e o mar estava bem menos agitado, as nuvens de tempestade estavam começando a se dissipar, tudo estava mais calmo, contrastando com o clima de hostilidade dos soldados para com Juliver e os batedores.

Semblantes sérios se confrontavam por todos os lados e um silêncio agudo, daqueles que precedem grandes batalhas, reinava no ambiente. A tensão, no entanto, foi interrompida por um brilho que vinha do céu e por algo, que atingiu repentinamente o centro do grupo. Todos, exceto o grupo de soldados, se prepararam para um novo confronto.

Quando a poeira baixou, uma figura feminina surgiu no local. Era uma bela e jovem mulher de cabelos pretos, trajando uma armadura dourada. A armadura recobria quase todo o seu corpo, com exceção do peitoral, o qual trazia um avantajado decote.

— Onde está o resto do meu batalhão? – Disse ela, enquanto ficava ereta.

A guerreira estava, até então, curvada, com uma das mãos no chão, provavelmente para absorver o impacto da queda.

Nesse instante, todos os soldados se curvaram.

— Parte de nós ficou em pascal por ordens de Heldone, para garantir a segurança das pessoas do vilarejo, Tiban foi morto em combate com uma serpente marinha e Lukka perdeu um braço sob as mesmas circunstâncias. – Disse o soldado que antes discutia com Juliver.

Apesar da idade, aquela mulher era a verdadeira comandante do batalhão. Todos os soldados demonstravam o devido respeito em seu modo de agir, como se tratassem com uma divindade.

A armadura de aço nobre que ela trajava, com símbolos da guarnição, muito bem trabalhados, e a ausência de um capacete, também indicavam sua elevada patente. Juliver reparou em uma lança longa nas costas dela, com uma ponta que, diferente de uma navalha comum, era feita de um metal verde, muito bem forjada.

— A única pessoa que dá ordens ao meu pelotão sou eu. – Disse ela, com ar de autoridade. – Sob meu controle nunca teríamos perdido qualquer soldado. Quem são essas pessoas? – continuou.

— São pescadores da vila e batedores do orfanato, e aquele ali é Juliver, a quem foi dado o comando da missão por Heldone.

Todos apenas assistiam a cena, a lua cheia brilhava intensamente no meio do céu.

— Quem é aquela criança? – Perguntou ela novamente.

— Eu a encontrei em alto mar, durante o combate, em meio a tempestade. – Respondeu Juliver interrompendo a conversa. – Como ele já mencionou meu nome é Juliver, e você quem é?

Todos os soldados ficaram de olhos e boca abertos com a insolência, mas nenhum deles se atreveu a mudar sua posição, já que não foram lhe dadas ordens para descansar. A comandante do batalhão, irritada, mordeu seu lábio inferior.

— Meu nome é Beatrice Lenor, mas talvez você já tenha ouvido falar de mim como “O Demônio Verde”. – Disse ela com a testa franzida e um olhar sério para Juliver. – Por sua incompetência acabei perdendo um de meus homens mais confiáveis, vou levar essa criança comigo para a guarnição, futuramente ela irá repor minha perda.

Aquela arrogância incomodou Juliver, ele ainda não havia digerido bem a ideia de que alguém tão jovem tivesse um posto tão alto na guarnição.

— Sinto muito, mas não poderá leva-la, todas as crianças sem família estão sob a jurisdição do orfanato até segunda ordem.

Os outros soldados começaram a suar frio. Seus rostos não escondiam o medo pelo o que tal atrevimento poderia causar.

— Acho que eu não fui clara, eu não estou lhe pedindo coisa alguma. Essa alma já me pertence. – Beatrice sacou um pequeno punhal de lâmina verde da cintura.

Juliver pôs a mão direita em sua katana e com o braço esquerdo gesticulou para que os batedores não se metessem.

Uma presença esmagadora recobriu todo o local, interrompendo o iminente combate. Todos olharam ao redor, sem localizar de onde vinha tal força. Beatrice, no entanto, sabia o que significava e, mesmo a contra gosto, guardou o punhal na cintura, virando-se em seguida.

— Soldados, formação! – Ela ordenou. – Você tem mais sorte do que imagina, mas não esquecerei seu nome, nossos destinos estão marcados.

Os soldados formaram um círculo em torno de Beatrice. Ela sacou sua lança e segurou-a verticalmente a centímetros do seu rosto usando as duas mãos. Com os olhos fechado, sussurrou algumas palavras, uma enorme rajada de vento fez com que uma nuvem de poeira se formasse. Quando a nuvem se desfez, todos haviam sumido.

Juliver suspirou aliviado, pois já havia chegado ao seu limite na última batalha. Antes de partir, ele observou um pequeno amuleto de cor roxa, no local onde estava o corpo do soldado morto em batalha. O artefato era similar ao usado pelos outros de seu grupo para absorver a fumaça negra do corpo da Nagare. Ele apanhou o objeto, guardando-o discretamente em um de seus bolsos.

— Nossa missão está terminada, logo vai amanhecer, vamos voltar pra casa. – Disse ele.

Notas finais
Gostaria de pedir a opinião de vocês, deixem aí seu comentário, críticas e sugestões. Responderei a todos sempre que possível, até a próxima.