Notas iniciais
Gostaria de agradecer aos reviews, obrigada mesmo.

— Hum — Jason murmurou — realmente eu não estou acostumado a receber garotas de camisola em minha casa. Geralmente elas estão... sem.

Eu corei instantaneamente. Olhei para a blusa branca que usava, onde estava escrito: aqui jaz uma memória de bicho da ceda – um tanto grande demais, as mangas chegavam até à dobra de meus cotovelos.

Jason soltou um riso.

— Não me olhe assim — ele continuou — foi apenas uma brincadeira. E... o que você estava falando mesmo?

— Seu idiota!

— Ah, que isso? — ele parecia falsamente atingido — não lembro de ter lhe feito mal algum para receber tanta rispideza.

Respirei fundo, tentando controlar a falta de paciência.

— O som...

— Gosta? — ele me interrompeu — down, down in my bones...
somewhere I'd never ever known... — é uma de minhas músicas preferidas. Sabe, você deveria agradecer por ter um vizinho de tão bom gosto.

Eu o ignorei, pelo menos tentei parecer desdenhosa.

— Você poderia desligá-lo?

— Eu gosto muito daquela parte — ele parecia não se importar — let's go to bed before you say how you feel...

— Por favor! — gritei.

No mesmo momento. Jason parou de cantarolar, estalar os dedos e bater o pé. Seus lábios se abriram em seu habitual sorriso frio, seu abdômen fez uma contração, tirei a vista rapidamente.

— Oh — ele quase sussurrou — agora sim. Agora podemos, quem sabe, negociar.

Eu rolei os olhos.

— Entre.

— Não, obrigada — rebati — não costumo entrar na casa de estranhos.

Jason parecia pensativo, semicerrando os olhos. Seus cílios eram tão finos que mesmo com ambos unidos, ainda assim, dava-lhe a impressão de não possuí-los.

— Eu sou um estranho para você?

— Uh, pode apostar.

Ele trocou o peso de sou corpo para a perna esquerda.

— Você não aceitou minha solicitação de amizade, Clarissa. — ele tentou soar decepcionado — pensei que me achasse bonito, no mínimo.

— O quê? Fala sério. E eu não acho você uma grande coisa — queria não aparentar insegurança, mas minha foz vacilou — por que me mandou aquela solicitação? Não é conveniente.

— Eu preciso socializar com meus vizinhos, você sabe, formar laços. — ele suspirou — pensei que você fosse uma pessoa legal, mas...

— Eu... — naquele instante optei por não retrucá-lo, não valeria a pena. — Olha, você vai desligar ou eu vou ter que comunicar à síndica?

Jason afastou-se, ainda com seu sorriso álgido, e bateu a porta em minha cara. Vento envolveu-me e balançou os fios soltos do meu cabelo.

— Qual é o seu problema? — Gritei. Não houve resposta.

Instantaneamente, virei-me bufando pelo corredor em meia luz, meus passos eram pesados como chumbo, apesar de estar caminhando rápido. Antes que pudesse começar a xingar Jason Santi, o barulho cessou, não tocava mais The Vaccines, o silêncio chegava a ser sufocante. Estúpido, murmurei.

***

Quando girei a maçaneta da porta de meu apartamento, percebi que batera com tanta força a ponto de quebrar a tranca. Xinguei alto e entrei. A bagunça chegava a incomodar, nunca acontecera. Para ser sincera, tudo andava incomodando-me nos últimos dias. Pensei em Jason, escorando-me na parede da cozinha, Jason e sua falta de expressão, de sensibilidade e todo aquele narcisismo. Sempre enojei pessoas narcisistas, é como se o mundo girasse constantemente ao redor de suas cabeças vazias. E assim ele era: Vazio, fútil e intransigente. A vontade de o ver longe do Tude Empire aumentou em quase cem por cento.

Procurei manter a calma e esquecer toda a imbecilidade que havia ocorrido um pouco antes. Peguei meus cadernos, sentei no chão frio e conclui o último parágrafo da síntese. A entrega estava marcada para o dia seguinte, segunda-feira.

***

28 de Março, Gabriela me esperava na portaria, caindo aso risos com Frederich.

— Não posso acreditar que você disse isso a ela, Fred — Gabriela disse divertidamente — nunca o imaginei numa situação como essa.

Frederich estava rosado, provavelmente estavam contando histórias engraçadas há tempos.

— Quando um homem se oferece para levar suas compras até seu apartamento — ele continuou — pode apostar que ele quer ficar para jantar, literalmente.

Gabriela soltou mais risos gozados.

— Que coisa horrível, Frederich! — bradei — você não poderia ser mais indelicado.

As portas do elevador abriram-se, e a nossa conversa fora cortada no mesmo momento – Gertrudes chegava até nós.

— Gertrudes... — Frederich quase sussurrou — me desculpe se eu estiver sendo muito... intrometido, mas... Rafael... bem, você têm alguma notícia dele?

Ela arfou.

— Assassinado... — sua vós era trêmula, embora não demonstrasse muito pesar — esquartejado como um animal.

Terror tomou conta de mim. Eu lembrava de Rafael, apesar de não vê-lo com muita frequência – ele sempre estava em festas ou na casa de amigos. Era difícil compreender, ele era um rapaz tão jovem e bonito... agora apenas pedaços...

— Sinto muito. — disse calmamente.

Gabriela estava com uma péssima expressão, parecia enjoada com toda aquela conversa.

— A polícia não faz ideia de quem possa ter feito isso... — Gertrudes encarou seus pés — Eu quero justiça, sei que Rafael não andava nos trilhos, mas... foi tudo muito cruel, desumano...

— Tenho certeza de que o culpado será encontrado — bradou Frederich — ele irá pagar por todo o mal que causou, não se preocupe.

Gertrudes o encarou tristemente, aparentava completa derrota. Seu rosto estava pálido e olheiras circulavam seus olhos avultados. Ela também parecia mais magra e fraca.

— Antes fosse a preocupação quem me consumisse aos poucos todos os dias.

Depois daquilo não houve extensão de diálogo. Estávamos todos chocados demais para prolongar o assunto.

— Bem — disse Gabriela, fitando-me — temos que ir, se chegarmos atrasadas, todo o esforço de Carissa terá sido em vão, digo, para conseguir o estágio.

Gertrudes não parecia dar atenção. Frederich assentiu.

— Boa sorte, sta. Licer.

— Obrigada... — retruquei, descendo as escadarias da calçada.

***

A fachada da ICAI era exuberante. Um edifício de, aproximadamente, vinte andares com vidros espelhados que refletiam o parque que ficava à poucos metros da empresa. Árvores cercavam todo o prédio. Ao redor parecia haver um outro mundo, tudo tão diferente de Crouzi, tudo tão magicamente sofisticado. Rice era uma bela cidade, com toda certeza.

Tive sorte de encontrar uma vaga na sombra do enorme estacionamento da ICAI, que por sinal estava lotado. Eu havia pedido delicadamente a Gabriela que ela não batesse a porta de Juliete, mas ela não pareceu ouvir.

— Se quebrar, — eu comecei — você paga conserto, okay?

Ela admirava o parque do outro lado da avenida.

— Aqui é tudo tão bonito... — ela suspirou — passaria a vida aqui, casaria com um cara gato e rico e viveria feliz para sempre.

Não consegui segurar o riso.

— O máximo que você conseguiria aqui seria trabalhar de garçonete em algum quiosque, vendendo coco gelado para refrescar a garganta dos bonitões ricos que você supostamente poderia casar. Poderia.

Gabriela fez uma careta.

— Ainda assim valeria a pena — ela retrucou — agora vamos, Martim já deve estar nos esperando.

— Ele não me disse que viria.

— Mas ele vem.

Talvez tentar controlar meu sistema nervoso acompanhada por meu irmão seria bem mais fácil. Martim era o melhor irmão que alguém poderia ter, se não fosse por ele, eu nunca teria saído de casa aos dezesseis anos e mudado para outra cidade.

***

— Clarissa, sua idiota!

Martim esperava-me com os braços estendidos e um largo sorriso em seu rosto dourado. Abracei-o como alguém abraça uma pessoa querida que acabou de chegar de viajem depois de passar anos no Afeganistão.

— Saudade de você. — disse, sorrindo. — como está Laura?

Ele passou a mão pelo seu cabelo preto e curto e sentou-se num banco de madeira que repousava à sua esquerda.

— Ela está em semana de seminário, então, tirando o estresse, ela está ótima. — ele sorriu — até aprendeu a fazer cinco novas receitas... é uma pena que nenhuma preste, mas acredito que assim que ela matricular-se no curso de culinária isso mudará.

— Seu eu fosse você não alimentaria esperanças. — Gabriela bradou.

Eu olhei para a portaria do edifício, quatro guardas conversavam sob a sombra de um ipê amarelo.

— Vamos entrar? — Martim sugeriu, colocando cada braço sobre meu ombro e o de Gabriela.

— Okay — sussurrei.

***

Após entregar a síntese e entender todo o procedimento de chamada, me despedi de Martim, que estava indo fazer compras e puxei Gabriela até Juliete.

— Obrigada por vir comigo — disse — junto com Martim.

Ela lixava as unhas vermelhas, enquanto eu girava as chaves do carro.

— Não foi nada — ela colocou a lixa no porta-chaves — eu amei esse lugar.

Ela fitou-me, semicerrando os olhos.

— Você quer me contar alguma coisa, não quer?

Eu bufei.

— Não, não quero.

— Ah, você quer, vá conte logo. Conte antes que eu me arrependa e não queira mais saber.

— Não tenho nada para contar, criatura.

— Claro que tem.

— Não tenho!

— Tem!

— Eu-fui-até-o-apartamento-de-Jason-Santi... — pausei — E o vi quase... despido... Merda.

Gabriela entreabriu a boca, depois soltou um riso pervertido.

— Posso chamar isso de sorte, talvez. Vocês dormiram juntos?

Eu fiz uma curva rápida para a esquerda, o sinal estava prestes a fechar, alguns carros buzinaram atrás de Juliete, Gabriela quase voou do banco.

— Você está louca? — questionei — claro que não dormi com aquele... idiota... Nem poderia, nem se quisesse, e eu jamais iria querer.

Gabriela soltou um muchacho.

— Então o que foi fazer lá? Pedir uma xícara de açúcar?

— Exigir que ele desligasse seu maldito som.

— E ele o fez?

Eu suspirei pesadamente.

—Desabridamente. — respondi — aquele boçal.

— E então... — ela continuou — vocês agora são vizinhos que trocam diálogos?

— Eu realmente espero não ter que trocar mais nenhuma palavra com aquele animal.

Cruzei a última avenida, chegando à Volta Ao Mundo Em Oitenta Dias. Pus Juliete no estacionamento. Lucy nos esperava cochilando no balcão. Após Gabriela, cruzei a porta de vidro e girei a plaquinha, como sempre fazia: Aberto.

Toda segunda-feira, Gabriela e eu saíamos da livraria pelas sete horas da noite, e desta vez não foi diferente. Segundas eram reservadas para organizações e limpeza. Lucy poderia contratar alguém para cuidar da limpeza, nós sugerimos isso uma vez, e tudo o que ela disse foi: Se eu empregar outro funcionário, terei que retirar vinte e cinco porcento do salário de vocês para pagá-lo. Logo, desconsideramos a opção.

Depois de muito trabalho, Lucy nos liberou. Eram sete e meia da noite, Crouzi não era muito bem iluminada, então tudo parecia sinistro.

— Não irei com você. — Gabriela bradou — disse a Martim que iria visitar Laura hoje. Você sabe, faz tempo que não a vejo.

— Tudo bem. — rebati.

Gabriela assentiu e correu para atravessar a avenida Aqui Morreu O Poeta, cuja placa havia um complemento proveniente de algum conscientizador: Aqui morrerá você também, se não respeitar a sinalização.

Eu me dirigi até o estacionamento. Girei as chaves, nada. Girei novamente, e mais vácuo.

— Oh, merda! — quase gritei. Tentei girar novamente, mas foi inútil. Aquele mecânico idiota provavelmente fez alguma gambiarra, no máximo. Raiva exalava no lugar do suor. Desci e bati a porta de Juliete, sem dar préstimo aos vidros podres e à lataria em oxidação.

— Eu te odeio, Juliete! — Bradei — te odeio como Hades odiava Poseidon.

Nesses termos, tive de seguir a pé pelas ruas silenciosas e escuras de Crouzi. Ótimo, vinte minutos de caminhada, pensei.

***

Quando já havia passado, provavelmente, dez minutos que eu havia iniciado minha caminhada, com as mão enfiadas nos bolsos do meu casaco de botão violeta, ouvi um grunhido, algo fino que cortava o tempestuoso silêncio como uma navalha. Meu coração, já acelerado, parecia saltar garganta afora.

Olhei para os lados, não havia nada além das paredes descascadas dos prédios velhos. Os gemidos pareciam mais altos agora, e mais sofridos também. Pensei em seguir em frente e não olhar para os lados, ignorar qualquer som. Não havia mais ninguém além de mim pelas ruas frias. Além dos resmungos, apenas minhas botas esmagando as folhas secas faziam barulho.

Quando os chiados ficaram mais intensos, pude sentir que era humano. Alguém passando mal, pensei. Desta vez resolvi procurar de onde estava vindo o som, que continha tanta dor a ponto de me fazer gelar por dentro, meu sangue era como vidro. No mesmo instante, percebi que talvez aquela agonia vinha de um dos becos á minha direita. Os sujos becos de Crouzi. Corri um pouco, agora estava perceptível, alguém gemia de dor, estava provavelmente ferido. Um assalto, imaginei.

Alcançando um dos becos, pude ver claramente uma mulher jogada entre os sacos de lixo. O cheiro era insuportável. Sua cabeça recebia um pouco do reflexo da lua, seus olhos cheios de lágrimas e a boca repleta de sangue. Automaticamente cobri meu rosto, ela não havia percebido minha presença, apenas uivava de dor.

Juntei um pouco de coragem, lágrimas minavam de meus olhos, nunca havia presenciado nada parecido. Agachei-me próximo a mulher, que agora percebera minha estada.

— Me ajude... — ela disse em meio aos choros, espirrando sangue pela boca — Por... favor.. ajude-me... — seus olhos queriam fechar.

Completamente horrorizada, eu praticamente gritei.

— Oh, eu vou... Vou te ajudar.

Aproximei-me mais dela e quando toquei seu corpo, pude perceber que sua barriga estava amplamente cortada, náusea subiu pelo meu estômago, o cheiro não poderia ser pior. A mulher levantou lentamente seu braço direito, sangue escorria pela dobra de seu cotovelo, ela estava sem os dedos.

Eu arfei, segurando um grito.

— Quem fez isso com você?— perguntei, não pude prender o choro — Diga, o que é isso tudo?

— Me ajude... — seu braço foi descendo lentamente, sangue espirrava em minha roupa, seus olhos se fechando — Me...

Ela havia morrido.

— Oh, não — eu gritei — espere, não, eu preciso saber quem fez isso com você. Polícia... — eu levantei, tropeçando em meus próprios pés, integralmente atordoada — preciso avisar à polícia!

Antes que eu pudesse mover-me para executar qualquer ação, senti meu celular vibrar no bolso do casaco. Peguei-o imediatamente. Uma mensagem. Uma mensagem privada? No mesmo instante abri. O aviso era claro, senti minhas veias dilatarem, tremor correu por todo meu corpo.

Se eu fosse você não faria isso.