S.O.S Me Apaixonei Por Um Assassino Suicida
2 Maldito seja o 305
Eu não poderia sair do Tude Empire, nem se quisesse. O apartamento é meu, eu o comprei com minhas economias, com meu esforço e com meu pai soltando críticas aos meus ouvidos. Aquilo tudo faz parte do meu sonho e eu sempre fui uma pessoa que se incomoda muito fácil. Eu me acostumo muito fácil com o que me convém... e agora isso: um universitário, novo na cidade, meio estranho que talvez seja uma boa pessoa… definitivamente não gostei. Eu esperava ela dizer que vendeu o 305 para uma velhinha reumática que passaria o dia todo bordando e tomando chá verde, me deixando em pleno remanso.
— Hum — murmurei, coçando o queixo — Interessante.
— Não faça essa cara, querida, tenho certeza que ele será um ótimo vizinho.
— Eu realmente espero. Agora eu tenho que ir, certo? Encontrei uma bela oportunidade de estágio, sabe... Preciso me preparar para o teste. E daqui a pouco a Viajem Ao Mundo Em Oitenta Dias abre, e eu não gosto de chegar atrasada.
— Ah, tudo bem. Até breve, então.
Eu assenti, peguei meu café, me despedi de Kat, e fui direto para a Volta Ao Mundo Em… – sim, esse é o nome da livraria da Lucy. Desculpe não ter escrito o nome todo, é grande demais, entende? – parei Juliete no mini-estacionamento da… Livraria. Gabriela tirava o pó dos livros quando adentrei pela porta de vidro e girei a plaquinha indicadora – aberto – respirei fundo e bati o tênis no tapete.
— Bom dia, Clarissa?!
— É.
Gabriela mora no apartamento abaixo do meu. É uma ótima vizinha, nunca está em casa. Antigamente ela morava com seu irmão, Dean, mas ele foi preso por participação numa máfia que traficava jóias, pedras preciosas, mulheres e coisas do tipo. Ela também é uma velha amiga do colegial – se eu só tenho velhos amigos do colegial? Sim. Amigo, apesar de ser uma palavra cuja função gramatical foi estupidamente alterada para adjetivo, por pessoas dissimuladas, é um termo muito forte para sair empregando em qualquer pessoa que lhe force um sorriso de canto de boca. – ela cuida do caixa da livraria, o que não é, nem de longe, um trabalho difícil e rendedor, já que ele quase nunca se movimenta. Porém, ela não vive do salário mísero que Lucy paga, ela tem seu próprio negócio: um Buffet na cidade vizinha. Deve ser bom trabalhar com isso, o dia todo sentindo o cheiro de rosquinhas açucaradas e tortas de limão, as melhores.
— Mal humor? — perguntou Gabriela.
— Anh… indisposição, tédio, ansiedade… essas coisas.
Enquanto discutíamos meu péssimo bem estar, uma senhora magrela, baixinha, de mais ou menos sessenta e tantos anos, usando um óculos de armação fina, cabelo curto e ralo, adentrou na livraria.
— Bom dia, mocinha! — disse a senhora, me encarando.
— Hm, bom dia… O que quer? Digo… O que deseja?
— Vocês… — Ela passou os olhos compridos em Gabriela, que a olhava com um falso sorriso simpático — Vocês tem… Literatura erótica?
Eu engoli seco, dei uma leve engasgada, e mandei um olhar de dúvida para Gabriela, que retribuiu igualmente, desfazendo seu sorriso automático.
— S-enhora… — ela disse — tem certeza que quer ler sobre isso?
— Absoluta! — grunhiu a mulher — Por que? Alguma coisa contra?
— N-ão, imagina, de forma alguma.
A mulher voltou-se para mim, levantando uma sobrancelha.
— Vocês tem ou não?
— Claro! — respondi, Gabriela me olhou com reprovação — Me acompanhe, por favor.
A Volta Ao Mundo Em Oitenta Dias, de fato, é encantadora. Não muito grande, nem muito pequena, cinco corredores duplos, piso de madeira, estantes preto-fusco, inspirações barrocas. Lucy tem muito bom gosto para com decorações.
Eu levei a senhora até a estante de romances eróticos.
— Nacional ou internacional? — perguntei
— Tanto faz… Sendo quente, qualquer um serve! — bradou, dando uma gargalhada abafada, acompanhada um tapinha, no meu ombro. Sua mão esquerda estava envolvida numa munhequeira longa, talvez ela sofresse de tendinite, ou talvez ela fosse uma senhora punk, não sei. Deveria ter perguntado se ela curtia Ramones.
Eu mostrei-a alguns contos e crônicas, dos mais famosos aos mais desconhecidos e toscos.
— Ah! Que maravilha! — ela grunhiu, arregalando os olhos fundos — Pimenta Tabasco e Possuída de Desejo.
Eu a olhei com um pouco de êxito.
—Senhora, com licença, não acha… ahn… forte demais?
— Justamente! Minha querida, eu sou uma mulher vivida. Separei de meu marido a pouco tempo, minhas filhas moram fora do país. E não tenho nenhum amante… Oh!
— Ah, sinto muito…
— Não sinta! — ela interrompeu — Eu não estou reclamando! Aliás, agradeço por isso. Mas de qualquer forma, obrigada por se intrometer. Então, como estava dizendo… Tenho experiência de sobra, nada me surpreende. Por isso, quanto mais saliente, melhor!
Ela explicava, brevemente, sua vida bem aproveitada, oscilando do português ao espanhol, fazendo gestos toscos com a língua amarelada, me deixando assustada. Eu já estava prestes a gritar por Gabriela, quando ela virou-se, em direção ao caixa, dando-me as costas.
— Aqui está… Bem, por quanto fica?
— Cinquenta, senhora. — disse Gabriela
Ela pagou, pegou a sacola, e antes de sair virou-se para mim
— Ahh…. Depois eu volto para lhe contar as partes… Picantes!
— Eu mal posso esperar! — disse
Ela bateu a porta, e saiu, dando pequenos saltos desajeitados pela calçada.
— Uh! Acho que estou… Enjoada. — murmurei
— Ah, se quiser pode ir para casa descansar.
— Ai… Sério?
— Claro que não! Olhe ali — ela apontou para uma estante completamente revirada — É melhor arrumar! E não esqueça de organizá-los por ordem alfabética.
Eu bufei, e fui.
***
Fim de tarde, cheguei em casa exausta. Tudo que eu queria era uma pizza. Mas antes que eu pudesse, se quer, trocar de roupa e fazer minhas necessidades fisiológicas, o telefone tocou.
– Alô!
– Senhorita Lee, está atrasada! O prédio todo já esta na sala de reuniões, estamos lhe aguardando!
— Fala sério! Acabei de chegar de trabalho, estou cansada, minhas pernas…
— Ah, claro, claro… Não precisa se preocupar. Nós não iremos começar sem a senhorita.
— Frederich, não desligue! Frederich…
Bem, não havia escolha. Peguei meu celular, conferi as trancas da porta e chamei o elevador até a diretoria do prédio.
***
— Finalmente! — disse Frederich — Que saudades da senhorita!
— Aham, igualmente. — grunhi — Então… Qual é a pauta de hoje? Eu espero que seja algo muito importante, porque estou com fome.
— Tenho certeza que é importante! — disse Helena, a síndica — Há um novo morador no Tude Empire, inclusive, ele mudou-se esta tarde. Bem, eu acho que alguns de vocês notaram o movimento.
— Estou sabendo. — disse, num bocejo — Só não pensei que… Que seria tão rápido. Bem, e aonde ele está?
— Opa… Estou aqui!
Virei-me, procurando a direção da voz rouca e estranha. Agora, de frente para mim, em uma distância de, mais ou menos, dez metros, estava uma figura pálida. Coitado, deve sofrer de anemia, pensei. O sujeito trajava uma Slim preta, bastante surrada, por sinal, jaqueta de Brim e botas de combate. Zumbidos e sussurros podiam ser ouvidos entre as senhoras fogosas que estavam mais atrás. Outros de meus vizinhos o olhavam desconfiados. Eu o examinei atentamente, por poucos segundos, tempo suficiente para sentir que coisas, não muito legais, estavam para acontecer, que a minha concórdia estava próxima da sucumbência.
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