S.O.S Me Apaixonei Por Um Assassino Suicida
5 Mais uma aliada
Notas iniciais
26 de Março, meu coração batia tão calmo quanto o cantar da lavadeira na minha janela. A lavadeira foi o pássaro que lavou as roupas de Jesus, havia dito-me um colega de faculdade há umas semanas, talvez ela pudesse lavar as minhas também, pensei. Havia uma gigantesca pilha de roupas sujas ao lado do guarda roupa. Tirei a piada de, talvez, um péssimo gosto do pensamento. Tomava um café requentado, pois não tive ânimo para fazer outro, numa xícara verde que ganhei de minha mãe. A mesinha de anotações, a qual descansava meus cotovelos, entre as folhas de papel amassadas e tinta de caneta azul, não tinha mais o mesmo brilho de verniz, agora era cheia de rabiscos e números de telefone. Minha vida está como essa mesa velha, pensei, minha vida e tudo que gira ao meu redor. Não era tão simples efetuar uma síntese com tantas coisas zanzando na mente, tantas coisas inúteis, tantas coisas que há tempos não tinham domínio sobre mim. Talvez eu seja mais vulnerável à sentimentalismos do que imagino ser.
— Hum, acho que comparar atitudes humanas com comportamentos animais é uma porcaria de injustiça. O homem deveria por lógica ser superior, mas definitivamente não é. Uma prostituta não deveria sentir-se ofendida ao ser comparada a uma vaca, tenho certeza que as vacas cuidam e fornecem muito mais carinho e atenção às suas crias que muitas mulheres, além do fato de serem sagradas para os indianos. E eu realmente acho que jamais poderia colocar algo como isso imerso tão diretamente numa oportunidade de emprego. De fato, me achariam no mínimo louca, por Deus.
Enquanto proseava comigo mesma, amassei mais uma folha e a joguei no espelho manchado à minha frente. A remota vontade me manter-me encarando meu reflexo bagunçado tirou-me de minhas atividades. Vinte anos de alguma coisa que eu nunca soube dizer o quê. Vinte anos jogados no lixo? Vinte anos acoplados em uma espécie de fração que completa todo um ciclo, a primeira fração, a primeira parte de algo que possui um fim desconhecido. Rolei os olhos, peguei o telefone e liguei para Gabriela, tinha coisas mais interessantes a discutir.
Ela atendeu no terceiro toque.
— O que foi?
— Então, você poderia me encontrar na Não Passe Mais de Quinze Minutos?
— Claro! — ela deu uma pequena pausa
— Oh, Jason Santi já começou a comportar-se como um péssimo vizinho? Lamento.
— Não, ainda não. Para falar a verdade, não acho que ele esteja dormindo ou passando muito tempo em casa. Não ouço barulho nenhum, música, vozes, água caindo do chuveiro, descargas… Nada.
— Isso é bom, certo?
Eu dei uma pausa, segurando a persiana suja que o vento fazia bater no vidro da janela, emitindo um barulho chato.
— Obviamente.
— Então qual é o problema?
— Não há problemas com isso, pelo contrário, eu gosto muito que ele não fique em casa e não atrapalhe meu sono… não me… atrapalhe.
— Mas precisamos discutir sobre o seu plano imbecil, não é isso?
— Exatamente. Te vejo daqui a vinte minutos.
— Tudo bem.
Bati o telefone no gancho e fitei a janela.
Crouzi era um lugar agradável, bom para quem gosta de sossego, e também não deixava de ser um belo bairro, pequeno, mas, ainda sim, encantador. E eu poderia continuar um pouco mais sob a luz do sol que atravessava o vidro, se não fosse pelo lá, lari, lalá, que vinha de alguma dimensão. Olhei para cima, então soube: ele estava em casa.
***
Gabriela me esperava sentada em um dos vários bancos de concreto, que ficavam próximos à pista, cercando a praça Não Passe Mais de Quinze Minutos, que recebeu esse nome tosco pelo fato de que se você passar muito tempo perambulando por lá, provavelmente voltará para casa sem as roupas. Embora eu ache que isso não passe de uma lenda, por vir das dúvidas, nunca levo pertences de valor.
— Bem na hora!
— Yeah, Kat tem me ensinado a ser pontual, ela é ótima nisso.
Gabriela trajava uma saia florida até o joelho, acompanhada com uma regata branca e sandálias de dedo.
— Então, aquilo que você me falou de… sair com ele, com Jason, eu — ela pausou — eu não sei se é uma boa ideia, você sabe, nós não o conhecemos.
— Aham.
— E?
— O quê?
— Você… não vai pensar a respeito?
— Já pensei, e acho que vai dar super certo, especialmente porque você gosta de rapazes bonitos com cara de quem pode fazer tudo com você, inclusive matar e tal.
Ela fez uma careta, que logo foi exterminada por um risinho pervertido.
— Então você acha ele bonito?
— Eu não disse isso.
Seitei-me ao seu lado e expus meu bloco de notas em forma xícara.
— Olha, hoje vou descobrir onde ele trabalha e com o quê. Então poderemos saber os horário dele e tudo mais, assim, ficará mais fácil de vocês encontrarem-se… anh… ocasionalmente.
— Certo. Mas eu vou ter que me atirar em cima dele? Tipo, supondo que ele esbarre em mim, quero dizer, que eu finja esbarrar nele, então eu vou, simplesmente, pedir desculpas e dizer sensualmente: não está afim de ir ali comigo, sei lá, tomar um sucou ou fazer sexo?
Eu a olhei inexpressivamente
— Essa ultima parte, com certeza, foi desnecessária. — disse — mas o resto não está muito ruim, exceto ao fato de que você precisa treinar mais o seu lado sensual.
— Você está brincando.
Antes que eu pudesse dizer a Gabriela que o drama dela estava me deixando exausta, fomos surpreendidas por um carro, freando a poucos metros de nós – vidros totalmente fechados, negros. Por alguns segundos pensei que a Não Passe Mais De Quinze Minutos estava fazendo juízo ao nome, meu coração gelou, eu gostava muito da minha blusa do Van Halen. Então o vidro dianteiro baixou, e eu tive uma enorme vontade de socar a cara genuína de Katherine Maciel.
— Sua…
Ela colocou a cabeça para fora da janela, sorrindo, com um brilho nos olhos – o tipo de brilho que ela tinha quando algo envolvia muito dinheiro, ou, simplesmente, dinheiro.
— Carro novo? — perguntou Gabriela.
Ela subiu o vidro, saiu do veículo preto fulminante, que parecia acabado de sair da concessionária e o travou.
— Ganhei — respondeu Kat, dando pulinhos — Não é fantástico?
— Deve ter sido caro… — disse — Saindo com caras casados, Katherine?
Ela olhou-me com divertimento
— Não.
— Então o quê? — Gabriela perguntou.
Kat passou os olhos de Gabriela para mim, e depois o oposto.
— Do amor da minha vida.
Eu joguei as mão para o alto.
— Deus, de novo não.
Gabriela bufou.
— Kat, você sabe que esses tipo de relacionamentos, em que você se interessa apenas no que o rapaz pode lhe dar, financeiramente, é claro, não a leva à felicidade alguma, quero dizer, à realização pessoal em termos de sentimento.
Ela olhou para Gabriela em uma careta, aparentemente confusa.
— Ela quis dizer que vai chegar uma hora em que você vai precisar de um cara de quem realmente goste, logo, você vai trair o cheio da grana, e ele vai descobrir, e o cara que você gosta também vai descobrir, então você vai ficar sem os três.
— Três? — Kat perguntou-me, horrorizada.
— É. — respondi — o cara rico, o cara pobre e o carro. Ou você acha que esta belezinha está em seu nome?
— Eu… — ela se interrompeu, mudando de assunto — bem, contem-me as novidades, se houver alguma.
Puxei-a para sentar ao meu lado, e, junto com Gabriela, contei tudo sobre Jason Santi e minha frustração em não conseguir terminar a síntese, bem como Gabriela a informou sobre a possibilidade de Dian voltar para Crouzi.
— Então ele está resolvendo seus problemas com a polícia, digo, Dian…
— Yeah — disse Gabriela a Kat, que fitou-me
— E eu ainda não consigo acreditar que o cretino Chamberlain está morando no mesmo prédio que vocês.
Eu a olhei confusa.
— Você sabe sobre o apelido idiota? Como?
Ela arregalou os olhos, depois sorriu insanamente.
— Jason Santi — ela suspirou — quem não conhece Jason Santi? Aquela maldita esfinge.
Gabriela a fitou
— Esfinge? Por que?
Ela cruzou as pernas.
— Vocês sabem, eu passei quase três anos em Igras, a cidade onde Jason vivia, até então, certo?! E ele era estupidamente conhecido como Chamberlain. Todos sempre falavam sobre isso – essa fama. Diziam que ele iria conseguir levar todas as garotas de Igras para a cama dele — ela riu — não, não me olhem assim, eu nunca sai com ele, nunca nem, se quer, falei com ele. Se ele teve que sair da cidade, de uma cidade tão a cara dele para morar aqui — ela olhou ao redor, com uma expressão de desdém — então, talvez, ele tenha conseguido cumprir sua meta, o que acarretaria muitos, mais muitos problemas.
Eu pousei as costas no escoro do banco. Enquanto formava-se um longo silêncio, do outro lado da cerca um garoto caia da bicicleta, corando imediatamente.
— Não confio nele. — disse.
— O quê? — kate perguntou.
— Em jason — pausei — não confio nele.
— Nem eu — disse Gabriela — Eu o achava bonito. Agora o acho muito bonito… e perigoso. Ele parece fatiar o coração de uma garota como quem fateia um presunto.
Kat fez uma careta.
— Ele realmente não parece ser de confiança, mas não é nada para que nos importemos — ela disse — não é de nosso encargo, não é nosso problema.
Eu descorei do banco.
— É meu problema! — bradei — é ele quem vive no apartamento acima do meu – que é altamente sensível. Qualquer barulho, qualquer coisa que ultrapasse os limites — eu pausei — tudo isso implica no meu bem estar. Okay, pode ser um pensamento egoísta, mas ele é um homem, e eu já fui vizinha de homens sozinhos e foi um inferno, eles são todos iguais, cada um pior que o outro, não vai ser diferente com Jason Santi. Ele precisa ir embora.
— E ela tem um plano! — bradou Gabriela, forçando a voz para parecer o mais sombria possível — tipo vilões psicopatas de filmes latinos.
— Um plano? — Kat parecia desacreditada — Uma palo para expulsar um cara da casa dele? Por favor, isso é ridículo.
— Não é — respondi — não é muito, tá?!
— Hum, e eu posso saber que plano é esse?
Contei toda a minha estratégia para Kat, ela, de início, pareceu não se importar muito, mas logo começou a ver um pouco de lógica e até divertimento. Ela deu algumas dicas à Gabriela, que parecia entediada.
— É fácil descobrir o local onde ele trabalha — disse — Frederich pode muito bem nos dar essa informação, não seria nada comprometedor, eu acho.
Kat olhou para seu carro, já era noite, agora, a luz verde dos postes fazia sua pele parecer lama, seu cabelo entranhado num coque mal feito.
— Tenho que ir — ela disse — Só parei aqui porquê vi vocês. Eu tenho muita coisa pra fazer, vocês nem imaginam. Mas eu quero que me mantenham informada sobre essa coisa de expulsar o Chamberlain.
— Você vai pela Avenida Barão Viez Crouzi?
Gabriela perguntou, ela assentiu.
— Vou com você, tenho que visitar um fornecedor.
— Há essa hora? — questionei.
Ela gaguejou.
— É, sim. Eu… eu deveria ter feito isso mais cedo, mas… Não há problemas em fazer agora.
— Certo. — retruquei
— Você vai ficar aí, sozinha, Clarissa? Te dou uma carona até em casa. — disse Kat.
Cruzei as pernas sobre o banco e olhei para os lados.
— Não, obrigada, eu vou… ficar por aqui, você sabe, pensar.
Ela deu de ombros e entrou no carro, assim como Gabriela. Então tudo ao meu redor era vazio e silencioso. Eu me sentia estranha, sabia que tinha uma casa, tinha para onde ir, mas eu deveria? Tudo era tão idiota e angustiante. Tudo isso de não saber o porquê de ter, aparentemente, o que precisa e, no entanto, sentir-se tão à toa quanto um panfleto jogado na rua, ou qualquer outro pedaço de papel. Eu me perguntava se aqueles cartazes de viajem, colados pelos postes da cidade, possuem alguma conveniência. Será que alguém os procura? Será que aquelas oportunidades de viajem, de fuga, de saída, existem mesmo ou são apenas armadilhas para o tráfico de pessoas? Eu me sentia como eles: incogitáveis. Eu estava prestes a deitar sobre o banco e fitar as estrelas, elas pareciam muito mais bonitas que qualquer outra coisa no momento, contudo, senti uma coisa fria, algo que me fez arrepiar e passar a mão por trás do cabelo solto, como uma brisa afiada, algo que rapidamente cortou a luz que vinha do outro lado da praça, por trás do banco, e projetava-se à minha frente, traçando um raio de sombra. Olhei para trás e não vi nada além de morcegos empoleirados ponta-cabeça nas árvores. Minhas batidas cardíacas estavam aceleradas, uma besteira, pensei, uma besteira suficiente para me fazer voltar pra casa.
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