S.O.S Me Apaixonei Por Um Assassino Suicida
19 Dizem que há coisas piores que a morte. O amor, por exemplo.
Jason cerrou o maxilar, dando-me as contas e seguindo à sala em seu exagerado andar de patife, sentindo-se completamente superior. Eu apanhei minha blusa branca gigantesca, vestindo-a com uma praticidade que só quem é acostumado a usar a mesma roupa o tempo todo, dispõe. O segui em passos acelerados e o puxei pelo braço, antes que ele saísse porta afora. Ele torceu o pescoço.
— Então será assim? — protestei — você ficará de birra e irá embora como quem sofreu o maior bullying do mundo sempre que falarmos sobre algo sério?
Ele era silêncio e deboche completo.
— Oh, Jason... você é tão infantil.
— Eu não deixaria minha vida por ninguém... — ele disse baixo, quase que para si mesmo, passando os olhos pelo teto, depois fitando-me — nem por você, oras.
Eu respirei fundo.
— Se tiver que mudar... Jason, olhe para mim... se estiver disposto a mudar, e eu até pensei que estivesse, tem que ser por você, não pelos outros.
Ele sorriu sarcasticamente.
— Pois bem, estou completamente satisfeito com quem eu sou. Não poderia estar mais feliz. — sua expressão criou seriedade imediatamente — essas foram as minhas escolhas, eu não poderia mudá-las nem se quisesse.
— Você já disse isso...
— Então está tudo certo. — ele bufou — eu não lhe entendo. Não sei de onde tirou a ideia de que eu iria entregar minha bela juvenilidade para a justiça. Olhe para mim — gesticulou — eu tenho quase vinte e um... o mundo é meu, eu o tenho porque possuo liberdade...
— Mas...
— Clarissa... eu gosto do que eu faço, apesar de tudo, apesar de meus problemas. Não sou um contador, ou advogado, nem médico, que pode optar por onde trabalhar em suas própria localidade, ou pode tentar outra faculdade e seguir uma carreira diferente. Eu sou um celerado. Essa é a minha profissão... e a minha prisão. Estou preso em minhas próprias escolhas, e não me arrependo de nada que fiz.
Eu assenti levemente, tentando não mostrar minha decepção.
— Eu apenas esperava que você pudesse pensar em entregar-se. Você... você disse que já tentou várias vezes acabar com isso, com essa condição, com você... — eu pausei — pensei que assumindo suas responsabilidades facínoras, se sentiria melhor...
— Me entregar seria o mesmo que entregar uma legião de pessoas como eu. Somos uma família, tempos um pacto... um propósito. Eu jamais poderia quebrar os acordos.
— Que acordos? — perguntei assustada.
Ele esfregou o rosto impacientemente.
— Isso não é o tipo de assunto que eu deva tratar com você.
Jason passou a demonstrar uma agitação familiarmente estranha. Seus olhos estavam perdidos e confusos, ele mordia compulsoriamente o lábio inferior, de maneira que pude perceber o singelo e minúsculo feixe de sangue escorrer pelo canto de sua boa. Eu congelei.
— Eu... v-vou embora, Mirium... — ele balbuciou desesperadamente — eu... eu vou.
Agonia subiu por meu estômago. Eu o puxei palas mãos e tentei encarar seu rosto, mas ele torcia a cabeça rapidamente, como quem tenta se esconder.
— Jason... — comecei — você tomou seus remédios?
— Eu... não sei — ele soltou-se de mim, batendo as costas violentamente na porta da sala — deixe-me ir.
— Você não pode sair assim...
— Eu vou para casa — ele respirava fundo, fechando os olhos com força, fazendo esfoço para manter o controle e a calma — então ficará tudo bem...
— Eu vou com você..
— Não! — gritou, amenizando a voz logo em seguida — por favor.
Eu assenti relutantemente, o observando atravessar a porta, com um olhar transbordando pesar e dúvidas. Jason era, sem imprecisão, o cara mais maluco, estranho e acidentalmente perigoso que já conheci. Isso tirava-me o ar, às vezes, mas logo passava. A ideia de, quem sabe, namorar um assassino serial poderia afetar emocionalmente qualquer pessoa, mas, em mim, não causava nada além de pensamentos estranhos antes de dormir, como Jason beijando-me e chocando uma pistola contra minha cabeça. Ou colocando uma enorme e afiada faca em meu pescoço por pura diversão, Ou atirando-me pela janela de meu quarto cantarolando ''voe, Clarissa, voe alto, voe firme, meu amor.'' Uma loucura.
***
10 de Abril. Kat e Gabriela esperavam-me na Você Não É Um Unicórnio, como o combinado. Eu cambaleava pelo quinto hall embalada em uma calça jeans, tênis, e camiseta simples. Estava aparentemente feliz. Aparentemente, porque apesar de ter passado-se mais de uma semana desde meu sequestro, ainda perguntava-me por onde Dean estava. Desde aquele dia, ele sumiu misteriosamente, abandonando todos os seus pertences no apartamento de Gabriela, muito embora eu ache que isso não faz nenhuma falta a ele.
Jason e eu estávamos nos entendendo razoavelmente bem, porque era quase que sempre impossível nós passarmos um dia sem discutir sobre coisas idiotas como ''por que você guarda suas calcinhas na primeira gaveta da minha cômoda? isso é tão desagradável...'' E antes que as mil e cinco perguntas surjam, digo-lhe que ando reversando entre minha casa e a de Jason. – Você pode dizer que está é uma atitude prematura demais, já que não nos conhecemos há tanto tempo assim e não temos um relacionamento, digamos, fixo. Mas eu posso afirmar que não me importo nem um pouco com isso, e, às vezes, é até bem divertido. – Certa vez ele fez um escândalo, alegando que quase vestira uma de minhas calcinhas sem querer... aquele ridículo. Confesso que o apartamento dele, apesar do mal cheiro, é bem mais legal e autêntico que o meu, e muito melhor para... bem, não vem ao caso.
Eu também havia perdido meu quase-emprego-bacana-yeah-grana-de-verdade na ICAI, obviamente, o que me deixou um pouco triste. Entretanto, Lucy disse para eu não desanimar e tudo mais, que as portas de sua livraria falida sempre estariam abertas para mim. Minhas férias da faculdade estavam a quase duas semanas da sucumbência... O que me fez lembrar de todas as provas malditas que eu teria que fazer quando retornasse. Uma lástima.
Frederich havia acabado de desligar o celular com completo desajeito, quando percebeu minha aparição na recepção do Tude. Há dias ele ficava assim: proseando romanticamente com alguém misterioso. Debrucei-me sobre o balcão, puxando o celular rapidamente de suas mãos.
— Maria da lua...? — sorri divertidamente — que interessante...
Frederich estava vermelho como um tomate podre.
— Senhorita...
— Quem é ela, Fred? — o interroguei — quem é esta rameira que está o roubando de mim?
— É uma senhorita muito bem educada e simpática que conheci no supermercado. — ele disse sorrindo.
— Hum... você ofereceu-se para levar as compras dela com aquela sua velha e safada história de jantar, não é?
— Tenho lido muito Charles Bukowski — ele fez uma careta — tem me ajudado muito, obrigado pela indicação, senhorita Lee.
— Por nada.
***
A Você Não É Um Unicórnio estava vazia como sempre. Era fim de tarde, as ruas estavam cheias de mães e crianças apressadas, envolvidas em uniformes escolares, gritando, cantarolando e sorrindo como se a vida fosse boa e o futuro garantido.
Kat e Gabriela dividiam um sundae de tronco de limoeiro, isso era perceptível pela cor opaca e o cheiro forte. Juntei-me a elas, que exibiam sorrisos gozados.
— Lauryhanna! — Gabriela berrou — traga um sundae de hortaliças para minha amiga Clarissa, porque agora que ela está namorando – depois de tanto tempo encalhada – não quer saber de quilos a mais, nem culotes, papada, barriga flácida e bunda caída...
— Gabriela! — gritei — não seja ridícula. — eu gesticulei para Lauryhanna, garçonete da sorveteria, para que ela não trouxesse o pedido.
— Você está bem? — Kat perguntou-me divertidamente.
— Até estou. E nem estaria aqui, sabe... Jason disse que iria levar-me para ver um filme idiota no cinema, mas desistiu... porquê... bem — eu hesitei — ele não está se sentindo muito disposto.
Gabriela soltou um arroto tosco, provavelmente aprendeu aqueles péssimos modos com Hecto. Os dois estavam namorando sério.
— Que horror! — kat bradou — Você está cada dia pior, Gabi.
Gabriela a ignorou, fitando-me.
— Vocês são tão estranhos... — bradou.
— Hum?
— Vocês.. — ela soltou outro arroto, desta vez mais grotesco — Você e Jason maligno.
Eu levantei uma sobrancelha.
— Tem algum motivo especial para achar isso? — questionei.
Ela balançou a cabeça de leve, negando.
— É apenas um relacionamento fora do comum. Como se não se pertencessem uma ao outro... — ela pausou — tudo bem, isso foi muito brega. Bem, o que eu quero dizer é que tanto você como ele, se deixam à toa... sei lá.
Eu respirei fundo. Em parte, o que Gabriela disse é verdade. Jason me deixa à toa na maior parte do tempo – não que eu me incomode – enquanto eu morro de preocupação sempre que ele entra em crise, ou diz que vai sair para ''trabalhar''. Mas eu não o culpo, não poderia jamais, especialmente quando alguém possui tantas péssimas lembranças como ele. Eu digo que sou uma pessoa desacostumada com o afeto, embora meus amigos e familiares estão sempre dando-me atenção, amistosidade, empatia e tudo mais. E então penso em Jason e em tudo que ele passou quando criança, quando adolescente e até hoje em dia. Eu sou desacostumada porque optei em não querer necessitar disso. Jason é desacostumado por simplesmente ter sido empurrado pela vida. Talvez a apatia seja um efeito colateral de se estar acoplado ao mundo dos assassinos seriais, traficantes, cheiradores de cola, trombadinhas e até mesmo carcerários de penitenciárias. ''O homem é produto do meio.''
— É tudo muito complicado — pausei — mas... vamos mudar de assunto...
Houve um pequeno intervalo de silêncio.
— Acho que Dean está... digamos... de volta — Gabriela quase sussurrou, encarando a mesa — Acho que desta vez não posso considerar isso com uma boa coisa. Não haverá ao menos pizzas para um jantar entre irmãos...
Eu engoli seco.
— Ele entrou em contato com você? — perguntei-a.
— Bem, não exatamente. Mas eu costumava deixar a chave extra do apartamento no vaso de palmeira... aquele ao lado da porta, para que quando Dean chegasse tarde das festas, não precisasse chamar-me para abrir a porta, nem levar a chave, correndo risco de perdê-la em meio aos efeitos do álcool e Deus sabe lá mais do quê.
Eu assenti.
— Para quê ele iria querer a chave extra do seu apartamento? — Kat questionou, enquanto retocava o batom.
— Eu não sei...
— Talvez não tenha sido ele — sugeri esperançosamente — pode ter sido qualquer pessoa...
— Apenas nós dois sabíamos do esconderijo ninja — ela sorriu tristemente — era assim que ele chamava... o esconderijo ninja da Gabi super engenhosa. Eu o amava tanto...
Kat e eu permanecemos em silêncio absoluto. Nunca fui muito boa com reconfortos, Kat muito menos, o máximo que ela poderia ter feito era oferecer um espelho para que Gabriela retocasse a maquiagem borrada pelas lágrimas que rolaram de seu rosto singelamente. Não que Kat fosse uma garota superficial, ao contrário, mas era certo que, às vezes, sua vaidade passava dos limites.
Em meio aquilo tudo, abraçamos Gabriela que derramou-se em prantos, Kat pegou o celular e ligou para Hecto, o que me fez lembrar que eu ainda estava sem celular, apesar disso não me incomodar muito. Hecto chegaria em vinte minutos, segundo o próprio. Diante disso, me despedi das meninas e voltei ao Tude Empire. Precisava ver se Jason estava... melhor. Minha cabeça andava sempre tão ocupada com ele e seus problemas. Andava com um certo medo do que eu estava tornando-me, ou pior, se aquilo era realmente quem sou de verdade, aquela coisa necessitada de afago... Não poderia ser.
***
Já eram quase seis horas da noite quando cheguei à porta de Jason. Ele havia dado-me a cópia da chave, o que me fez pensar se ele estava tornando-se exclusivo, se estava dando-se ao luxo disso. Era certo que toda aquela coisa de pegador inconsequente fazia muito mais parte de Jason Marilio Santi, que de Miguel Fernanm, apesar dele não se considerar mais o garotinho maltratado da mamãe, e jamais poderia ser, ele definitivamente não era. Mas, bem, creio que entendeu o que eu quis dizer, e se quiser alegar isso como mais uma das minhas manias desgostosas de camuflar a verdade, fique à vontade.
Estava pronta para girar a maçaneta quando parei instantaneamente, ouvindo sons estranhos vindo de trás da porta de madeira. Estrondos. Barulho de vidros sendo quebrados, vozes exaltadas, coisas sendo estraçalhadas o tempo todo. E enfim, meu sangue tronou-se fumaça, ao reconhecer a voz de Jason num grito ríspido e violento.
Eu vou trucidar você...
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