SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

5 Capítulo 4 - Verdades na mesa


Andrew havia evitado Matthew durante toda a semana que se passou. Mesmo depois dos dias de suspensão. Era quase como se os dois não morassem mais na mesma casa. Nenhum deles queria deixar o orgulho de lado. No entanto, Matthew começou a se sentir ressentido, porque no final, a ideia da festa tinha sido dele. E foi exatamente aquilo que criou a confusão. Então, quando acordou naquela manhã, decidiu que, daquela vez apenas, seria ele quem daria o braço a torcer e se desculparia.

— Andrew. – O gêmeo mais novo chamou, batendo a porta do quarto silencioso.

Nem um minuto depois, a porta do quarto de Alex se abriu, e se virando, Matt se deparou com olhos azuis cinzentos. Havia ansiedade neles e antes que pudesse entender, sua irmã o puxara pelo pulso, quarto a dentro.

— Tentem não se matar. – Ela disse, puxando Izzie que esperava atrás da porta, para fora.

— Por favor. – Izzie completou, antes da porta se fechar.

Logo que as meninas saíram, tudo que pode ouvir foi o som da chave girando na fechadura. Matt não tinha entendido nada, até se virar. Andrew estava em pé, próxima a cama de Alex, com o semblante de costume. E então ele entendeu. Era o plano delas, deixar os dois dentro de uma sala para um confronto direto. Era a cara da Alexandra ter bolado algo do tipo.

Teriam que colocar as cartas na mesa se quisessem sair do quarto ainda naquele dia.

Do lado de fora, depois de nenhuma palavra trocada, Isabel queria entrar e Alex por sua vez estava ficando impaciente. Ela mantinha o ouvido colado na porta, na esperança de que falassem algo.

A impaciência dela passou para Andrew, que abriu caminho no quarto, chegando a porta, para soca-la. – Vocês duas. Abram a porta. Agora. – Nenhuma reposta do lado de fora. – Abram logo. – Ele repetiu, desferindo mais socos contra a madeira.

— Nós dois sabemos que elas só vão abrir a porta quando nos resolvermos. – Matt o repreendeu calmamente, sentando-se na cama.

— Eu não tenho nada para falar, Matthew. – Sua voz, mais grossa que a de seu irmão, parecia cortar o ar, com seu tão calculista e metódico tom.

Depois de analisar sua fala, Matt desistiu de sua ideia inicial. – Eu também não.

— Ótimo. – Andrew respondeu, virando-se para a porta, novamente.

Droga, garotas. Matthew praguejou. – Andrew, escuta.... Eu sinto muito. – Ele falou com dificuldade em admitir. Andrew se virou, quando ouviu aquilo. Depois de alguns segundos de silêncio, Matthew percebeu que seu irmão não falaria nada, então continuou. – Olha, sei que não quer a festa, mas cara, você não sai, não fala com ninguém. Eu sou seu irmão. Sou seu gêmeo. Para mim era a única forma de te ajudar.

— Eu não precisava de ajuda. Não preciso de ajuda.

— Qual é? Nós vamos fazer dezoito anos e você nunca ficou bêbado, nunca namorou. Você já sequer beijou?

— Esse não é ponto aqui. – Mais do que depressa ele cortou.

Havia outras verdades que Matt queria jogar na mesa, coisas que pessoas normais sempre querer experimentar, mas que nunca pareceram interessantes para seu irmão. No entanto, aquilo já era o bastante. – Não é? Tem certeza?

— Olha, isso é uma escolha. Se não achei ninguém que valesse a pena, para que desperdiçar tempo, com algo que não terá futuro?

Matthew estava se irritando novamente. Para ele, vinha sendo impossível conversar com seu irmão. Quando suas respostas não eram perguntas, eram curtas e simples. Mas então ele se lembrou de que nem sempre foi assim, pelo menos não com ele. Talvez, fosse por serem gêmeos, ou pelo frequente convívio, mas quando eram menores, Matthew entendia seu irmão, assim como Alex entendia Izzie.

— Não sei.... Para simplesmente fazer. Arriscar. Experimentar. – Matt admitiu. – Parece que você sabe tudo, e se não, finge muito bem. E se você realmente estiver certo, e eu estou perdido daqui para a frente? — Foi a primeira vez que ele admitia aquilo em voz alta, e o sentimento foi como um soco de realidade.

— Matthew, você é manipulador e convincente.... – O objetivo era deixar a situação um pouco melhor, mas soou mais como um insulto do que um elogio. Em resposta, Matt ergueu uma sobrancelha, esperando uma explicação. – Você não vai ficar perdido. Sem contar que terá as meninas, Dylan e a mim. Vou sempre saber quando estiver encrencado.

Andrew se afastou da porta, indo até a cama e se sentando ao lado do irmão. Os dois tinham deixado suas armaduras por um momento, o que mostrou o abalo de Matthew e o cansaço nos olhos de Andrew. Os dois já haviam sido unidos, e era algo estranho olhar para o outro daquela forma. Eles eram garotos de personalidade forte e postura marcante desde sempre.

— O que aconteceu com a gente? – Matt perguntou. – A quase uma semana não nos falamos e antes disso quase nos matamos na sala. – Aquilo saiu como um desabafo, depois de um silêncio perturbador. Mas serviu apenas para formar um novo silêncio. Andrew não respondeu de imediato. – Sabe que eu adoraria dizer que a culpa é sua, certo?

— É um sentimento recíproco. – Andrew respondeu de prontidão. – Mas a culpa é dos dois. – Ele enxugou as mãos na calça, antes de continuar. – Sei que sou fechado, você cresceu comigo, mas...

— Não falar com você só piora as coisas, Andrew. – Foi o desfecho de tudo aquilo. Os dois pensavam a mesma coisa, e apenas um dizendo já era mais do que satisfatório. E Matthew sabia disso, principalmente quando seu irmão assentiu com a cabeça. –Feliz aniversário, irmão mais velho. – Ele amenizou a situação.

— Feliz aniversário, Matt. — Andrew puxou um abraço, depois de trocarem tapinhas nas costas. Era uma boa ocasião. Talvez aquela paz rendesse alguns dias.

Como confirmação, a porta se abriu e as gêmeas os observavam, com um sorriso no rosto. Elas tinham uma pose de vitória e satisfação, encostadas nos batentes da porta, enquanto olhavam para dentro do quarto.

— Estamos orgulhosas de vocês. – Alex começou.

— Irmãos mais velhos. – Izzie completou, revirando os olhos.

Ela foi a primeira a seguir pelo corredor. O momento entre irmãos havia chegado ao fim.

Alex, provocativa, pulou nas costas de Andrew que saiu por último. Ele quase caiu para trás, por conta do peso, mas antes disso conseguiu se reerguer. Ele deixou escapar uma risada e Alex se permitiu gargalhar, enquanto o irmão a levava de cavalinho até o quarto. Isso os fazia lembrar de anos antes, quando eram menores.

Pai e mãe. São os símbolos de muitos conceitos. E verdadeiros pais, fazem tudo para demonstrar seu amor para com os filhos. Mas nem todos sabem como fazer uma surpresa, e esse era exatamente o caso dos Daddrien. Todos os filhos já tinham conhecimento de que os pais não sabiam como organizar surpresas. E quando tentavam eram horríveis. Os dois andavam pela casa aos tropeços, como se os filhos não percebessem o que estava acontecendo.

O maior problema de fazer uma festa surpresa para os gêmeos, era que, caso pedissem para tirar os dois da casa, todos sabiam que Andrew seria aquele que não voltaria, ou pelo menos não tão cedo. Com isso, eles foram mantidos na sala por quase três horas, recebendo gritos, como resposta, das poucas vezes que tentaram entrar na cozinha.

— Vocês colocaram Matias na lista? – Matthew perguntou as meninas do outro sofá. A tarefa delas ali, era distrair os garotos.

Dylan estava enfiado na cozinha, ajudando os pais.

— Matt, já é a segunda vez que pergunta dele e é a vigésima pessoa que você quer saber se colocamos na lista. – Alex respondeu, impaciente.

— Sim, colocamos. – Izzie respondeu, rindo para a tela de seu celular. Ela sempre achava graça quando sua irmã se estressava. Pouca paciência para certos assuntos.

Depois de algum tempo, sua mãe colocou a cabeça para dentro da sala, pela porta da cozinha. – Isabel. Alexandra. – Chamou. — Levem seus irmãos lá para cima.

— Mãe, não tem necessidade disso, nós já sabemos de tudo.

— Matthew Lewis Daddrien. Você quis uma festa surpresa. E é exatamente isso que você terá. – A expressão de sua mãe era séria combinada com sua postura e braços cruzados à frente do corpo. — Agora. Alexandra, Isabel, levem sem irmãos para cima.

Vários ‘eu te avisei’ foram disparados na direção de Matthew, enquanto os quatro subiam. Da cozinha, era notável uma risada, pertencente a Dylan.

— Izzie é minha dessa vez. – Matt disse, puxando a irmã para dentro do quarto, deixando no corredor Andrew e Alex tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Os dois entraram no quarto de Andrew, para que ele lhe mostrasse a música que estava tirando.

— Posso perguntar o porquê dessa preferência repentina? – Izzie questionou, esparramando-se na cama de casal de seu irmão.

— Na minha concepção, Andrew se veste de acordo com as cores que combinam com o humor dele, ou seja, preto. Alex não tem paciência para isso. E bem, Dylan só tem um tipo de roupa: Flanela. – Os dois concordaram ao mesmo tempo.

— O que você tem em mente? – Ela o observava com um sorriso sorrateiro. – Quem tenho que me preocupar em impressionar? – No momento, seu olhar era provocativo, com um certo brilho e entusiasmo. E aquele brilho, era o motivo da preferência.

— Todo mundo.

* * *

Notas finais
Os dois últimos foram meio curtinhos né, mas espero que estejam gostando mesmo assim!