SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

22 Capítulo 20 - Medos da mente


— Finalmente eu achei vocês. – Dylan disse, colocando seu livro em cima da mesa que Alex e Andrew dividiam. – Vocês não vão acreditar no que eu achei. – Ele estava elétrico e muito agitado, enquanto falava sobre o que tinha acontecido na biblioteca. – Nós temos que voltar lá.

Antes que eles pudessem interromper, uma mulher com os cabelos negros adentrou a sala. Sua pele era muito branca, o que realçava seus olhos tão escuros quanto seus cabelos lisos.

Ela usava um vestido longo, roxo e preto. O tecido era leve e conforme ela andava, deixava a vista, por conta do movimento, uma tatuagem em seu tornozelo. Mas Alex não conseguiu identificar do que se travava.

Ela não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos, e tinha um ar misterioso e macabro. A maquiagem favorecia essa imagem. Bem gótica.

— Para os novos. – Sua voz era baixa, e ela escrevia no quadro logo na frente da sala. – Meu nome é Evelyn Stones. E eu sou a professora de Desenvolvimento Mágico. – Andrew e Alex apenas acenaram com a cabeça, mas Dylan não disfarçou sua falta de conhecimento da aula. – Ensinarei a vocês sobre feitiços e poções. – Ela esclareceu, e Dylan se posicionou melhor na cadeira. – Sou a única professora que vocês verão aqui, que não é uma aliada. Meu maior orgulho. – Ela finalizou com um sorriso debochado.

Os demais alunos sempre se sentiam ofendidos quando ela terminava suas apresentações com tal frase. Nenhum deles sabia o motivo, mas mesmo ensinando aliados e sub aliados, ela odiava o seu tipo.

— Abram na página vinte e seis de seus livros. – Ela orientou para a turma.

A sala em que estavam, era no quarto andar do Centro, logo ao lado dos banheiros. Na sala, havia a mesa da professora, de frente para o quadro negro. No canto da parede havia um carrinho de mão, onde estavam vários frascos e potes, que eles descobriram depois servir para as poções.

De frente para o quadro, começavam as mesas. Eram mesas em que cabiam, em cada, cerca de três alunos. Havia uma sequência de dez delas, distribuídas de duas em duas, em fileira. Logo abaixo das tampas, havia um local para o armazenamento de material.

Já no final da sala, um grande armário de metal, ocupava quase metade da parede.

Os irmãos, estavam, por sua vez, sentados, na quarta mesa, no lado esquerdo da sala. Do mesmo lado, uma sequência de três janelas, permitia que a luz do sol da tarde, entrasse.

Sua professora foi até seu encontro. – Eles lhes entregaram os livros, para acompanharem minhas aulas? – Ela perguntou em voz baixa, inclinando-se na direção de dos três.

— Havia uma pilha nos nossos quartos junto com o horário temporário. – Alex esclareceu. – Seria este o livro certo? – Ela ergueu um exemplar grosso, com capa roxa, escrito com letras pretas e desenhadas “Feitiços, poções e lições – Vol. 3”, na capa.

— Esse mesmo. Essa aula está no cronograma dos alunos dos Complexos, então vamos usar o volume três. Há dias específicos para que tragam os outros volumes.

Eles concordaram. A organização daquele lugar estava os deixando confusos. Aquela gigantesca mistura entre idades. Mas aparentemente funcionava.

Página 26 — Poção de Lutuneus. Eram as informações do rodapé.

— A poção de Lutunes, foi criada por Jacob Lutuneus. Ele descobriu que a partir da combinação de ingredientes mundanos e um fungo, em especial, o qual brota no lado Oeste dos Vales Elementares, ele conseguiria manipular seu inimigo. – Evelyn explicava, enquanto listava os materiais necessários no quadro negro. – O fungo, popularmente conhecido por alymn, afeta uma parte do nosso cérebro, responsável pelo medo e pela coragem, chamada de córtex cingulado anterior subgenual. – Ela escreveu sua sigla no quadro. SgACC.— No mundo normal, também há substâncias capazes de criar alucinações poderosas dessa maneira, mas o fungo em questão, por seu potencial milenar e mágico, tem suas especiarias, aumentando a porcentagem de medo a um nível extremo, e juntamente, causa alucinações, transformando a pessoa ou animal a sua frente, em seu pior pesadelo. E o problema é que pode surtir efeito até mesmo inalado, variando sua proporção de efeito e quantidade inalada.

Evelyn então andou até o carrinho estacionado ao lado de sua mesa. – Aqui eu tenho a poção já feita. – Ela então ergueu um frasco esverdeado, velado. – Seu trabalho é recriar a receita e eu sortearei alunos na próxima aula para que vejamos se foram eficientes. – Ela os direcionou um sorriso intrigado. – Mas neste momento, um desses papéis vai nos apresentar o aluno corajoso que virá à frente da sala para testar a poção que eu preparei.

Haviam diversos pedaços de uma folha espalhado sobre sua mesa. Ela passou a mão desocupada pelos papéis, e quando levantou, seu indicador, junto a ele, levitava um dos pedaços, com o nome virado para a sala.

Igor Lacour.

Alex não tinha nem ao menos notado que ele estava na sala também.

Ele se levantou com tranquilidade e foi à frente da sala, como se houvesse nada a temer. Evelyn destampou o franco em suas mãos e o esticou para Igor.

— Eu vou guia-lo com minha voz. – Ela orientou antes de soltar o frasco. – Lembre-se que é apenas a realidade sendo alterada. Truques de sua própria mente.

Olhando de maneira rápida pela sala, ela retirou outro nome. – Emily Baker. — Ela chamou.

Uma garota, sentada logo na primeira cadeira se levantou. Ela tinha cabelos na altura do ombro, ondulados e castanhos escuros, com olhos verdes. Era morena e alta. Parecia desconfortável com a chamada.

— Seu papel, é atacar Igor, assim que a poção surtir efeito. – Evelyn se colocou entre os dois, e com um aceno, ela indicou para que Igor bebesse o conteúdo do frasco.

Ele o fez, com um único gole. O gosto era horrível e ele sentiu no exato instante um gosto metálico em sua boca, conforme o líquido descia por sua garganta. A sala logo começou a girar, e os olhares de espanto e curiosidade, alternados, entre os alunos em sua direção o confundiam mais, sobre o que se passava diante de seus olhos.

Suor começou a escorrer por seu pescoço e costas. Podia sentir suas mãos tremendo.

— Igor. – Evelyn chamou com uma voz baixa. – Você ficará bem. Concentre-se no que é real. Tente diferenciar. Há sempre uma falha.

Com um empurrão, a professora fez Emily se mover em direção a Igor.

Em um movimento ela sacou seu angape, e ele há viu. Em um primeiro momento, era apenas uma de suas colegas de classe indo em sua direção de uma forma desajeitada, mas em milésimos de segundos, começou a se transformar em uma hidra. Cinco cabeças. Garras enormes nas patas. Uma imensa calda. E ele se sentiu encurralado.

— Avance, Emily. – Evelyn encorajou.

A garota pulou em sua direção, e Igor se esquivou rápido, mas havia pânico em seus olhos conforme olhava para os demais esperando ajuda. Suas pupilas estavam muito dilatadas, mas Emily o atacou com a ponta de seu angape novamente. Igor se defendeu com seu próprio. Ele tentou mirar em uma das cabeças da hidra a sua frente, mas a mesma desviou e o derrubou com a calda, que seria a perna de Emily.

Ele respirava ofegante, quando correu para o canto da sala, tentando pensar, mas o medo falava mais alto, como se bloqueasse seu raciocínio.

Em um ato de desespero, ele gritou e correu com seu angape em punho. Ele mirava na cabeça do meio, a mesma que estava se preparando para soprar-lhe fogo. E ela soltou. Seu angape caiu, e ele se jogou contra o chão, com um grito, ele tentou pegar seu angape, e assim que o fez, Evelyn se interpôs. Uma força jogou Emily contra a parede, e essa visão confundiu Igor, ambos não tinham poder sobre o outro.

— Igor. – Ela gritou e foi o suficiente para que ele desacelerasse, caindo no chão.

Evelyn posicionou dois dedos em sua testa, e proferiu sua mágica. Foi evidente a mudança em seus olhos. No lugar de medo, havia cansaço e confusão, e a partir do momento que olhou para sua turma, houve vergonha também. A sala voltava ao normal, deixando de ter a aparência cavernosa que jurava ter visto antes, juntamente com a hidra.

Dylan estava admirado com a cena que acabara de presenciar. Andrew estava curioso com o que Igor acreditava estar lutando. Alex, por sua vez, sentia um nó na garganta, imaginando o que ela teria visto à sua frente.

— Igor. – Alex chamou conforme todos saiam da sala.

Meio desorientado ele desacelerou, depois de passar pela porta. – Oi. – Ele sorriu, fracamente.

Ela ia falar sobre o que tinha acabado de acontecer na sala, mas perguntar se ele estava bem era uma pergunta estúpida. Mesmo não conversando sobre aquilo, havia mais sobre o que falar. – Katharine disse que você guardou meu angape.

Ele pareceu se lembrar, e concordou com um aceno, de maneira desajeitada, conforme tentava endireitar-se. – Guardei. Está no meu quarto. – Ele indicou o corredor, e Alex o seguiu.

Mais para trás, Andrew e Dylan observavam os dois, e quando eles começaram a seguir pelo corredor, os dois foram logo atrás, mas não demorou muito para que Alex sentisse sua presença, e com apenas um olhar por sobre o ombro, eles sabiam que era melhor mudar o percurso.

— Acho eu que você já tem com o que se preocupar. – Dylan caçoou, ao cruzar os braços e se recostar na parede para fazer graça.

Andrew tentou acerta-lo, mas ele desviou e seguiu pelas escadas, rindo do irmão preocupado, que estava deixando para trás.

— Eu me preocuparia. – Uma voz feminina atrás dele disse.

Ele se virou, com estranheza no olhar, para descobrir quem havia falado. Emily.

— Por que? – Andrew questionou, aproximando-se.

Esse simples ato, pareceu intimidar Emily um pouco, mas ela disfarçou. – Igor não tem uma fama muito boa por aqui. – Ela explicou. — Ele já está aqui a um tempo, mas pelo o que me contaram, ninguém gosta muito dele. – Com um simples dar de ombros, ela se afastou, deixando Andrew desconfiado.

Já no corredor, Igor abriu a porta e deu espaço para que Alex entrasse primeiro.

— Eu só preciso me lembrar onde eu deixei. – Ele comentou, deixando seus livros em cima da cama.

O quarto era quase igual ao seu, desconsiderando a bagunça característica de quem já morava ali a anos.

De forma desajeitada Alex se sentou na borda da cama, enquanto Igor remexia na gaveta da escrivaninha, de maneira rápida. Ele sabia onde procurar, e estava com o angape em mãos, mas antes de retira-lo por completo da gaveta, ele sussurrou um feitiço, e a proteção ao redor do angape se desfez.

— Achei. – Ele entregou a ela, mas não antes que ela saísse, ele continuou a falar. – Como você está? – Ela pareceu confusa com a pergunta. – Pelo o que aconteceu no outro dia, eu quero dizer.

— Bem. Eu acho.

— Para mim, você não parece muito convencida disso. – Ele brincou, sentando-se ao seu lado na cama.

— É uma sensação estranha. O veneno. Consigo senti-lo indo embora. Todos me olhando como se eu fosse me transformar a qualquer momento ou coisa assim. Ou ainda a morte de Elliot. – Ela não conseguiu disfarçar a culpa.

— Não foi culpa sua...

— Eu sei. – Ela o cortou. – Já me falaram isso, mas ainda me sinto responsável. O lado bom, é que todos me disseram que o desconforto é normal e que vou ficar bem. Então...

Eles não conversaram sobre muito mais, mas do lado de fora, Katharine gravava em sua mente, cada parte daquela conversa, incluindo o feitiço de retenção que Igor usara para que o angape de Alexandra, não retornasse direto para ela.

Ela não pôde evitar que aquele sorriso viesse.

Nos Lugares Salvos, a tarefa dos jogadores do desafio, era seguir as instruções das dríades e ninfas, para que as coisas para o banquete fossem organizadas. Havia um pouco de lixo espalhado e além disso, muitas das coisas no bosque, lago e outras regiões haviam sido deixadas de qualquer modo, em meio as lutas.

Izzie recolhia latas, armas e até alguns papéis que torcedores e outros jogadores haviam largado à beira do lago. E de vez em quando, lançava olhares curiosos para a casa abandonada, depois do píer, o que a deixava distraída, logo, um alvo fácil para as gozações das outras impuras.

Cassandra e duas de suas amigas passaram por Isabel, sussurrando e rindo em sua direção, e isso fez com que ela chegasse ao seu limite. – Muito maduro. – Ela gritou na direção das garotas. – Eu não entendo qual é o ponto, em toda essa divisão, vocês não são melhores do que ninguém. Estamos todos presos aqui, com mais de um maldito signo e com nenhuma família. – Ela jogou o que tinha em mãos no chão e continuou gritando. As garotas, mais do que depressa começaram a se afastar. – Então, por favor, alguém me explique, como diabos eles podem dizer que são melhores? – Ela gritava para ninguém em específico aquele ponto, mas a sensação de simplesmente berrar para os céus era boa.

— Você não devia gritar tanto. – Violet se ergueu de entro da água. Ela não estava tão distante da borda, para que seu corpo estivesse submerso. – Eles nunca vão entender. Especialmente elas.

Izzie se sentou na borda, com os pés dentro da água. — O que elas têm para serem tão superiores? – Perguntou.

— Influencia desde que nasceram. – Ela respondeu de prontidão. – Todas tinham pais importantes ou coisa do tipo. Acabar aqui foi um choque de realidade, mas elas não deixariam o poder de lado. Então, desde que chegaram elas se auto denominaram a elite dos Lugares Salvos e pisam em quem deixar.

Izzie concordou com a cabeça, analisando-as ao se distanciarem cada vez mais. Foi quando se deu conta de algo. – Por que você estava debaixo d’água?

— Estava mapeando a formação das algas Polini. Elas não deveriam estar tão próximas dessa região. O que aconteceu com Peter, seu irmão e você, não fazia parte do jogo. – Ela explicou. — Mas com toda a movimentação dos limites do lago, elas devem ter se deslocado também.

— Movimentação dos limites do lago?

— O lago dos Lugares Salvos foi criado por Poseidon, como sua própria contribuição para a formação, como foi solicitado por Zeus. Como um bônus, ele fez algo diferente dos lagos, mares ou oceanos que conhecemos. O lago não tem limites estabelecidos. Não sabemos onde termina, ou se termina de fato, e nem Camille e nem nenhum outro líder permitiu que alguém seguisse a corrente além do horizonte. – Violet explicou, saindo da água. – E além disso, o fundo vai se movimentando de acordo com o que nós acreditamos ser o humor do deus das águas.

— Por isso você estava no fundo agora.

— Exato.

— Isso fica cada vez mais estranho. – Izzie disse, deitando-se no chão de grama. Violet apenas riu, com a reação.

Ao longe, um homem com capuz preto as observava conversando. Sua atenção, fixa em Isabel, e com mais dificuldade, podia observar Matthew arrastando uma grande mesa, junto com outros impuros, de dentro do refeitório.

Ele sabia que deveria reportar tudo o que visse, mas em seu íntimo, estava esperando que mais problemas seguissem os impuros Daddrien, não haveria como saber suas habilidades com simples desafios.

Ele teria que resolver aquilo da maneira antiga.

Notas finais
** Olar pra quem lê!! Tudo bom com vocês?? Espero que estejam gostando da história!! Se sim, deem uma comentada, curtida, sinal de fumaça kkkkk qualquer coisa, ajudaria muito!! Beijos no core dos leitores desse mundo**