SOMBRAS - A Armadilha da Rainha
17 Capítulo 15 - O primeiro ataque
— Como nós podemos aprender tudo isso em semanas, quando os outros levaram anos? – Andrew reclamou, ao se afundar na cadeira ao lado de Alex.
— Tempos desesperados pedem medidas desesperadas. – Ela respondeu, sem nem ao menos erguer os olhos de seu livro.
A sala de estudos não era nada mais do que uma velha e pequena biblioteca. Uma sala de aproximadamente nove metros quadrados.
Logo que entraram, o ar condensado e a grande quantidade de poeira os receberam. Dentro do local, os dois se depararam com uma grande estante, ocupando toda a parede, do chão ao teto, bem na direção da porta. No centro havia uma mesa comprida. Do lado da porta, encontravam-se outras duas menores, assim como mais uma ao fundo, à direita. Na parede à esquerda da porta, estavam algumas palavras talhadas, as quais Andrew identificou como sendo gregas, semelhante a outras escrituras do lugar.
Para a iluminação, eles dispunham de uma única lâmpada, pendurada no meio da sala, com uma luminosidade pouco significativa, e algumas poucas velas, em um suporte logo abaixo das inscrições, ainda apagadas. As poucas e minúsculas janelas, próximas do teto, estavam travadas, e cheias de poeira. Nenhum deles se atreveu a empurrá-las.
Por mais que Andrew quisesse se concentrar, ele não conseguia. Seu interesse pelo livro designado a ele, sobre a Floresta Noturna, suas estações, e sua Vorax nocte *, era nulo.
— Se você olhar para o lado mais uma vez eu juro que vou fazer você engolir esse maldito livro. – Alex ameaçou repentinamente.
— Sinto muito, se não estou à vontade nessa sala abandonada. – Andrew retrucou, sendo mais dramático do que de costume.
* “Noite voraz” em latim.
— Como se eu estivesse. – Ela ironizou. – Mas depois do que eu presenciei nesses últimos dias, estou mais do que pronta para aprender o máximo de coisas que eu puder. – Ela voltou sua atenção para o livro novamente. – E isso começa por aqui.
Andrew se voltou para frente, tentando não mostrar sua irritação. Uma parte sua sempre odiaria quando Alex estivesse certa, o que acontecia com frequência.
Alex acariciou o braço do irmão, por um breve momento, lançando lhe um olhar terno. – Agora, é uma questão de sobrevivência. Eu acho. – Brincou.
Subitamente a porta se abriu e Katrina adentrou a sala. Ela vestia uma calça de cintura alta, branca, com uma camiseta de manga comprida rose, um pouco translucida, permitindo a visão de um top branco por de baixo da mesma. O que se diferenciava de todo o uniforme escuro e cinza dos demais.
Ela puxava as mangas, enquanto olhava para os dois. Mesmo eles sendo os novatos que precisavam de orientações, era ela quem aparentava estar nervosa. — Preston disse que eu os encontraria aqui. – Começou timidamente. – Eu serei a professora de grego e latim de vocês. – Ela lhes lançou um sorriso forçado, mas afetuoso. – Mas não aqui. – Completou rapidamente. — Eu odeio essa sala. – Ela olhou enjoada para as paredes ao seu redor.
Primeiro, ela arrancou uma risada de Andrew, com seu inocente comentário. Aquela reação deixou Alex surpresa, quase espantada. Foi uma risada verdadeira, espontânea e que conseguiu fazer com que ela risse em seguida.
Era um sentimento mutuo. Ódio pela sala.
Katrina se sentiu mais à vontade, mas o som da risada de Andrew e seu sorriso fizeram seu coração acelerar brevemente. Ela agradeceu, silenciosamente, aos deuses, pela baixa luminosidade da sala, já que àquela altura ela estava quente, o que significava que também estava corada.
Aquilo não podia estar acontecendo. Ela pensou num lampejo. Não poderia se envolver com um aliado. Não de novo.
— Para onde vamos então? – Alex perguntou, trazendo Katrina de volta de seus devaneios.
— Uma sala no terceiro andar desse mesmo prédio. – Ela respondeu, com o início de um sorriso nos lábios, depois de limpar a garganta, constrangida.
Rapidamente, os dois fecharam seus livros, deixando-os no mesmíssimo lugar. Teriam que terminá-los em algum momento, mas naquele instante, seguiram Katrina porta afora. — O horário de vocês pode demorar algum tempo para ser definido. Por enquanto, farão aulas aqui ou ali. – Ela completou.
As longas escadas que se seguiram, deixaram Alex e Andrew com a respiração pesada e ofegante.
— Já estou acostumada. – Katrina esclareceu, enquanto, eles recuperavam o folego. Os irmãos olhavam para ela com curiosidade, por sua aparência inabalável, mesmo depois de toda aquela subida.
Eles concordaram e ficaram surpresos ao ver que havia um elevador, bem de frente para as escadas. O qual poderiam ter pego. Katrina não comentou nada e ambos decidiram que seria melhor não o fazer também.
Indo direto para o final do corredor, eles entraram em uma sala de tamanho mediano. Com uma porta azul marinho, onde havia um símbolo que os lembrava ao dos Representantes, mas junto com as hastes erguidas para cima, outras duas desciam conectadas, formando um ‘X’ no centro, bastante chamativo.
— Essas são as salas de Inibições. – Ela explicou, fechando a porta. Quando a madeira entrou em contato com os batentes, uma luz passou ao redor de toda a porta, selando-a, e causando espanto em Andrew e Alex. – Os próprios Representantes criaram o poder da sira e talharam-na nas portas de todo o andar, com seus angapes.
— Eles também têm angapes? – Alex perguntou, puxando uma das cadeiras de canto, para se sentar.
— Mas é claro. – Katrina ficou um tanto surpresa com a pergunta. – Os deles, no entanto, são bem mais poderosos. Foram forjados no fogo do Monte Olimpo com os poderes de Hefesto. – Ela pegou de uma cômoda uma pilha de livros, indo em direção a uma das mesas, mais distante da porta. – Só que eles possuem apenas um. Possui uma única cor, a própria sira e a marca de seu deus regente.
— Para que serve essa sira? – Andrew questionou, olhando curioso na direção da porta.
— Foi criada durante a Ação. – Ela explicou, pondo-se de pé novamente. – A reunião entre os deuses e os representantes, que sucedeu o Dia da Possessão. – Andrew tentou disfarçar seu desentendimento, mas não foi bem sucedido, e por isso, Katrina explicou com mais detalhes.
O Dia da Possessão foi o dia em que as criaturas da noite e Serpentário foram banidas para a Floresta Noturna, que, por sua vez, ganhou o nome após esse acontecimento.
A Ação é como uma assembleia. E nessa em específico, os deuses exigiram uma reorganização de tudo ligado aos representantes. Já que a Revolução aconteceu bem debaixo de seu cuidado e vigia. Como Osgs se matou, antes de sua condenação e julgamento, por ainda ter acesso a todos os seus poderes, os representantes criaram uma sira onde os poderes de qualquer aliado podem ser anulados, por um período de tempo indeterminado.
— Mas porque colocar isso nessas salas? – Alex perguntou.
— Para os estudos primordiais. – Katrina se voltou para ela. – Já que temos de ensiná-los a ler invocações, profecias e outras coisas de estudos iniciais, a sira impede que seus poderes se manifestem ou então que suas palavras tenham efeito.
Os dois assentiram.
Foi só então que Andrew efetivamente olhou para a sala. Quatro mesas dispostas de modo não simétrico. Paredes de um azul celeste apagado. Um quadro negro bem a sua frente. Entretanto, o que mais chamou sua atenção, foi a grande janela a esquerda. Seu começo se dava no meio de sua coxa, e continuava até quase atingir o teto. Proporcionava iluminação para toda a sala.
A cada quarenta centímetros de vidro, havia uma janela que se abria, deixando que o ar puro, invadisse o ambiente. Eram quatro janelas abertas no total. Do lado de fora havia um parapeito, não muito largo, que dava a volta no andar, Andrew supôs, já que ele se seguia até onde sua vista alcançava.
De dentro da sala, as pessoas na rua chamavam a atenção de tão monótonas. Era uma aglomeração pequena. Pessoas andavam indo e vindo. Poucos carros circulavam. Andrew os invejou por um segundo. Eles deveriam ter seus problemas, mas eram coisas que não envolviam poderes de seres sobrenaturais alheios a importância de sua vida. Seus pensamentos viajaram até em casa, onde estavam sua mãe e seu pai. Até os Lugares Salvos com Matt e Izzie.
Ele queria evitar o nó em sua garganta, mas não conseguiu. Alex o observava e não conseguia se lembrar da última vez em que vira o irmão abalado de verdade por tanto tempo antes destes dias. Ela só conseguia pensar em andar até ele e o abraçar. Mas não o fez, porque sabia que isso o deixaria embaraçado e impotente. E deixá-lo daquela maneira não ajudaria coisa alguma.
— Eles não podem nos ver. – Katrina comentou, com a voz baixa, aproximando-se devagar por trás de Andrew.
— Por causa da Sombra... – Ele completou, em um murmúrio, mais para si mesmo do que para Katrina. Havia, inclusive, uma ponta de ironia em seu tom de voz.
Sem mais reações, Katrina teve que tirá-lo de sua melancolia. – Vamos. – Chamou, colocando uma das mãos em seu ombro. No entanto, uma lufada de vento veio, junto com o leve frio na barriga e um arrepio na espinha, subindo até o pescoço, que fez com que ela subitamente retraísse a mão.
Ele pareceu não notar, o que alegrou Katrina, um pouco. Mas ao se virar, Alex analisava a cena, recostada na cadeira. Seu rosto não tinha uma expressão decifrável. Katrina tentou disfarçar e pedia aos deuses para que Alexandra se esquecesse do que vira.
Os três se reuniram na mesa em que Katrina havia depositado seus livros. Eles tinham capa dura e sua coloração variava desde marrom até preto. Era evidente a antiguidade do material em suas mãos. As páginas eram amareladas e tinham marcas na maioria das bordas. As mãos de Katrina viravam as páginas com habilidade e cuidado. Havia apenas um livro novo, efetivamente.
— Eu adoraria começar pelo básico, mas o que vocês mais precisarão no momento será ler e entender profecias e encantamentos antigos. – Ela começou orientando-os.
Dylan chegou à conclusão que ser um sub aliado seria muito entediante. E isso em apenas meio dia naquele lugar.
Katharine era a responsável por ele naquele dia e ela não parecia estar nem um pouco satisfeita com o fato. Não era apenas ele quem achava que seu cargo era irrelevante, comparado com toda a agitação ao seu redor.
Um sub aliado, tinha como função, pelo o que foi instruído, auxiliar apenas na Casa Marcada. Ou seja, ele não sairia em missões, não deveria treinar para lutar contra monstros e proteger vidas. O máximo que participaria eram as aulas de condicionamento físico, porque de acordo com suas instruções, uma ameaça pode entrar a qualquer momento pelas portas da Casa.
Sua função era organizar livros e relíquias, aprender a como orientar e auxiliar aliados no centro de informações, em cada uma das missões. Cada um dos casos suspeitos deveria ser passado para os aliados.
Seu dia tinha começado as oito da manhã, com um alarme ensurdecedor em seu quarto, que não desligou até que ele estivesse fora da cama, caído no chão. Sua cabeça ainda doía por conta do volume. E as reclamações constantes de Katharine de como ele não estava preparado para isso e para aquilo, não estavam ajudando em nada.
— Hora dos primeiros socorros. – Ela disse, puxando-o pela mão. Enquanto fechava o livro que ele estava lendo com a outra.
— Achei que eu tivesse que estudar sobre meu novo mundo. – Ele ironizou, ao ser arrastado porta afora de seu quarto.
— Você tem. Mas considere isso uma tarefa de casa. – Katharine sorriu, pela primeira vez desde que o dia tinha começado.
Dylan corou momentaneamente com o contato de suas mãos e o sorriso destinado para si. Normalmente as atenções de tais garotas ficavam focadas em seus irmãos.
Os dois saíram do prédio dos dormitórios, indo em direção ao meio do campus, para a enfermaria.
Ela era uma estrutura longa de mármore branco por fora. Tinha alguns desenhos decorativos ornamentados do lado de fora, juntamente com a inscrição de ‘enfermaria’.
Logo que entraram, os dois foram recebidos por uma mulher de meia idade. Com olhos cansados demonstrando a quantidade de noites de sono perdidas. O que comprovava a ideia de Dylan sobre aquele lugar ter realmente dias agitados e perigosos.
O lugar em que estavam tinha macas espalhadas, Dylan contou quatorze macas, com cortinas para fornecer privacidade. Ao fundo, uma porta de madeira, estava entreaberta. E foi exatamente para lá que a senhora os conduziu.
— Meu nome é Levinae Booney. – Ela se apresentou, de costas para Dylan, enquanto os três andavam. – Sou a Enfermeira chefe da Casa Marcada. Consegui esse posto a cento e oitenta e quatro anos atrás, quando tinha completado dezenove anos e pude ajudar a curar Apolo, em uma complicação.
— Apolo? – Dylan questionou, mesmo que a mulher a sua frente tivesse acabado de afirmar que tinha mais de duzentos anos. – Como em o deus Apolo?
A senhora lançou lhe um sorriso caloroso. – Sim, meu filho. O deus Apolo. Eles também precisam de nós.
Já dentro da sala. Katharine perdeu novamente seu interesse, indo em direção a janela voltada para o campus, que dava uma boa visão de alguns garotos lutando, no que Dylan deduziu ser seu tempo livre. Suas constantes oscilações de humor o deixavam curioso. Seu interesse era obviamente em assistir aos garotos sem camisa treinando, com seus respectivos angapes.
— Pode sentar, meu filho. – A senhora disse, indicando uma cadeira de frente para a mesa.
A sala era bem iluminada, exatamente como um consultório deveria ser, mas havia um pequeno alçapão ao lado direito da sala. A cadeira em que estava sentado, estava bem no meio da sala, de frente para uma mesa de madeira antiga e outra cadeira, onde a senhora Levinae encontrava-se sentada. Um pouco mais a direita, próximo ao alçapão no chão e uma porta na parede, havia uma cômoda. Ao lado, havia a janela, onde Katharine estava apoiada no parapeito, ao lado de pequenos vasos de flores. A sua esquerda, apenas a parede branca.
Dylan achou muito cedo para suas perguntas sobre o alçapão, então apenas esperou pelas instruções que sabia estavam por vir.
No entanto elas não vieram. A senhora Levinae apenas ficou olhando para ele, fixamente. Até que chegou o momento em que ele não sabia mais para onde olhar, onde colocar as mãos, ou conseguir parar de batucar os dedos, enquanto mexia constantemente a perna.
— Ela quer saber sua história. – Katharine explicou impaciente, voltando-se para ele. Era quase como se sua situação a estivesse divertindo. – Está tentando enxergar sua aura.
Ele se sentiu mais envergonhado com isso. — E-eu não t-tenho muita história. – Ele gaguejou. – Sou o irmão caçula de cinco irmãos. Dois deles são aliados e os outros são impuros. – Ainda era estranho utilizar aqueles rótulos. — Eu como o mais azarado sou apenas um sub.
— Não, criança. – Ela repreendeu subitamente. – Nunca diga isso. Todos temos nossa importância. Só porque você não sairá como protetor dos sangue-normais e semideuses não significa que nunca fará coisas grandiosas. – Ela tinha um brilho nos olhos enquanto falava. Sempre com um sorriso no rosto. – Todos temos poderes escondidos em nosso interior.
Dylan olhou para Katharine, procurando por ajuda, mas ela apenas revirou os olhos e se voltou para a cena do lado de fora da sala, com um sorriso debochado.
— Eu, por exemplo. Não sou uma aliada.
Naquele momento o interesse de Dylan foi aguçado. Ela era como ele?
— Eu sou uma curandeira que fez algo importante.
Certo. Agora, a idade fez sentido. Ele pensou.
— Mas vamos ao que interessa. Katharine? – Ela chamou, quase cantarolando. – O que ele sabe?
Katharine se aproximou da senhora, sussurrando algo em seu ouvido. Por um momento os olhos dela, assim como o sorriso, vacilaram, conforme olhava para Dylan e ouvia o que a aprendiz tinha a dizer.
— Então é você. – Ela disse atônita. – São vocês.
Dylan se sentiu perdido, mais do que já estava nos dois últimos dias. Por um momento aquela conversa parecia ter perdido o fio da meada que lhe restava.
— Ele precisa aprender os códigos de emergência. – Katharine irrompeu na conversa. Trazendo-a de volta ao foco inicial. – E precisa de estágios, para poder se especializar em algo quando completar dezoito anos.
— Eu vou me especializar? – Ele perguntou, desviando o olhar da senhora que ainda o olhava perplexa.
— Sim. E quando tiver dezenove pode escolher se vai continuar por aqui ou “viver uma vida normal num mundo normal”. – Ela completou, com um sorriso forçado no rosto ao se referir a vida normal. Dylan notou que o desgosto pelo ‘normal’ era real.
Como se voltasse a realidade novamente, Levinae concordou com um aceno de cabeça e recolocou seu sorriso inicial. – Então vamos começar. Seus estágios comigo serão todas as segundas e sextas, meio período para poder fazer seus outros cursos. – Ela levantou, dando a volta em sua mesa e parando de frente para a parede lisa.
Dylan não sabia exatamente o que esperar, mas com toda certeza não era o que veio em seguida.
Com um estralar de dedos, onde antes era apenas uma parede, quatro estantes de livros surgiram, mantendo-se duas de cada lado, em uma parte da sala que não estava ali antes.
As prateleiras estavam aglomeradas com livros de todos os tamanhos e cores. E por lógica, Dylan acreditava que de todos os conteúdos e línguas também.
Levinae passou curiosa por entre os livros, procurando por exemplares em específico. Ela puxou quatro, um de cada estante, e voltou até a mesa. Apoiando o material em frente ao garoto.
Estralando novamente seus dedos, a estante sumiu, deixando apenas uma parede vazia no lugar.
Àquela altura, seu olhar de surpresa já estava ficando mais sutil, então sua atenção estava voltada para os livros a sua frente. Para sua surpresa um deles não era antigo. Mas sim, quase novo.
— Este é o livro dos códigos de emergência da Casa. Leia-o e memorize, será de muita importância. – Ela advertiu séria. – Os demais são sobre os cuidados, métodos, plantas e venenos que você pode vir a precisar.
Dylan acenou, concordando com as instruções.
— Então vejo você na sexta. – Ela se despediu, enquanto Katharine mais do que depressa abriu a porta, esperando apenas que Dylan passasse. Seus braços já estavam doendo de tanto que transportara livros em um único dia.
Enquanto atravessavam a enfermaria, um grupo de garotos e garotas chegou afobado, gritando e chamando por ajuda. Dylan se atrapalhou com os livros, ao se assustar com a gritaria. Ele caiu contra o chão e seus livros se espalharam.
— Droga. – Ele praguejou. Odiava ser tão desastrado.
As portas da enfermaria foram escancaradas.
— O que vocês querem? – Katharine vociferou. Enquanto se abaixava para recolher os livros perto de seus pés.
— Chame Levinae. – O primeiro garoto disse sério. Ele estava suando, sua camiseta preta estava grudando ao corpo, e sua calça de moletom cinza não parecia ajudar com o calor. Ele era asiático, com olhos castanhos e um cabelo escuro raspado em estilo militar. – Vamos precisar dela na porta principal.
Era evidente a preocupação que tomou o rosto da aprendiz ao seu lado. Enquanto ela corria em direção a sala da enfermeira chefe, Dylan se colocou de pé, depois de terminar de juntar seu material.
Ele podia sentir os olhares dos outros sobre ele, ao esperarem.
Levinae chegou até eles correndo. – Filho, talvez você tenha que aprender fazendo. – Ela disse, puxando-o pela mão porta a fora. Seus livros ficaram espalhados pelo chão mais uma vez, com o detalhe de que daquela vez, foram deixados para trás.
Eles todos começaram a correr, de volta para o Centro de Formações, sendo guiados pelos outros.
Subitamente Katharine caiu de joelhos, os olhos perdidos, totalmente brancos. Sem definição de ires, sem pupila, sem nada, como se sem aviso prévio ela ficasse cega por completo. Quando na verdade, Katharine estava tendo sua metade da visão:
Tudo estava muito rápido, um garoto estava sendo perseguido por criaturas muito ágeis. A pérola ateniense estava em sua mão. Uma expressão de pânico.
Depois, subitamente a face de Hades a encheu de terror. Ele estava em fúria.
Dylan parou para ajudá-la, mas fez sinal para que os demais continuassem.
Ela parecia abalada aos olhos dele. Como se a vida se esvaísse perante seus olhos. Ela parecia mais pálida, envelhecida. Mas isso tudo mudou de um segundo para o outro. Seu olho bom voltou a sua cor natural e ela buscou por ar em uma lufada profunda. Sua visão tinha chegado ao fim. Katharine se apoiou em Dylan para que não caísse. Por mais antipática que ela tivesse sido com ele, estava preocupado.
— O que aconteceu? – Ele quis saber.
— Não pode ser. – Ela murmurou, para si mesma.
Sem mais explicações ela se colocou de pé e começou a correr em direção ao centro novamente, mais rápido do que antes. Antes que Dylan tornasse a perguntar qualquer coisa ela o repreendeu. – Só... fique quieto.
Ao chegarem as portas principais, as mesmas que Dylan sabia ter contato com a rua e os sangue-normais, três pessoas a cruzaram. Todas sujas de sangue. O estômago de Dylan se embaralhou e depois afundou. Logo, a náusea o atingiu. Um deles, estava com uma faca, perfurando seu abdômen.
— O que aconteceu? – Dylan ouviu alguém perguntando, mais à frente.
— Os Stringlas querem algo que ele pegou. – Um deles respondeu e foi evidente o esforço para juntar tais palavras. –Mataram um casal enquanto perseguiam o semideus.
Algumas pessoas se aglomeraram na entrada. Um homem, do lado de fora, gritava a plenos pulmões, chamando por alguém.
— Isso não é possível, está em pleno meio dia. – Era evidente o quão inconformada e perturbada ela estava com a cena diante de seus olhos. – Não tem como. – Ela buscava por apoio nas pessoas ao seu redor, mas ninguém aparentava ter uma resposta.
Levinae correu direto para o aliado caído no chão, coberto de sangue. Ele estava apenas inconsciente, ou era o que todos esperavam.
No meio da confusão, Dylan avistou Alex e Andrew, tão perdidos quanto ele. Eles mantinham suas atenções nos três caídos no chão e principalmente no que estava com a faca cravada em sua barriga, murmurando algo.
O mesmo faziam os demais. Não havia muito mais gente na central. Além dos três Daddrien, das gêmeas e Levinae, havia o pequeno grupo de quatro garotos que antes estavam do lado de fora treinando, outras seis garotas e três garotos, incluindo o asiático que correra ao seu encontro. Dezenove pessoas no total.
Finalmente a fixa caiu, e Dylan entendeu que o garoto com a faca, era o semideus a qual o aliado se referiu. Ele era mais novo do que Dylan, deveria ter uns treze anos, o que deixou aquela cena ainda mais estranha.
Katharine abriu passagem até chegar a ele, empurrando os demais bruscamente, juntamente com Katrina. Os outros que também tentavam se aproximar, xingaram e reclamaram conforme elas abriram passagem. Com cada uma de um lado, ele puxou Katharine para mais perto.
Seus olhos se estreitaram, enquanto o semideus sussurrava em seu ouvido. Até que uma sombra de horror cobriu seu olhar.
— Chamem Hérnia. – Ela ordenou. – Agora. – Gritou, quando ninguém se moveu. Duas garotas correram na direção do escritório dos diretores, esbarrando nos demais.
Sobrando dezessete pessoas na sala.
— O que fazemos em relação a ele? – O mesmo garoto que havia sido mandado para chama-los, perguntou. Indicando as grandes portas do Centro.
Tudo o que Dylan conseguia pensar era em olha-lo mais de perto. Entender o que tudo aquilo significava. Sua mente girava como engrenagens, mas ainda havia muitas peças faltando para que ele pudesse formular uma explicação plausível.
Katrina olhou fixamente para sua irmã e ela assentiu. – Formem um grupo de quatro. – Ordenou, pondo-se de pé. – Tentem atrai-lo para a porta das missões. Não podemos matá-lo no meio da rua. Para os demais, ele é só mais um louco gritando para um prédio abandonado. A última coisa que queremos é a polícia aqui.
O loiro assentiu. Ele estava parado ao lado do asiático, quando foram chamar os demais. Vestia as mesmas roupas, mas sua camiseta era uma regata branca. Tinha o cabelo cortado no mesmo estilo militar e olhos verdes.
Ele fez sinal para três pessoas no meio daquela multidão, para que o seguissem.
— Igor. – Katrina chamou. – Tenha cuidado. — Ele lhe lançou uma piscadela, logo depois de concordar com a cabeça, seguindo seu caminho inicial.
Dylan aproveitou que não estava sendo monitorado e seguiu o pequeno grupo, disfarçadamente.
Eles correram até o lado de fora do prédio, virando rapidamente à esquerda, fazendo o contorno na construção, até chegar próximo do final. Foi quando Dylan conseguiu ver, lá havia uma espécie de celeiro.
— Por que não fomos direto para o depósito lá dentro. – Uma garota questionou, enquanto recolhia, Dylan supôs, armas.
De onde estava, para não ser visto, ele mesmo não conseguia acompanhar o que acontecia dentro do estabelecimento.
— Aquelas são armas para emergência. – Igor explicou, já saindo. – E acho que não sou o único que sabe que aquele cara não vai embora tão cedo.
Eles correram de volta para dentro. Dylan esperou alguns segundos e os seguiu.
— O que acha que o garoto pegou? – A mesma garota perguntou.
— Não tenho ideia. – Outro garoto respondeu. – Mas é importante. Tem que ser.
O tom de voz que o garoto usou, causou uma sensação de desconforto em Dylan, mas ele a ignorou, seguindo caminho, até avistar o aglomerado de pessoas novamente.
— Eu preciso dos meus antídotos. – Levinae reclamou. – Essa faca foi banhada com veneno de vampiro. Pode causar paralisia nos órgãos dele se eu retirá-la e ele não tiver bebido o néctar.
— Ajudem-na. – Katrina disse, afastando-se. Três dos presentes, ergueram o semideus, com cuidado, com a ajuda de Levinae. – Você também. – Ela apontou para Dylan. — Considere sua primeira aventura, sub aliado.
Dylan ficou sem reação. Era evidente a ordem no tom de voz de Katrina, mas ele nunca pensou que ela pudesse ser tão firme e inabalável. Ele olhou desorientado para as pessoas que restavam que, naquele momento, tinham a atenção voltada nele.
— Venha. – Levinae gritou, conforme se afastava com o grupo que carregava seu paciente.
Dylan cambaleou para trás, seguindo-os até a saída do centro.
— O que fazemos? – Alex perguntou, para ninguém em específico.
— Nada. – Katharine se levantou, limpando o sangue de suas mãos na própria calça, como se não fosse nada relevante. – Igor está cuidando disso.
Exatamente um segundo depois, um corpo foi lançado para dentro da sala.
— Igor. – Katrina sussurrou.
A garota que Dylan seguiu até o lado de fora com eles, apareceu correndo.
— Ele não estava sozinho. – Ela disse ofegante.
Antes que qualquer um pudesse perguntar qualquer coisa, quatro vampiros adentraram pelo corredor insignificante.
— Por que os trouxeram para dentro? – Katrina gritou em represália.
O pânico se alastrou. Igor tentava se levantar, mas era jogado repetidas vezes no chão. A garota afobada de antes, defendia dois amigos com uma espada em mãos. Katrina e Katharine foram empurradas para trás das oito pessoas que remanesciam na sala.
Andrew, por sua vez, evitou que sua irmã fosse nocauteada. Ele a jogou para longe, quando o terceiro vampiro tentou avançar sobre ela. Ele, porém, não teve ninguém para defendê-lo. O vampiro era rápido, como o da simulação de antes, mas naquele momento ele tinha a consciência de que poderia realmente acabar morto, sem poder voltar.
Ele tentou socar a criatura duas vezes, mas o mesmo bloqueou sem maiores dificuldades. Era muito mais complicado lutar com toda a pressão de não ser morto. Com um único golpe, ele segurou Andrew pela garganta, erguendo-o a centímetros do chão.
O ar estava sendo bloqueado de seus pulmões. Não conseguia nem ao menos se debater, o aperto estava muito forte. Seus pés tentavam desesperadamente alcançar o chão, mas apenas as pontas de seus sapatos tinham o mínimo de contato.
O alarme de invasão não tinha sido acionado, já que todos que restavam na sala central estavam ocupados demais lutando para salvar a própria pele. Eles tinham apenas a si mesmos para sair de lá. As duas garotas não tinham voltado com Hérnia ainda.
Alex não sabia o que fazer. Podia ver a vida se esvaindo dos olhos de seu irmão. Mesmo que tentasse atacar seu agressor não conseguiria fazer com que ele soltasse a tempo. Mas ela poderia ao menos tentar.
No entanto, antes que atingisse o vampiro, Katrina o fez. Ela tinha duas adagas, em mãos. E de surpresa apunhalou o vampiro nas costas. Foi o suficiente para que ele soltasse Andrew, que caiu no chão buscando ar desesperadamente. Ele tossia e tentava espirar oxigênio, praticamente sem muito sucesso.
Alex correu em sua direção, mais aliviada do que nunca por ver a coloração voltando ao rosto de Andrew.
Katrina continuava em seus ataques contra o inimigo. Ela lutava com destreza e leveza ao mesmo tempo. Era impressionante. No livro que ela folheara mais cedo, havia informações sobre como se derrotar uma criatura da noite. Era necessário se locomover como ela.
Foi aí que Alex teve uma ideia. Algo que ela lera no livro, naquela mesma manhã, na sala esquecida.
Sem esperar mais um segundo, ela correu em direção a saída para o campus. Quase foi atingida três vezes enquanto tentava passar correndo por entre as lutas. E uma delas foi, inclusive, quando Katrina lançou uma de suas adagas para Katharine, que degolou um dos vampiros.
Alex sentiu o vento contra seu rosto e apertou o passo, correndo desesperadamente em direção a enfermaria, onde um pequeno grupo de pessoas auxiliava Levinae. Logo atrás dela, Katharine também corria.
Dylan a viu correndo e gritou que alguma coisa estava errada. Katharine puxou Alex pelo braço, irritada pela corrida. Enquanto Alex respirava ofegante, Katharine ouviu sua ideia e um lampejo de interesse passou por seus olhos.
Ela seguiu eufórica em direção a sala no fundo da enfermaria e voltou com um recipiente, cheio com um líquido lilás.
Alex agradeceu rapidamente e saiu correndo novamente, do mesmo modo que entrou. Katharine por sua vez voltou para a enfermaria. Ela tinha que ter certeza de que o semideus não morreria. Suas habilidades poderiam ser úteis ali. Ela cuidaria de uma crise, enquanto Katrina de outra.
Alex, no entanto, só conseguia torcer para que seu plano improvisado desse certo. Mas antes de chegar a entrada, foi confrontada. Um dos vampiros andou em sua direção, com desdém evidente. Sua velocidade era lenta, como se ele soubesse que ela era a novata. Uma presa fácil. Sem experiência na luta.
Por um breve instante ela reconheceu o vampiro como aquele que até então estava lutando contra Igor. Ela se pegou pensando no que teria acontecido para que o vampiro, naquele momento, estivesse atrás dela. E novamente, ela somente pôde torcer para que não significasse que Igor estava morto.
— Estava indo a algum lugar, querida? – Ele disse rindo, com sangue escorrendo dos lábios. Em seus olhos ela podia ver a insanidade de sua mente.
Alex se manteve quieta. O modo como ele a observava a estava incomodando, assim como o modo como lambia os lábios e passava a língua pelos caninos, demonstrando sua sede por sangue.
Tudo que ela fazia era dar passos minúsculos para trás com o estúpido intuito de tentar se afastar o máximo possível de seu predador. Assim como também manter o vidro de Verbena escondido, atrás das costas.
Ela tentava fazer com que seu cérebro bolasse alguma coisa, para que pudesse usar o líquido que tinha, naquele exato momento. E não poderia acabar com ele, os demais dentro do centro precisariam também.
De dentro da enfermaria, Dylan via através de uma das janelas, sua irmã, estagnada no meio do campus, encarando alguém. Era difícil dizer quem, ainda mais quando tinha quatro pessoas ao seu redor, dando ordens e mais ordens para que não apertasse aqui ou ali.
— Ele não pode morrer. – Katharine afirmou, enquanto se posicionava para retirar a adaga da barriga de um semideus semiacordado.
Enquanto isso, Alex continuava seu confronto silencioso contra seu adversário.
— Isso tudo é medo de mim? – Ele provocou mais uma vez, com uma risada bizarra. – Não se preocupe... Antes de acabar com você, eu te prometo uma experiência inesquecível. – Seu olhar de malicia foi o gatilho que Alex precisava. Um jogo. Aquilo era apenas um jogo para ele. E a melhor maneira de se vencer um jogo, contra um adversário desonesto, era manipulando-o. O que, com homens como aquele, não seria difícil. – Eu sei o que você tem aí atrás. Eu consigo sentir. – Era evidente seu desgosto pelo líquido.
De acordo com o livro, verbena era letal para vampiros, o que fazia com que a determinada distância, eles pudessem senti-la. De acordo com a descrição, era como se o seu efeito venenoso pulsasse por todo o corpo deles.
— Porque não lutamos de maneira justa? – Ele propôs, com um sorriso sedutor, ou pelo menos com esse intuito evidente, nos lábios.
— Tudo bem. – Alex respondeu, pela primeira vez.
Ela se abaixou do modo mais charmoso e delicado que podia imaginar, fazendo o mesmo ao se erguer novamente. Sabia que não podia ganhar dele em uma luta corpo a corpo, mas sentia seu angape vibrando no bolso de trás da calça, como se ele sentisse toda a adrenalina em seu corpo.
Ela não podia se dar ao luxo de pensar em todas as pessoas dentro do centro, tinha que primeiro achar um jeito de sair daquela situação.
O vampiro avançou em sua direção e foi o tempo exato para que ela apenas puxasse seu angape para fora do bolso. Ela o arranhou, no braço, deixando uma marca vermelha no local. Ele praguejou brevemente, mas era evidente o medo e insegurança no rosto de Alex, com sua primeira luta de verdade.
Ele a olhava com desdém e fome. Enquanto isso, mantendo sua atenção ainda nele, Alex tentava seguir as instruções de Preston. Tentava fazer o que tinha conseguido no final de sua simulação. Se ligar ao angape. Ela não sabia como lutar, não com aquela coisa, mas sua arma sabia, era para isso que ela servia, afinal de contas.
Ela imaginou a corrente elétrica passando de seu corpo para o angape e quando o vampiro avançou sobre ela, com uma velocidade sobre humana, ela se desviou, guiada por simples instinto. A surpresa substituiu o medo de antes.
No entanto, lutar apenas com seu instinto não era o suficiente, não demorou mais do que alguns golpes para que ela estivesse com as costas contra o chão. O homem sobre ela, com o rosto a centímetros do seu.
— Posso dizer que eu estou impressionado. – Ele sussurrou, com desdém, em seu ouvido. – Foi mais interessante do que eu esperava. – Ele aproximou mais o rosto do dela, deixando-a enjoada. Sua coragem momentânea estava sendo substituída por desgosto.
Ela tentou soltar os braços ou as pernas, mas ele a segurava com muita força, e com a ação, pressionou ainda mais seus braços contra o chão. Um pequeno grito escapou de sua garganta.
Não tinha mais nada que ela pudesse fazer e era um fim evidente, quando ela viu as presas ficarem nítidas. As palavras de Preston ecoaram em sua cabeça “Quando não se tem uma saída. Acho que o ideal pode realmente ser apenas se entregar e se deixar ser eliminado”. Ela fechou os olhos, temendo o que estava por vir. Ela não queria morrer uma covarde...
Por mais que odiasse admitir, ela torcia para que Andrew aparecesse e a tirasse dali. Que alguém a resgatasse, ou que pelo menos pudesse saber que seu irmão estava vivo. Mas naquele momento, Andrew tentava combater um dos vampiros ao lado de uma garota baixinha, e morena, que embora não aparentasse, estava em situação melhor do que a de sua irmã.
Foi quando, perdida em pensamentos, ela sentiu a mordida. Foi como algo rasgando sua pele e mantendo-a assim. Era possível sentir seu próprio sangue saindo pela abertura. Sua visão ficou turva e seus membros vacilaram sob o corpo de seu agressor. Mas o pior veio quando o veneno penetrou sua corrente sanguínea. Seu corpo todo estava em chamas por dentro. Era possível identificar por onde o veneno já havia se espalhado. Pescoço, braços e descendo. Foi o momento mais desesperador de toda a sua vida.
Depois do que pareceu uma eternidade, a dor passou, e uma sensação de prazer se alastrou. Era calma e reconfortante. Inteira e completa, estase. Era como se ela estivesse adormecendo em pura satisfação.
Um grito ao fundo a impediu de adormecer e subitamente o vampiro, que até a pouco estava sobre ela, estava caído ao seu lado.
Um garoto lutava com ele. Ele não estava machucado, mas Alex não conseguia dizer quem era. Sua visão não era confiável. O mundo ao seu redor girava. Seu cérebro parecia não estar raciocinando como o de costume.
Com grande esforço conseguiu se colocar de pé. Tinha uma sensação estranha, como se estivesse fora de seu corpo. A primeira coisa que sua vista focou foi o vidro com verbena. Tudo passou a voltar a sua mente, em fleches e foi aí que levou sua mão ao pescoço, onde pode sentir as marcas dos dentes, deixadas pelo vampiro, ao morde-la; e sangue.
— Alex. – Alguém gritou.
Ela não conseguiu reconhecer a voz, talvez fossem seus sentidos ainda falhando ou realmente não o conhecia, mas não havia tempo para ponderar sobre qual opção era a correta. Independentemente de quem ele fosse, impediu que seu sangue fosse sugado até ela estar morta. E no momento ele estava em apuros. Seu rosto estava manchado de sangue fresco, arrancado por socos e pancadas. Aquilo não era um bom sinal, e podia significar que ele estaria morto em alguns poucos segundos se Alex não agisse de alguma forma.
Ela correu até o pote com verbena e o destampou. O vampiro tentou correr até ela, mas o garoto, que Alex percebeu ser mais novo do que ela, atingiu-o antes que conseguisse.
Ela estava pronta para usar todo um vidro quando algo lhe veio à mente.
Levou as mãos aos bolsos, mas se lembrou de que durante seu pequeno e patético confronto, seu angape foi arrancado de suas mãos.
Alex olhava desesperada pela grama, quando o viu. Ele veio até ela, repousando em suas mãos. Foi inacreditável, mas exatamente como Preston descrevera. Ele nunca se perderia dela.
Ela enfiou metade de seu angape dentro do pote, encharcando-o com o veneno.
— Você realmente não sabe perder. – A voz que a pouco sussurrava contra seu ouvido atraiu sua atenção de volta à cena a sua frente.
O garoto estava sendo mantido no lugar em pé, pelo pescoço. Seu olho estava incrivelmente roxo e inchado e era evidente que não tinha mais forças nem para se manter consciente. Seu olhar estava perdido, mesmo olhando fixamente para Alex. Ele estava engasgando no própria sangue. O mesmo que manchava sua camiseta.
— Um fato, já que eu nunca perco. – Ela retrucou, forçando sua voz a parecer convincente o suficiente, enquanto tentava desviar o olhar de seu desconhecido salvador.
— E o que você chamaria isso que acabou de acontecer? – Ele apontou para a grama, onde a pouco Alex perdia a consciência.
— De um empasse. Não significa que você tenha ganho. E se não percebe isso, você é mais convencido do que eu pensava.
Ele pareceu ofendido, em um primeiro momento, mas logo em seguida abriu um sorriso malicioso. – Touché, Alex.
— Se você sabe meu nome, por que não sei o seu? – Ela continuou puxando assunto. Enquanto seu angape vibrava em sua mão. Teria que achar um jeito de fazer contato sem acabar estirada e sem vida na grama.
— Joaquim.
— Bom, Joaquim.... Diga tchau. – Ela estava prestes a arremessar seu angape, quando com o evidente fato de que aquelas eram suas últimas forças, o menino a interrompeu.
— Não. – Ele grunhiu. – Os reflexos dele são... – Antes que terminasse Joaquim girou seu pescoço em um único movimento. Um som de osso quebrado foi o que deixou mais claro o óbvio. Ele estava morto.
— Desculpe, você ouviu o que ele disse?
Alex estava perdida por um momento, sua respiração vacilou ao ver o corpo de seu salvador desconhecido, sem vida, caído na grama, onde a pouco tempo poderia ter sido ela. Era injusto...
Mas ainda havia uma chance. Ela viu, e soube. — Estava dizendo tchau.
Em um movimento ela laçou o angape, mas não na direção de Joaquim. Mais para cima e para trás dele. O vampiro se virou, acompanhando a trajetória.
O angape e o veneno atravessaram o peito dele, deixando –o em um período breve de sofrimento até que caísse no chão, contorcendo-se, até que a vida se esvaiu totalmente de sua face, e ele se transformasse em uma junção de cinzas.
Igor estava logo atrás dele, com o angape em mãos. Ensanguentado e machucado, olhando para única coisa que sobrou, do que antes era o pulso do vampiro, um bracelete dourado.
Ele lançou um pequeno e aliviado sorriso em direção a Alex e isso foi a última coisa que ela viu, antes de se deixar levar pelas emoções do dia. Assim que a adrenalina começou a cessar seu efeito, Alexandra desmaiou.
Igor foi até seu alcance, para tentar segurá-la, mas sua queda foi eminente.
— Alex. – Andrew gritou de dentro do Centro. Aquilo em sua voz era evidente desespero.
A luta do lado de dentro já havia findado, sem nenhuma morte da parte dos aliados, com exceção do ainda desconhecido garoto caído ao lado de Igor e Alex.
— Andrew. – Igor gritou de volta. Antes de esperar que ele aparecesse, ele mesmo pegou Alex no colo, um pouco cambaleante, por conta do cansaço.
Já estavam a caminho da enfermaria quando Andrew saiu do Centro e correu em direção aos dois. Ele estava aflito e tentava disfarçar sem muito sucesso. Igor explicou brevemente o que sabia dos acontecimentos do lado de fora.
Deixou Alex em uma das macas, ao lado da do semideus, também desacordado e afirmou que depois voltaria caso precisassem de algo.
Engolindo em seco pelo o que achara ter visto, seguiu caminho de volta até o garoto, estirado no meio do campus, ajoelhando-se ao lado dele. — Elliot. – Igor sussurrou, tristemente, fechando os olhos do amigo. Havia pesar em sua expressão, ao reconhecer que estava certo.
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