SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
9 Capítulo 9
“Posso te roubar hoje para almoçar?” Sandra lançou um olhar rápido ao celular, vendo a notificação da mensagem de Luís, mas desviou imediatamente para o notebook à sua frente. Estava atrasada com algumas demandas importantes, e nos últimos dias sua produtividade havia sofrido com uma mente inquieta, dividida entre o que precisava ser feito e o que não conseguia deixar de pensar. Comprometida com seu trabalho, Sandra não podia permitir que suas distrações a dominassem. A busca pela excelência não era apenas um lema de vida, era uma promessa a si mesma.
E ainda assim, ao terminar o parágrafo, o celular piscou no canto de sua visão, com mais uma notificação: “Se não puder, sem problemas. Marcamos outro dia. A verdade é que sinto falta das nossas conversas…”.
Sandra fechou os olhos por um breve momento, respirou fundo e finalmente digitou: “Oi Luís! Essa semana estou bem atarefada, vou ficar te devendo. Mas quem sabe na semana que vem? A gente vai se falando, ok. Abç.”
Focou na tela do notebook, sentindo uma pontada de culpa. Sabia que Luís estava tentando se conectar, mas não devia continuar alimentando… isso… seja lá que nome isso tinha. Ainda assim, não conseguia ignorar o nó no peito que se formava toda vez que pensava nele.
Luís estranhou aquele tom evasivo da mensagem. Ela não era assim. Era uma mulher prática, mas não parecia a Sandra com quem ele vinha conversando nos últimos meses. Estaria tentando se afastar? Ou talvez percebendo que aquilo era um erro?
Digitou, frustrado: “Claro. A gente vai se falando. Abraço!”
Lembrou-se que dias atrás, enquanto aguardava o sinal abrir, a viu com o marido saindo de um barzinho com mais algumas pessoas. Estavam todos sorridentes, e eles estavam abraçados. Pareciam bem e isso mexeu um pouco com ele, mesmo sabendo que não tinha esse direito. Ele deveria estar torcendo para que Sandra fosse feliz, já que dizia gostar tanto dela e sabia de suas frustrações, mas quem ele queria enganar com os seus sentimentos egoístas?
Pensou que poderia aproveitar essa frieza de Sandra para, também, tentar se afastar um pouco, como Arnaldo o aconselhou.
A semana seguinte passou, e depois mais outra, mas eles continuaram sem se falar. A saudade crescia de ambos os lados, embora se esforçassem para manter a distância. Nos projetos em parceria, buscavam alternativas para evitar encontros diretos, respeitando silenciosamente a decisão de que, mesmo não expressa em palavras, parecia ter sido mutuamente acordada.
Paula, percebendo o esforço da amiga em evitar o assunto ou fingir que tudo estava bem, decidiu convidá-la para almoçar em um bistrô recém-inaugurado na cidade. O lugar, com seu ambiente acolhedor, parecia perfeito para animar e trazer um pouco de leveza à ela.
Sentaram-se numa mesa ao fundo e, após o almoço, deixaram-se levar por risos e conversas leves. Sandra parecia mais relaxada ao lado de Paula. Do outro lado do salão, Luís entrou, trajando roupas casuais e com uma postura tranquila, enquanto seus olhos percorriam o ambiente à procura de um lugar para sentar. Quando avistou Sandra e outra mulher, abriu um sorriso discreto e se dirigiu à mesa.
— Olha só quem eu encontrei aqui — abordou, descontraído. — A senhora fujona.
Sandra o olhou, surpresa. Paula, no entanto, o encarou com a sua expressão típica enigmática, examinando-o cuidadosamente.
— Ei, Luís! Que surpresa boa! — Sandra respondeu, com um sorriso hesitante. — Eu não estou fugindo, é só o trabalho que tem levado todo o meu tempo. — Soltou uma risadinha, um tanto desconcertada.
— Será que teria lugar para mais um? — Se ofereceu, ainda num tom divertido. Mas antes de Sandra abrir a boca, Paula se adiantou:
— Claro. Sempre cabe mais uma opinião.
— Ah, essa é a minha amiga, Paula. — Sandra a apresentou, e ele a cumprimentou sorridente, se ajeitando na cadeira.
— E então, qual é o assunto que precisa de mais uma opinião?
Paula se adiantou:
— Estávamos falando sobre a lenda.
— Ah, a famosa lenda do lobo e da águia. Isso ainda está rendendo? — Perguntou, com um risinho cético.
Sandra fez uma expressão interrogativa para Paula, uma vez que elas não estavam falando sobre isso, mas brincou:
— Eu, por exemplo, nunca vi, em minha vida, tantas semelhanças com essa lenda.
Luís trocou um olhar rápido com ela, mas ambos desviaram, visivelmente desconfortáveis. Paula percebeu e alfinetou:
— Nem sempre as coisas são apenas coincidências.
Ele a olhou, intrigado.
— Desculpe, mas você acredita mesmo nisso?
Paula respondeu sem hesitar, com a voz carregada de convicção:
— Sim, acredito.
Luís inclinou-se levemente para frente, pronto a debater.
— E você acha certo o "universo" — fez aspas com os dedos — os amaldiçoar simplesmente porque eles se apaixonaram?
Paula manteve a serenidade, mas sua resposta foi firme:
— O propósito deles estava além do simples desejo de ficarem juntos. Aiyana e Iaraque tinham um papel essencial no equilíbrio, algo que sustentava toda a harmonia daquele mundo. Mas, ao colocarem seus desejos pessoais acima dessa responsabilidade, romperam o ciclo natural.
— E que propósito maior é esse, Paula? — Luís perguntou, cruzando os braços — Separar duas pessoas que se amam? Parece mais crueldade do que lição.
— Não se trata de separação, mas de aprendizado. — A voz de Paula era tranquila — Eles ignoraram o dever que assumiram e o impacto que isso teria, não apenas para eles, mas para tudo ao seu redor. O desequilíbrio não afetou apenas suas vidas, mas toda a ordem que juraram proteger. Por isso, a lenda é sobre aprendizado, não castigo. Sobre entender que algumas escolhas não são apenas individuais, mas acarretam consequências muito maiores.
Luís estreitou os olhos, desconfiado, enquanto Paula sustentava o olhar firme, como se estivesse determinada a fazer com que ele entendesse o recado. Sandra, que até então permanecia em silêncio, apenas acompanhando a discussão, decidiu intervir:
— Mas e se eles já soubessem disso? E se tudo o que quisessem fosse apenas estar juntos, sem esse peso todo de equilíbrio e propósito?
Paula sorriu, compreensiva.
— Então estariam repetindo o mesmo erro. É por isso que a vida dá a eles tantas chances. Para entender que o verdadeiro equilíbrio não está no outro, mas dentro de si.
Luís soltou uma risada baixa, mas sem humor.
— Isso tudo é bonito no papel, mas e na vida real? Estamos aqui para viver, sentir. Não para ficar presos a uma história criada para limitar nossas escolhas.
Sandra interrompeu, com a testa ligeiramente franzida.
— Não entendo por que uma missão deveria ser maior que o amor. Não é o amor que move tudo?
— O amor é poderoso, Sandra, mas também pode ser egoísta se colocado acima de tudo.
— Você quer dizer que duas pessoas que se amam não podem simplesmente ficar juntas porque alguma força invisível vai puni-las? — Luís estava claramente irritado, mas tentando manter a compostura. — Isso é apenas uma forma de justificar sofrimentos desnecessários.
— Não vejo assim. — Paula rebateu com suavidade — É sobre entender que, ao ignorar responsabilidades que sustentam algo maior, as pessoas não apenas escolhem repetir os erros do passado, mas também os perpetuam. O sofrimento que surge disso é consequência decisiva. Você realmente acredita que vale a pena arriscar, sabendo que isso pode gerar um novo ciclo de dor? — Questionou, encarando-o com firmeza, enquanto ele a observava com um misto de desconforto e resistência.
Sandra tentou mediar, mais uma vez:
— Paula, eu entendo o que você quer dizer. Mas não poderia ser mais simples? Por que não podemos apenas... encontrar a felicidade com quem amamos?
Paula sorriu tristemente, como se já tivesse pensado na mesma pergunta.
— Porque o amor não é um atalho, ele é um caminho. Duas pessoas não estão prontas para caminhar juntas, se ainda não entenderam que não podem buscar no outro o que falta neles mesmos.
— Isso é cruel. Qual é o sentido de amar alguém se não se pode estar com essa pessoa? — Luís insistiu.
— Amar não é sobre possuir o outro, Luís. É caminhar ao lado dele. — Paula respondeu.
— Caminhar ao lado, mas separados? Desejando um ao outro, mas sem poder ter. Que sentido isso faz? — Retrucou, descrente.
Paula fitou-o diretamente.
— Te faço novamente a pergunta: vale a pena sacrificar tudo que já foi construído, Luís? Sabendo que isso pode gerar um novo ciclo de dor? Se me disser que sim, só prova que Iaraque ainda não aprendeu nada em todas essas vidas.
— Mas eu não sou Iaraque! — Ele retrucou, mais intenso do que o normal. — Sou Luís, e minha vida não se define por uma fantasia.
Ela apenas suspirou, observando-o com atenção.
Ele levantou-se abruptamente, puxando a cadeira para trás.
— Me desculpem, meninas, mas tenho que ir.
Sem esperar resposta, Luís saiu da mesa, deixando um silêncio pesado no ar. Sandra olhou para Paula, visivelmente abalada.
— Acho que ele não estava pronto para ouvir tudo isso.
— Mas era necessário que ouvisse.
Sandra desviou o olhar, mordendo levemente o lábio inferior, enquanto Paula observava-a com um misto de empatia e firmeza.
— E você, Sandra? Também acha que vale a pena sacrificar tudo para preencher o vazio que sente?
A pergunta pairou no ar, sem resposta, enquanto Sandra continuava a olhar para a porta por onde Luís havia saído.
_*_
"Oi, Luis. Eu fiquei preocupada com você depois do que aconteceu no restaurante. Como você está?" — Sandra escreveu para Luís, antes de sair da agência. Pouco tempo depois, ele respondeu:
"Oi, Sandra. Desculpe ter saído daquele jeito. Eu precisava de um tempo para pensar."
Sandra pensou por alguns segundos antes de responder: "Entendo. Mas você sabe que pode falar comigo, né? Se quiser ligar… para simplesmente conversar."
Luís visualiza a mensagem, e decide ligar.
"Oi... você ligou rápido." — Deu uma risadinha, querendo descontrair ao atender o telefone.
"É mais fácil falar do que escrever." — Sua voz estava um pouco tensa, mas tentando parecer casual.
"E... como você está?"
"Você acha que estou bem, Sandra? Depois de tudo que Paula disse?" — Deu um riso baixo, sem humor.
"Eu sei que foi... intenso. Mas acho que ela só queria ajudar. Ela tem uma visão diferente das coisas."
“Bom, se ajudar é basicamente dizer que eu estou condenado a repetir erros de uma vida que nem é minha!"
Sandra nada disse do outro lado e, ao perceber, ele pede desculpas.
"Eu acho que Paula tem uma forma... peculiar de ver as coisas. Ela gosta de provocar reflexões, mas nem sempre estamos prontos para elas." — Tentou mudar o foco da conversa.
"Reflexões, né? É uma forma educada de dizer que ela gosta de mexer onde dói."
"Talvez. Mas às vezes, isso é necessário. Você sabe disso."
"E você? Concorda com tudo o que ela disse?"
"Estou apenas tentando seguir o conselho de que precisamos olhar para dentro antes de tentar resolver o que está fora."
"E o que você encontrou quando olhou para dentro?"
Ela deu uma pausa antes de responder:
"Mais perguntas do que respostas. Mas eu estou tentando lidar com isso, de forma prática, como sempre fiz."
"Às vezes, eu queria ser assim também. Prático. Resolver as coisas como um problema de trabalho, com início, meio e fim."
"Se quiser aprender um pouco de praticidade, sabe onde encontrar." — Brincou, tentando descontrair em meio aquela conversa tensa.
"Eu sei, Sandra. Eu sei.”— Respondeu, sorrindo do outro lado— “Mas se continuar fugindo de mim, não vai poder me ajudar."
"Não estou fugindo, Luís. Só estou... tentando manter as coisas no lugar."
Luís fez uma pausa, antes de dizer, suavemente: "Mas talvez a gente devesse tentar parar de manter tudo no lugar por um instante e só... viver."
"Pode ser... mas acho que essa conversa não vai se resolver hoje. Vai descansar, Luís." — Ela ainda tentando manter a compostura.
Luís parecia mais calmo, mas ainda com um tom que indicava que ele não queria encerrar ali: "Tá bom. Boa noite, Sandra."
"Luís... só quero que você saiba que, apesar de tudo, você pode contar comigo. Para conversar, para desabafar, o que for. Só... não se deixe consumir por esses pensamentos."
"Obrigado. Isso significa muito."
"Boa noite, Luís."
_*_
Mauro estacionava o carro na porta da escola de Caio, quando avistou Luís do outro lado da rua, conversando com alguém. Assim que Luís o viu, encerrou a conversa, pegou algo no carro e caminhou em direção a ele, com um sorriso que Mauro considerava insolente.
— Olá, Mauro, como vai? — Luís cumprimentou, estendendo a mão de forma casual, mas Mauro hesitou por um instante antes de apertá-la.
— Bem. O que você precisa? — respondeu, seco.
— Nada demais. Só achei que poderia me fazer um favor: que entregasse isso para Sandra. — Luís estendeu um envelope a ele. — Ela esqueceu na minha sala hoje.
Mauro olhou para o envelope, claramente irritado.
— E por que você mesmo não entrega? Não é difícil, já que vocês trabalham juntos.
— É verdade, nos encontramos bastante. Mas achei que você gostaria de fazer isso por ela, já que é um documento importante e, afinal, você é o marido dela. — Luís sorriu de um jeito que ele enxergou como provocativo. Havia algo na forma como ele enfatizou "marido dela" que parecia mais do que palavras inocentes.
— Você acha que eu não sei o que está fazendo? — Mauro respondeu, com o tom mais agressivo, encarando-o.
— Não sei do que você está falando, Mauro. Só estou tentando ajudar. — Luís deu de ombros, com uma expressão que oscilava entre gentileza e ousadia.
Mauro arrancou o envelope das mãos de Luís, nervoso.
— Um aviso: fique longe da minha esposa! — Falou entredentes, a voz baixa e carregada de ameaça, enquanto apontava um dedo firme para ele.
Luís deu um passo para trás, levantando as mãos como se pedisse paz, mas o brilho desafiador nos olhos ainda estava lá. Mauro saiu rapidamente dali, murmurando algo que Luís não conseguiu entender, mas que, pela expressão, não parecia um elogio.
_*_
Sandra entrou em casa, jogou a bolsa no sofá e caminhou até a cozinha para comer alguma coisa. O dia havia sido cansativo e não havia tirado horário para almoço, pois tinha que finalizar um projeto. Ao atravessar a porta, viu Mauro sentado, com um envelope em cima da mesa. Ele estava visivelmente irritado.
— O que é isso? — perguntou ela, curiosa.
— Luís pediu para eu te entregar. — Seus olhos brilhavam de raiva — Ele disse que você esqueceu na sala dele.
Sandra piscou, pegando o envelope.
— Estranho, não me lembro disso. Mas por que ele não enviou para a agência?
— Boa pergunta, Sandra. Você não acha estranho que ele peça isso para mim? Ele poderia ter resolvido no trabalho, mas quis me provocar. Ele acha o quê? Que pode ficar falando com você, te dando caronas e passando por cima de mim?
— Mauro, isso é só trabalho! Você está exagerando.
— Exagerando? Eu vi o jeito que ele falava com você na nossa casa. Não é a primeira vez que ele me joga indiretas. Esse cara tem segundas intenções e você sabe disso!
Sandra respirou fundo, tentando conter a irritação.
— Eu não acredito que estamos brigando de novo por causa disso. É só um envelope, Mauro. Um documento de trabalho!
— Não é sobre um envelope, Sandra. É sobre ele querer se meter onde não deve! — Gritou e saiu pisando firme.
Furiosa, Sandra pegou as chaves do carro e saiu sem dizer mais nada.
Minutos mais tarde, Sandra entrou determinada na sala de Luís. Ao vê-la, levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Sandra? O que houve?
— O que houve, Luís? — começou ela, jogando o envelope na mesa. — O que você ganha fazendo isso? O que você quer de mim?
Luís encostou-se na cadeira, cruzando os braços, claramente se divertindo com a situação.
— Eu não achei que ele ficaria com tanto ciúme por uma coisa tão boba.
— Eu te conheço, Luís. Você queria provocar. Pra quê?
Ele deu um risinho:
— Você não me conhece, Sandra. — Disse num tom calmo, mas carregado de sarcasmo.
As palavras dele a atingiram imediatamente. Ela sentiu um misto de raiva e vulnerabilidade. Seus olhos começaram a marejar, mas ela lutou contra as lágrimas.
— Realmente! — Disse firme, tentando manter a compostura. — Eu não o conheço.
E se virou para sair, mas Luís se levantou rapidamente e a segurou pelo braço. Antes que ela pudesse protestar, ele a puxou para mais perto e, num movimento decidido, a beijou.
Por um instante, Sandra ficou paralisada, mas logo sentiu um turbilhão de emoções tomando conta dela. Quando finalmente se afastaram, ambos ficaram em silêncio, ofegantes, tentando processar o que acabara de acontecer.
— Você não devia ter feito isso, Luís — disse ela, a voz quase um sussurro, quase chorando, antes de sair apressada da sala, deixando-o sozinho, pensando agora, se devia ter cruzado aquela linha.
Com passos apressados e as mãos tremendo, ela saiu da empresa e entrou no carro. Assim que bateu a porta, as lágrimas começaram a cair. Ela segurava o volante com força, tentando organizar os pensamentos, mas era impossível. Sua mente estava em desordem. Pensava em tudo: em Caio, que era sua prioridade; em Mauro, com quem já não conseguia se entender; na família de Luís, que parecia tão perfeita e fora de alcance; e, claro, em Luís, que acabara de ultrapassar um limite que ela não sabia se poderia ignorar.
Estava com raiva dele. Mas, ao mesmo tempo, sabia que estava emocionalmente envolvida de uma forma que a assustava. Sentia-se culpada, perdida e com medo de como as coisas seriam dali para frente.
Seu celular vibrou. Era Luís. Ela olhou para a tela, mas não atendeu. A ligação caiu e ele tentou novamente, e depois, mais de uma vez. Cada toque parecia aumentar o peso sobre seus ombros. Finalmente, ela colocou o celular no modo silencioso, jogou-o no banco ao lado e dirigiu para casa, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
_*_
No outro dia, Sandra decidiu que precisava de um tempo para si e para a família. Ligou para o trabalho pedindo uma folga das horas extras acumuladas. Sabia que Luís a procuraria lá, mas não queria enfrentá-lo. Antes de o marido sair para trabalhar, ela o abordou:
— Mauro, será que você pode tirar folga hoje? — perguntou, enquanto ele se arrumava.
— Folga? Alguma coisa errada? — Indagou, estranhando.
— Não, só pensei que poderíamos passar o dia juntos, você, eu e Caio. Faz tempo que não fazemos isso. Eu tenho muitas horas extras e vou tirar o dia de hoje.
Mauro pareceu surpreso, mas concordou: — Acho que você tem razão. Vamos fazer isso. Vou ligar para o trabalho para avisar.
Sandra sorriu, aliviada: — Ótimo. Vamos organizar algo para o dia.
Caio ficou radiante ao saber que não iria para a escola e que ficariam juntos. Eles decidiram passar o dia em um parque, com piquenique e brincadeiras ao ar livre. Sandra observava o marido e o filho correndo juntos, brincando com uma bola, e tentou absorver aquele momento como uma âncora para sua realidade.
Conversaram, riram, andaram de mãos dadas, algo que não faziam há muito tempo.
À noite, depois de um dia cheio de risadas e diversão, Sandra fez um lanche, assistiram um filme juntos e, quando Caio adormeceu, eles o colocaram na cama. Ao se deitarem, ela se aproximou do marido, buscando algo que não sentia há tempos.
— Obrigada por hoje, Mauro. Foi importante para mim, pra nós. — Foi sincera.
— Eu que tenho que te agradecer. Devíamos ter feito isso bem antes. Me desculpe, Sandra. Sei que tenho te deixado carregar muito peso sozinha. E sobre o tal Luís…
Ela segurou a mão dele, não querendo se aprofundar demais naquele assunto. — Não vamos falar sobre isso agora, ok? Vamos apenas ficar juntos.
Mauro acariciou seu rosto e a beijou, e pela primeira vez em muito tempo, eles compartilharam uma noite de intimidade. Sandra tentou focar apenas no presente, no que era real e tangível. Queria acreditar que aquilo era suficiente para afastar os pensamentos que a atormentavam.
_*_
— Arnaldo, tem um minuto? — Luís deu uma leve batida na porta da sala de reuniões.
— Com certeza. — Respondeu ele, dando um meio-giro na cadeira.
Luís sentou e apoiou os cotovelos na mesa. Passou as mãos pelos cabelos. Era um gesto que sempre fazia quando estava nervoso.
— Arnaldo, eu fiz uma besteira.
— Ok… isso soa preocupante. O que aconteceu?
— Eu beijei a Sandra, sem o consentimento dela. Acho que estraguei tudo.
Arnaldo arregalou os olhos, incrédulo: — O quê?
— Sim. E agora ela não fala comigo há dias. Não atende minhas ligações, ignora minhas mensagens... Eu fui um idiota.
Arnaldo cruzou os braços e inclinou-se para frente, mantendo o tom calmo, mas sério.
— Cara, isso é... Que diabos você estava pensando?
Luís deixou escapar um sorriso ácido, balançando a cabeça.
— Eu não estava pensando, Arnaldo. Esse é o problema!
— Mas o que te levou a fazer isso? Qual é o contexto? Se é que precisa de contexto…
— Ela veio aqui na empresa, furiosa, porque eu provoquei o marido dela, pedindo a ele para entregar uma pasta pra ela. Ele não… recebeu muito bem o pedido. Eles brigaram por causa disso e ela veio tirar satisfações.
— Você a beijou enquanto ela brigava com você por ter provocado uma briga entre ela e o marido? Você está louco, Luís. Isso já saiu do controle faz tempo.
— No fundo, eu queria saber como ela se sentiria se eu ultrapassasse essa linha; se eu era mais do que apenas um amigo ou alguém que ela só evita.
— E por isso você achou que provocar o marido, causando um problema na casa dela, seria uma boa ideia? — perguntou Arnaldo, balançando a cabeça em discordância.
Luís desviou o olhar, culpado.
— Foi infantil, é verdade. Agi como se eu quisesse… — esfregou os olhos, envergonhando — marcar território, insinuando que eu tinha uma relação mais próxima ou significativa com ela do que ele gostaria. É isso. — Confessou, levantando as mãos.
Arnaldo ficou em silêncio por alguns segundos, totalmente cético com as atitudes do amigo.
— Cara, vou ser sincero com você porque somos amigos. O que você está fazendo é irresponsável e perigoso, não só para você, mas para todo mundo envolvido. Sandra, a Larissa, seus filhos, o filho dela... todos vão acabar feridos se isso continuar. Você está agindo como um adolescente, pelo amor de Deus! Estou te desconhecendo!
Luís meneou a cabeça, lentamente, mas não retrucou e Arnaldo continuou:
— Ouça com atenção. Você precisa resolver isso de qualquer jeito. Porque, cedo ou tarde, vocês vão acabar se encontrando de novo. Vocês trabalham juntos, têm projetos em comum... não tem como fugir disso.
Luís levantou os olhos para Arnaldo, com um semblante de desespero: — E o que você acha que eu devo fazer?
— Seja honesto com você mesmo. Se o que você sente por Sandra é tão forte assim, então talvez precise olhar para a sua vida e decidir o que realmente quer. Mas não brinque com os sentimentos dela, nem com os de Larissa. Se não consegue resolver isso agora, então se afaste. Dê espaço para que as coisas se assentem, antes que tudo desmorone.
Luís assentiu, mas havia um peso em seu olhar.
— Eu vou fazer isso.
— Longe de mim te julgar pelo o que está passando, mas estou aqui para te lembrar que escolhas têm consequências, e você precisa estar preparado para elas.
— Obrigado, mais uma vez…
— Vou te ouvir e aconselhar como posso, mas o resto é com você. Agora vai para casa descansar. Amanhã teremos mais leões para matar.
_*_
Em casa, sua mente vagava. Ele revisava, repetidamente, o episódio em sua sala mais cedo, perguntando o que o havia levado a beijar Sandra daquela forma, naquele momento. Não era como se não soubesse que os sentimentos estavam ali, mas atravessar aquele limite…
Sentia arrependimento, mas somente porque sabia que Sandra, agora, fugiria dele de vez, e isso só aumentava sua frustração. Tentou ligar para ela mais uma vez, mas foi direto para a caixa postal.
Pegou uma taça de vinho e foi para a varanda, seu lugar preferido. O céu estava parcialmente nublado. Ele olhou para o horizonte, sentindo-se dividido entre o que queria e o que parecia certo para sua vida, e se lembrou da fala de Paula, dias atrás, no restaurante: “Vale a pena sacrificar tudo que já foi construído, Luís? Sabendo que isso pode gerar um novo ciclo de dor?”
Um mês depois….
Sandra empurrou a porta de vidro da charmosa cafeteria e foi recebida pelo aroma reconfortante de café recém-passado. Aquele lugar sempre fora seu refúgio, um espaço para pensar e organizar as ideias. Escolheu uma mesa ao fundo, próxima à janela, onde podia observar a rua movimentada sem ser incomodada.
Suspirou cansada, enquanto folheava o cardápio, embora já soubesse o que pediria. "Um café para trazer clareza, se é que isso existe", pensou. Seus dias estavam sendo uma constante fuga. Ignorou mensagens e ligações de Luís desde o incidente. Não queria enfrentar o que sentia, muito menos dar espaço para ele reafirmar tudo o que ela temia.
Quando o café chegou, ela segurou a xícara, deixando o calor confortá-la por um instante. Foi então que ouviu a campainha da porta soar. Olhou de relance, sem pensar, e o viu. Seu coração acelerou, e ela imediatamente desviou o olhar, como se pudesse se esconder atrás da xícara. Ele a avistou e caminhou diretamente até sua mesa.
— Sandra. — A chamou com a voz baixa.
— Luís, eu não acredito... — começou ela, mas ele a interrompeu.
— Me deixe falar, por favor.
Puxou a cadeira em frente a ela e se sentou, sem esperar permissão. Ela apenas o olhou, incrédula e desconfortável.
— Você não deveria estar aqui.
— E você não deveria continuar me ignorando — rebateu, com um olhar intenso. — Sandra, eu preciso falar com você.
Ela cruzou os braços, mantendo uma postura fria.
— Falar o quê, Luís? Não há nada para dizer. Não há nada que justifique o que aconteceu.
— Eu sei... e eu sinto muito, de verdade. Não devia ter te colocado naquela situação com o envelope. Foi infantil e desrespeitoso com você e com o seu marido.
Sandra abriu a boca para falar, mas antes que pudesse dizer algo, ele continuou: — Quanto ao beijo... — fez uma pausa, respirando fundo. — Eu poderia pedir desculpas por isso também, mas seria mentira dizer que me arrependo.
Ela fechou os olhos.
— Luís…
— Só me ouve. — Pediu. — Eu sei que foi errado. Eu sei das consequências, e não foi justo com você, com sua família... nem com a minha. Mas desde o dia em que eu te vi, você não sai da minha cabeça, Sandra…
Ela sentiu que a sua fachada de autocontrole, estava desmoronando.
— Você sabe que isso não pode continuar — disse ela, em voz baixa.
— Eu sei. Mas eu não pedi que isso acontecesse, mas aconteceu…
— Você acha que só você está em conflito? Eu também me sinto assim, mas não vou deixar isso destruir tudo o que construí.
Por um momento, o silêncio se instalou entre eles, denso e carregado de significados não ditos. Luís baixou a cabeça, soltando um suspiro pesado.
— Eu sinto muito. Mas se você quiser continuar mentindo para si mesma, é uma escolha sua. Mas eu não tenho mais medo de dizer: eu quero você, Sandra. Quero ficar com você.
— Luís, por favor. Não faça isso. Você tem uma família. Eu também tenho. Não é justo com ninguém. — Suplicava.
— E você acha que não me sinto um miserável por isso? — Perguntou com raiva contida.
Ela fungava pelo choro reprimido, cabisbaixa. Não sabia mais o que falar.
Ele segurou a mão dela sobre a mesa. Sandra não recuou.
— Sandra, as coisas já saíram do controle. Você sabe disso tanto quanto eu.
Ela balançou a cabeça, tentando lutar contra as lágrimas que insistiam em cair.
— E é exatamente por isso que precisamos parar, antes que a gente destrua tudo ao nosso redor. Eu não sou como você, Luís. Não consigo seguir em frente fingindo que não há consequências.
— Eu não estou fingindo. Estou apenas tentando lidar com isso.
Sandra puxou sua mão devagar, como se aquele simples gesto fosse o mais difícil de sua vida. Pegou sua bolsa e levantou-se.
— Por favor, não me siga. — Pediu, enxugando o rosto com as mãos.
Ele assentiu lentamente, a dor em seus olhos.
— Eu não queria te magoar. Nunca foi a minha intenção.
Ela saiu rapidamente, o som da porta da cafeteria ecoando em seus ouvidos enquanto o deixava para trás. Luís permaneceu na mesa, encarando a xícara de café que ela deixara, ainda cheia.
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