SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
2 Capítulo 2
— Mãe, porque a águia é solitária? Ela está sempre voando sozinha, né…
— Na verdade, filho, apesar de a águia ser uma ave livre, ela é monogâmica.
— O que é isso?
— Ela fica a vida inteira com apenas um parceiro. Não é como os leões ou os chimpanzés, por exemplo, que tem vários, ao longo da vida.
Caio e a mãe assistiam um documentário sobre a águia, comendo pipoca no sofá. O menino tinha que fazer um trabalho escolar sobre algum animal, suas características e habitat e, curiosamente, ele escolheu a águia. Sandra também tinha fascínio por aquela ave, assim como pelos lobos. Um dos motivos pelo qual se interessou pelo livro da lenda.
Atualmente, também estava trabalhando em um projeto de publicidade em que o logotipo da empresa era justamente a tal ave e buscava por uma repaginação visual. Por isso fecharam contrato com a agência em que Sandra trabalhava e, ao apresentarem ao cliente, a nova proposta, aceitou na hora. Sandra tinha ótimo feeling e era bastante intuitiva para ideias e projetos.
A empresa também estava fechando outros trabalhos com a agência. O gerente responsável por gerir a nova filial do Grupo ALCO — Arctos Logística Co. —, um grande nome em transportes logísticos, já havia se mudado para a cidade.
— Nossa, Caio, eu nem agradeci o pai do Igor por te trazer da escola naquele dia. Quando eu for te buscar amanhã farei isso. Aproveita e convida seu amiguinho pra vir fim de semana aqui, se a mãe dele deixar.
— Ele vem, mãe, meu pai já conversou com o tio Luís e ele deixou o Igor vir sábado.
— Tio Luís... Ah, ok, então. Vamos terminar de assistir ao documentário e a mamãe vai te ajudar com o trabalho, tá bom.
O menino sorriu se aconchegando na mãe e Sandra sentiu que precisava ter mais momentos como aquele com o seu filho, pois estava trabalhando muito e esquecendo de priorizar o que era, de fato, importante.
_*_
— Boa tarde, tudo bem? Sou Sandra, da agência Prisma. Estou aqui para apresentar o projeto. Está marcado para às 15h. — Falou com a secretária da Arctos.
— Ah, sim. Só um momento, por favor.
Após uma ligação, a secretária foi instruída a levar Sandra para a sala de reuniões. Havia uma equipe aguardando o material audiovisual que ela levara e após alguns minutos, os gestores chegaram e tomaram os seus lugares. Um deles veio até Sandra e a cumprimentou.
— Oi Sandra, sou Arnaldo. Pode começar quando quiser, ok.
— Obrigada, Arnaldo. Me dê só mais alguns minutos e tudo já estará pronto.
Sandra começou a sua impecável apresentação, sugerindo a nova proposta de design de inovação da empresa, complementando com algumas ideias que agradou bastante a equipe.
Após uma breve introdução, Sandra inicia o vídeo da campanha: Uma águia majestosa voa por entre montanhas, com a câmera acompanhando o movimento de suas asas abertas. Sons da natureza preenchem o ambiente: vento, pássaros, e água corrente ["A águia. Um símbolo de visão, força e liberdade. Assim como ela, nossa empresa está pronta para alçar novos voos, mas desta vez, em direção a um futuro sustentável"]. A ave mergulha e passa sobre uma floresta densa, depois sobrevoa um campo solar. Imagens se alternam com caminhões elétricos em movimento e centros logísticos ecoeficientes ["Nosso compromisso não é apenas transportar cargas. É carregar a responsabilidade de transformar o setor logístico. Porque pensamos que cada entrega deve chegar ao destino, mas também deixar um legado: um planeta mais limpo, mais saudável, mais vivo"]. Gráficos animados aparecem, mostrando as inovações sustentáveis da empresa: veículos elétricos, redução de emissões de carbono, uso de embalagens recicláveis e otimização de rotas para economia de energia ["Estamos investindo em tecnologia de ponta e estratégias que vão além da eficiência logística. Queremos ser uma mudança. Cada passo que damos é guiado por uma visão clara, como a da águia: antecipar o futuro, cuidar do presente"].
Por fim, a águia pousa em um penhasco, observando um horizonte luminoso, enquanto imagens da equipe da empresa aparecem: profissionais trabalhando em harmonia com soluções tecnológicas e práticas sustentáveis ["E essa mudança começa aqui, com cada um de nós. Porque juntos, podemos transformar o transporte em algo mais do que a movimentação: em uma força que conecta pessoas e protege o mundo em que vivemos"].
Na cena final, o logotipo da águia aparece em destaque, com o slogan: “É mais do que logística. É responsabilidade. É visão. É sustentabilidade." E o texto na tela finalizando o vídeo: "Grupo ALCO: Voando rumo ao futuro sustentável."
Luís pareceu entrar na tela, como se fosse ele voando no lugar da águia. Incrível. O vídeo publicitário que ela apresentava era algo que há muito tempo não via. Criatividade e originalidade com elementos bem intuitivos. O conteúdo comunicava bem a mensagem de forma criativa e inovadora, despertando emoções e gerando identidade.
— Bom, senhoras e senhores — Sandra retomou —, o vídeo que acabamos de assistir reflete uma visão audaciosa de uma empresa que não apenas transporta bens, mas também valores, como a responsabilidade ambiental, inovação e a conexão com o mundo em que vivemos. A águia, símbolo de visão, força e liderança, representa o compromisso do Grupo ALCO em alçar novos voos, agora alinhados com a sustentabilidade, a grande demanda do nosso tempo. A proposta vai além de inovar serviços logísticos; ela é sobre criar uma narrativa de impacto e propósito, aproveitando a força do seu logotipo, a águia, para posicionar o Grupo ALCO como pioneiro em soluções verdes e eficientes no setor. Essa conexão direta entre a natureza, a sustentabilidade e a logística não só fortalece a imagem da empresa como líder inovador, mas também ressoa com clientes e parceiros cada vez mais conscientes e exigentes.
Deu uma pequena pausa e continuou:
— Desta forma, encerramos com o lema que unifica essa proposta: 'É mais do que logística, e, Voando rumo ao futuro sustentável ', sintetizando o objetivo de transformar o transporte logístico em algo que transcenda o simples deslocamento de mercadorias, incorporando propósito, inovação e respeito ao planeta. Estou confiante de que, juntos, podemos transformar essa visão em realidade, consolidando o Grupo ALCO como referência no futuro do transporte sustentável.
Palmas vibrantes ecoaram pela sala ao finalizar e, em seguida, Sandra respondeu algumas perguntas. A empresa determinou um prazo de 3 dias para dar a resposta à agência. Do outro lado da mesa, Luís Marcos a olhava fascinado. Ele também era um homem cheio de ideias, inquieto por expô-las e, às vezes, incompreendido por seus colegas, por serem mais práticos, ou mesmo, acomodados.
— Estou impressionado com sua apresentação, Sandra — disse Luís se aproximando enquanto ela organizava suas coisas para sair —, para não dizer hipnotizado. Seu trabalho ficou realmente incrível. Eu me vi dentro daquele vídeo, acredito que essa seja a essência que o grupo procura passar às pessoas. Parabéns.
Sandra o agradeceu sorridente:
— Muito obrigada, espero que seja incrível o suficiente para fecharmos o contrato. Sem hipocrisia e falsa modéstia, seria ótimo que a empresa fosse nossa cliente e o grupo não encontrará profissionais do nosso nível em outro lugar.
— Gosto da sua confiança. Me parece ser uma mulher muito determinada. É disso que precisamos. A propósito, eu sou Luís Marcos e tenho a leve impressão de que já te conheço — olhou-a dentro de seus olhos castanhos-escuros e brilhantes.
— Engraçado… eu tive a mesma impressão. Talvez seja de alguma reunião de negócios, coquetéis de empresas…
— Acho que não. Eu nunca vim à cidade antes. A não ser que já esteve em Campinas ou em Itaúna, porque sou natural de lá.
— Não, nunca fui a nenhuma dessas cidades… enfim, uma hora dessas a gente se lembra. Ou não. — riram — Até mais, Luis Marcos.
— Até.
_*_
O Grupo ALCO fechou o contrato com a agência para este e outros projetos futuros. Semelhantemente, a equipe publicitária estava animadíssima com o valioso cliente. Isso lhes abriria portas e elevaria o nome e a credibilidade da Prisma Publicitá. E para reafirmar ainda mais de que isso era fato, a ALCO convidou a agência para o coquetel de inauguração da nova filial.
Quando Luis viu Sandra adentrar ao recinto, logo pediu licença para o grupo de pessoas que conversava, para saudá-la:
— Olá, Sandra, seja bem-vinda! É um prazer revê-la — e abriu um sorriso largo para ela.
Meu Deus, como pode ser tão charmoso… pensou.
— Obrigada, Luis Marcos. O prazer é meu.
— Apenas Luis, por favor, é como todos me chamam.
— Está certo. Isso aqui está uma beleza, hein — comentou sobre o lugar.
— O pessoal do cerimonial é bem dedicado e profissional. Aceita uma taça de vinho?
— Tinto, por favor.
Luis pediu ao garçom e a convidou para se sentar na mesa em que os gestores estavam reunidos. Mas por fim, perceberam que a conversa entre eles era bem mais agradável e cheia de afinidades, levando-os a interagir por horas. Voltaram ao assunto sobre de onde deveriam se conhecer e não chegaram a lugar nenhum.
— Chega, acho que nunca vamos saber — brincou.
— Sabe o que é mais engraçado? São as coincidências. Você aí falando sobre o livro que está lendo e eu trabalhando numa fusão com a empresa Lupine. Eu acho que os lobos e as águias andam nos perseguindo. — Riram.
Sandra não se lembrava de quando havia estado leve assim. Era sempre o trabalho, responsabilidades, brigas com o marido cada vez mais frequentes. O único bálsamo da sua vida era seu filho Caio.
— Você tem filhos? — Perguntou ela.
— Tenho dois. Um rapaz de 19 anos e um de 8.
— Nossa, uma diferença grande de idade, não é?
— Sim, verdade. Mas é que Larissa e eu tínhamos decidido não ter mais filhos, mas em um descuido — fez uma cara engraçada — veio Igor. Mas foi a melhor coisa que nos aconteceu.
— Eu sei como é. Eu tenho apenas um e não vejo minha vida sem ele. Apesar de que me sinto muito culpada de não dar a atenção que ele merece. Tenho trabalhado muito…
— Eu percebi e acho que você é uma completa workaholic e não admite.
— Olha só quem fala! — Contestou em tom de brincadeira e ele riu.
Sandra se viu admirando muito aquele homem e isso a fez lembrar que ela era uma mulher comprometida, e ele também.
— Eu sou um réu confesso. — Levantou as mãos em sinal de rendição — Mas eu sei que isso pesa muito mais na maternidade, infelizmente. E por isso eu a admiro ainda mais. — A olhou, compassivo, bem dentro de seus olhos. Foram apenas 3 segundos, mas o suficiente para eles sentirem uma conexão inexplicável.
— Eu a conheço… tenho certeza… mas…
— Eu também… Eu preciso ir! — Despertou do transe e olhou para o celular. — Falando em filhos, o meu está me esperando. Preciso mesmo ir — deu uma risadinha sem graça.
— Claro, eu entendo. Você está de carro? Posso te dar uma carona…
— Estou de carro, obrigada.
A atmosfera era de constrangimento, culpa mesclada à vontade de ficarem juntos mais um pouco. Mas não. Isso era totalmente errado. Eles tinham consciência disso sem precisar falar.
— Ah, não esqueça de me indicar onde comprar o livro.
— Você não tem cara de que gosta desse tipo de leitura.
— De fato, não é meu estilo preferido, mas estou curioso só de ouvir você falar sobre.
— Ok, pode deixar que te envio o link. — Sorriu.
Se despediram com a sensação de que iriam se reencontrar em breve, ainda tinham muito a falar. Eles pensavam da mesma forma. Eram empolgados com as inovações do trabalho. Ela sabia exatamente o que ele queria dizer e vice versa. Simplesmente fantástico. Pensava ele enquanto dirigia para casa.
Ao chegar, ficou um pouco com o filho caçula prometendo que o levaria para brincar com o seu amiguinho Caio, no sábado. Deitou com a esposa e ficaram conversando abraçados como sempre faziam. Larissa era uma mulher espetacular. Dedicada e grande parceira de vida. A amava muito.
Quando caiu em sono profundo, sonhou como nunca havia sonhado assim: ele corria por uma floresta, a escuridão densa envolvia-o. Cada passo era uma luta contra os galhos baixos que arranhavam sua pele, mas ele não parava. Sentia a adrenalina pulsando, seu coração batendo forte, mas havia algo mais, uma fúria que queimava dentro dele. Na mão, sentia o peso do seu arco.
A lua, cheia e branca, parecia segui-lo, seu brilho iluminava os trilhos tortuosos à medida que ele avançava. Ela era mais que uma simples luz, era como um farol, chamando-o para algo. Ele não sabia o quê, mas sabia que tinha que continuar. Sentia medo, mas uma necessidade insaciável de alcançar algo, ou alguém.
Ao sair da floresta, ele viu, uma figura solitária em cima de um monte, sua silhueta moldada pela luz da lua. Ela estava ali à espera, mas antes que ele pudesse alcançá-la, ela se transformou. Seus contornos se distorceram, e uma forma selvagem tomou seu lugar. Um lobo, imenso e poderoso, com olhos que brilhavam com a intensidade da lua.
Ele parou, os olhos do lobo fixos nele, como se vissem através de sua alma. E ali, naqueles olhos, ele viu uma familiaridade aterradora. Eles não eram apenas os olhos de um animal selvagem. Eram os olhos dela. Os olhos de Sandra.
Acordou assustado e suando. Olhou para o lado, sua esposa dormia tranquilamente. E no silêncio da noite, a insônia o tomou. Tinha certeza de que sonhara isso pela conversa que tivera com Sandra sobre o livro, mas ao mesmo tempo, parecia que realmente estivera lá.
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