SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
16 Capítulo 16
O ambiente estava silencioso, exceto pelo som do relógio na parede. Luís estava sentado no sofá, com as mãos entrelaçadas, enquanto Larissa permanecia em pé, perto da janela, olhando o jardim lá fora. O rosto dela estava sereno, mas os olhos traziam a tempestade interna que ela enfrentava. Larissa era uma mulher amável, mas forte, e Luís sabia que o que estava prestes a contar poderia mudar tudo para sempre.
— Estou ouvindo, Luís. — Disse, mas sem olhar para ele. Não havia sinal de raiva. Apenas dor, como se já soubesse o que ele falaria.
Luís respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas. Não havia um jeito fácil de começar.
— Eu... eu não sei nem por onde começar. — Ele disse, olhando para as mãos. — Mas você merece saber a verdade. Sobre o porquê de eu estar tão distante nos últimos meses.
Larissa ficou em silêncio, esperando. Luís olhou para ela, com os olhos vermelhos.
— Durante uma viagem de trabalho... eu fiz algo… grave. Eu... me envolvi com outra pessoa. — As palavras saíram com dificuldade; cada uma delas era uma lâmina cortando sua garganta. — Nunca foi a minha intenção te magoar ou trair sua confiança. Mas eu o fiz.
Larissa apenas fechou os olhos e quando os abriu, ainda olhava através da janela, incapaz de encará-lo; apenas processando o que acabara de ouvir. Respirou e perguntou com a voz falhando:
— Com quem foi?
Hesitou por um momento.
— Foi… com a Sandra. — Respondeu, sentindo o peso do nome sair de sua boca. — Mas não foi algo planejado. Nós... conversamos muito e decidimos que isso não continuaria. Eu sei que isso não apagou o que aconteceu, mas preciso que você saiba.
Uma lágrima escorreu pela sua face, e mais uma. As secou imediatamente, tentando controlar a onda de emoção que ameaçava transbordar, mas não adiantou, mais lágrimas rolaram silenciosamente pelo seu rosto.
— O olho roxo… foi o marido dela que descobriu, não foi? — Ele apenas afirmou com a cabeça.
Ela descruzou os braços e enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans, antes de olhar para ele:
— Luís... por que você não me disse antes? Eu te perguntei tantas vezes o que estava acontecendo. Eu te dei tantas chances de falar comigo…
Ele abaixou a cabeça, sentindo-se ainda menor diante dela.
— Eu não sabia como, Larissa. Eu estava com medo de te perder, de destruir o que temos.
Ela balançou a cabeça lentamente.
— E agora? O que você acha que aconteceu?
Os olhos dele marejaram. Nunca havia se sentido tão impotente. Ela transparecia apenas tristeza, ainda sem qualquer traço de raiva. Mas naquele momento ele preferia que ela o xingasse, sentisse raiva dele, do que aquela sensação de que mesmo causando uma dor tão grande a ela, Larissa se mantinha serena e doce. Ele era um miserável.
— Sinto muito, Larissa. Eu te amo. Eu amo os meninos. Nada disso muda o que você significa para mim.
Ela balançou a cabeça, novamente, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
— E o que ela significa para você, Luís? — O encarou, seus olhos vacilaram e ela percebeu. Nessa altura dos acontecimentos, ele não queria mais mentir para ela, mas também não poderia machucá-la mais do que já fizera. — Fala comigo, Luís… — pediu firme.
— Eu… sinto algo forte por ela. — Titubeou, escolhendo as palavras. — Não é algo fácil de explicar, Larissa. Não tem a ver com o que eu sinto por você ou pelo que construímos. O que eu sinto por você é amor, é real, é a nossa vida, a nossa família. Mas com ela… é algo que eu não posso controlar. Como uma conexão que eu não consigo ignorar.
Larissa piscou algumas vezes, absorvendo aquelas palavras. Sua expressão permaneceu calma, mas seus olhos entregavam a dor que ela sentia.
— Conexão? Luís, você entende o que está me dizendo? Você está me dizendo que enquanto estava aqui, comigo, vivendo a nossa vida, havia… outra pessoa, outra conexão?
Ele passou as mãos pelo rosto, exasperado consigo mesmo.
— Não foi algo que eu planejei, Larissa. Nunca quis pôr em risco tudo o que construímos juntos. Mas quando eu a conheci… era como se ela já estivesse na minha vida, de algum jeito que eu não sei explicar. Eu sinto que a conheço, de algum lugar… Isso me assusta, nem eu mesmo entendo completamente.
— Você não entende, mas foi forte o suficiente para me trair? Para olhar nos meus olhos todos os dias e não me contar? — perguntou, a voz agora tremendo levemente.
Luís balançou a cabeça, a culpa esmagando-o.
— Eu não estou justificando o que fiz. Não tem desculpa, eu sei. Eu tentei lutar contra isso, mas… foi real.
Larissa permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo o que ele havia dito. Por mais que odiasse admitir, havia algo na voz dele que parecia genuíno. Uma confusão verdadeira, um homem perdido entre dois mundos.
— E o que você quer que eu faça com isso, Luís? — Perguntou, sua voz agora carregada de uma dor mais profunda. — Quer que eu aceite que existe essa tal conexão entre vocês? Que é algo maior do que nós dois? E onde isso me deixa? Onde deixa os meninos?
Ele se levantou rapidamente, aproximando-se dela, e pegou as mãos dela. Seus olhos cheios de lágrimas.
— Eu quero consertar as coisas, se você deixar. Quero lutar por você, pela nossa família. Podemos mudar de cidade, se preciso. É você quem eu preciso, Larissa. O que eu sinto por ela... não é maior do que temos. Não pode ser. — Ele apertou as mãos dela com mais força, implorando com os olhos. — Me dê a chance de mostrar isso. Por favor.
Larissa puxou suas mãos das dele suavemente, mas não o olhou nos olhos.
— Não sei se consigo. — Murmurou, a voz embargada. — Porque toda vez que eu olhar para você, vou lembrar que, enquanto eu acreditava que tínhamos tudo, havia algo em você que não era meu, que estava com ela.
Luís sentiu um nó na garganta, sem saber o que dizer. Ele queria responder, queria prometer que poderia mudar, mas sabia que promessas não apagariam o que havia acontecido.
— Larissa... eu estou disposto a fazer o que for preciso. Só não quero te perder. Não quero perder os meninos. Eu traí você, mas estou aqui, pedindo para me ajudar a reconstruir nossa vida.
— Não é apenas a traição. É o fato de que você não confiou em mim para falar. Eu poderia ter entendido. Poderia ter ajudado… mas você preferiu lidar com isso sozinho, enquanto eu estava aqui para você. — Sua voz falhou no final, e ela levou uma mão ao peito, como se tentasse segurar a dor.
O silêncio que seguiu foi avassalador. Luís sentiu a distância entre eles crescer, mesmo estando a poucos passos de distância. Larissa enxugou as lágrimas, e finalmente, falou.
— Eu preciso de um tempo para pensar. Preciso entender o que quero fazer. Vou aproveitar as férias dos meninos e vou para a casa da minha mãe. Não se preocupe, não direi nada a eles. Mas preciso desse tempo para decidir sobre nós.
Luís tentou protestar.
— Amor, eu sei que não mereço o seu perdão, mas estou pedindo, vamos resolver isso juntos, como sempre fizemos. Não vá… se você for, eu sei que não vai voltar…
— Eu quero perdoar, Luís, de verdade, porque te amo. Mas a dor é tão grande que eu não consigo nem pensar direito agora. — Ela colocou uma mão no ombro dele, levemente. — Eu não estou dizendo que vou embora para sempre. Mas eu preciso desse tempo. Mas… — Ele a encarou, com medo. — Não quero que você me procure, nem tente falar comigo. Deixe-me ter esse espaço. É o mínimo que você pode fazer por mim agora.
Ele abaixou a cabeça, as lágrimas caindo livremente.
— Tudo bem. Eu respeito sua decisão. Mas eu vou esperar por você. O tempo que for necessário.
Ela concordou, tentando segurar o próprio choro.
— Espero que você use esse tempo para refletir também, Luís. Sobre o que é realmente importante para você.
Sem dizer mais nada, Larissa foi para o quarto, deixando Luís sozinho na sala, em pedaços. Ele sabia que aquele era apenas o começo de uma longa e dolorosa jornada.
_*_
— Obrigada, por vir. — Sandra beijou o rosto de Paula ao abrir a porta. Minutos depois as duas já conversavam com suas xícaras de chá sobre a mesa.
— Caio anda tão quieto… Tento animá-lo, distraí-lo, mas não é a mesma coisa sem o Mauro por perto.
Paula suspirou, sabendo do sofrimento da amiga.
— Ele sabe que tem algo errado, mas não entende. Você conseguiu falar com Mauro?
— Nada ainda. Ele não atende minhas ligações e sequer responde minhas mensagens. Eu não sei onde ele está hospedado. Caio pergunta por ele o tempo todo e eu... eu não sei mais o que dizer.
Houve um silêncio por um instante.
— Sandra... — Paula apoiou os cotovelos na mesa, escolhendo bem as palavras. — Se você quer mesmo salvar esse casamento, não pode simplesmente esperar que Mauro decida voltar. Você precisa se impor.
— Se impor? Como? Se ele não quer me ouvir?
— Então faça ele te ouvir. Descubra onde ele está. Se ele não atende suas ligações, encontre outro jeito de chegar até ele.
Sandra bufou, exausta.
— Você quer que eu o siga, é isso?
— E por que não? Você precisa entender qual é a dele. Ele quer te fazer se sentir culpada, quer que você corra atrás... e você quer salvar esse casamento, certo? Então pare de esperar e faça algo.
Sandra ficou em silêncio por um tempo, encarando a própria xícara como se ali estivesse alguma resposta que ela não conseguia enxergar.
— Eu só queria que ele me dissesse o que sente. Que me olhasse nos olhos e falasse com sinceridade.
— Ele está com o orgulho ferido, Sandra, vai preferir fugir a encarar você.
— Talvez…
Paula percebeu o tom hesitante e resolveu mudar o foco.
— E Luís?
Sandra ergueu os olhos rapidamente, surpresa com a mudança abrupta de assunto.
— O que tem ele?
— Você já conseguiu esquecê-lo?
Sandra abaixou o olhar, soprando o chá, mesmo já frio.
— Eu acho que nunca o esquecerei.
— Então por que insiste tanto em consertar algo que, pelo visto, já estava quebrado antes de Luís entrar na sua vida?
— Porque a vida real não é um romance, Paula. Eu amo minha família. Amo o que construí. E amo meu filho mais do que tudo.
Paula cruzou os braços, observando-a com ceticismo.
— Mas e Mauro? Ainda o ama?
Sandra abriu a boca para responder, mas hesitou. Sentia amor, sim, mas ele ainda era o mesmo amor de antes?
— Eu sinto culpa. Por Mauro, por Larissa, pelos nossos filhos. Sinto culpa por tudo isso ter acontecido.
— Culpa não é amor, Sandra.
Sandra fechou os olhos por um instante, exausta.
— Eu sei. Mas é tudo que consigo sentir agora. Eu amo Mauro, sim, mas é como se agora, esse amor fosse inferior ao que sinto por Luís. Eu não queria que fosse assim, mas é.
Paula respirou fundo e pegou a mão de Sandra sobre a mesa, apertando-a com carinho.
— Então descubra se ainda vale a pena lutar por esse amor. E faça isso antes que seja tarde demais.
Sandra assentiu.
— Agora, vamos dar uma volta com Caio porque hoje é sábado e o sol lá fora está lindo! — A amiga, tentou animá-la. — E não aceito não como resposta. O Caio precisa de se divertir um pouquinho.
Sandra sorriu e concordou. Se levantou e foi arrumar Caio para um passeio.
_*_
Arnaldo encheu um copo de uísque e o entregou a Luís antes de se sentar ao lado dele no sofá.
— Obrigado por tirar um tempo para ouvir as minhas lamúrias. — Luís murmurou, segurando o copo sem muita vontade.
O amigo o observou por alguns instantes antes de dizer, com um tom tranquilo, mas direto:
— Larissa saiu, né?
Luís apenas assentiu e discorreu sobre a conversa que teve com a esposa.
— Eu só... — passou a mão no rosto, como se quisesse afastar os tantos pensamentos que tinha e ao mesmo tempo, a cabeça parecia vazia. — Eu não sei o que fazer agora.
— É normal se sentir perdido, Luís. — Arnaldo disse, encostando-se no sofá. — E eu sei como isso te atormenta. Você sempre foi o cara que antecipa tudo, que tem um plano. No trabalho, na vida... sempre soube aonde queria chegar. Só que, dessa vez, não existe um caminho óbvio.
Luís permaneceu calado.
— Mas eu vou te dizer uma coisa, cara... às vezes, a gente precisa aceitar que não dá para consertar tudo de uma vez. Tem que dar tempo ao tempo. Respeitar o que Larissa pediu. Ela é uma boa pessoa, mas isso foi um golpe muito doloroso para ela.
Luís abaixou a cabeça, apertando o copo entre os dedos.
— Eu sei… eu sei.
— Eu não tenho muito a dizer, amigo, mas você sabe que estarei do seu lado sempre que precisar. Porém, os seus conflitos, a dor, as decisões… só você pode resolver. Nisso não posso te ajudar, infelizmente.
Luís apenas balançou a cabeça, mas olhou para o amigo com um sorriso compreensivo. Depois de um tempo conversando, passou a mão pelas chaves do carro e despediu-se de Arnaldo. Precisava sair dali. Precisava de algo que o fizesse pensar com clareza.
Dirigiu sem rumo pelas ruas. Só parou quando percebeu onde estava. Ficou olhando a fachada da cafeteria por um instante antes de entrar. O aroma do café recém-passado o envolveu de imediato, e ele se sentiu estranhamente em casa ali. Pediu um cappuccino, e por impulso, sentou-se na mesma mesa onde a vira tantas vezes.
O chaveiro que ela dera de presente estava em suas mãos, girando-o entre os dedos. A saudade de Sandra o tomou enquanto ele olhava a imagem da águia naquele objeto. Foi então que algo de relance chamou sua atenção e quando olhou pela vidraça, viu a lua cheia saindo das nuvens.
Ele acompanhou o movimento dela como se algo o prendesse ali. Era mesmo noite de lua cheia? Pensou. Ele apenas sentia algo inexplicável. Aquele brilho prateado parecia olhar de volta para ele. Então, ela sumiu novamente nas nuvens, e um calafrio percorreu sua espinha.
Tomou o restante do café, levantou-se abruptamente e saiu. Ao entrar no carro, um objeto familiar chamou sua atenção. O livro. A Lenda do Lobo e da Águia. Aquele maldito livro, pensou ele.
Ele o pegou, encarando a capa como se fosse um inimigo. Como se aquele simples livreto fosse o culpado de tudo o que estava acontecendo.
"Isso não pode ser real" falou consigo.A respiração de Luís ficou pesada. Era um livro, só um livro. Com um gesto impulsivo, ele o atirou pela janela.
Sentiu o peito subir e descer, a raiva pulsando dentro dele. Bateu as mãos no volante com força, segurando a vontade de chorar. Apoiou a testa no couro frio do volante, tentando recuperar o controle. Tudo parecia estar fugindo de suas mãos.
Ergueu o rosto, respirou fundo e ligou o carro. Não queria mais pensar naquilo.
Ele não viu, mas o livro, jogado no meio da rua, começou a movimentar suas páginas, parando no trecho que dizia:
"A Mãe Natureza não castiga por crueldade, mas por equilíbrio, Aiyana. Se uma ordem é quebrada, outra deve ser imposta. Pois se, até aqui, os guardiões tivessem se unido, o que impediria o fogo de tocar a água sem se extinguir? O dia de abraçar a noite sem se render à escuridão?”
“O amor de vocês pode ser forte, mas a força nem sempre vence o destino.”
“Mas o que poderia nos acontecer, chefe Miwá? — Questionou Aiyana.”
“Na eternidade, se cruzariam. Sentiriam a presença um do outro em sonhos, no sussurro do vento, na luz que dança sobre as montanhas. Mas quando um estendesse a mão, o outro já teria partido. Quando um percebesse a verdade, o tempo já teria passado. Quando um quisesse lutar, o outro já teria desistido.”
"Esse é o destino dos quebradores da Lei: nunca estarem na mesma página do tempo. Nunca prontos no mesmo instante."
_*_
Sandra estacionou o carro a uma distância segura, mantendo o olhar fixo na entrada do prédio onde Mauro trabalhava. A tensão era grande mas precisava tentar.
Após quase uma hora de espera, ele finalmente saiu. O cansaço estampava seu rosto, os ombros rígidos, o olhar perdido no celular enquanto caminhava até o carro.
Ela engatou a marcha e o seguiu com cautela.
Os minutos se arrastaram até que ele estacionou em frente a um hotel discreto, nada luxuoso. Sandra estacionou um pouco atrás, observando-o atravessar a recepção sem hesitação. Ficou no carro por alguns instantes, ponderando. Poderia simplesmente ir embora, respeitar o silêncio dele e esperar que um dia ele decidisse procurá-la, mas isso a consumia cada dia mais.
Trêmula, desceu do carro e atravessou a recepção, tentando ignorar o recepcionista que a observava com curiosidade.
— Boa tarde, senhora. Posso ajudar?
Sandra respirou fundo.
— O hóspede Mauro Torres. Qual o quarto dele?
O recepcionista a analisou.
— Desculpe, não posso fornecer essa informação.
Ela fechou os olhos, lutando contra a frustração.
— Sou esposa dele.
O homem ainda parecia relutante.
— Se quiser, posso ligar para o quarto e perguntar se ele autoriza a sua subida.
Sandra hesitou, mas era o único jeito.
— Tudo bem. Diz que Sandra está aqui para vê-lo. E que é urgente.
O rapaz a olhou assustado, mas fez a ligação.
— É o quarto 302. Fica no terceiro andar, à direita.
Sandra murmurou um agradecimento e seguiu até o elevador. Cada segundo da subida parecia um peso sobre seus ombros. Quando chegou ao andar, parou diante da porta do 302. E se Mauro se recusasse a ouvi-la? Fechou os olhos e bateu três vezes. Depois de alguns segundos, a porta se abriu e Mauro apareceu com um rosto cansado e nada feliz em vê-la.
— O que você está fazendo aqui?
— Posso entrar?
Mauro segurou a porta por um instante, como se avaliasse a situação, mas então abriu espaço para que ela passasse.
O quarto era simples, impessoal. Uma mala aberta no canto, algumas roupas jogadas sobre a poltrona. O cheiro do seu perfume ainda era o mesmo, mas ali dentro, tudo parecia diferente.
Ela se virou para ele, sentindo a tensão pairar entre os dois.
— O que você quer, Sandra?
— Quero falar com você. Você não liga mais, não atende minhas ligações, não responde as minhas mensagens… O Caio pergunta de você o tempo todo. Você não dá notícias há semanas. Por que está fazendo isso com ele?
Mauro cruzou os braços e soltou um suspiro impaciente.
— Não me venha dar lição de moral. Amo meu filho e sempre fui um bom pai. Já você…
Sandra tentou não se importar com a ofensa velada.
— Eu sei que é um bom pai. Então me diz, Mauro... desde quando um bom pai abandona o filho sem explicações? Desde quando um bom pai foge, em vez de conversar? Eu sei que você está ferido. Mas o que você está fazendo agora, Mauro... isso não é amor pelo Caio. Isso é orgulho.
Mauro abriu a boca para falar, mas ela o cortou.
— Você pode me odiar. Pode nunca me perdoar. Mas não use o Caio para justificar sua fuga. Ele não merece isso. — respirou fundo, sua voz se tornando falha.
— É uma situação difícil. Não quero ficar indo lá em cas... na sua casa. Como vou explicar isso para ele? Além do mais, vou comprar um celular para ele para não precisar ficar usando o seu.
Sandra ficou indignada.
— Me odeia tanto assim? Nunca errou na vida, Mauro?
— Não no nível que você chegou. — Sua voz transmitia revolta. — Eu sempre te respeitei e olha o que eu ganhei em troca.
Aquelas palavras surtiram um efeito muito doloroso em Sandra.
— Você fala como se eu fosse uma qualquer, mesmo me conhecendo. Mas eu sei o que está fazendo. Está se escondendo atrás do meu erro para não ver os seus. Você agora age como se eu o tivesse perdido, mas não se engane achando que foi só agora que você me perdeu. Porque a verdade é que faz muito tempo que você parou de me enxergar.
Mauro a encarou, visivelmente alterado, os olhos queimando de ressentimento.
— Não venha jogar a culpa em cima de mim agora, Sandra. A infiel aqui é você!
— Eu errei sim. E assumo isso. Mas nem tudo é culpa minha! — Ela sentiu a voz embargar, mas se recusou a fraquejar. — Eu esperei que você reagisse, que mostrasse que se importava com o nosso casamento enquanto ele estava desmoronando. Mas você nunca fez nada! Você se acomodou, fingiu que tudo estava bem, quando eu gritei por você tantas vezes.
Ela deu um passo à frente, a voz carregada de mágoa.
— Agora que eu estou aqui, tentando uma chance, você me vira as costas.
— Uma chance? Você acha mesmo que eu posso olhar pra você e esquecer tudo? — A voz dele era amarga.
— Eu não espero que você esqueça, Mauro! Mas eu esperava, pelo menos uma vez na vida, que você tentasse lutar por mim!
— Lutar? Você quer falar de luta, Sandra? Pois bem! Eu lutei a minha vida inteira! Lutei pra dar uma casa pra gente, lutei pra te dar conforto, lutei pra ser um marido decente!
Ela riu, um riso sem humor, carregado de ironia e dor.
— Você acha que pagar as contas significa lutar pelo casamento? Você acha que estar fisicamente presente significa estar de verdade? No início era bem assim. Você era um parceiro, a gente sonhava juntos, você me apoiava, me elogiava. Mas depois, você se esqueceu de mim, Mauro. Eu não queria só um provedor! Eu queria um homem que me olhasse, que me enxergasse além da rotina, além dos dias mecânicos que a gente viveu. Mas você nunca percebeu isso, percebeu?
Mauro se calou por um instante, mas logo sacudiu a cabeça.
— Ah, claro. Então a culpa é minha agora? Você me traiu e eu sou o culpado?
— A culpa da traição é minha! — admitiu, gritando. — Mas a culpa pelo que veio antes? Pelo que nos trouxe até aqui? Essa culpa é dos dois.
Mauro cerrou os dentes.
— Eu nunca traí você, Sandra. Nunca!
— Não, Mauro, mas me deixou sozinha dentro do nosso casamento.
A frase foi como uma lâmina. O silêncio entre os dois foi pesado, sufocante.
Mauro vacilou, queria rebatê-la, mas não encontrava as palavras.
— Eu só queria que, uma vez, você admitisse que o nosso casamento já estava quebrado muito antes de Luís. Muito antes de qualquer coisa. Mas você prefere me culpar por tudo porque é mais fácil do que encarar que também falhou comigo.
Mauro apertou os punhos, desviando o olhar, respirando fundo. Ele não negou. Porque, no fundo, sabia que era verdade.
Sandra sentiu o peito pesado. Ela não queria machucá-lo mais do que já havia feito. Mas precisava dizer tudo o que estava engasgado há tempos.
Ela o olhou por um instante, esperando, implorando em silêncio, que ele dissesse qualquer coisa diferente de acusações. Mas ele não disse.
— Você ainda me ama, Mauro? — Ele vacilou, só por um segundo, mas foi o suficiente para que Sandra percebesse a verdade.
— Não é questão de amor. Eu nunca mais vou confiar em você, Sandra — Ele respondeu, a voz mais baixa, sem a firmeza de antes.
Ela respirou fundo, tentando conter a dor que ameaçava transbordar. Sua voz saiu baixa, mas carregada de emoção.
— Mauro… eu não estou pedindo para você esquecer. Mas será que, em algum momento, você consegue admitir que também falhou comigo? Eu estou disposta a reconstruir. A tentar consertar tudo isso, mas você quer? Você diz que ainda me ama, mas isso não é o suficiente para você lutar por mim.
O silêncio dele foi tudo que ela precisava para entender. Sandra sorriu, mas era um sorriso triste, carregado de uma compreensão dolorosa. Mauro fechou os olhos por um instante, como se aquilo doesse mais do que ele queria admitir.
— Vai embora, Sandra.
Ela suspirou, sentindo a última esperança escorrer por entre seus dedos.
— Eu vou, e não vou mais insistir sobre isso. Mas sabe o que é pior? Ainda assim, eu queria que você me pedisse para ficar.
Com um nó na garganta, ela virou-se e saiu, fechando a porta atrás de si.
O silêncio no quarto pareceu ensurdecedor. Mauro permaneceu parado, com os olhos fixos no chão. Ele odiava admitir, mas ela estava certa. O amor ainda existia. Mas o medo, o orgulho, a mágoa... tudo era maior do que a vontade de tentar.
Quando Sandra saiu do hotel seu corpo estava tenso, como se cada músculo tivesse levado um golpe, mas ao mesmo tempo estava aliviada de falar tudo o que ele precisava ouvir. A conversa dessa vez, parecia definitiva.
Não queria ir para casa ainda. Não queria encarar o vazio daquele lugar que um dia foi deles. Precisava de um respiro, de um instante para si mesma. Foi por isso que, sem perceber, seguiu o caminho automático até a cafeteria. O lugar onde tantas vezes se sentiu em paz. Onde tantas vezes tomou seu café e leu histórias de amor. Quando precisava organizar os pensamentos, pensar sobre a vida.
Assim que entrou, sentiu o familiar aroma de baunilha. Escolheu uma mesa no canto, a mesma de sempre, e fez seu pedido sem precisar olhar o cardápio.
Quando a xícara chegou, ela segurou-a entre as mãos, sentindo o calor na pele. Mas, mesmo ali, mesmo naquela tentativa de normalidade, sua mente continuava presa às últimas palavras ditas a Mauro.
"Você ainda me ama. Mas isso não é o suficiente para você lutar por mim."
Ela suspirou, fechando os olhos por um breve instante, tentando empurrar aquela dor para o fundo da mente. Então, deslizou os dedos pelo bolso e tirou a bússola que Luís lhe dera. O metal frio contrastava com a temperatura quente de sua palma. Ela brincou alisou o objeto, traçando o contorno delicado da peça, lembrando-se dele.
"Só te peço: onde for, deixe suas pegadas. Assim, eu posso te seguir de cima. Um dia, vamos nos reencontrar, prometo."
A lembrança fez o peito dela se apertar. Luís. Ainda que não o visse mais, ele continuava ali, em cada detalhe.
Estava tão imersa em seus pensamentos que não percebeu a garçonete a observando de longe.
Quando decidiu ir embora, ouviu da moça no balcão, enquanto pagava a conta:
— Engraçado… — a mulher comentou com um tom casual, enquanto registrava o valor. — Dias atrás, um homem fez exatamente o mesmo que você.
Sandra franziu a testa, confusa.
— Como assim?
— Sentou-se na mesma mesa, pediu um café, pegou um objeto pequeno na mão e ficou girando entre os dedos. Ficou ali por um tempo, olhando pela vidraça, como se esperasse alguma coisa. — Ela sorriu. — Pareciam sincronizados.
Sandra sabia quem era. Seu coração bateu forte no peito, mas sua expressão permaneceu serena. Sincronizados.
Forçou um sorriso educado e respondeu apenas um breve:
— Realmente… é bem estranho, não é?
Não, não era uma simples coincidência.
Poucas horas depois, atravessou a porta de casa carregando Caio nos braços, dormindo. Havia passado em sua mãe para buscá-lo. O deitou, tirou os sapatos e acariciou seu rosto. O pequeno corpo afundado no colchão, como se ali estivesse seguro de tudo. Queria salvá-lo de tudo. Caio era sua âncora. Seu ponto de equilíbrio.
Tomou uma ducha enquanto pensava na conversa entre Mauro e ela, e também, sobre o que a mulher da cafeteria lhe dissera. Sua mente girava, inquieta, presa ao passado e ao futuro, sem saber para onde olhar.
Se vestiu e sentou-se na cama, suspirando profundamente. Seu olhar perdido percorreu o quarto, sua mão deslizou sobre a mesa de cabeceira até encontrar o livro da lenda. Folheou as páginas marcadas, os dedos traçando as palavras antigas, como se nelas pudesse encontrar um sinal. Uma resposta.
"A águia sempre buscaria pelo lobo, mas nunca poderia alcançá-lo. O destino os uniria, apenas para separá-los novamente." — Leu. Os olhos percorrendo cada linha como se fossem um espelho do que estava vivendo. O lobo e a águia. Sempre se encontrando. Sempre se perdendo.
Uma parte dela queria acreditar que era apenas coincidência. Ela fechou o livro, segurando-o junto ao peito, e então, o largou no mesmo lugar indo até o quarto de Caio.
Com cuidado, deitou-se ao lado dele. O calor do corpo do filho trouxe-lhe um conforto imediato. Ela envolveu-o em um abraço apertado, aninhando-o contra si, como se pudesse protegê-lo de todas as incertezas que agora preenchiam sua vida.
A última coisa que sentiu antes de adormecer foi o cheiro dos cabelos dele, um lembrete silencioso de que, apesar de tudo, ela tinha a certeza do amor dele.
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