SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
15 Capítulo 15
Luís tentou passar despercebido por Larissa, mas ao atravessar o hall, deu de cara com ela. Antes de dizer alguma coisa, o olhar dela se fixou no seu rosto, e a expressão de preocupação surgiu instantaneamente.
— Luís! Meu Deus, o que aconteceu com você? — Larissa exclamou, aproximando-se rapidamente, seus olhos analisando o rosto marcado e o lábio inchado.
Não adiantava disfarçar. Era impossível ignorar o lábio inchado e o início de um hematoma em torno do olho esquerdo.
— Não é nada demais. — Ele balbuciou, tirando o casaco e jogando-o no encosto de uma cadeira. — Apenas um problema no trabalho.
Larissa colocou as mãos nos quadris, claramente não convencida.
— Problema no trabalho? Que tipo de problema deixa você assim?
Ele passou a mão pela nuca, sabendo que precisava de uma desculpa rápida.
— Foi um cliente nervoso. Tivemos que tirá-lo do catálogo da empresa e ele não aceitou bem. Foi atrás de mim e do Arnaldo para tirar satisfação.
A esposa ficou indignada.
— Meu Deus! Como a empresa lida com esse tipo de coisa? Vocês não têm segurança?
— Foi um caso isolado, Larissa. Nada com que se preocupar. Arnaldo e eu já resolvemos. — Ele tentou soar convincente, mas sua voz tinha um tom de cansaço evidente.
Ela o puxou pelo braço, levando-o para o sofá.
— Fique quietinho aqui. Vamos cuidar disso.
Ele obedeceu, enquanto Larissa pegava uma pomada no armário do banheiro e alguma coisa para limpar o lábio ferido dele. Quando ela começou a passar o produto com cuidado sobre o hematoma, ele a observou em silêncio. Os olhos dela estavam concentrados, os movimentos gentis. Era uma cena tão comum e, ao mesmo tempo, tão carregada de significado naquele momento. A culpa o atingiu como um golpe.
— Eu te amo. — Soltou de repente.
Ela parou, encarando-o com surpresa.
— O que foi isso? — Perguntou, com um sorriso leve, mas intrigado. — Por que esse “Eu te amo” assim, do nada?
— Nada. Apenas queria dizer — tentou disfarçar o desconforto.
Ela o olhou mais atentamente, querendo ler algo nas expressões dele. Não que ela não ouvisse declarações dele, mas sentia que algo estava errado com ele, ultimamente.
— Luís, tem certeza que está tudo bem? — Perguntou, suavemente. — Você quer me dizer alguma coisa? Está acontecendo alguma coisa? Pode me dizer, amor… você sabe que pode falar comigo. Seja o que for, vamos resolver juntos.
Ele desviou o olhar, antes de se levantar.
— Não é nada, amor. Já disse, está tudo bem. Estou só cansado. — Beijou sua testa rapidamente. — Vou me deitar um pouco.
Larissa ficou parada, observando enquanto ele saía. Algo em sua postura a incomodava, mas não disse mais nada.
_*_
A luz suave da luminária iluminava os papéis espalhados à sua frente, enquanto Luís olhava para o celular, tentando se convencer de que não deveria fazer aquilo, mas a preocupação o corroía. Pegou o telefone, respirou fundo e ligou.
O toque pareceu durar uma eternidade até que a voz de Sandra atravessasse a linha.
— Luís…?
— Oi, Sandra — respondeu, cauteloso.
Do outro lado, houve um silêncio breve, seguido de um suspiro.
— Luís... eu achei que tínhamos combinado de não nos falarmos mais. — Sua voz já estava embargada.
— Eu sei. Eu sei o que combinamos. Mas eu precisava saber como você está. Não consegui parar de pensar em você.
Sandra não conseguiu segurar as lágrimas caindo silenciosamente, e sua voz tremeu ao responder:
— Mauro saiu de casa. Nós brigamos feio. Ele disse coisas horríveis… e, Luís, ele tem razão. Eu... eu destruí tudo.
Luís sentiu a dor naquelas palavras e fechou os olhos, pesaroso.
— Não, Sandra. Não diga isso. Eu vou falar com ele e fazê-lo me ouvir, você não pode carregar essa culpa sozinha.
— O quê? — Se assustou. — Luís, não! Ele não vai te ouvir. Está transtornado, e com razão. Você pode piorar ainda mais as coisas.
— Sei que ele está com raiva, e sei que pode não adiantar, mas eu preciso tentar. Ele não pode colocar todo o peso da culpa em você. Por favor, Sandra, me dê o número dele.
Ela sentiu um misto de preocupação e alívio pela atitude dele. Após um breve silêncio, ainda temendo o pior, passou o contato.
— Só... por favor, tome cuidado. Ele está machucado, Luís, e tem todo o direito de estar.
— Eu sei. — Sussurrou. — Vou ter cuidado. Prometo.
Um silêncio caiu entre eles, denso; ambos processando o efeito daquela ligação. Sandra resolveu perguntar:
— Você… contou à Larissa?
— Ainda não… Não é fácil. Não sei nem como começar, mas vou fazer. Eu devo isso a ela, mesmo que doa.
Sandra mordeu os lábios, tentando conter o choro.
— Você se arrepende, Luís? De tudo o que fizemos? Por causa das consequências?
— Nunca. Eu faria tudo de novo. Porque, por mais que amemos outras pessoas, Sandra, você é minha alma gêmea e nada pode mudar isso.
As palavras dele a fizeram sorrir em meio às lágrimas. Ela balançou a cabeça, mesmo que ele não pudesse ver.
— Luís…
— Eu sei, Sandra. Eu sei que fizemos uma escolha e vou respeitar o acordo. Só te peço: onde quer que vá, deixe suas pegadas. Assim, eu posso te seguir de cima. Um dia, vamos nos reencontrar, prometo.
Ela apertou os olhos, deixando que as lágrimas fluíssem livremente.
— Eu te amo. Sempre. Se cuida.
E antes que ela pudesse responder, ele desligou. Luís ficou sentado, encarando o telefone em silêncio, enquanto as emoções o consumiam. Sandra, do outro lado, abraçou o aparelho junto ao peito, chorando. Ambos sabiam que aquela ligação não mudaria o que havia sido decidido, mas deixava uma cicatriz que nenhum deles podia ignorar.
_*_
Aquilo o consumia, no entanto, precisava fazer. Não por ele, mas por Sandra. Digitou o número que ela lhe dera, sentindo as palmas das mãos suadas enquanto o telefone tocava.
— Alô?
— Mauro, é Luís. Nós precisamos conversar pessoalmente. É importante. — Soltou, com desgosto.
Houve um silêncio curto.
— Você só pode estar brincando — respondeu, indignado.
— Sei que sou a última pessoa que quer ver, mas…
E antes que Luis pudesse dizer mais alguma coisa, Mauro desligou.
Luís jogou o telefone sobre a mesa com força, socando a superfície logo em seguida. Sua mandíbula estava tensa, e sua respiração, pesada. Ele também não queria falar com Mauro, mas precisava ajudar Sandra a aliviar parte do peso que estava carregando.
Sem perder tempo, Luís pegou o telefone e interfonou para sua secretária.
— Tânia, preciso que você levante algumas informações para mim — pediu com tom de urgência. — Vou te passar um nome e um contato.
Ele ditou os detalhes e, minutos depois, já tinha as informações em mãos.
— Aqui está o endereço da metalúrgica em que ele trabalha — informou ela, entregando-lhe os dados.
Luís agradeceu, e sem pensar duas vezes, pegou as chaves do carro e saiu.
_*_
O carro parou na entrada principal da empresa, onde foi recebido por um segurança.
— Posso ajudar? — O homem perguntou.
— Estou procurando por Mauro Torres.
O segurança liberou a entrada após a identificação e apontou ao longe, um homem usando um capacete branco e gesticulando enquanto orientava um grupo de trabalhadores.
Luís estacionou o carro e foi na direção dele, chamando sua atenção.
Quando Mauro o viu, sua expressão se transformou. Ele parou de gesticular e ficou imóvel por um segundo, como se não acreditasse no que estava vendo. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo, mas ele respirou fundo e caminhou em direção a Luís, tirando o capacete com força antes de falar.
— O que você está fazendo aqui?
— Precisamos conversar, Mauro. Em particular. — Disse, tentando manter a calma.
Mauro olhou para ele com descrença, mas caminhou até uma sala reservada no canto do galpão e Luís o acompanhou.
Tinha noção de que cada palavra que dissesse seria um campo minado, e, enfrentar essa situação, admitindo sua culpa, era quase insuportável. Se pudesse, iria embora imediatamente, mas não podia.
Assim que entraram, Mauro fechou a porta e cruzou os braços, encarando-o.
— Fale logo o que você quer. — Foi ríspido.
— Quero falar sobre Sandra. Sobre o que aconteceu.
— Você já tem o queria, não? O que mais precisa? — Retrucou, com a mandíbula tensa.
— Mauro, eu não vim aqui para justificar. Eu sei que o que aconteceu foi errado e assumo total responsabilidade. Mas eu preciso que saiba que nada foi premeditado.
Mauro riu, mas sem humor, balançando a cabeça.
— Você foi atrás da minha mulher! Enquanto eu estava aqui, cuidando da nossa família, você estava lá... com ela. E agora quer vir com desculpas? Isso muda alguma coisa?
— Não — admitiu. — Não muda. Mas eu não estou aqui para limpar minha barra. Estou aqui porque quero que entenda que Sandra tentou evitar isso desde o começo. Ela quis manter distância. Se houve alguém que insistiu, fui eu.
— Ah, então agora ela é uma vítima? — Mauro retrucou, sua voz subindo um pouco. — Não me venha com esse papo de que ela não teve culpa. Ela tinha escolha, assim como você. E vocês escolheram isso.
— Eu sei. E ela sabe disso também. Mas se quiser culpar alguém, culpe a mim. Fui eu quem cruzou os limites. Ela sempre quis manter as coisas no lugar.
Mauro deu um passo à frente, apontando o dedo para Luís.
— Você acha que isso é importante para mim? Vocês traíram as pessoas que dizem amar! Não é sobre quem insistiu mais ou quem tentou evitar. É sobre lealdade e vocês dois não têm isso!
Luís segurou o olhar de Mauro, mesmo que isso o fizesse sentir o fardo da culpa ainda mais profundamente.
— Eu não vou mentir para você. Eu amo a Sandra. E por mim, eu estaria com ela. Mas saiba que foi ela quem decidiu não continuar. — Mauro capturou os olhos de Luís, com fúria. — Não espero que entenda, mas eu precisava te dizer isso. E talvez, com o tempo, você encontre um jeito de seguir em frente.
Aquelas palavras caíram mal. Mauro deu um passo para trás, passando a mão pela boca, o olhar vacilando antes de voltar com mais intensidade para seu rival.
— Sai daqui agora. Antes que eu perca o pouco de autocontrole que ainda me resta. E espero não ter que ver a sua cara novamente. — Cuspia as palavras.
Luís hesitou, mas sabia que não havia mais nada a ser dito. Virou-se e começou a andar lentamente para o carro. Estava certo de que aquele confronto não tinha trazido nenhuma solução, mas ao menos, deixava claro que não fugiria de suas responsabilidades.
Entretanto, enquanto dirigia de volta para a empresa, sentia-se mais perdido do que nunca.
_*_
O clima no escritório estava mais tranquilo naquele dia, porém Sandra não conseguia focar no que estava fazendo. Paula apareceu, trazendo um chá, e se sentou ao lado dela.
— Tome, vai te fazer bem — disse, entregando-lhe a xícara. — Quer conversar?
Sandra agradeceu e tomou um gole.
— Paula, nem sei por onde começar — balançou a cabeça lentamente.
— Tenta, eu tenho tempo. — A amiga ofereceu aquele sorriso que sempre transmitia apoio.
Sandra começou a falar, hesitando no início, mas logo as palavras começaram a fluir. Ela contou sobre a viagem, o confronto com Mauro, a situação tensa no trabalho e o esforço para manter as aparências. Não entrou em detalhes sobre Luís, mas Paula era perceptiva o suficiente para entender o que estava nas entrelinhas.
— Você está no limite, Sandra. Eu sei que você quer parecer forte, mas se continuar assim, vai acabar adoecendo. Por que não tira uns dias de folga? Não só para descansar, mas para se afastar de tudo isso.
Sandra considerou as palavras de Paula, balançando a cabeça lentamente.
— Talvez você tenha razão. Depois da festa de Igor, eu vou viajar com Caio. Só nós dois. Acho que precisamos disso.
Paula assentiu, tocando o braço dela num gesto de apoio.
— Vai fazer bem para você. Agora vai lá e conversa com a Jeiza, antes que você desista, porque eu te conheço — fingiu estar brava. Sandra se levantou e a abraçou, agradecendo por ser um porto seguro naquele momento tão difícil.
_*_
À mesa com os filhos, Larissa e Luís discutiam animadamente sobre os planos para o aniversário de Igor.
— Eu quero um bolo do Guardiões da Floresta! — Igor disse, e Lucca riu.
— Só quero que você não coma todo o bolo sozinho. — Respondeu o irmão mais velho, provocando-o.
Larissa sorriu, mas de repente pareceu lembrar de algo.
— Ah, Luis, eu preciso falar com a Sandra sobre o aniversário do Igor. Eu disse que ia enviar o convite e, na correria, acabei esquecendo. Me passa o contato dela? Meu celular deu um problema e perdi alguns números.
Luís gelou por um momento, mas manteve a compostura.
— Claro. Acho que está salvo como agência, alguma coisa assim. Vou te enviar depois.
Larissa apenas balançou a cabeça. No entanto algo intrigou-o e teve que perguntar, ainda que com receio.
— Seu celular não é novo, Lari? Não deveria estar com problema tão cedo.
Larissa tomou um gole d’água, e sem fazer contato visual, disse:
— Tecnologia é assim mesmo. Pode ser algum bug. — E deu uma garfada na comida.
Ele não insistiu, mas permaneceu olhando para ela por um instante antes de desviar a atenção para os filhos. A noite continuou normalmente, mas na mente de Luís, um desconforto em relação a isso começava a se formar. Sua ansiedade aumentava sempre que pensava na conversa que teriam em breve, mas antes disso, ainda tinha que aprender a lidar com Sandra e Mauro na festa de Igor.
_*_
Distraída na cozinha, fazendo o jantar para ela e Caio, parando, de vez em quando, para olhar o lugar de Mauro à mesa, Sandra ouviu o celular vibrar. Ao pegar o aparelho, viu uma mensagem em áudio, de Larissa. Suas mãos tremeram na hora.
“Por que ela está me chamando? Será que sabe de algo?” pensou, enquanto vacilava em ouvir a mensagem.
Ao ouvir a voz de Larissa, seu coração disparou. Uma mistura de pânico e alívio tomou conta dela ao perceber que parecia tranquila e gentil, como sempre.
Sandra buscou uma cadeira e se sentou. A tensão do momento a deixou indisposta. Ouvir a voz de Larissa tão simpática e calorosa, só fazia a culpa do que aconteceu entre Luís e ela, parecer ainda maior. Ainda assim, ela sabia que não poderia recusar o convite. Respirou fundo, mais de uma vez, ensaiando mentalmente, um tom educado, e respondeu:
“Oi, Larissa! Como vai? Claro que vamos. Pode contar com a gente. O Caio não fala de outra coisa. Obrigada pelo convite!”
Após enviar a resposta, Sandra apoiou os cotovelos na mesa, e enfiou suas mãos entre os cabelos, tentando suportar a enxurrada de sentimentos dentro de si.
Mais tarde, sentada no sofá, olhando para o nada, refletia sobre o aniversário de Igor. Era a última coisa que desejava fazer naquele momento, mas sabia que as crianças não tinham culpa dos erros dos adultos. Por elas, teria que encarar a situação, por mais desconfortável que fosse. Além disso, havia outro desafio: lidar com Mauro. Caio estava insistente, perguntando se o pai chegaria a tempo da suposta viagem, para participar da festa do amigo.
Tentou ligar para Mauro, mas uma chamada foi desligada, e a outra tocou até cair. Insistiu, novamente, e após alguns toques, ele atendeu, com a voz seca.
— O que você quer, Sandra?
— Mauro, precisamos falar sobre a festa de Igor. É importante para Caio que a gente esteja lá juntos.
Do outro lado da linha, ela ouviu um suspiro pesado.
— Eu não vou. Se quiser ir, vá com ele. Mas não conte comigo.
— Mauro, ele tem perguntado se... — Tentou explicar, mas ele já havia desligado.
Sandra ficou olhando para o telefone, frustrada; todavia, a tristeza latente ao ouvir a voz do marido, a quebrou ainda mais por dentro.
_*_
Algumas semanas depois…
O salão estava cheio de risadas e energia, com crianças correndo entre as mesas decoradas com o tema dos "Guardiões da Floresta", enquanto os adultos conversavam em grupos. A música infantil ao fundo dava um tom ainda mais animado ao ambiente. Sandra entrou com Caio pela mão, tentando disfarçar o aperto no peito. Assim que o menino viu os amigos, soltou-se dela e correu com entusiasmo para a área de brincadeiras.
Sandra puxou o ar, olhando ao redor, e soltou a respiração aos poucos na tentativa de se manter calma. Sentia-se deslocada, como se estivesse invadindo um espaço que não era seu. Foi então que seus olhos encontraram os de Luís. Ele estava ao lado da mesa do bolo, conversando com Arnaldo, mas sua postura mudou assim que a viu. O corpo ficou tenso, e ele deu um passo à frente, hesitante, mas Arnaldo o segurou pelo ombro, sutilmente, lendo a situação.
— Não faça isso, Luís. — Pediu o amigo, em um tom amigável.
— Eu não vou falar nada, só... — Luís tentou se justificar, mas Arnaldo o interrompeu.
— Deixe-a tranquila. Você prometeu a si mesmo que ia seguir em frente. Não destrua a sua paz ou a dela. — O olhar de Arnaldo era cheio de preocupação. — Você ainda pensa nela, não é…?
Luís suspirou, desviando os olhos para acompanhá-la enquanto ela caminhava para se sentar.
— Todo dia. Mas eu sei que fizemos a escolha certa. Isso não significa que seja fácil.
Arnaldo assentiu, compreensivo.
Do outro lado, Larissa surgiu no campo de visão de Sandra, interrompendo os pensamentos que a consumiam.
— Sandra! Que bom que você veio. — A recebeu com sua habitual gentileza, abraçando-a. — E o Caio? Já desapareceu entre os amigos, imagino.
Sandra forçou um sorriso, tentando soar leve.
— Sim, assim que entramos ele sumiu.
— E o Mauro? Achei que ele viria também.
Sandra titubeou por um instante antes de responder.
— Ele está em uma viagem a trabalho. Mas mandou felicitações para o Igor.
Larissa sorriu, mas percebeu uma tensão quando ela mencionou o marido.
— Que bom que você conseguiu vir. Ficamos muito felizes. — Larissa agradeceu, antes de pedir licença para atender outros convidados.
Sandra, por sua vez, tentou ocupar-se, conversando com outros pais e observando Caio brincar. Mas a tensão não a deixava completamente, especialmente ao sentir o olhar de Luís de vez em quando. Ele não dizia nada, mas a presença dele era como um lembrete do que os unia e do que os separava.
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Larissa se aproximou de Luis, enquanto ele tentava disfarçar seu desconforto ajudando-a com algumas coisas durante a festa.
— Luís, acho que Sandra e Mauro estão com problemas — falou baixinho. — Conversei um pouco com ela, e sempre que eu mencionava o Mauro, ela desconversava. Não sei... talvez eu devesse tentar falar com ela, ver se ela precisa de alguma coisa.
Luís sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Forçou-se a manter a compostura, balançando a cabeça.
— Acho que não é uma boa ideia, Larissa. Eles precisam resolver isso entre eles. Interferir pode piorar as coisas.
Ela assentiu, concordando que era melhor assim, mas em seu pensamento, ela falaria com Sandra em outro momento. Mulheres sempre se ajudavam quando o assunto era casamento.
_*_
No centro do salão, uma área havia sido preparada para a atração principal: uma apresentação teatral sobre os Guardiões da Floresta, o tema favorito de Igor.
— Atenção, pessoal! — Disse Larissa com entusiasmo ao microfone. — A apresentação vai começar! Chamem as crianças e vamos todos assistir juntos.
As luzes do salão se apagaram parcialmente, enquanto holofotes iluminavam o pequeno palco montado. Um grupo de atores entrou em cena, usando figurinos detalhados que representavam animais e espíritos protetores da natureza. A música começou suave, aumentando de intensidade à medida que os personagens interagiam. Eles narravam a história de dois guardiões que se uniram determinados a proteger a floresta de uma ameaça que colocava tudo em risco. A peça era repleta de emoção, metáforas sobre coragem, sacrifício e a força da união, mesmo entre seres diferentes.
Sandra estava sentada, junto com Caio, com um sorriso suave enquanto observava a apresentação. Mas à medida que a história avançava, algo na narrativa começou a mexer com ela. Quando os guardiões se separaram temporariamente para proteger seus territórios, mesmo desejando estar juntos, ela sentiu o coração apertar. Uma lágrima silenciosa escapou de seus olhos. Ela a enxugou rapidamente, sem que ninguém percebesse.
Do outro lado da sala, Luís assistia à mesma cena. As palavras do narrador da peça e a conexão dos personagens pareciam ecoar em sua própria história. Ele notou o gesto de Sandra enxugando a lágrima e sentiu o peito se apertar. O desejo de ir até ela e dizer algo, qualquer coisa, era quase insuportável. Ele deu um passo vacilante à frente, mas antes que pudesse fazer mais, sentiu a mão de Arnaldo em seu ombro.
— Luís... Não faça isso, por favor.
Luís respirou fundo, lutando contra a vontade de atravessar a sala. Ele sabia que Arnaldo tinha razão, mas a emoção da peça, somada ao que ele sentia por Sandra, o deixava vulnerável. Quando a apresentação terminou, as crianças aplaudiram entusiasmadas, e os adultos estavam impressionados com o talento do grupo de teatro.
— Obrigada por essa apresentação incrível! — Disse Larissa ao microfone, enquanto os atores recebiam os aplausos e se curvavam em agradecimento.
Luís aproveitou o fim da apresentação para se afastar discretamente. Ele se dirigiu para perto da mesa de bebidas, tentando reorganizar os pensamentos. Arnaldo o seguiu de perto, sabendo que o amigo precisava de vigilância naquele momento.
Enquanto isso, Silvia, a esposa de Arnaldo, observava a cena à distância. Seus olhos percorreram Luís, Sandra e Arnaldo, captando algo no ar. Ela se aproximou do marido, discretamente.
— Está acontecendo alguma coisa ali, não está? — Silvia perguntou, com um leve movimento de cabeça, indicando Luís e depois Sandra, que agora parecia distraída brincando com Caio.
Arnaldo soltou um suspiro longo, olhando para ela, pesaroso.
— Luís está enfrentando algo complicado, e como amigo, é meu papel ajudá-lo a lidar com isso da forma mais sensata possível. Não cabe a nós julgar, apenas estar aqui para oferecer apoio, quando for necessário.
Silvia o observou atentamente, lendo nas entrelinhas o que ele dizia, mas ela respeitou a discrição do marido.
— E Larissa? — Silvia perguntou, suavemente, a preocupação evidente em sua voz. — Quando isso vier à tona…
— Larissa vai precisar de você, Silvia. Muito mesmo. Isso não será fácil para ela... para ninguém envolvido. — Ele fez uma pausa, os olhos fixos em Luís e Larissa, se despedindo de Sandra e Caio. — O que está acontecendo já causou dor suficiente, e o que menos precisamos agora é de interferências de terceiros para não tornar tudo ainda mais difícil.
Silvia não respondeu. Apenas olhou para a mesma cena que ele e assentiu levemente.
— Estaremos aqui para eles.
Ele apertou a mão dela em resposta, em sinal de cumplicidade.
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Sandra se aproximou para se despedir de Larissa e Luís.
— Obrigada por nos convidarem. Igor estava radiante, e Caio adorou tudo. — Disse Sandra, com um sorriso leve.
— Que bom que ele gostou. Precisando de qualquer coisa, pode contar comigo. — Disse, a outra, mais baixo, enquanto a abraçava.
Ela apenas consentiu, se sentindo a pior de todas as criaturas, mas quando os seus olhos encontraram os de Luís, o tempo pareceu congelar por um momento. Era um olhar cheio de significados: tristeza, culpa, arrependimento, amor. Um olhar que dizia tudo o que não podia ser dito em palavras. Sandra desviou, pegou a mão de Caio e foi embora, com o olhar triste e a postura abatida.
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Caio desceu do carro, agitado, e correu para o portão de sua casa. Sandra foi logo atrás com o molho de chaves na mão, abrindo o portão, enquanto eles conversavam alguma coisa. Sandra voltou ao carro para pegar algumas sacolas de compras, mas não percebeu que Mauro estava parado em um carro próximo, observando-os.
Mauro sentiu o peito apertar. Ele queria perdoá-la, queria que tudo voltasse ao normal. Mas a imagem dela com Luís, as palavras que Luís havia dito... tudo isso o consumia.
Ele segurou o volante com força, fechando os olhos enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto.
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