SOBRE LOBOS E ÁGUIAS
10 Capítulo 10
O Grupo ALCO — Artcos & Lupine Co., avançava com sua visão de sustentabilidade ao lançar um projeto inovador voltado para a educação. A iniciativa, liderada por Luís, visava engajar crianças e jovens de escolas públicas e privadas em um concurso criativo para solucionar problemas ambientais. A campanha prometia unir tecnologia e criatividade como ferramentas para trabalhar a educação ambiental, incluindo materiais interativos e eventos regionais.
Apesar do entusiasmo em relação ao projeto, Arnaldo não pôde ignorar as circunstâncias.
— Tem certeza de que Sandra é a escolha certa para isso? — Ele perguntou cautelosamente. — Depois de tudo, não seria mais fácil designar outra pessoa da Prisma?
Luís manteve o olhar firme, um traço de determinação iluminando seus olhos.
— Sandra é a melhor no que faz. Não é sobre conveniência, é sobre fazer o projeto acontecer como deve.
Arnaldo suspirou, percebendo que não havia espaço para argumentação. Luís era obstinado quando acreditava em algo, e a situação não seria diferente dessa vez.
Por outro lado, Sandra, ao saber da proposta, tentou de todas as formas se afastar de qualquer envolvimento com a Artcos. No entanto, a diretoria da agência foi categórica: ela era essencial para traduzir a visão do projeto. Jeiza, sua chefe, não poupou esforços em convencê-la.
— Sandra, isso não é só sobre trabalho. É sobre credibilidade. Você sabe que tem a experiência e a sensibilidade para liderar isso. A decisão da diretoria é clara. — Jeiza disse, com um tom firme, mas encorajador.
Sandra hesitou, evitando o olhar direto, sua chefe notou a resistência e arqueou levemente uma sobrancelha antes de perguntar:
— O que está te segurando? Por que você não quer pegar esse projeto?
Sandra respirou fundo, tentando organizar as palavras de maneira convincente.
— É só que... eu já estou sobrecarregada com outras demandas. Os prazos estão apertados e, sinceramente, não sei se consigo me comprometer com algo desse tamanho agora.
Jeiza cruzou os braços, analisando-a por um momento antes de responder, sem deixar espaço para objeções:
— Entendo que está sobrecarregada, mas vamos redirecionar essas demandas. Vou garantir que você tenha a equipe necessária para dar suporte. Não quero que isso seja um problema para você. Concentre-se apenas neste projeto.
Sandra percebeu que seria inútil argumentar. Jeiza havia traçado o caminho, e a decisão estava tomada. Ela assentiu levemente, sem outra opção a não ser aceitar.
— Tudo bem.
Jeiza sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Confio que você fará um trabalho excepcional, como sempre. Estamos contando com você, Sandra.
Arnaldo, tentando minimizar possíveis tensões, se ofereceu para intermediar a comunicação entre ela e Luís.
No dia da apresentação, Sandra, impecavelmente vestida e com uma postura firme, entrou na sala de reuniões da Artcos. Seus olhos passaram pelos executivos do grupo, mas sem focar em Luís. Ela começou a apresentação com uma confiança profissional que mascarava o turbilhão interno. Luís, por outro lado, a observava em silêncio.
Ainda que o clima estivesse tenso, ambos sabiam que o sucesso do projeto dependia dessa colaboração. Para Sandra, era uma chance de reafirmar seu profissionalismo. Para Luís, uma oportunidade de provar que, mesmo em meio ao caos emocional, algo significativo ainda poderia ser construído; ainda assim, seus olhos constantemente buscavam os dela. Sandra, no entanto, evitava qualquer contato visual.
— A ideia é construir algo que inspire a próxima geração a cuidar do planeta — começou Sandra, apontando para os slides projetados na tela. — Precisamos de uma mensagem que seja universal, mas também pessoal, algo que as crianças e jovens possam sentir que pertence a elas. Algo como... — ela hesitou por um instante, buscando as palavras certas.
Luís completou, sem pensar:
— Proteger o equilíbrio que conecta tudo, como o céu à terra.
A sala ficou em silêncio por um momento. Sandra ergueu os olhos, surpresa, e encontrou o olhar dele.
— Isso... é exatamente o que eu ia dizer — disse ela, tentando recuperar a compostura. — Obrigada, Luís.
— Significa que estamos em sintonia. — Luís respondeu com um sorriso leve, mas significativo.
A reunião prosseguiu, mas a tensão entre os dois era palpável. Sandra manteve-se focada em sua apresentação, mas havia um brilho quase imperceptível de desconforto em seus olhos. Luís, por sua vez, tentou interagir de maneira natural, mas era evidente que havia um peso em suas palavras, como se cada comentário fosse cuidadosamente calculado.
Arnaldo, sentado ao lado de Luís, observava a cena com atenção. Percebia os pequenos gestos: o ligeiro desvio do olhar de Sandra quando Luís falava, o tom formal dela em contraste com a tentativa de casualidade dele. Era como assistir a um jogo silencioso, onde ambos sabiam as regras, mas fingiam desconhecê-las.
Ao final da apresentação, Sandra encerrou com firmeza:
— Esse é o plano preliminar. Estou aberta a sugestões para aprimorar os detalhes.
— Ficou excelente. — Luís disse, inclinando-se levemente para frente. — Tenho certeza de que será um projeto marcante. Com sua liderança, não há como dar errado.
Sandra agradeceu de forma breve, mas evitou encontrar seus olhos novamente.
Arnaldo, percebendo o clima, decidiu intervir:
— Bom, acho que temos um ponto de partida sólido. Vamos seguir com os próximos passos?
A sala começou a se dispersar, mas o constrangimento entre os dois era algo que eles ainda precisariam trabalhar pelos próximos dias.
_*_
Sandra saiu do prédio da agência com o coração pesado e a mente confusa. O cansaço da semana estava estampado em seu rosto, mas o que mais a incomodava neste momento era o fato de ter voltado a ver Luís por força do novo projeto. Ele havia estado longe por semanas e essa reaproximação mexera com ela mais do que gostaria.
Caminhava rumo ao seu carro quando viu o dele estacionado em frente à entrada, o coração dela deu um salto. Luís estava lá, encostado no carro, as mãos nos bolsos. Ela parou por um instante, pensando em ignorá-lo, mas ele a viu.
— Sandra. — Chamou-lhe com a voz cheia de urgência.
Ela suspirou, balançando a cabeça, e caminhou até ele.
— O que você está fazendo aqui, Luís? — Perguntou, cruzando os braços.
— Esperando você. Não dá mais, Sandra. Não vou sair daqui antes de te falar com você.
Ela sentiu a raiva e o medo a tomarem.
— Luís, já falamos sobre isso. Não podemos. Eu não posso. Você não pode. Isso não é sobre nós.
— Então me diz que não sente nada. Me diz que eu estou errado, e vou embora agora mesmo. — Ele desafiou, os olhos fixos nos dela.
Sandra hesitou, mas a intensidade no olhar dele a desarmava. Finalmente, bufou e entrou no carro.
— Vamos sair daqui. Não quero que ninguém nos veja. — Disse, enquanto ele contornava rapidamente o carro e entrava no banco do motorista.
Ele dirigiu em silêncio por alguns minutos, até estacionar em uma rua deserta, iluminada apenas pela luz prateada da lua cheia que surgia entre as nuvens. A tensão entre eles era palpável.
— O que você quer, Luís? — Perguntou ela, virando-se para ele no assento.
— Eu quero você, Sandra. Quero parar de mentir para mim mesmo, e para você. — Ele passou as mãos pelos cabelos, frustrado. — Você acha que é fácil pra mim? Eu estou destruindo tudo dentro de mim só para tentar não te procurar, mas não consigo.
— Você tem uma família, Luís. Eu também. Nós não somos mais adolescentes...— Ela começou, mas ele a interrompeu.
— E por isso não somos dignos de sentir? De viver? Não finja que isso é algo só meu e que podemos simplesmente ignorar. — Ele se inclinou ligeiramente, a voz carregada de emoção.
— Eu odeio você por me fazer sentir assim. — Disse ela, já com lágrimas começando a escorrer por seu rosto.
— Eu também me odeio, mas o que sentimos é real. Não dá mais pra negar.
— Luís, isso vai nos destruir. — Disse, quase como uma súplica.
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, segurou o rosto dela entre as mãos, secando as lágrimas com os polegares. Seus olhares se encontraram. A luz da lua iluminava o carro, e o silêncio era preenchido apenas pelo som das respirações aceleradas.
Então, ele a beijou.
Foi como se anos de desejo reprimido explodissem em um único momento. Não havia hesitação, apenas paixão crua e arrebatadora. Suas mãos deslizaram pelos ombros dela, enquanto ela segurava o cabelo dele com força, trazendo-o para mais perto. O beijo era intenso, como se tentassem transmitir tudo o que não podiam dizer.
— Sandra... — Ele murmurou entre os lábios dela, puxando-a levemente para mais perto.
Ela não respondeu, mas sua entrega falava por si. Suas mãos percorriam o peito dele, e o calor que emanava entre os dois parecia preencher todo o espaço ao redor.
Ele a puxou delicadamente para seu colo, enquanto os dois se entregavam completamente ao momento, sem pensar nas consequências. Suas respirações se misturavam, e a eletricidade entre eles era palpável. Cada toque, cada movimento parecia carregar uma profundidade que ia além do físico. Estavam cegos pela paixão.
— Luís.... — Chamava por ele como se quisesse confirmar que aquilo não era um sonho.
A lua cheia brilhava intensamente no céu, solitária e onipresente; a única cúmplice daquela paixão inevitável, parecia observar com uma serenidade quase cruel, sabendo que, por mais que o mundo continuasse girando, aquela noite permaneceria congelada no tempo, gravada nas almas dos dois como um segredo que nem mesmo eles poderiam esquecer. Um amor tão impossível quanto inevitável.
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